Café, Ciúmes e os Acasos do Amor
30 Festival e Leilão
Notas iniciais
DUAS SEMANAS DEPOIS...
Damien avançou pelo corredor tentando não fazer barulho. Ele queria chegar até a porta sem ser notado, mas o chão rangeu e Gabi apareceu no mesmo segundo.
— Aonde você pensa que vai? – A mulher perguntou com as mãos na cintura.
— Gabizinhaaaaa! – O ruivo fez drama. – Hoje é o festival da cidade. Eu tenho que ir.
— Não! Quem mandou enrolar e não escrever? – Ela bateu o pé.
— Eu prometo que escrevo os episódios que faltam quando eu voltar! – Damien juntou as mãos e começou a balançá-las.
— Já perdi as contas de quantas vezes ouvi isso! – Gabriele disse em um tom de “não vai e pronto!”. – Você disse isso várias e várias vezes e depois passou a noite toda gemendo no quarto. E, sim, eu ouvi! Vocês são escandalosos e a casa inteira escuta. O seu sogro também está hospedado aqui, esqueceu?
— Sério. Eu preciso ir! É trabalho de campo para me inspirar. – Damien disse ignorando solenemente a provocação da morena. Até porque, era Taylor quem gemia mais, e Damien se orgulhava disso.
— Tá. Me engana que eu gosto. Você quer é ir comprar a cesta do Taylor.
— Por favor, Gabizinha! – Damien implorou com sua melhor cara de cachorro abandonado.
Gabriele suspirou. Ela sabia que não adiantava manter Damien trancado naquela situação. Ele ficaria lendo pornô e não escreveria coisa nenhuma.
— Tá bom. Vai, vai. Xô! – Ela fez um sinal com as mãos como se o expulsasse. Damien abriu um sorriso, aproximou-se dela e a abraçou, erguendo-a um pouco no ar. Ele sabia que os atrasos caíam em cima das costas de Gabriele, que acabava sofrendo toda a pressão e estresse da produtora. E por sua culpa. Mas não era como se fizesse por mal, no entanto, atualmente, sua mente só conseguia focar em seu relacionamento com Taylor e os episódios saíam lentamente. – Me põe no chão, seu louco!
— Obrigado, Gabi! Você devia ir também. Quem sabe não desencalha? – O ruivo perguntou alegremente.
— Eu não estou encalhada, seu idiota! E vai logo antes que eu mude de ideia! – Ela exclamou irritada.
Damien se apressou para a saída, temendo que ela desse um jeito de trancafiá-lo dentro de casa. Mas, mal fechou a porta, ele voltou para pegar Fubá. O cachorrinho estava usando uma roupinha vermelha com branco. Taylor levou um susto quando Damien apareceu em casa com uma mala cheia de roupas para o filhote. Ele disse que um cachorro não precisava de tanta roupa. Mas o ruivo ignorou e fez Fubá experimentar todas. Aí Taylor ficou todo “own, que fofo!” e acabou se esquecendo do exagero do namorado.
O festival seria na maior praça da cidade e se estenderia por algumas ruas próximas. Damien chegou com Fubá correndo à sua frente e puxando a coleira na tentativa de se soltar. Várias crianças paravam para dar carinho no filhote, e nesses momentos Damien aproveitava para tentar encontrar Taylor. Havia muita gente pela rua principal.
A cidade estava linda e enfeitada, cheia de decorações. Havia turistas passeando e aumentando o lucro do comércio. As pessoas estavam sorridentes e animadas, e leilão aconteceria no gazebo da praça principal da cidade. Muitas pessoas seguiam para lá, já que o evento começaria em alguns minutos. Tanto mulheres quanto homens estavam empolgados com a brincadeira.
— Damien! Você conseguiu escapar da megera! – Foi Devon quem abordou o ruivo no meio da rua. – Finalmente essa cidade está agitada! Do jeito que eu gosto. O leilão vai começar daqui a pouco. Taylor tinha pedido para eu tentar te resgatar da Gabi. – Ele riu e deu tapinhas no ombro do escritor.
