Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
5 Peitões, peitões, peitões...
Notas iniciais
Alguns dias passaram, e passaram voando. Taylor começava a conhecer melhor a cidade e as pessoas que nela habitavam. Algumas ficavam quase uma hora em seu consultório, de modo que podia conhecer bastante sobre elas. Realmente, como era comum em cidade pequena, ele ouvia alguns mexericos contra sua pessoa, com comentários sobre ele não se parecer um médico lá muito convencional. Porém, aqueles que haviam consultado espalhavam que ele fazia um bom trabalho, e alguns pacientes lhe trouxeram um bolo, ou torta, ou pão caseiro de boas-vindas, o que era bastante gratificante.
Ele e Damien haviam criado uma rotina estranha naqueles dias. Taylor acordava cedo para ir à clínica e sempre deixava o café pronto para Damien. Quando retornava para casa, o bule sempre estava vazio e o ruivo já havia saído para a academia. Damien costumava exigir um pouco mais de café à noite, depois que voltavam do restaurante da Sra. Camille, onde quase sempre jantavam. Na noite anterior, Taylor havia conseguido conquistar a admiração de Oliver ao criar um pequeno castelo com a comida no prato dele. Algo que Damien achou absolutamente sem-graça, segundo ele.
Faltava, agora, encontrar alguém para ajudá-lo na clínica. Carl e Dakota apareciam vez ou outra para dar uma ajuda, assim como Camille e os garotos. Também havia recebido alguns currículos, mas não conseguira colocar os olhos neles. Porém, pretendia resolver esse assunto ainda naquela semana, antes que acabasse enlouquecendo.
– Ele vai começar a respirar melhor com o uso da bombinha, pode ficar tranquila. – Taylor reforçou para a mãe com um filhinho de três anos de quem se despedia. – Está certo, campeão? Mês que vem quero ver você aqui com uma carinha mais descansada, viu? – Fez um carinho na bochecha do menino e depois apertou a mão da mulher.
– Obrigado, Dr. Hastings. – Disse ela, agradecida.
Taylor se despediu. Era a última paciente da tarde. Ainda ficaria ali por uma meia hora, mas duvidava que alguém aparecesse logo antes de escurecer. Não era o habitual. Porém, antes que começasse a arrumar algumas coisas sobre a mesa da recepção, que estava vazia, ele viu duas pessoas entrarem na clínica.
Uma era Damien, e outra um rapaz que não conhecia.
– E aí? – Damien ergueu a mão e o cumprimentou assim que viu Taylor perto da mesa da recepção. – A tia Camille está me enlouquecendo com a história de que eu deveria vir trabalhar aqui, então antes que ela realmente cumpra aquela promessa maluca de ir me chutar da cama às seis da manhã, eu trouxe alguém para trabalhar para você. Sam, este é o Taylor, Taylor esse é o Sam. Apresentados. Já vou. – Disse e deu meia volta, mas Sam colocou o pé na frente fazendo com que Damien tropeçasse e desse de cara na porta. – Hey! – Exclamou desgostoso enquanto esfregava a testa. – Tá, tá... Já sei não é assim que se apresenta alguém. Como você quer que eu te apresente, Samson? – O chamou pelo nome todo só pra irritar.
– Ai, Damien, eu já tentei, tentei e tentei mais um pouco te dar alguma educação, mas está difícil. Primeiro, você precisa explicar minhas qualificações e enorme habilidade com o público, para que Taylor decida mesmo me contratar. Depois, você pode dizer o quanto eu sou especial para você e que você gostaria muito que eu conseguisse esse emprego! E não me chame de Samson, pelo amor de todos os Deuses! – Sam dramatizou, abanando a mão e a descansando no quadril, numa pose de quem está cansando a própria beleza. – Esse ruivo acha que só porque é gostoso pode agir como bem entender. – Cochichou alto para Taylor, escondendo com a mão os lábios da visão do ruivo. Depois sorriu e estendeu a mão para Taylor. – Prazer em conhecê-lo pessoalmente, ouvi falar muito bem de você.
