Notas iniciais
Muito obrigada Makke que recomendou a história. E especial thanks a Silene Mendonça, KassiaKarolayne, Alcaçuz (obrigada pela capa!), lucy, j2rugila, June Spring, Becca, Alexandre e Leonardo pelas reviews lindas! Mililika e eu agradecemos demais o feedback.

Capítulo 04 – Um gole de café

Damien, que até então estava meio escutando Charlote, meio escutando a conversa entre Taylor e tia Camille, ergueu de leve a sobrancelha ao ver Taylor escapulir da mesa.

– Acho que quem ‘tá precisando ser colocada na linha é você, tia. – Ele comentou enquanto colocava Charlote no chão.

– Eu não queria ser grosseira... É o meu jeito, vocês sabem. – Camille disse desconcertada e olhou para onde Taylor havia ido. Fez menção de levantar para ir atrás dele, mas Damien colocou a mão sobre a dela.

– Charlie, vou ali falar com o médico novo, tá? – Ele disse para a menininha que balançou a cabeça e foi para o colo da mãe. – Eu falo com ele, tia. – disse para Camille. – É o primeiro dia dele aqui. É lógico que você iria assustá-lo com essa super sinceridade.

Camille abriu a boca, ofendida, mas não tentou impedi-lo de ir até o médico. Damien ouviu Carl reclamando com a mãe, dizendo que ela precisava aprender a controlar a boca. Se o ruivo bem conhecia a tia, ela daria um jeito de reverter a discussão e trazer algum “podre” de Carl à tona apenas para que ele esquecesse a sua gafe. Eram bem mãe e filho, aqueles dois.

Encontrou o médico na varanda, e a expressão tensa e nervosa dele o deixou inquieto. Damien nunca havia sido muito bom com palavras. Pelo menos não com as palavras que precisavam ser ditas em voz alta. Geralmente quando ele precisava consolar alguém comprava um presente; quando precisava dizer para alguém que ela era importante comprava um presente; quando queria deixar alguém feliz, bem... Ele comprava um presente. Talvez a tia Camille estivesse certa sobre ele mimar as crianças ao comprar-lhes presentes demais. Mas ele pensaria depois nisso.

Agora tentar fazer o médico parecer menos nervoso era o mais importante.

– Tenho certeza de que mesmo se a comida daqui fosse uma droga, esse lugar continuaria cheio por causa dessa vista... – Comentou como quem não quer nada enquanto apoiava os braços no parapeito da varada, esforçando-se para ficar com os olhos fixos na vista e não espiar a expressão de Taylor.

Taylor tomou um leve susto com a chegada inesperada de Damien. Olhou de esguelha para o ruivo, abraçando-se e encolhendo-se de leve como se ele pudesse ter escutado seus pensamentos. Depois balançou a cabeça, percebendo que estava imaginando besteiras. Seus olhos correram pela vista em frente.

– É realmente bonito... São as Three Sisters, não é? É por isso que o restaurante tem esse nome. – Comentou e, frente ao olhar interrogativo que Damien lhe lançou, complementou: – Eu li sobre a região antes de vir. Olhei fotos na internet e tudo mais... Queria estar por dentro da cultura local antes de chegar. Ser melhor aceito, quem sabe...

– Sim, é por isso. – Damien confirmou enquanto fazia um aceno positivo. Ele não pôde deixar de sentir certa simpatia por Taylor ter feito aquilo. – Eu entendo. Nunca pensei em me mudar daqui porque me sinto confortável. Conheço todo mundo e... Acho que me sentiria igual você caso precisasse sair daqui. Mas não ligue para a tia Camille. Ela não pensa antes de falar e com certeza está arrependida de ter sido tão sincera de cara. Se você quiser, nós vamos embora. Você já confraternizou demais por hoje.

– Não...! Eu... – Taylor mordeu o lábio, se achando a pior das pessoas por ter feito Camille se sentir mal. – Não foi por causa do que ela disse. Eu... Eu apenas... – Tapou os olhos com a mão, incapaz de achar palavras para explicar. – Eu me sinto um idiota.

Damien franziu ligeiramente a testa diante daquela reação. Era bem óbvio que o médico ficou tenso por algo a mais além do comentário da tia. Suspirando e sem saber o que fazer, ele colocou a mão sobre o ombro do médico em um gesto que acreditava ser de solidariedade.