O ruivo tolerava Devon em casa apenas por causa do Taylor. Se ele tentasse chutá-lo de lá, Taylor faria greve de sexo. E isso Damien não aguentaria. Ele estava já acostumado a ter pelo menos uma brincadeira com a boca ou com as mãos por dia. Se dependesse do ruivo, eles transariam todos os dias, mas tinha dias que Taylor chegava um caco em casa e Damien não tinha coragem de “abusar” dele. Agora, quando Taylor estava longe, Damien não fazia lá muita questão de ser simpático com Devon. E, se fosse sincero, o principal motivo era pelo ciúme que sentia pelo namorado ficar suspirando pelos cantos, por vezes olhando para o ator como se ele realmente fosse o Henry encarnado.
— Não encosta senão eu mando o Fubá fazer xixi no seu pé. – Ameaçou. Porém, Fubá era um traíra e adorava Devon. Aliás, quem o cachorrinho não adorava? Bastava o ator chegar perto que ele já se achegava todo feliz balançando o rabinho e latindo empolgado.
Devon puxou a mão de volta, resmungando.
— Melhor irmos ou vamos perder o leilão. – Comentou. – Sabe, estou querendo comprar uma certa cesta.
— Querendo comprar a cesta de quem? – Damien perguntou preocupado. – Se for a do Taylor... – Começou a dizer em tom de briga.
— É claro que não! Acha que eu sou louco de encostar um dedo no seu namorado? – Devon revirou os olhos.
Damien ergueu as sobrancelhas. Estava prestes a pressionar o ator para saber a cesta de quem ele pretendia comprar, mas Phil passou correndo por ele com aquele ar de quem iria aprontar, e o ruivo o segurou pela gola da camisa. O menino soltou uma exclamação emburrada quando Damien o ergueu um pouco no ar.
— Aonde está indo com tanta pressa, Phillip? E sem falar com o seu padrinho?
— Me põe no chão, padrinho! Eu vou encontrar o Davi! – Phil exclamou balançando os braços e tentando se soltar.
— O Davi? O filho do John? – Damien franziu a testa.
— Sim. Agora me solta!
Damien largou Phil e o menino saiu em disparada novamente em direção à aglomeração de pessoas que já se reuniam para o leilão.
— E aí, Damien? – Carl o cumprimentou chegando com o restante da família. Charlie deu um sonoro berro de “filhotinho!” e correu para agarrar Fubá.
— O Phil ficou amigo do Davi? – Damien perguntou ao amigo.
— Pois é. Parece que eles andaram conversando. Phil passou duas semanas emburrado porque eles são de turmas diferentes e não conseguiu conversar com ele na escola. Mas estava empolgado hoje porque teria oportunidade de falar com o amiguinho.
— Phil vai tirar o pobre menino do caminho. – O ruivo suspirou.
— Hey! Meu filho é um menino bom!
— Sim, ele é, mas convenhamos, Carl, ele é uma peste. – Damien falou e Carl resmungou um “infelizmente não posso desmentir isso”. – Mas acho que no momento você tem um problema maior... Sua esposa está toda derretida. – Apontou para Dakota que conversava encantada com Devon.
Damien riu quando Carl, todo enciumado, passou o braço pelos ombros da esposa e a puxou para perto dele.
XxxX
Em outro ponto do parque, Phil corria de um lado para o outro. Já fazia duas semanas que ele estava tentando falar com Davi, mas não conseguia. O menino estava se escondendo dele porque Phil disse que não era para o amigo ir para a casa da mãe e ele foi! Phil chegava sempre em cima da hora na escola e ia direto para a sala, no intervalo Davi ficava escondido em algum canto e na saída era um dos primeiros a ir embora.
Ele avistou Davi com Sam, o irmão mais velho e o pai. Os quatro conversavam e nem notaram quando ele se aproximou.
— Estou pegando o Davi! – Phil exclamou puxando o menino pela mão e correu com ele antes que John tivesse tempo de dizer qualquer coisa. – Por que você foi pra casa da tua mãe? – Exclamou emburrado assim que estavam longe dos adultos. – Eu falei para você se esconder lá em casa!