Taylor piscou os olhos, aturdido com aquilo que havia escutado, mas apertou a mão de Sam, murmurando algo que soou tanto como ‘o prazer é meu’ quanto com ‘meu pai é judeu’.
Damien girou os olhos. Ele sabia que deveria realmente ter pensado mais três vezes antes de levar Sam e apresentá-lo para Taylor. Sam conseguia ser... Sam. Totalmente único.
– Ok, então... Primeiro, o Sam tem curso de técnico em enfermagem e técnico em radiologia. Ele trabalha no hospital da cidade vizinha e é um saco ficar de cá pra lá, então por isso resolvi perguntar pra ele se ele estaria interessado na vaga e ele praticamente saltou em cima de mim e quase me beijou na boca... Bem, mas isso não é uma novidade porque ele já tentou fazer isso outras vezes. – Damien disse e balançou levemente a cabeça em desaprovação pela última parte. – Segundo, ele tem esse jeito meio doido, mas é um cara legal e eu nunca o traria aqui se não achasse que ele vai realmente dar conta do recado e te ajudar em tudo o que você precisar. Ele não costuma agir desse jeito quando está trabalhando. É totalmente profissional. Garanto.
– Ele não é uma gracinha quando tenta? – Sam perguntou com um suspiro orgulhoso e apertou a bochecha do ruivo, recebendo um olhar azedo em retorno. – E só para constar, eu estava bêbado quanto tentei te beijar. Devo ter te confundido com aquela delícia chamada Kevin Mckidd, apesar de que a única semelhança entre vocês seja os cabelos ruivos. Mas cada um com seus fetiches. – Cruzou os braços, como se estivesse já ofendido com uma crítica que nem havia acontecido ainda. – Mas é... Você me ajudaria muito se me aceitasse como seu ajudante, Taylor. – Sam voltou sua atenção para o médico e, com seus olhinhos azuis estilo gato de botas, ele pareceu mesmo com um bichinho abandonado precisando de um abraço.
Taylor abriu e fechou a boca. Sua maior surpresa era ver um gay completamente assumido. Não era algo exatamente raro, porém, numa cidade pequena e mais conservadora, ele não estava esperando por alguém assim. E muito menos que essa pessoa parecesse tão íntima de Damien.
– Eu nem havia conseguido falar com ninguém, ou ver algum currículo até agora... Se Damien está te indicando, acredito que está mais do que qualificado pro trabalho. – Falou, apesar de não confiar tanto assim no julgamento do ruivo em assuntos relacionados ao trabalho. – Então, acho que podemos providenciar sua contratação amanhã. – Concordou, sorrindo contente. Era um alívio encontrar alguém, ainda mais um técnico em enfermagem e radiologia. – Obrigado pela ajuda, Damien. – Dirigiu-se ao ruivo, ao mesmo tempo em que Sam soltava um gritinho de felicidade e, dando pulinhos, batia algumas palmas.
– Menos, seu doido! – Damien deu um tapinha na cabeça de Sam para que ele parasse de pular, o que arrancou um chiado insatisfeito do rapaz. – Não vá me decepcionar e trabalhe direito! – Disse tentando parecer indiferente, mas havia ficado realmente surpreso por Taylor aceitar Sam tão rápido só porque fora ele quem o indicou. – Então, você terminou o seu trabalho por hoje? O que vocês acham de ir beber alguma coisa?
– Ah... Eu tenho alguns casos para revisar e... – Taylor começou a dizer, mas Sam o interrompeu.
– Ai, vamos! Por favor, por favor, por favor!!! Eu quero conhecer meu novo chefe. Posso chamá-lo de chefinho? – Sugeriu empolgado, e Damien quase levou a mão à testa, já começando a se arrepender de ter indicado Sam para o trabalho.
– Eu... – Taylor se viu sem saída. – Taylor está mais do que bom. – Suspirou. – Onde pretendem me levar? – Perguntou com um fundo de temor na voz.
– Bem, isso tem de ser surpresa! – Sam exclamou sorrindo diabólico.