– Tudo bem. Vamos voltar, comemos alguma coisa e depois saímos. O restaurante já vai abrir e a tia Camille não vai poder mais conversar. A tia não devia ter falado daquele jeito e nem diz que não ficou abalado por causa do que ela disse.

Taylor abriu a boca, mas resolveu fechá-la e abaixou a cabeça, dando-se por vencido. De repente, sentia-se exausto pela viagem e pelo tour. E também morto de fome. Realmente, tudo que ele queria era comer um pouco e depois ir dormir, mesmo que ainda fosse bem cedo.

– Tudo bem... – Confirmou com um aceno de cabeça. – Em outro momento, esclarecerei esse mal entendido com a Sra. Camille. No momento... Só consigo mesmo pensar no quanto estou com fome. – Tentou um sorriso.

Damien percebeu que o sorriso de Taylor não chegou aos olhos, mas decidiu que não iria insistir no assunto. Era o primeiro dia dele na cidade, e o ruivo não tinha muita certeza se queria ficar sabendo demais sobre os sentimentos e a vida do médico. Ele passaria poucos dias na sua casa então tudo o que Damien tinha que fazer era evitar Taylor até que ele fosse embora.

Assim seria melhor.

– Vamos comer então. – Damien falou.

Quando voltaram para dentro, o restaurante já havia aberto. Camille e Dakota ficaram tão ocupadas com o restaurante que nem puderam conversar com os dois. Carl, por outro lado, sentou-se com eles, com Charlie no colo, e ficou batendo papo enquanto tentava fazer a filinha comer alguma coisa. Taylor mais escutava do que ouvia. Os dois pareciam estar relembrando momentos da infância e da adolescência. Carl mais do que Damien, para falar a verdade.

Aquilo aliviou o coração de Taylor de seus problemas e, logo após o jantar, eles voltaram de carro para a casa do ruivo.

– Bem, eu vou tomar um banho e depois ir dormir... Boa noite, Damien. – Taylor falou assim que entrou na casa.

Ele só precisava de seu travesseiro.

XxxX

Taylor acordou às sete da manhã no dia seguinte e, espreguiçando-se, ele se sentiu muito mais revigorado. Aquele colchão ao menos era bastante confortável e ele havia dormido como uma pedra, sequer se lembrava de ter sonhado alguma coisa. Lá fora, ainda estava escuro. Era normal, geralmente o dia clareava mais tarde em latitudes mais altas. Mas Taylor sempre havia sido de dormir pouco, portanto chegou a se impressionar com o horário. Ele geralmente acordava ou às cinco da manhã – e costumava se atualizar nas novidades médicas – ou às seis. Gostava de praticar alguma caminhada ou corrida logo cedo pela manhã, mas não sabia se seria possível ali em Canmore, devido ao frio e à escuridão.

Ele decidiu então levantar, tomar um banho e preparar um café bem forte e quente. Nos seus anos de faculdade e residência, o café havia se tornado seu melhor amigo e companheiro. Pegou toalha e uma trouxa de roupas numa das malas e, quando foi para o quarto ao lado, caminhando quase na ponta dos pés, não se impressionou ao encontrar Damien ainda pregado no sono, parecendo praticamente morto. Apenas por precaução, Taylor se aproximou e checou se ele ainda estava respirando.

“Ainda vivo.” Murmurou bem baixinho antes de rumar para o banheiro. Tomou um banho relaxante e quente, que terminou de acordá-lo. Quando saiu do banheiro mais tarde, Damien continuava tão imóvel quanto antes. Deveria ter um sono bastante pesado. Menos mal.

Taylor arriscou-se a ir para a cozinha e começar a catar o necessário para preparar um café. Demorou alguns minutos, mas ele conseguiu se virar e bebeu longos goles enquanto olhava as notícias mais recentes pelo pequeno tablet que havia comprado há algum tempo. Depois de devidamente atualizado, ele deixou o bule de café no lugar e escreveu um bilhetinho: se gosta de café forte, basta esquentar no micro-ondas. Senão, recomendo um pouco de açúcar ou leite para misturar.

Ele não sabia se Damien sequer gostava de café, mas estaria ali, caso ele quisesse.

Depois disso, perdeu um bom tempo arrumando o quarto e tirando algumas coisas da mala. Já era claro, então, quando saiu da casa do ruivo e, caminhando com uma sensação expectante no peito, foi até a clínica apertando no bolso a chave que Carl havia lhe dado na noite anterior, antes de saírem do restaurante.