Davi piscou aturdido com a corrida inesperada. Ele olhou para Phil e depois abaixou o rosto, um de seus calcanhares subiu e ele torceu o pé, com timidez.
— Eu achei que ela talvez estivesse com saudades... – Murmurou, ficando triste ao se lembrar do final de semana. – Mas ela só deu atenção pros filhos novos dela.
— Foi por isso que eu disse pra você não ir! Eu sabia que você ia voltar com essa cara! – Phil disse ainda emburrado. Não percebeu que brigar com Davi iria deixá-lo mais triste. Phil queria que Davi tivesse ido pra sua casa e quando ele queria uma coisa e não saía como ele planejou... Ele ficava de péssimo humor. – E ainda ficou fugindo de mim na escola!
Davi começou a fungar.
— É porque... Você ia brigar comigo... Como ‘tá fazendo agora. – Ele falou, fungando e passando o dorso da mão nos olhos para secar as lágrimas que queriam descer. Lembrar-se da mãe era dolorido, assim como ser repreendido pelo novo amiguinho. – Você me odeia agora?
— Eu ‘tô muito brabo porque você foi! – Phil disse e, por alguns segundos, ele quis consolar o amigo, mas a irritação era maior. – Depois a gente conversa! – E saiu de perto, chutando todas as pedrinhas que viu pela frente para descontar a frustração.
No ponto do parque onde John estava com Theo e Sam, o moreno estava completamente irado pelo que Phil fez.
— Você viu aquilo? Ele simplesmente arrastou o Davi sem nem ao menos pedir permissão! Ah, mas eu vou lá e aquele moleque vai ouvir! – John falou furioso enquanto dobrava as mangas da camisa numa postura de “se o pai daquele menino não dá uma lição nele, eu vou dar!”.
Sam revirou os olhos para aquilo. Seu pulso já estava bem melhor, pena que o pé continuava contido, do contrário, daria um bom pontapé no moreno. Sam o segurou pelo braço.
— Por mais que eu adore ver você dobrando a camiseta para exibir os seus bíceps, pode deixar que eu vou atrás do Davi. – Pediu e piscou um olho para o namorado. – Nos vemos depois. Não vai perder o leilão! Você é uma das cestas principais lá. – Sam se afastou, usando apenas uma muleta, antes que John começasse a reclamar.
Phil não chegou a ir muito longe. A lembrança das lágrimas de Davi estava fazendo o menino se contorcer. Ele sentia uma vontade de abraçá-lo e Phil nunca tinha vontade de abraçar nem o próprio irmão. Talvez fosse porque Davi fosse todo magrinho e fraquinho e Phil sentisse, como maior e mais forte, que era seu dever evitar que ele sofresse.
Mesmo ainda um pouquinho zangado, deu meia volta e rumou na mesma direção em que havia deixado Davi. Porém, conforme se aproximava, ele viu alguns meninos de uns dez anos, de uma turma mais adiantada do que a deles, empurrando Davi de um lado para o outro e falando “Hei, menininha, vai chorar por saudades da mamãe?!” e “A menininha esqueceu a boneca em casa hoje?”. O sangue de Phil zuniu nas orelhas e ele já foi chegando no meio da confusão dando um empurrão em um dos meninos maiores.
— ‘Bora! Vocês são grandes, mas eu dou conta! – Phil provocou e se abaixou para evitar um golpe na cara e já revidou dando uma rasteira que derrubou o menino maior. É, ele não era ruim lutando. Ele e Oliver viviam aos trancos e barrancos e isso ajudava. – Quero ver falar na minha cara o que você falou sobre o meu amigo!
Davi observou perplexo Phil dar conta dos três meninos que o provocavam. Um deles saiu correndo depois que recebeu o empurrão. O que ganhou a rasteira desistiu após levar um soco no nariz. O terceiro... Bem, esse até pensou em atacar, mas, uma vez sozinho, ele correu também, lançando ameaças.
— Você vai ver, pirralho! Pegamos você na próxima vez! – Ele gritou enquanto corria, se safando.