XxxX
Damien conhecia o pub favorito de Sam, pois já tinha ido até lá algumas vezes com o amigo. Era um bar com um pequeno palco que, após algumas horas, era ocupado por quem estivessem um pouco mais alegre para um karaokê. Damien já havia sido obrigado a subir naquele palco algumas vezes para arrastar o desafinado do Sam para longe dali antes que alguém acabasse surdo. Uma vez Sam inventou de cantar “Let It Go” do filme infantil Frozen, que Damien tinha sido obrigado a assistir 100 vezes com Charlie.
Damien tinha calafrios só de lembrar-se da versão Sam para a música.
Como ainda era cedo, conseguiram uma boa vaga no estacionamento e escolheram um canto confortável para sentar. O garçom se aproximou e eles fizeram seus pedidos.
– Você deve estar se perguntando onde eu conheci o Sam... – Damien comentou.
– Bem, na verdade estava aqui me perguntando qual exatamente é a relação entre vocês. – Taylor comentou, deixando o tom de voz neutro. Não queria parecer mal-educado ao ficar se metendo na vida pessoal alheia daquela forma; porém, estavam num local mais descontraído e o próprio ruivo havia puxado o assunto.
– Nós somos amigos. Bem, ele me obrigou a ser amigo dele. – Damien falou, mas gemeu de dor ao receber um chute na canela dado por Sam. – Mas não foi? Você simplesmente saltou em cima de mim e disse: “Seu lindo! Você precisa me mostrar esse bíceps de perto!” – Tentou imitar o jeito afetado de Sam falar. – No meio do orfanato, com todos os funcionários e crianças observando. – Lembrou inconformado. – Ainda bem que você pediu para ver os bíceps e não outra coisa.
– Ai, pelo amor de Deus! Eu jamais falaria alguma perversão num orfanato. E por mais que às vezes a sua calça marque e dê para ver que a bagagem é grande, você não faz exatamente o meu tipo. Prefiro morenos, então você nunca esteve em risco. – Abanou a mão com descaso. – E você, Taylor, qual é o seu tipo? – Virou-se para o médico.
– Meu tipo? – Taylor ficou momentaneamente confuso. A parte sobre a bagagem grande o havia deixado um tanto apatetado.
– É, sabe, o tipo de... pessoa que você gosta. – Sam cuidou para não especificar nenhum gênero.
Taylor abriu e fechou a boca, e então coçou a nuca, desviando o olhar para um dos garçons que passava como se perguntasse quando as bebidas iriam chegar.
– Companheirismo, lealdade e um bom papo são características importantes para mim. Mais importantes do que aparência. – Taylor falou vagamente e sorriu quando os drinques chegaram. – Obrigado. – Agradeceu e já virou um gole generoso.
– Hmmm... – Sam estreitou os olhos, mirando Taylor atentamente. – E você está solteiro no momento?
– Ah sim, estou solteiro já há mais de três anos... – Taylor falou, ainda bebendo. – Mas então vocês se conheceram no orfanato. Isso é incrível. Já faz quanto tempo isso?
Damien não entendeu muito por que Sam deu uma piscadinha para ele quando Taylor disse que era solteiro. Sam estava a fim do Taylor? O ruivo não soube bem o motivo, mas algo em seu íntimo grunhiu com a possibilidade. Não por causa de Sam, óbvio, ele não sentia nada pelo loirinho a não ser amizade, e muito menos pela possibilidade de um namoro gay bem debaixo do seu nariz… Ele não tinha nada contra os gays. Se tivesse não seria amigo de Sam.
Mas de qualquer forma, naquele momento, ele não soube o que o incomodou. Contudo, Taylor não era gay. Definitivamente não. Era o total oposto do jeito espalhafatoso e tagarela de Sam. Então, não. Sam não conseguiria nada.
– Faz uns dois anos? – Damien franziu a testa e olhou para Sam buscando uma confirmação. – Ele que me obrigou a vestir a fantasia de Capitão América... – Resmungou.
Taylor riu.
– Eu ainda quero ver vocês dois de fantasia! Talvez fosse legal eu ir no orfanato junto com vocês na próxima vez, para fazer um exame de rotina nas crianças. – Cogitou com um ar pensativo. – Sempre quis fazer trabalho voluntário, mas até hoje nunca tive tempo... Não trabalhando 84 horas por semana durante a residência.