Ele abriu a clínica e, andando por dentro dela, ficou satisfeito com o que encontrou: um aparelho de radiografia numa sala especial, e outra sala bastante adequada para um exame físico completo, com leito, aparelho ecográfico e poltrona para exame. Nas gavetas e armários, havia também acessórios importantes como diapasão, oftalmoscópio, otoscópio e dermatoscópio, um medidor de glicemia e um oxímetro, abaixadores de língua, gazes, luvas, óculos de proteção, agulhas, material para sutura, entre tantos outros. O prefeito realmente havia cumprido com o prometido, ainda que a reforma da clínica não estivesse completamente pronta no prazo.

Taylor começou a arrumar tudo. Para começar, começou a limpar um pouco o lugar e, depois, dispor os equipamentos segundo suas preferências. Ele estava quase acabando quando alguém chegou inesperadamente. Ele não havia achado que começaria realmente a clinicar um dia após a mudança, mas aparentemente estava enganado. Não que ele ficasse chateado com isso, pelo contrário. Adorava seu trabalho e não via a hora de começar.

Não muito longe dali, Camille se preparava para ir até a clínica. Enquanto ela estava varrendo a calçada, algumas pessoas passaram comentando que o novo médico já estava atendendo e disseram que “não sabiam se queriam um estranho com aquela aparência esquisita atendendo-os”. A mulher trincou os dentes, irritada.

Depois de uma noite mal dormida e muito ruminar, ela chegou à conclusão de que Damien e Carl tinham razão sobre ela ter sido muito grosseira com Taylor. O coitado havia recém se mudado, com certeza estava uma pilha de nervos e ela só havia colocado mais lenha na fogueira ao falar com ele daquela forma.

Ela devia um pedido de desculpas. E era isso que faria. Não esperaria nem um segundo a mais.

Quando chegou à clínica, viu que várias pessoas estavam aguardando na sala de espera e, estranhamente, quem estava organizando a fila era o seu neto Phil.

– Phil, querido, o que está fazendo aqui? – Ela perguntou ao menino que até então não havia notado a presença dela.

– Vovó! – Ele pulou nas pernas dela e recebeu um afago na cabeça. – Eu e o meu pai viemos ver como o Taylor estava, aí o coitado ‘tava aqui correndo de um lado para o outro tentando atender e organizar a fila, aí o pai disse que ajudava, mas a mãe ligou dizendo que a boba da Charlie caiu e ele foi lá ver. Daí eu fiquei ajudando a organizar as coisas.

Camille ficou orgulhosa pelo neto ser tão esperto e um pouco aborrecida por ele continuar de implicância com a irmã mais nova.

– Tudo bem. Eu vou arrumar uns papéis e canetas para você ir desenhar. Deixa que eu ajudo agora.

Phil não se opôs e Camille passou a próxima hora ajudando com a organização da fila e agendamento de novas consultas. Taylor ficou surpreso ao vê-la, mas após um cumprimento e explicação de que queria ajudá-lo, ele assentiu e sorriu de leve antes de voltar para a sala de atendimento. Camille realmente pensou que não teriam um momento livre na manhã, mas felizmente perto do meio dia os pacientes pararam de chegar, e ela pôde entrar para conversar com Taylor.

Ela bateu de leve na porta e ficou esperando que o rapaz autorizasse a sua entrada. Assim que ouviu o “entre, por favor”, abriu a porta e foi entrando devagar.

– Olá. Bom dia! – Ela o cumprimentou.

Taylor ergueu o olhar ao notar que era Camille. Ele estava extremamente grato por ela ter ajudado com tudo, do contrário, certamente não teria conseguido terminar a primeira leva de pacientes antes do meio dia. Felizmente, a maioria queria apenas renovar receitas e outros tinham queixas bem simples. Alguns pareceram desconfortáveis com sua aparência e, depois de conseguirem o que queriam, saíram dali rapidinho. Bem... Taylor esperava conquistar cada um deles. Muitos, no entanto, haviam sido bastante cordiais e até curiosos, querendo saber mais sobre sua vida pessoal – se era casado, ou tinha namorada, como era a família, há quantos anos era formado etc –, o que chegou a pegar-lhe de surpresa.

