Eu sinto muito.

É, Mallory pensou ironicamente, sempre começa assim. Sempre as mesmas malditas palavras.

A jovem olhou em volta, para as paredes brancas decoradas com mosaicos de porcelana coloridos e delicados. Na infância, costumavam fasciná-la, fazê-la pensar em tesouros perdidos e pedras preciosas. Agora, eram apenas pedaços de vidro frio, alguns ligeiramente rachados ou descoloridos pela passagem do tempo.

Por um breve momento, a moça desejou poder fazer o relógio inverter, voltar atrás para uma época melhor, mas logo sua consciência a lembrou de que, assim como o jogo de luzes nos mosaicos, a inocência era apenas uma ilusão.

Mallory estendeu uma das mãos, testando a água da banheira. Estava morna, agradável. Um leve e raro sorriso curvou seus finos lábios ressecados. Perfeito.

O frasco envolto em renda estava ao seu lado, e a garota o pegou, abrindo a tampa prateada para sentir o aroma reconfortante familiar. Lavanda. O perfume a transportou de volta ao verão, aos campos atrás de sua casa onde os pendões fulgurantes dançavam ao sabor da brisa sob o céu azul. Deus, como Mallory queria poder simplesmente ir para casa!

Balançando a cabeça para dispersar os pensamentos, a moça adicionou algumas gotas do óleo perfumado à água tépida antes de lentamente despir-se e entrar na banheira.

Por vários minutos, Mallory simplesmente ficou imóvel, deixando as ondulações suaves da água morna acariciarem sua pele gelada enquanto a aqueciam gentilmente. Sua mente silenciou, esvaziando-se enquanto seus pulmões se expandiam, prendendo o delicado aroma floral dentro de si, desejando poder flutuar naquela nuvem de perfume veranil eternamente.

Finalmente, muito devagar, a jovem soltou um longo suspiro e se deixou deslizar lentamente, cada vez mais para dentro da água. Seus longos cabelos ruivos flamejantes flutuaram ao seu redor, como gavinhas nas profundezas de um lago. O calor a envolveu como um casulo, um abraço familiar e bem vindo.

Mallory fechou os olhos. Como em seus sonhos de infância, flutuava sem medo através de um infinito mar de verde, cercada por pendões de lavanda em flor. Tudo era belo ao seu redor. Tudo era paz.

A jovem ruiva foi encontrada poucas horas depois. Um raio de sol poente entrava pela pequena janela no alto, fazendo com que sua pele já pálida parecesse quase translúcida, como se já fosse um fantasma, mesmo que ainda sólida. Suas muitas sardas se destacavam quase dolorosamente, como uma delicada coleção de estrelas, e seus cabelos ainda flutuavam ao seu redor como se fossem um casulo protetor da cor das folhas de outono.

Os lábios de Mallory, rosados pela luz do poente, jaziam semiabertos em um derradeiro suspiro, seus cílios dourados lançando delicadas filigranas de sombra sobre seu rosto. Era perfeita, como uma boneca. Porém, aquela perfeição apenas escondia suas rachaduras. Aquela era uma boneca quebrada.

Havia certa beleza melancólica, certa paz solene naquela cena, naquele silêncio pesado com perfume de lavanda.