– Meu Deus!!! Você trabalhava tanto assim?! Como conseguiu continuar vivo? – Sam arregalou os olhos. – Ai, ainda bem que eu nunca quis ser médico. No máximo eu queria ter feito faculdade de enfermagem, mas a grana era curta e um curso técnico foi tudo que eu consegui. Mas melhor que o Damien aqui, certo, que nunca fez nada da vida. – Sam revirou os olhos. – É por essas e por outras que nunca me importei de deixar ele pagar a conta quando saímos para beber. – Ele ergueu seu copo para o alto em um brinde.
O ruivo girou os olhos, mas aceitou o brinde. Nem mesmo Sam sabia do seu trabalho como escritor e quadrinista. Na verdade, se fosse para contar para alguém teria sido para a tia Camille, para que ela não ficasse pensando que ele era um inútil completo, mas ele preferia a sua privacidade e não xeretas na porta da sua casa. Não que ele não confiasse que a tia Camille fosse capaz de guardar um segredo, mas ele bem a conhecia e sabia que ela ficaria doida para espalhar para cidade toda que o “seu menino querido” não era um desocupado.
– Eu faço alguma coisa… Durmo e vou na academia. – Estufou o peito como se fazer essas duas coisas realmente desse muito trabalho. – E, se você quiser ir, fique avisado que ele vai te obrigar a se fantasiar. A próxima fantasia é de Batman. – Tomou mais um gole generoso da bebida só de imaginar a cena. Bem, mas as crianças ficavam felizes e era isso que importava.
– Oh, não... Eu tenho de estar com jaleco e essas coisas... Deixo as fantasias para vocês. – Taylor dispensou. – Mas posso usar alguns apetrechos. Também sei tocar violão, então posso tocar para elas enquanto vocês dançam, que tal?!
– Perfeito!!! – Sam disse, colocando as mãos sobre o coração com os olhinhos brilhando.
– Quê?! – Damien, que estava com o copo na boca, começou a tossir e foi ficando vermelho com a possibilidade daqueles dois malucos levarem aquela ideia para frente. – Nunca! Nem sob o meu cadáver! Não danço de jeito nenhum! Até porque eu sei o que você gosta de cantar, Sam! Vá rebolar lá! – Apontou para o palco.
– Como você é estraga prazeres, Damien! Eu não quero rebolar agora, mal comecei a beber e... – Sam ia dizendo, mas alguém apareceu em sua visão periférica e ele desviou o olhar, se calando por alguns segundos. Acabou sorrindo perigosamente. – Pensando melhor, mudei de ideia. – Se levantou e, erguendo o queixo, estalou um dedo. – Apenas observe, bonitão.
Ele se dirigiu ao palco rebolando. Taylor arregalou os olhos, mas como já tinha bebido rapidamente seu drinque, acabou rindo e ficando com as bochechas levemente avermelhadas.
– Meu Deus, ele é uma figura. – Divertiu-se ao ver o loiro subindo no palco e pegando o microfone para o karaokê. – Nem tinha percebido que tinha um karaokê aqui.
A música que começou a tocar foi “I can’t remember to forget you”, de Rihanna e Shakira.
Damien bateu a mão na testa enquanto desejava ter ficado com a boca fechada. Ele conhecia Sam e deveria ter previsto que ele levaria a provocação ao pé da letra. A música chegou ao refrão e ele massageou a têmpora ao ver Sam encostar-se à parede e imitar os rebolados que a Shakira fazia no clipe da música.
– Ainda bem que ele não faz esse tipo de coisa no orfanato. Escandalizaria todo mundo e nos chutariam de lá. – Disse, após um suspiro. – Enfim, ignore. É melhor. Como foi o seu dia? Muitos pacientes? – Perguntou enquanto fazia um sinal para que o garçom levasse mais bebida para mesa deles. – Você tem que fazer mais café antes de sair. Acabou rápido.
Taylor, que estava gargalhando da cena, respirou fundo tentando se acalmar.