Phil bufava de raiva quando Davi, com as lágrimas nos olhos, se aproximou e o abraçou. Aqueles meninos pegavam no seu pé desde que o haviam visto brincando com boneca junto com outras meninas e, principalmente, após cair no choro por causa de sua mãe, frente às provocações deles. Eles pareciam adorar fazê-lo chorar.
— Obrigado... – Davi fungou. – Você me salvou.
De longe, Sam observava a cena admirado e emocionado. Ele havia tentado correr até a cena, mas nem mesmo um segundo após ver o que acontecia, Phil chegou e deu conta dos meninos. Ficou feliz por saber que Davi tinha agora um defensor. Quem dera se ele tivesse tido um na sua infância e adolescência.
Phil ficou todo sem jeito ao ser abraçado, mas acabou, desajeitadamente, abraçando de volta.
— Eu voltei pra pedir desculpas por ter reclamado com você. – O menino disse quando Davi se afastou. Phil olhava de um lado para o outro e uma das mãos coçava a nuca de uma forma nervosa. – Mas na próxima vez me escuta e se esconde lá em casa! E eu vou falar com o meu pai pra ele falar com a diretora e me mudar pra sua sala. Comigo perto ninguém vai ficar te chamando de nada! Eles vão levar uns chutes se tentarem de novo! – Disse todo zangado.
As sobrancelhas fininhas de Davi subiram. Aos poucos, um sorriso cresceu em seu rosto.
— Ok! – Concordou, empolgado com a possibilidade de ele e Phil virarem colegas de turma. – Na próxima vez, eu juro que me escondo na sua casa. – Davi garantiu e cruzou os dedos, beijando-os para selar a promessa.
Phil puxou a mão dele e fez ele segurar o dedo mindinho com o dele.
— E eu não te odeio. – Falou em um tom baixo. – Fiquei chateado porque eu já tinha pensado no final de semana todo e aí você não foi. Mas... Eu gosto muito de você, tá? Não quero te ver chorando.
Davi, por algum motivo que não sabia, se sentiu tímido ao escutar aquilo. Ele não respondeu, apenas balançou afirmativamente a cabeça de forma exagerada, enquanto seu dedo mindinho selava-se ao do amigo.
— Crianças! – Sam chamou enfim se aproximando. Ele sorria para toda a cena adorável. – Vocês vão perder o leilão! Vamos!
Davi sorriu animado e pegou a mão de Phil, dessa vez sendo ele a puxar o amigo junto.
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Diante do gazebo onde seria realizado o leilão, as pessoas da cidade se amontoavam e disputavam os melhores lugares. John subiu no palco e anunciou que daria início ao leilão. Explicou rapidamente as regras e disse que todo o dinheiro seria revertido para a ampliação do orfanato.
— Bem, vamos começar com uma das cestas mais disputadas... A cesta de Camille Miller! – John disse enquanto Camille subia no palco, toda animada, acenando para todos. – Vocês devem imaginar o que ela colocou aqui... Acho que quem comprar essa cesta vai voltar para casa rolando depois de tanto comer.
— John! – Camille deu um tapa no ombro dele.
— Foi um elogio! – Ele disse carrancudo arrancando gargalhadas de todos.
Damien observava tudo e queria bufar. Até parece que John era super gente boa como estava tentando demonstrar ser.
— Então, vamos começar os lances... – John anunciou.
E lá se foram os muitos lances. Camille aplaudia animada ao ouvir os valores irem aumentando cada vez mais. Mas ela queria que Max comprasse a cesta... Só não sabia se ele iria conseguir. Ela adoraria ir fazer um piquenique com ele, a sós, sem todas aquelas orelhas espreitando a conversa dos dois. Carl estava sempre por perto parecendo um xerife. Era irritante.
Max estava contando o dinheiro que tinha. Ele se achegou junto com Taylor e Tim.