– Bom dia, Sra. Camille. Manhã cheia... Muito obrigado por me ajudar. Eu achei que ficaria louco antes de Carl e Phil aparecerem. Assim que a primeira pessoa viu a clínica aberta, elas não pararam de vir. Acho que agora aprendi melhor sobre como as notícias se espalham rápido em cidades pequenas. – Falou e mordeu o lábio ao perceber que estava tagarelando. Fechou uma caderneta após terminar as anotações do prontuário do último paciente. – Mal tive tempo de agradecer pelo jantar de ontem também... Sua comida é maravilhosa.

– Primeiro, nada de “senhora”. Eu fico me sentindo uma velha. – Ela sorriu enquanto ocupava a cadeira vaga diante da mesa do médico. – Damien me chama de tia. Se um dia você se sentir à vontade pode me chamar assim também. Se não, pode me chamar apenas de Camille. Segundo, pode ir jantar lá no restaurante sempre. Será um prazer recebê-lo. Terceiro, foi um prazer ajudar. Mas vamos ter que arrumar alguém para ajudá-lo aqui… Aliás, uma ideia acabou de cruzar a minha mente. Vamos tirar o dorminhoco do Damien da cama. Ele precisa fazer alguma coisa da vida além de ficar até lá sei que horas vendo sei lá o quê no computador.

Taylor riu da parte inicial, mas depois soltou uma exclamação de horror.

– Oh, Deus, não... Ele já não parece muito feliz por eu ter ficado na casa dele. Provavelmente irá me odiar se fizermos ele trabalhar aqui na clínica. – Taylor não aguentou e outra risada escapou de sua garganta ao imaginar a cara de mau humor do ruivo enquanto servia de secretário. – Abrirei uma vaga para o posto hoje mesmo. Não quero abusar da boa vontade sua e do Carl.

– Bem, nós podemos obrigá-lo a ajudar pelo menos enquanto você procura alguém. E ele não tem motivos para odiá-lo. Ele é um pouco ranzinza, mas tem um bom coração e sempre está ajudando quem precisa. Ele doou o dinheiro para construção da clínica, sabe? E também sempre doa para o orfanato e a escola. As empresas da família dele sempre foram muito lucrativas e ele acaba distribuindo um pouco pela cidade. – Camille confidenciou, enquanto Taylor arregalava os olhos pela perplexidade. Muitas pessoas não conheciam esse lado do rapaz, e Damien sempre ficava nitidamente sem jeito quando a tia enchia o peito e contava orgulhosa sobre isso. – Mas depois falamos sobre isso. Eu realmente quero arrancar aquele menino antes do meio dia da cama. Enfim, não foi para falar sobre o Damien que eu vim… Eu gostaria de me desculpar pelo que falei ontem. As pessoas costumam dizer que eu sou muito sincera e não pensei em como você poderia estar nervoso por estar chegando em uma cidade nova sem conhecer ninguém. Não quis ser grosseira, mas acabei sendo até demais.

Taylor balançou a cabeça. Sabia que Camille havia vindo por causa disso. Fora-lhe nítido que ela não havia falado com más intenções. Ele quem andava sensível demais nos últimos tempos... O que não era o seu comum. Ele só esperava que isso passasse, apesar de saber que seria difícil. Quem sabe, até impossível. Tudo que ele podia fazer no momento era encher seu tempo e cabeça com o trabalho.

– Não precisa se desculpar, Camille. De verdade... Eu entendi o que você quis dizer e sei que não foi com intenção de me machucar. Eu apenas... – Taylor moveu os olhos, olhando para os lados com um ar evasivo, antes de fixá-los novamente em Camille e sorrir de leve. – Pode-se dizer que eu estava uma pilha de nervos mesmo. Me afetei por bobagem. Então... Pode sentir-se livre para ser sempre sincera comigo, ok?

Camille sorriu aliviada e esticou a mão para dar algumas batidinhas carinhosas sobre a mão do médico.

– Fico mais tranquila em ouvir isso e, se eu for indelicada outra vez, pode puxar minhas orelhas. Damien e Carl já fizeram isso ontem à noite. Eles dizem que minha super sinceridade assusta as pessoas. – Ela disse bem-humorada. – Bem, eu preciso voltar para o restaurante. Dakota deve estar sofrendo para dar conta sozinha. Outro dia virei para fazer um check-up. Vá para casa. Vou enviar algumas marmitas para vocês almoçarem. E arranque aquele dorminhoco da cama! Se ele não levantar, pode me ligar e eu o farei levantar aos chutes.

Taylor gargalhou.