– Não são tantos, mas as consultas são longas porque preciso conhecer todo mundo. Todo histórico médico e mesmo outras coisas, como trabalho e família... – Taylor falou distraído, ainda olhando para Sam. Bem, apesar de tudo, o loiro era bastante sexy dançando. – Amanhã faço mais café para você. Porém, beber café demais faz mal pra saúde, sabia? Olha, é impressão minha ou o Sam parece estar dançando e cantando para aquele cara sentado na mesa sete? O cara parece prestes a ter uma síncope...
A intenção de reclamar que não era conta de Taylor se ele andava ou não tomando muito café morreu quando ele olhou para quem o médico apontava.
– Merda… – Praguejou baixinho ao ver o homem de barba por fazer e cabelos castanho-escuros, mas com alguns fios mais claros que formavam discretas mechas. – Aquele é o John. Ele trabalha no orfanato e detesta o Sam... Ele é meio homofóbico. – “Meio” era elogio. O cara era uma porta sem sentimentos. Mas Damien não quis deixar Taylor muito alarmado sobre o que poderia acontecer caso John resolvesse passar da síncope para a ofensa. – Talvez fosse melhor eu ir lá e tentar arrastá-lo do bar. O Sam também adora provocar! Ele sabe que o John é doido para parti-lo em dois.
Taylor imediatamente franziu os lábios, já não indo com a cara de John.
– Não. Deixa assim, a música está acabando.
Quando Sam acabou de cantar, a maioria dos presentes aplaudiu com entusiasmo, lançando até mesmo assobios. Todo mundo conhecia Sam, é claro, e quem não era algum homofóbico idiota o adorava.
– Taylor! Vem cantar comigo!!! – Sam quase pulou em cima do médico quando voltou para a mesa.
– Mas...! Sam, eu acho melhor eu não... – Taylor nem teve tempo de reclamar antes de ser arrastado para o palco. De alguma forma, Sam até lhe conseguiu um violão. – Me diz o que você quer cantar? Ah, já sei! Aposto que esse é seu estilo!
Antes que a música começasse, Sam o apresentou.
– Pessoal, esse é o Taylor, nosso novo médico, como alguns de vocês devem saber! Ele me revelou hoje que tem um talento especial para música e não só para medicina. Então, aplausos para ele! – Sam disse animado. Os aplausos vieram e Taylor, com um sorriso levemente acanhado, ergueu a mão em agradecimento.
A música que teve início foi “I’m Yours”, do Jason Mraz. Taylor já a havia tocado e cantado antes, então começou a dedilhar os dedos pelo violão com naturalidade e, de maneira suave e agradável, sua voz encheu o lugar, ganhando a atenção do público, afinal, não era sempre que alguém que realmente cantasse bem, ou não estivesse bêbado demais para cantar bem, aparecia por ali.
Do you hear me, I'm talking to you
Across the water across the deep blue ocean
Under the open sky oh my, baby I'm trying
...
Boy I hear you in my dreams
I feel you whisper across the sea
I keep you with me in my heart
You make it easier when life gets hard...
Damien se encostou melhor na cadeira enquanto ouvia Taylor cantar. Sam estava ao lado dele balançando o corpo e batendo palmas. Era uma música tranquila e a voz do médico combinava bem com a melodia. Era uma surpresa como Taylor levava jeito para a coisa.
“Não sou o único com talentos ocultos por aqui.” Damien pensou enquanto sorria de canto de boca.
Sorriso bonito, café gostoso, cantor talentoso... O que mais Taylor ainda escondia?
“Sorriso bonito uma ova!”, Damien pensou revoltado. “Só sorriso agradável, café engolível e voz escutável. É, só isso!”.
Fez outro sinal para o garçom. Precisava de mais bebida.
Assim que Taylor terminou de cantar, a plateia pediu bis e ele acabou cantando mais uma do Jason Mraz. Chegou a dar umas reboladinhas junto com Sam, já que o loiro vinha se esfregar contra seu corpo vez ou outra. Nesses momentos Taylor acaba rindo e perdendo um pouco o ritmo da música, mas logo se recuperava. Ele havia se esquecido de como gostava disso. Havia aprendido a tocar violão e a cantar no início da adolescência, mas desde que iniciara a residência não tivera mais muito tempo para pegar num violão.