— Vamos, ajudem o pai de vocês, seus dois desnaturados! – Ele disse agitando a mão. Taylor revirou os olhos e tirou uma boa quantidade do que tinha na carteira, entregando ao pai. Tim fez o mesmo, e Max ergueu a mão todo animado, dando um novo lance. – Aqui! 500 dólares! – Ele agitou no ar o bolo de dinheiro. Uma das notas saiu voando de sua mão devido ao ventinho frio que passava pela cidade, e Max precisou correr entre as pessoas, reclamando e pedindo desculpas, para alcançar a bendita nota.
Taylor deu um tapa na própria testa, mas acabou rindo junto com as outras pessoas da cidade. Max já havia, em pouco tempo, se tornado uma figura conhecida por quase todos.
— Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... – John exclamou em tom de suspense, mas ninguém cobriu a aposta. – Ok! Vendida a cesta da Camille para o senhor Max!
Camille abriu um sorrisão quando Max subiu no palco para receber o prêmio e, sem a menor vergonha, tascou uma bitoca na boca dele. Todos começaram a gritar “uhuuuul!!”, mas Carl, com os olhos arregalados, tentou se afastar para subir no palco; porém, foi impedido por Dakota.
Ela deu um pisão no pé do marido.
— Deixa de ser empata-foda na vida da sua mãe! Por acaso ela se meteu e impediu você de me embuchar com dois gêmeos na adolescência? Não né? Então quietinho aqui do meu lado. – Ela praticamente rosnou para Carl. Estava enjoada de ver o marido agindo como uma criança ciumenta para cima de Dona Camille, que, coitada, merecia aproveitar um romance depois de tantos anos viúva.
Carl murchou e ficou com uma típica expressão de “cachorro com rabo entre as pernas”.
Damien, que estava assistindo ao leilão ao lado do casal, deu uma risadinha baixa.
— É por isso que você se apaixonou pela Dakota, Carl. Ô mulher de gênio forte! – O ruivo brincou.
— O Taylor tá ali ó! – Carl disse mal-humorado, claramente mandando Damien ir pastar, e apontou para onde o médico e o irmão mais novo aplaudiam e davam gritos de incentivos enquanto Max ajudava Camille a descer.
O ruivo riu, mas acabou indo mesmo falar com o namorado.
Enquanto Damien se aproximava, John estava iniciando o leilão de outra cesta. Era da nutricionista da cidade e John estava fazendo a piada contrária à que fez com a cesta da Camille, dizendo que quem comprasse a cesta só ia comer folhas. Ele levou outro tapa no braço por isso.
Damien chegou por trás de Taylor e sussurrou perto da orelha dele:
— Você saiu cedo sem dar meu beijo de bom dia. – Reclamou.
Taylor imediatamente foi acometido por um arrepio e riu.
— E você vai querer receber ele agora? – Perguntou baixinho para que apenas Damien o escutasse.
— Bem que eu queria, mas o Tim está me olhando com aquela cara de que vai sair correndo se eu tentar te agarrar. – Damien fez drama.
— Não me coloquem no meio das coisas de vocês! – Tim ergueu as mãos como quem diz “não estou aqui”.
Taylor apertou uma das bochechas do irmão mais novo. Tim ficava tão fofinho quando envergonhado!
A próxima cesta era de Mirian, mãe de Sam.
— Dá-lhe, mãe! Mostra que você vale mais que a Dona Camille! – Sam exclamou brincando, deixando sua mãe roxa de vergonha. Ela fez sinal de que ele apanharia mais tarde, e de novo as pessoas riram, se divertindo.
John balançou levemente a cabeça com a pérola de Sam e foi ajudar a “sogra” a subir no gazebo. Ela não pareceu gostar muito do seu gesto de cavalheirismo. Ou talvez ela só tenha torcido o nariz porque era ele mesmo que estava ali e ela fazia questão de deixar bem claro o quanto não gostava dele. John realmente não queria estar por perto quando Sam contasse a ela que eles estavam namorando.
— Muito bem. Então vamos para a cesta da Sra. Mirian. Tenho certeza que o filho dela meteu o dedo na cesta então podem vir algumas pérolas dali de dentro. – Disse em tom de brincadeira.
