O quarto era cinza-escuro, e a luz que entrava pela pequena janela não ajudava em nada. Era como o anoitecer. Um crepúsculo eterno.

Sobre a cama estreita, bem no centro do cômodo, há uma mulher envolta num cobertor branco, pequena e frágil como uma boneca quebrada há muito esquecida.

Suas faces vermelhas se destacam como rosas na neve. Ela é magra, magra demais. Tem bonitos olhos cor de chocolate, porém estão afundados em seu rosto como buracos negros. Sua respiração é fraca, quase inaudível mesmo no silêncio. Lenora é seu nome.

Há meses Lenora está neste quarto. Tem uma doença grave, embora já nem se lembre mais o nome. Ontem, os médicos iniciaram um novo tratamento, algo experimental. Prometeram um milagre, mas ela sabe a verdade: suas respirações estão contadas.

A jovem costumava se preocupar no começo, temer a morte com um medo quase paralisante, mas tal temor não existe mais. Seu mundo agora se resume às batidas suaves de seu coração e sua respiração cada vez mais pesada, trabalhosa. Os minutos escoam como areia em uma ampulheta quebrada, inúteis.

É nesse momento que ela aparece. Uma mulher de rosto aristocrático e idade indefinível. Seus cabelos são cacheados e longos, da cor da noite. Olhos cinzentos como nuvens de tempestade. Tez de porcelana, contrastando com o tecido negro do elegante vestido em estilo vitoriano. A única cor em seu rosto são os lábios cor de sangue, que se abrem em um sorriso reconfortante, quase maternal.

- É você. — Lenora mal consegue sussurrar. — Não é?

A mulher confirma com a cabeça, delicadamente sentando-se na beira da cama. Seu olhar é calmo e acolhedor.

- Lenora. — Sua voz é como o calor da lareira em uma noite de inverno. — Há uma escolha. Posso levá-la agora, ou lhe conceder a força para continuar lutando.

- Me leve. — É a resposta. — Estou pronta.

- Então feche os olhos, minha criança.

Num gesto maternal, a mulher desliza o polegar pelo rosto de Lenora, da testa ao queixo. Seu corpo fica mais leve e a respiração mais fácil, até Lenora se perceber olhando para o próprio corpo inerte sobre a cama. A mulher de negro se aproxima novamente, com uma das mãos estendidas. Um convite.

Lenora agora não teme mais colocar sua mão sobre a dela. Espera que a pele da estranha seja fria e rígida como sua aparência de porcelana sugere, mas os dedos que se fecham em torno dos seus são cálidos e suaves.

Asas negras, macias como veludo, a tocam. Sorrindo, a jovem recém-liberta se deixa envolver. A escuridão é paz, conforto e esquecimento. A escuridão é boa, é como voltar para casa.