Quando finalmente desceu do palco, recebia aplausos da plateia, principalmente das mulheres presentes. Algumas gritaram que apareceriam na clínica no dia seguinte. Tudo com ar de brincadeira, claro. Ou nem tanto. De qualquer forma, Taylor voltou para a mesa com as bochechas coradas e praticamente virou o copo de bebida que lhe aguardava em cima da mesa.
– Eu preferia estar mais bêbado antes de ter subido ali em cima. – Admitiu.
– Não sei não... Você parecia bem desinibido lá em cima. Até rebolar, rebolou. – Damien disse tentando controlar o trequinho que continuava grunhindo dentro dele e ele não sabia o que era. – Cadê o Sam? Ele tirou uma casquinha de você e fugiu?
– Deve ter ido no banheiro. – Taylor riu e bebeu um pouco mais. Estava precisando. – E você, Damien, não canta?
– Todo mundo diz que eu canto como uma gralha. Até mesmo o Sam manda eu ficar longe do microfone. Ele diz que eu faria um show melhor se imitasse o Magic Mike... É, ele me fez assistir esse filme com ele. – Bufou e, enquanto falava, olhou para a mesa de John e viu que ele não estava lá. Se Sam não voltasse em cinco minutos, iria procurá-lo. – Eu não tenho nenhum talento para música ou qualquer outra coisa. – Mentiu.
– É claro que você deve ter algum talento! – Taylor discordou enfático. Talvez o álcool estivesse começando a pegar. Ele pediu um licor de amarula ao garçom. – Você deve levar jeito com crianças já que vai ao orfanato para animá-las. Seus sobrinhos te adoram. E só resta descobrir seus outros talentos. Quer dizer, já ouvi bastante sobre alguns dos seus talentos das mulheres que foram à clínica. – Riu-se, mas depois se arrependeu do que havia dito e bebeu rapidinho o que restava de álcool em seu copo.
– Ah, bem, sim, eu sou talentoso nisso. Ninguém nunca reclamou. E o Sam mesmo disse que eu sou bem dotado no assunto. – Disse com um ar despreocupado. – Mas ser talentoso no sexo só faria de mim um... Magic Mike? – Riu, mas logo ficou sério outra vez. – E é verdade que gosto muito das crianças, mas isso também não é bem um talento. Você roubou meus afilhados bem fácil. – Resmungou enciumado. – E não penso em ter crianças um dia. Estou satisfeito com os furacões Charlie, Phil e Ollie. Eu vejo o duro que o Carl dá pra cuidar dos três. Minha ex costumava dizer que queria filhos e eu sempre rechacei a ideia... – Comentou, sem nem ao menos saber por que estava falando tanto. Talvez ele já tivesse bebido demais também.
– Meu Deus, como você é convencido! E dramático! – Taylor acusou colocando a mão sobre o rosto para não gargalhar na cara do ruivo. – Eu não roubei seus afilhados, ok? Eles não vão te amar menos por gostarem de mim. E... Essa ex... Faz muito tempo que vocês terminaram? Se ela pensava em filhos, deveria ser algo sério. – Perguntou, sem saber muito bem por que do seu interesse nisso.
– Ora. – Damien deu um sorriso presunçoso enquanto enchia próprio copo mais um pouco. – Só há uma maneira de saber se eu sou tão bom como dizem ou não. – Falou com um ar de brincadeira antes de tomar mais um gole, mas o sorriso logo se desfez enquanto ele pensava na ex-namorada. – E com a Julie... Terminou há algum tempo. Namoramos nos dois últimos anos de escola. Mas não deu certo. – Limitou-se a dizer.
Taylor nem conseguiu processar o que Damien havia dito sobre a ex-namorada. Não depois de ele falar, mesmo que apenas por brincadeira ou para implicar, que só havia um jeito de comprovar o quanto bom de cama ele era. Assim que seu licor chegou, ele bebeu-o em um único gole. Suas bochechas estavam pegando fogo agora.