Os lances estavam altos. Muitos solteirões ficavam de olho na loirona cabelereira e solteira de apenas 42 anos. Mas, claro, quem dava os lances mais altos era o Sr. Marcus. Ele estava ao lado de Sam e ficou desanimado quando viu o Sr. Henriques, outro solteirão mais bem apessoado, dar um lance alto.
— Senhor Marcus, não vai cobrir o lance?! – Sam perguntou ansioso.
— Ah, filho... Ela deve preferir aquele cara a mim. Olhe para mim! Estou barrigudo e ficando careca.
— Ora, por favor. O senhor ainda é um belo pedaço de mau caminho, agora aumente essa autoestima e cubra o lance! O Sr. Henriques é um chato, e eu não quero ele de padrasto não! – Sam falou aflito. O outro homem pareceu ouvi-lo, mas quando ele virou o rosto na direção do loiro, Sam mostrou a língua para ele.
Marcus riu.
— Está bem. – Ele ergueu a mão. – 600 dólares!
— É hoje que você desencalha, mamãe! — Sam berrou. Mirian só faltou descer do palco para puxar as orelhas dele.
John ria discretamente ao ver Sam praticamente pular enquanto a mãe dele estava parecendo um camarão tostado. Mas, percebendo que Sam queria que o Sr. Marcus ganhasse, acelerou o “dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três” e deu a cesta como vendida para o homem que assistia ao leilão ao lado de Sam. John piscou discretamente para o loiro como quem diz “eu ajudei, e você vai me compensar mais tarde, certo?”.
O Sr. Marcus subiu ao palco todo contente e sorridente. Ele esticou a mão para Mirian em um ato cavalheiresco e ela, vermelha ao extremo devido à pele clara como a do filho, aceitou e desceu com ele do gazebo segurando sua cestinha, que entregou a Marcus, sob os aplausos da cidade.
— Ele vai ser meu novo vovô, já que agora Sam é meu segundo pai. – Davi comentou para Phil, se referindo ao Sr. Marcus, sem nem perceber que estava entregando o namoro “secreto” entre Sam e John, mas Phil nem pareceu se dar conta. Eles olhavam o leilão junto com outras crianças, nas fileiras iniciais. – Phil, você compraria minha cesta se eu tivesse uma?
Phil coçou a nuca, pensou um pouco e acabou sorrindo.
— Comprava, mas aí você tinha que colocar muito, muito, muito chocolate! – Phil respondeu enquanto chegava mais perto de Davi até que seus braços ficassem grudados.
Enquanto isso, John chamava Tim para subir no palco. O rapaz foi todo sem jeito, não querendo atrair muito a atenção, mas já atraindo. Ele só queria que acabasse logo para que ele pudesse voltar para o lado do irmão.
“Ah, tem o piquenique ainda...”, pensou tentando conter um gemido de desgosto. Bem, só esperava então que quem comprasse a cesta fosse ao menos uma pessoa legal de conversar.
Os lances começaram. Muitas mulheres mais novas estavam interessadas no professor fofinho e novato. Algumas interesseiras sabiam que ele não continuaria morando em Canmore, e seria a oportunidade perfeita para conseguir “namorado da cidade grande”. Essas em geral eram adolescentes que receberam cascudos dos pais ao tentarem dar algum lance.
Devon observava a algazarra de maneira divertida. O leilão estava sendo mais engraçado do que ele esperava. Bem, era uma ótima oportunidade para ele “causar uma impressão” na cidade e, também, contribuir significativamente com o orfanato da adorável Canmore. O ator ergueu a mão, atraindo o olhar de alguns, porém todos viraram para encará-lo de maneira chocada após ele dar o lance.
— Dez mil dólares! – Falou bem alto e depois sorriu de lado para Tim, que o mirava boquiaberto do gazebo.
Tim engasgou e olhou para John com um sorriso amarelo.
— Ele deve estar brincando... – O rapaz murmurou.
— Ele não é aquele ator famoso? Com certeza dinheiro tem. – John retrucou enquanto olhava para o ator que já atravessava a multidão para receber seu prêmio e, pelo olhar dele, John diria que o prêmio para Devon não era bem a cesta. Porém, o rapaz ao seu lado parecia muito inocente para perceber as reais intenções da pessoa que comprou a cesta. Bem, não cabia a John interferir naquilo. Aquele dinheiro seria mais do que bem vindo e só com ele já seria possível montar a biblioteca. – Então, acredito que nem preciso perguntar se alguém cobre... A cesta do Tim está vendida para o Sr. ator famoso.