– Bem, quanto à parte dos chutes, eu bem que acharia divertido de observar. – Brincou junto.

Os dois então se despediram e Taylor retornou para casa. Reabriria a clínica no início da tarde, mas agora queria almoçar e descansar um pouquinho. Quem sabe, até sugeriria que Damien o ajudasse. Não trabalhando na clínica, mas lhe indicando alguém para trabalhar lá. Poderia ter perguntado para Camille, mas acabara esquecendo.

Damien acordou no meio da manhã. Era um pouco mais de 10 horas quando ele despertou e não conseguiu pegar no sono outra vez. De mau-humor e resmungando, levantou. Foi ao banheiro, tomou um banho e escovou os dentes. Depois foi até o quarto ao lado, mas o encontrou vazio. Franzindo a testa, ele rumou em direção da cozinha e lá encontrou o bilhete em cima da mesa.

– Tsk! Podia ao menos ter dito onde foi! – Resmungou enquanto pegava o bule para conferir o conteúdo.

O cheiro não estava ruim. Resolveu arriscar e colocar no micro-ondas para testar o gosto. Assim que o ouviu o som indicando que o aquecimento havia terminado, abriu o aparelho, encheu a xícara e foi para a sala.

Ligou a TV enquanto tomava o primeiro gole e, sem perceber, acabou tomando todo o conteúdo enquanto esperava o seriado começar. Ok, tinha que admitir que o café era bom. Forte, mas bom. Obviamente ele não admitiria isso em voz alta.

Assim que o seriado começou, Damien tentou se concentrar nas cenas.

Ninguém sabia que a sua vida dupla era de escritor. Ele já havia publicado alguns livros e histórias em quadrinhos, mas sua grande paixão era escrever seriados. O que estava assistindo era o seriado em que estava trabalhando no momento. Ele já havia escrito alguns outros em parceria e esse era o primeiro em que trabalhava totalmente sozinho. No começo ficou um pouco nervoso, mas o seriado se tornou um sucesso de público e de crítica e agora, mesmo com o trabalho reconhecido, ainda sentia aquele frio na barriga quando ia conferir na tela o que estava escrevendo.

Além disso, volta e meia ele gostava de olhar alguns episódios para ver se os atores estavam conseguindo captar as suas ideias.

Estava passando uma maratona e ele ainda estava assistindo quando a porta da sala foi aberta e Taylor entrou.

Damien olhou para a xícara vazia e estendeu.

– Café… – Disse na maior cara de pau ao recém-chegado. – Pela sua hospedagem.

Taylor ergueu uma sobrancelha. Primeiro porque não esperava encontrar Damien acordado. Segundo, porque ele era mesmo muito folgado!

– Eu já fiz o café. Então minha dívida do dia está paga. Se ainda tem no bule, você pode muito bem usar essas suas coxas grossas para caminhar até a cozinha e buscar. – Taylor rebateu, mas, ao perceber como havia se referido às coxas de Damien, virou-se rapidamente em direção à cozinha e caminhou até lá antes que ele percebesse seu constrangimento.

Estava cheio de sacolas de compras.

A cozinha estava vazia e ele havia feito um rancho. Agora já passava da uma da tarde e, além de morto de fome, ele precisava voltar à clínica antes das duas. Ao menos esperava que logo a comida que Camille disse que enviaria chegasse, pois não teria tempo de cozinhar nada tão em cima da hora.

Damien seguiu Taylor até a cozinha, encostou-se no batente da porta e cruzou os braços.

– Quer dizer que você andou prestando atenção nas minhas coxas? – Ele ergueu a sobrancelha e viu que as mãos de Taylor demoraram um pouco em uma sacola antes de ir para a outra e depois voltar para a primeira. O ruivo deu um sorriso de canto de boca. Era divertido ver o médico todo enrolado. – São horas e horas de academia. Fico feliz que você tem inveja. – Gracejou.

Taylor queria se jogar em algum poço pelo que havia falado. Deveria existir algum poço na cidade, certo? Cidades pequenas sempre tinham dessas coisas antigas.

– Não tenho inveja. – Taylor se aprumou e disfarçou o constrangimento. – Você tem o corpo todo exagerado. – Balançou a mão em descaso e continuou a guardar algumas coisas na geladeira.

O ruivo ergueu as sobrancelhas e estava com uma resposta na ponta da língua, mas a campainha foi tocada e ele acabou deixando a discussão de lado. Por hora.

