Caderno de Memórias

2 Capítulo 2 — De volta a Catskill


Notas iniciais
Oi, gente! Tudo bem com vocês? Bom, hoje estou trazendo mais um capítulo, e sinto muito informar que ele está meio parado. Não porque eu quis, claro, mas é necessário que não haja atropelamentos na história. Prestem atenção, pois vão ter dois links de música no capítulo de hoje, e recomendo que vocês ouçam a primeira música a partir do refrão, para poder cantar junto com as meninas... Vocês vão entender quando lerem. Espero que gostem, nos vemos nas notas finais ;) Obs: Capítulo 2 - Revisado.

“Você nunca terá uma chance na primeira vez,

nós nunca vamos ter 18 novamente.

Não, você nunca terá uma segunda chance para a primeira vez,

É tão bom te ver de novo, velho amigo.”

Boys Like Girls – The First Time

✘

— Você é a coisa mais linda que eu já vi em toda a minha vida. Eu te amo! – disse Brad ao passar os dedos carinhosamente no meu rosto, vestido unicamente com uma boxer preta. Meu Deus! Que delícia de homem! — Quer casar comigo? – ele perguntou, se ajoelhando aos meus pés. Estávamos em uma clareira vestidos somente com a roupa íntima, muito apropriado...

— Ah, Brad, você também é lindo... – sorri, timidamente. Minha voz já tinha aumentado as três oitavas. — É claro que eu quero me casar com você! Eu também te amo, Brad!

Assim que proferi estas palavras, ele expôs seus dentes perfeitamente alinhados e brancos em um lindo sorriso, me amolecendo ainda mais. Assustei-me quando ele me abraçou de surpresa, levantando-me e me rodopiando no ar, – teatralmente, claro – parando somente para me beijar. Acho que nunca me senti tão leve, tão realizada.

— A propósito... – ele me soltou, afastando-se para olhar em meus olhos — Qual seu nome, princesa?

Hein?! Como assim?! Ele queria casar comigo e não sabia meu nome! Uau, nem eu sabia que meu sex appel era tão... Eficaz assim. Quer dizer, o cara não me conhecia, por qual outro motivo ele iria casar comigo? Parando para pensar, isso soa rude.

Não ligo pra forma como ele me encara, curioso, e começo a ponderar se eu devo dar um soco no meio da cara dele ou dizer meu nome? Ou dizer meu nome enquanto soco ele? Hum... Mas ele é o Brad Pitt, por que eu não me casaria com ele? Certo, vamos pro próximo passo!

Quando estava prestes a dizer meu nome, uma música começou a tocar... Parecia um toque de celular. O problema é que eu estava vestindo somente uma lingerie, não havia nenhum celular comigo... E com Brad também não poderia estar, já que ele usava somente a boxer, a não ser que ele tivesse guardado no... Ai, meu Deus!

Estava tudo embaçado, Brad já estava desaparecendo. O música continuava tocando, tocando... Quando tudo desapareceu e senti minhas pálpebras tremerem por conta da claridade, ainda havia uma coisa fofa nas minhas costas... Eu estava deitada? Cadê o Brad?

Forcei meus olhos a se abrirem. Demorei pra entender toda aquela situação... Eu estava no meu quarto, um pequeno feixe de luz solar escapava pela fresta da cortina batendo no meu rosto. Nota mental: trocar a droga da cortina.

Olhei me volta preguiçosamente e o celular que tocava era o meu e Brad Pitt me pedindo em casamento foi um sonho. Eu não sabia se ria ou chorava, e a onda de decepção que me invadiu foi inevitável. Quer dizer, só em sonhos mesmo para eu confiar no meu sex appeal. Nunca me considerei alguém bonita. Sou apenas comum.

Ergui meu braço procurando pelo aparelho. Meus olhos arderam novamente por conta da claridade do visor, que me avisava que antes das oito horas da manhã minha mãe estava entrando em contato. O que minha mãe queria me ligando a essa hora? Com um resmungo, atendi a chamada.

— Oi, mãe... – minha voz saiu meio grogue. Talvez até com uma pitada de raiva, mas também, ela interrompeu meu momento com Brad Pitt. B-R-A-D-P-I-T-T.