Quando Devon se aproximou, Tim fechou a cara e recusou a ajuda dele para descer.
— Você não devia ter feito isso na frente da cidade toda! O que vão pensar? – O rapaz censurou.
— Que esse seu jeitinho tão simpático me conquistou? – Devon revirou os olhos, irônico, mas sorria divertido. Ele pegou a cesta de Tim. – Agora você vai ter que me aturar ao menos por uma horinha, não pode fugir. – Sorriu mais largamente, parecendo um tubarão.
Tim grunhiu baixinho desejando poder dar um chute na canela daquele convencido. Mas depois de ele doar 10 mil para o orfanato e se tornar mais amado ainda pela cidade teria que aguentar. O professor não sabia o que era, mas havia algo em Devon que fazia seu sangue correr mais rápido nas veias. Parecia que estava o tempo todo com o rosto quente e o coração acelerado perto dele. Tim queria muito acreditar que era pela raiva que sentia.
— Vamos logo antes que eu acabe fazendo o que quero bem aqui... E só pra constar, é dar um chute nessa tua canela fina! – Tim disse antes de começar a se afastar em passos pesados, deixando Devon olhando para as canelas para checar se eram mesmo tão finas assim.
Enquanto Tim se afastava, John chamou Taylor para o palco.
— Agora a cesta do médico. Será que quem ganhar a cesta também vai ganhar um check-up completo? – John perguntou e recebeu uns “tomara!” das garotas que estavam perto do palco.
Taylor subiu com um sorriso e balançou a cabeça, um pouco tímido também, com os aceninhos e flertes das moças e até de umas senhoras mais velhas que haviam se afeiçoado a ele. Não que elas tivessem intenções amorosas, mas acham que ter um piquenique com o médico e poder falar com ele por mais de hora sobre seus problemas de saúde seria ótimo!
Damien bufou à medida que os lances iam subindo e as suas orelhas iam ficando cada vez mais vermelhas de raiva a cada gritinho entusiasmado de alguma garota. Os lances já estavam em 700 dólares quando o ruivo resolveu acabar com a festa.
— Vinte e cinco mil dólares! – Disse, em alto e bom tom, fazendo com que um silêncio absurdo tomasse conta do lugar.
— Que diabos... Primeiro o ator, agora esse desocupado. – John falou em um tom de assombro.
Taylor arregalou os olhos. Ok, ele até poderia estar esperando que Damien se manifestasse, mas não com aquele lance! Toda a cidade pareceu ficar em silêncio, mais do que quando Devon deu o lance exorbitante. Taylor quis se esconder quando Damien começou a avançar em direção ao gazebo. Ele nunca havia sido de “dar muito na cara” que era homossexual, apesar de também não se esconder. Mas agora o ruivo parecia determinado a receber o beijo de bom-dia que não ganhara mais cedo.
Damien subiu no palco e, sem a menor cerimônia, puxou Taylor pela cintura.
— Seu café é meu e ninguém tasca. – Murmurou antes de colar a boca na dele... Na frente da cidade inteira.
A exclamação baixinha de susto de Taylor foi abafada tanto pelo beijo, quanto pelos murmúrios que explodiram perante o beijo, junto com gritinhos de susto. Algumas mocinhas começaram a chorar dramaticamente, pois “dois dos solteiros bonitos eram gays”. Taylor morreu de vergonha ao escutar alguns dos comentários.
Principalmente ao ouvir Sam gritando:
— Arrumem um quarto!
Damien o pegava firme pela cintura, deixando-o bem grudado contra o corpo dele, e as mãos de Taylor estavam no ombro do ruivo, enquanto trocavam aquele beijo quase cinematográfico na frente de todos. Quando Damien se afastou, Taylor abriu e fechou a boca como um peixe fora d’água.