– Ah, é... – Falou sem jeito e olhou para o relógio. – Droga! Estou perdendo meu seriado favorito! – Se levantou na pressa, mas acabou tropeçando. Para sua surpresa, Damien se ergueu rápido e o amparou. Taylor sentiu a cabeça girar ao erguer o olhar e se deparar com os olhos castanho-acobreados do ruivo. – Ah... Eu bebi demais de barriga vazia, acho melhor eu ir para casa. Você pode ficar aqui com o Sam.
Damien puxou mais Taylor contra o próprio corpo sentindo o calor dele. Ele aproximou um pouco o rosto, querendo ver mais de perto os olhos profundos e tão diferentes do médico, sem perceber como estavam realmente próximos. O ruivo nem ao menos se tocou que naquela hora o seu seriado era um dos que estavam passando e que talvez fosse esse o favorito dele. Os olhos de Taylor eram mais interessantes do que qualquer outro pensamento coerente.
– Eu... – Damien não sabia o que teria dito se não tivesse sido interrompido por uma cena que acontecia a poucos metros atrás de Taylor. – Porcaria! – Soltou o médico, esquecendo por um segundo que ele estava bêbado e quase o fazendo cair, mas o amparou outra vez e o fez sentar.
E em passos duros e decididos foi até onde Sam discutia com John. O idiota puxava o braço de Sam com tanta força que afundava a pele.
– Larga ele, imbecil! – Sem pensar duas vezes, Damien deu um soco certeiro no olho John que praticamente voou para o chão.
Taylor estava completamente desorientado, e ele sabia que isso não se devia apenas à quantidade exacerbada de álcool que havia ingerido em um curto período de tempo. Com a respiração acelerada, ele olhou para trás há tempo de ver Damien acertando um belo soco no tal John. Sam gritou de susto e, já que ele parecia prestes a chorar, Taylor correu até ele e acabou ganhando um súbito abraço do loiro.
– Damien, não! Ele não vale à pena! – Falou ao ver o ruivo agarrar John pelo colarinho, parecendo pronto para dar um novo soco nele.
– Defendendo esse viado de merda! Deve tá comendo ele também como metade dos viados dessa cidade fazem! Ele abre as pernas para o primeiro que aparecer! – John praticamente cuspiu as palavras e não houve apelo de Sam ou de Taylor que o impedisse de dar outro soco, agora no estômago, daquele homofóbico. Mas John, após gemer de dor, deu um sorriso de escárnio. – A verdade doí, não é? – Provocou.
– Para de falar antes que eu te arrebente inteiro e você sabe que eu sou capaz de cumprir a ameaça! Sam é um dos caras mais legais que eu conheço e você não vai ficar por aí falando essas porcarias sobre ele! – Damien estava vendo tudo vermelho.
Naquele meio tempo, todo o bar já tinha parado para olhar a confusão e o dono se aproximou e pediu que eles se retirassem antes que ele chamasse o segurança. Os amigos de John vieram tirá-lo de perto de Damien, assim como Taylor conseguiu arrastar o ruivo para fora do bar logo depois de pagarem a conta.
– Bem... – Sam falou soluçando assim que colocaram os pés na calçada. – Me desculpem por estragar a noite. E Damien... Obrigado por me defender. – Murmurou, limpando as lágrimas nos olhos.
– Você não estragou nada, Sam. A culpa é toda do John. Na próxima vez ele não vai ter tanta sorte. Aquele saco de merda. – Resmungou totalmente enfurecido, mas logo suavizou a expressão. – Lembra que você tem um emprego novo agora e se concentra em deixar o seu chefe feliz. – Disse enquanto apoiava a mão no ombro dele em um gesto amigável. – Vou chamar um táxi para você. Eu te levaria em casa, mas acho que é melhor nós dois irmos de táxi também. Bebi demais e não vou arriscar dirigir agora. – Disse, se afastando um pouco, e deixando Sam e Taylor sozinhos por um momento.