— Lucy, minha filha... Como está? Eu sei que provavelmente você estivesse dormindo, pois deve ter aproveitado ontem a noite, já que foi sexta-feira e você é uma menina linda e jovem. Claro que deve ter saído com algum namorado... Ele está aí com você? Bom, não importa agora. – aproveitei a pausa que ela deu para responder.

— Pelo amor de Deus, respira, mãe... – Sim, essa é minha mãe. Layla Heartfilia sempre teve o espírito de um furacão, ainda bem que Jude, meu pai, era tão calmo quanto uma brisa. Ainda agradeço por isso, pois herdei um pouco da personalidade dos dois. Era difícil conter minha frustração por simplesmente ter que me resignar ao fato de minha mãe achar que eu era do tipo que saia sexta-feira à noite com “algum namorado” e voltava pra casa só de madrugada. Eu não estava com tanta bola assim, mas preferi não tocar no assunto.

Seria humilhante se eu confessasse que quase transei com Brad Pitt numa clareira depois de ser pedida em casamento, tudo esse pacote em um maldito sonho? Freud culparia a minha mãe, certeza.

— Tô bem mãe — supirei — E não, não tem nenhum namorado aqui. – a não ser que meu travesseiro conte como namorado, preenchi mentalmente — Como vocês estão? Aliás, aconteceu alguma coisa? Você sempre me liga mais tarde aos Sábados...

Saí da casa de meus pais direto para a Universidade, e assim que me formei, com vinte e um anos, consegui um apartamento em Manhattan. Eles haviam economizado bastante para eu ter este apartamento e eu serei eternamente grata por isso. Durante todos estes anos eu os visitara em Catskill somente duas vezes, e isso já fazia muito tempo. Depois que comecei como redatora na revista meu tempo diminuiu consideravelmente. Não é como se eu não os visse. Pelo menos duas vezes por mês eles vinham me visitar, já que meu pai estava aposentado e minha mãe sempre foi dos serviços do lar. E claro, passávamos a maioria dos feriados juntos. Mas sempre aqui, em Nova Iorque.

Voltei minha atenção para a voz da minha mãe ao telefone:

— Ah, nós estamos bem e com saudade. Eu não queria te incomodar, meu bem, mas eu só preciso confirmar se você e as meninas ainda vão vir pra cá hoje? Porque já se bem me lembro, vocês sairiam daí cedo, não?

Merda, merda, merda. Eu tinha me esquecido deste pequeno detalhe. Não que iriamos para Catskill passar o fim de semana, mas esqueci que teria que acordar cedo para deixar tudo pronto. Outro defeitinho básico: eu tenho um sério problema para lembrar-me de colocar meu celular a despertar. Dei um pulo da cama e corri para o banheiro mais rápido que o Flash. Devo ter quebrado algumas coisas no caminho. Sou desastrada, lembram?

— Sim, mãe nós vamos. Daqui a pouco elas devem estar aqui e eu tenho que terminar de arrumar minhas coisas... Te vejo mais tarde, até depois. — não queria mostrar pra minha mãe que eu havia me esquecido... Nada que ela já não soubesse, claro.

— Tudo bem. Vocês almoçam aqui?

Ora, que pergunta era aquela? Isso não é óbvio? Fala sério, eu estou com pressa aqui. Pelo menos ela havia esquecido o assunto “namorado”... Ótimo, mas algo me dizia que assim que eu a visse pessoalmente não teria como escapar daquilo.

— Ok, pode ser. Vamos chegar pelo horário de almoço mesmo... – respondi, tentando desajeitadamente colocar o creme dental na minha escova somente com minha mão direita.

— Certo! – eu quase podia senti-la dando pulos do outro lado da linha. — Vou esperar vocês então! Dirijam com cuidado. Até mais, meu bem! – e desligou sem sequer esperar por um "tchau" meu ou qualquer coisa do tipo. É, minha mãe era desse jeito.