— Você vive me surpreendendo... – Acabou murmurando quando conseguiu articular as palavras novamente, o rosto ainda quente e o coração acelerado.
Damien sorriu enquanto inclinava o rosto e esfregava o seu nariz de leve no dele.
— Eu te amo. – Murmurou. – E não me importo de admitir isso na frente de todo mundo. Aliás, eu quero é que todo mundo saiba pra não ficarem tentando colocar a mão em você. – Falou em um tom ciumento.
Taylor suspirou devido ao ciúmes bobo do ruivo, mas sorriu, pegou a mão dele e, junto com a cesta, desceu com o namorado do gazebo. Sam se gabava para alguns:
— Eu já sabia há muito tempo. – Falava, referindo-se ao namoro de Damien e Taylor. – Aliás, eu fui fundamental para que eles acabassem juntos.
Taylor deu um peteleco no loiro quando passou por ele.
John ainda observava embasbacado à cena. O maior pegador da cidade estava namorando outro homem. Mais ainda... Ele estava namorando com o médico, aparentemente completamente apaixonado por ele e isso provava que Sam realmente sempre foi apenas um amigo. Bem, John teria mais uma coisa pela qual pedir desculpas ao loiro depois. Mas, lá no fundo, também sabia que, mesmo ciente de que Damien estava completamente em outra, continuaria tendo aquele ciumezinho besta ao ver Sam falando com o ruivo. Porém, não demonstraria porque o loirinho ficaria magoado.
— Então, eu sei que é difícil continuar depois dessa bomba surpresa, mas ainda temos algumas cestas...
E o leilão foi retomado. As cestas seguintes foram leiloadas com os valores normais e, aos poucos, as pessoas foram esquecendo, ou melhor, deixando pra comentar depois, sobre o beijo de cinema que presenciaram naquele palco.
— Agora a última cesta. É a minha. Não posso garantir que está boa, mas eu me esforcei. – John deu um sorriso amarelo enquanto erguia a cestinha.
Ele não estava esperando conseguir muito por ela. Desde o fim de seu casamento ele havia se isolado e se concentrado unicamente em seu trabalho, nos filhos e, em segredo, em Sam. E Sam certamente continuaria fingindo que os dois não tinham nada já que não queria que a mãe soubesse do namoro dos dois. Era um pouco dolorido ter visto Damien e Taylor deixarem o palco de mãos dadas (como John gostaria de fazer com Sam), dando um tapa na cara de todos os preconceituosos da cidade... Bem, um tapa que teria sido dado em John também se tivesse acontecido alguns meses antes.
Sam primeiro observou, mas, conforme os lances subiam perigosamente, ele ficou irritado. John podia achar que não, mas a mulherada solteira também tinha ele na lista dos “solteiros bonitões para casar”.
— 300 dólares! – Uma garota de uns 25 anos gritou, estendendo o braço. Era peituda e bonita. Sam fechou a cara.
— 350! – Lançou outra, um pouco mais velha.
— 400! – Uma das assistentes de Mirian no salão de beleza gritou.
Sam foi ficando com as orelhas vermelhas, principalmente ao notar a forma como John começou a parecer convencido por ter tantos lances. O loiro bem que tentou se controlar, ele resistiu bravamente, mas quando os lances pareceram parar em 800 dólares, por parte da garota de 25 anos que parecia nutrir alguma paixão platônica por John, Sam gritou antes que John fechasse a venda:
— Mil dólares!
É, aquele era o dia das surpresas em Canmore. Quase todo mundo sabia do preconceito de John quanto a homossexuais. O pai do moreno havia, digamos, deixado um legado, e John nunca o havia desfeito. Eram recorrentes as fofocas sobre as brigas e desavenças entre John e Sam também. Então, as pessoas pareceram muito mais chocadas com Sam avançando de muleta até o gazebo, do que com Devon, o ator famoso, comprando a cesta de um professor, ou Damien, o Don Juan, revelando-se gay (ou bi) depois de quebrar tantos corações femininos.
Quando Sam conseguiu subir no gazebo, ele sorriu e se atirou nos braços de John.
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