Ele foi atender e não ficou surpreso ao ver um entregador com um monte de quentinhas. Recebeu, entregou uma gorjeta e voltou para a cozinha.

– Tia Camille enviou o almoço. – Ele disse enquanto colocava as sacolas sobre a mesa.

– Ótimo! – Taylor falou e foi caçar os talheres e pratos. – Estou morrendo de fome. Por Deus, você não tinha nada nessa casa para comer hoje de manhã! Como consegue sobreviver? Não é capaz nem de preparar um sanduíche para você mesmo? – Zombou e riu baixinho. – Mas onde estão esses malditos pratos? – Perguntou frustrado mais para si mesmo ao abrir as portas dos armários e não os encontrar.

– Na última vez em que eu usei, deixei naquele armário ali. – Apontou para o armário mais alto. – E eu não costumo comer em casa. Quando acordo vou para a academia e faço um lanche pelo caminho. Na volta paro no restaurante da tia Camille e janto por lá.

Taylor foi até o armário.

– Como assim? Você passa o dia na academia? – Perguntou abismado e precisou ficar na ponta dos pés para alcançar o armário. Era a maldição dos 1,70m de altura. – Céus, por que colocou os pratos aqui em cima? – Tentou pular para alcançar mas, apesar de conseguir abrir a porta do armário lá no alto, percebeu que jamais alcançaria os pratos sem acabar por derrubá-los no processo.

– Eu não passo o dia na academia. – Damien respondeu com ar de indiferença. – Eu levanto às quatro da tarde e vou. – Disse como se fosse a coisa mais banal do mundo alguém acordar no meio da tarde. – Fico lá até as seis e alguma coisa e depois vou para o restaurante. – Ele cansou de ver Taylor dar pulinhos na frente do armário, chegou por trás dele e esticou o braço para pegar os pratos. Sem perceber, ele acabou prensando o corpo do médico no armário no processo. – Pronto. Aqui estão os pratos. Só estão um pouco sujinhos.

Taylor havia interrompido os pulinhos no exato instante em que sentiu o corpo de Damien parar atrás de si, pressionando-o de leve. Assim que ele estendeu os pratos, pegou-os rapidamente e foi até a pia, lavando-os muito eficaz, como se aquilo exigisse extrema atenção.

– Como você consegue dormir tanto? Sabe, não faz bem para saúde. Um estudo recente mostrou que a quantidade ideal de horas de sono para uma pessoa fica entre sete e nove horas. Alguns se adaptam com menos, outros com mais. Mas até às quatro da tarde...? – Se virou com os pratos limpos e levou-os à mesa. – Você está alterando totalmente seu ritmo circadiano!

– Ritmo o quê? – Damien coçou de leve a cabeça. – Melhor, deixa pra lá. Médico gosta de ficar falando de um jeito que a gente não entende e tentando enganar quando o caso é mais sério do que parece. – Falou e, por mais que não quisesse, isso fez com que ele se lembrasse de quanto ficava perdido entre aquelas conversas de adultos, enquanto os médicos conversavam com os seus avôs sobre o estado de saúde da sua mãe. – Eu costumo ir dormir às cinco ou seis da manhã, então acho que durmo o suficiente sim.

Taylor balançou a cabeça. Ele estava tão acostumado a viver rodeado por outros médicos, fossem colegas de trabalho ou mesmo amigos de faculdade, que nem se tocou que estava usando um termo que um leigo não entenderia.

– Desculpe. Não quis falar de um jeito que você não entende para te enganar. Você parece ter uma péssima impressão sobre os médicos, não é? – Perguntou retórico, sentindo-se levemente ofendido pela acusação. – O que você fica fazendo acordado até... Ah, esqueça. É indelicado eu ficar me metendo na sua vida pessoal. Mas se é como diz, ao menos não está dormindo tanto assim. Mas deveria se alimentar melhor.

Damien começou a abrir as embalagens e observar a comida, mas sem realmente vê-la. Ainda pensava na mãe e qualquer fome que tivesse havia desaparecido.

– Não é nada contra você especificamente. Só não gosto de médicos no geral. – Ele falou após tanto tempo que provavelmente Taylor nem estava esperando uma resposta. – Mas não é algo que eu goste de falar. Tenho certeza que você também tem assuntos sobre os quais não gosta de comentar.

Taylor já estava sentado à mesa comendo, e ergueu a cabeça para o ruivo.