O dia prometia ser um pouco quente, e provavelmente os que viriam também. Separei uma mochila e coloquei todas as roupas de verão que achei ser necessárias. Em uma pequena divisão coloquei meus acessórios pessoais. Acho que não teria espaço para pôr minha chapinha... Não que eu usasse muito, mas vai que aconteça alguma emergência, afinal, eu sou uma mulher de negócios. Melhor prevenir do que remediar.

Peguei meu celular e mandei uma mensagem pelo bate papo no qual Juvia, Erza e eu tínhamos o nosso grupo. Escrevi a mensagem rapidamente, contando somente com a resposta de Juvia, já que Erza demorava uma eternidade pra responder qualquer coisa. Eu poderia digitar: “Erza, tô morrendo, vem me salvar!” E bem, com certeza no dia do meu funeral ela leria a mensagem. Talvez eu esteja exagerando um pouco, mas isso não deixa de ser verdade. Ah, sim, podemos adicionar "exagerada" a minha listinha de defeitos.

"Gente, vocês estão vindo? Alguma de vocês vai levar chapinha?"

Enquanto esperava pela resposta, corri até a cozinha para preparar meu café. Ainda tinha que tomar um banho... Logo meu celular vibrou. Era uma mensagem.

Juvia Fofulete ♥ :

"Oi, Erza acabou de me pegar aqui! Já estamos indo... Eu tô levando uma chapinha ;)"

Graças a Deus!

"Ok, espero vocês!"

Combinamos que Erza nos levaria com seu carro, que nós amávamos muito... Como ela mora em Westbury, passaria primeiro para pegar Juvia, no Queens, e depois viria pra cá. Pela lógica, seria melhor que ela me pegasse primeiro e depois pegasse Juvia, porém, ela pediu a Erza que passasse em sua casa primeiro, o que eu achei muito estranho. Tenho certeza que Erza também estranhou isso, mas não comentamos nada.

Eu estava tão empolgada, fazia três meses que não nos víamos. Claro que sempre conversamos por mensagens ou ligamos uma pra outra. Eu e Juvia que fazíamos isso com mais frequência, já que às vezes – quase sempre – Erza não nos respondia, ou fazia isso muito tempo depois. Nós ficávamos indignadas com ela, aquela ingrata. Entretanto, éramos fracas, e sempre “perdoamos” Erza. Até porque, quando estamos juntas nós acabamos por esquecer essas coisas. Todas as formalidades que temos com as outras pessoas se dissipam, e ficam somente três garotas que agem como três camioneiros idiotas com mentalidade de dez anos de idade. É isso aí, até a delicadeza que quase nem existe vai toda embora.

Assim que terminei meu café, corri para o banheiro para tomar um banho quente. É considerado patologia o fato de que, mesmo que o clima esteja o mais quente possível eu seja incapaz de conseguir tomar banho em uma água que não esteja queimando? Vou pesquisar na internet depois.

Devidamente vestida com um short jeans, uma camiseta branca e tênis, eu estava pronta. Dei uma última olhada em tudo pra ver se não faltaria nada... Estava tudo certo, agora é só esperar. Espreguicei-me, sentando em uma banquetinha da minha pequena cozinha.

Era meio estranho ter a sensação de que hoje eu voltaria a Catskill, são tantas lembranças... Como será que estão todos? Sendo uma cidade pequena, com mais ou menos 11 mil habitantes, era fácil conhecer quase todo mundo... Fácil e uma furada, porque se você cometer ou passar ou pensar em qualquer coisa que seja julgada "imoral" pela sociedade, bem... A cidade toda fica sabendo e o fato só é esquecido quando outra fofoca aparece.

No meio da minha empolgação ainda sentia resquícios da ansiedade que tomou conta de mim noite passada... Um traço de culpa me atingiu por eu não ter voltado lá há muito tempo e no fundo eu sabia que a minha "falta de tempo" era uma desculpa. Meus pais nunca se importaram com isso, e eles adoravam vir para Nova York e pelo visto também adoravam ficar sozinhos já que eu era filha única, então isso também ajudou para que eu não me obrigasse a voltar lá.