– Você realmente tem sorte de ter alguém como o Damien como amigo. – Taylor falou, olhando o ruivo se distanciar. – Você provocou o John de propósito, não é?
– O quê?! – Sam arregalou os olhos, olhando perplexo para Taylor. – N-Não... Eu só queria dançar.
– Sam... Eu sou médico. Reparo em coisas que ninguém mais vê. Você dançou daquela forma para provocar o John, só olhava para ele. Depois não sentou na mesa com a gente porque sabia que ele iria atrás de você. O fato de ele trabalhar no orfanato e você sempre ir lá também me chamou atenção. – Taylor colocou as mãos sobre os ombros de Sam. – Sei que dá vontade de provocar esse tipo de pessoa e jogar na cara deles que se tem direito de ser como se é sem medo. Mas esse cara só vai te fazer mal. Como amigo e não apenas como médico, meu conselho é que tente ficar o mais longe possível dele. Já vi muitos homossexuais chegando em emergências por agressão e coisas assim. Você pode ser quem é longe dele, isso vai mantê-lo irritado, e você seguro.
Sam respirou fundo.
– Eu tento... Eu juro que tento. É uma vontade quase patológica de implicar com ele. – Sam olhou para o lado. Damien já caminhava de volta para onde eles estavam. – Mas vou tentar manter distância. Nem sempre terei o Damien junto comigo... – Murmurou parecendo se perder em alguma lembrança.
– Se precisar conversar, estou sempre à disposição. – Taylor assegurou.
Damien voltou e disse que os táxis já estavam os esperando na esquina. Eles se despediram rapidamente com a promessa de repetir a noite e sem o idiota do John para atrapalhar. Assim que o táxi começou a se mover, Damien encostou a cabeça na janela e ficou observando a paisagem mudar rapidamente.
Ele deu um suspiro e virou para conversar com Taylor sobre o que havia acontecido, mas foi só o tempo de ver os olhos de Taylor lutando para ficarem abertos e se fecharem em seguida. A cabeça do médico acabou tombando de lado e encostando no ombro do ruivo, que deu um suspiro e ficou observando a expressão adormecida dele. Os lábios dele eram tão cheios...
Damien se mexeu, desconfortável, e voltou a encarar o nada pela janela. Sua cabeça estava estranha e seu coração pior ainda. Parecia um doido batendo.
Quando chegaram, Damien cutucou Taylor para que ele acordasse e só conseguiu um resmungo. Suspirando, pagou a corrida e desceu do carro. Deu a volta, abriu a porta e pegou o médico no colo. Foi até a porta, mas não conseguia abrir a porta com o médico nos braços.
Depois de muito resmungar e sacolejar o hóspede bêbado dorminhoco, conseguiu fazê-lo acordar. Ele observou Taylor ficar escorado na parede enquanto Damien abria a porta. Quando ela estava aberta, Taylor entrou tropeçando e foi em passos lentos e sofridos pelo corredor. Damien esperou que ele fosse direto para o quarto. O problema foi que Taylor errou o quarto e caiu direto na cama do ruivo.
– Hey... – Damien o cutucou. – Você deitou na cama errada. Hey! Hey! HEY! Ninguém merece... Ele não vai mais acordar. – Resmungou enquanto tirava a blusa. Tirou a calça, mas deixou a cueca.
Quem mandou Taylor errar a cama? A culpa era dele e não do ruivo.
Damien tirou os sapatos de Taylor, arriscou tirar a blusa e tentou não prestar atenção no corpo exposto do médico. Ele parecia ser magrinho, mas tinha um corpo esbelto e definido escondido embaixo das roupas folgadas que costumava usar. O ruivo mordeu o lábio e achou melhor manter a calça do médico no lugar. Ele não estava gostando do desconforto embaixo do ventre que estava sentido só com o corpo meio nu de Taylor em sua cama, com os cabelos rastafári espalhados pelo travesseiro.
Devia ser a bebida o fazendo ficar meio louco.
– Peitões, Damien. – Resmungou baixinho enquanto puxava as cobertas e fazia Taylor rolar para baixo delas. – Peitões, peitões, peitões... – Continuou murmurando até dormir.
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