– É, eu também tenho. – Murmurou e depois algo que Camille havia dito voltou-lhe à mente. – Também não gosto de caras ricos e folgados num geral. Mas Camille me contou que você faz doações para creches, entidades carentes, essas coisas... Isso é muito bonito, Damien. – Falou sinceramente, encarando o ruivo com um olhar cheio de simpatia.

– Não acredito que ela falou sobre isso! – Resmungou enquanto começava a se servir. – Eu já falei bilhões de vezes para ela não ficar falando sobre isso. – Falou, se sentindo um pouco desconfortável pelo olhar do médico. Logo percebeu que não escaparia de falar sobre aquilo. Suspirando, resolveu acrescentar: – Minha família tem muito dinheiro. Já deu pra perceber, imagino. – Ele deu um sorriso de desdém enquanto balançava a mão indicando a casa. – Meu avô com certeza ‘tá se revirando no túmulo por eu estar distribuindo o dinheiro por aí. Ele sempre foi extremamente egoísta e só falava em ter “mais, mais e mais”. Felizmente tenho pessoas de confiança que cuidam das empresas para mim e eu posso apenas gastar, gastar, gastar e distribuir. Então, realmente não sei se sou tão bom assim por causa dessas doações, já que lá no fundo meus motivos são egoístas.

– Bem... – Taylor enfim desviou o olhar do ruivo. – Eu não sei quais motivos egoístas poderiam levar alguém a doar dinheiro aos necessitados, mas ao meu ver, o que importa é que você está ajudando pessoas. Não há... Sensação melhor do que essa. – Sorriu por alguns segundos. – Talvez eu também seja um pouco egoísta. – Percebeu, ponderando. – Ajudar aos outros me causa bem estar. Logo, eu ajudaria se não sentisse? – Balançou a cabeça e voltou a comer, deixando o assunto em aberto. Não queria forçar Damien a continuar falando. Havia entendido que ele não gostava muito de falar sobre si mesmo, ainda mais a um estranho.

– Sim, você tem razão. – Ele disse, por fim. – Eu me vestir de Capitão América e ir visitar as crianças no orfanato não tem nada a ver com querer irritar o meu avô. – Disse e, ao perceber o que havia falado, gemeu e afundou mais um pouco na cadeira. – Esqueça que eu disse isso!

Taylor o olhou por um segundo com os olhos arregalados e, após a pausa dramática, caiu na gargalhada.

– Você está falando sério? – Perguntou entre risos. – Oh, meu Deus, eu vou precisar ver isso algum dia!

– Nunca! Eu não vou dizer que ninguém sabe disso porque cidade pequena é fogo e é meio impossível ignorar um cara fantasiado... Mas, não. Você não vai ver isso! – Exclamou em um tom decidido. – Vou mudar pra fantasia de Batman. É isso. As crianças vão adorar. Nada de roupa colada! – Resmungou.

Taylor demorou um pouquinho até conseguir parar de rir da expressão emburrada do ruivo. Ele olhou para o relógio e viu que já estava na sua hora, então colocou uma última garfada na boca e, levantando-se, colocou uma mão sobre o ombro de Damien.

– Você realmente é bem mais do que um corpo todo desproporcional, Damien. – Falou, entre divertido e sincero. Depois levou o prato à pia e deixou a cozinha. Precisava voltar para o consultório.

Resmungando, Damien começou a juntar o resto da comida. Daria uma geral na cozinha. Era melhor manter sua mente ocupada caso contrário ficaria pensando no maldito sorriso que Taylor havia dado enquanto apertava o seu ombro.

– Nem é um sorriso tão bonito assim... – Falou, mas bem no fundo sabia que não era isso o que realmente pensava.

Notas finais
N.A: Olá, pessoal. Bia postando. Acho que o Damien foi pego e nem se deu conta disso xDD Bem, mas a história é longa então vamos ver como ele vai se sair. E, sim, ele é escritor! Acho que ninguém adivinhou. Obviamente esse lado da vida dele terá reflexos futuros na história. Eu estou muito feliz por estar postando essa história com a Mililika. Tive uns problemas (e ainda estou, na verdade) e por isso acabei deletando a minha conta no nyah e sei que muitos não me conhecem já que estive afastada por um tempo, mas essa história foi muito gostosa de escrever e eu não podia deixar de não compartilhar com vocês. Espero que estejam gostando tanto quanto nós gostamos de escrevê-la. Muitos beijos. Bia Yuuji.