Eu sabia que isso era estranho, afinal, por que alguém não gostaria de voltar ao lugar no qual teve as melhores lembranças de sua vida? Nem mesmo eu sabia a resposta. Era melhor eu tentar ignorar aqueles pensamentos, pois querendo ou não, voltaria hoje a Catskill.

Ouvi o barulho do meu celular e ao checá-lo, era uma mensagem das meninas, dizendo que já estavam me esperando lá embaixo.

Ri lendo aquilo. Depois de três meses nós nos veríamos outra vez para voltar a Catskill... Que nostalgia! Na verdade, mesmo que eu estivesse ansiosa, não conseguia tirar o sorriso bobo de jeito nenhum dos meus lábios...

Peguei minha mochila e saí correndo em direção à porta, acho que derrubei metade das coisas que estavam no meu caminho, só ouvia o barulho das cadeiras caindo, da vassoura indo ao chão, o barulho dos livros que estavam em cima do meu balcão... É , acho que caíram também. Ok, esses eu voltei para juntar e colocar em um local mais seguro. Respirei fundo e caminhei que nem gente.

Dei uma última olhada no apartamento, só pra me certificar de que tinha trancado tudo... Meus olhos passaram pelo notebook em cima do sofá... Não... Não vou levá-lo. Eu sabia que esse fim de semana em Catskill seria de grande ajuda para minha matéria, ainda mais com esse pressentimento que eu tinha de que algo iria acontecer. Automaticamente um arrepio passou por minhas costas... Deus, eu já estava enlouquecendo, era melhor eu sair rápido dali.

Coloquei o nosso caderno na mochila e tranquei meu apartamento, guardando as chaves em um pequeno bolso exterior da mesma. Como eu morava no terceiro andar do prédio, tive que descer as escadas, já que o elevador estava ocupado e eu estava com muita pressa para esperar.

Assim que cheguei ao saguão do meu prédio encontrei Macao, o porteiro. Ele estava com seu uniforme costumeiro: calça social preta, sapatos pretos bem polidos e a camisa social branca de poliéster, e por cima o colete azul marinho, com o logotipo do edifício bordado no canto superior esquerdo que consistia em um pequeno prédio laranja e o nome do local em letras azuis: Dallas’ Place.

Sempre com o cabelo bem penteado e um sorriso no rosto, Macao era um doce de pessoa. Conseguia contagiar todas as pessoas com sua simpatia, conquistando todos.

— Bom dia, Macao – o cumprimentei, sorrindo.

— Bom dia menina Lucy, ansiosa com a viagem? – perguntou. Sim eu havia o deixado a par de minha pequena estadia em Catskill.

— Um pouco... Faz tempo que eu não volto, então...

— Entendo... Bom, eu aposto que vai se divertir muito, aliás, avistei o Impala de sua amiga estacionando aqui na frente há pouco tempo.

Estiquei-me para olhar a rua por trás da porta... Sim elas estavam lá!

— Ah sim, sim! – disse feliz. — Já vou indo porque se me atrasar mais, elas me matam... Até mais, Macao! Cuide de tudo para mim, por favor! – falei a última frase um pouco mais alto, já que saí correndo em direção a porta. Só tive tempo de ouvir um "pode deixar" e "boa viagem".

Assim que pus meus pés pra fora dei de cara com o Impala preto de Erza... Ainda lembro-me do primeiro dia que o vi. Nós sempre quisemos ter um carro do trio, porém, a situação não deixava. Quando Erza, por um milagre nos avisou que queria comprar um carro, surtamos e decidimos ir com ela, claro. Dentre todas as opções dentro do orçamento dela, estava o Impala preto, um Chevete laranja e uma Brasília amarela... Sim, Brasília amarela. Estranho, sim ou claro?

Pois bem, nos apaixonamos pelo Impala e no mesmo dia o batizamos com o nome de Billie Joe, nosso cantor favorito. Desde então Erza nunca se desfez do Impala. Claro que hoje em dia todas tínhamos condições de comprar um carro... Mas nosso Impala sempre seria nosso Impala. Nosso Billie Joe...

Aproximei-me do carro abrindo a porta do passageiro, já que avistei Juvia no banco de trás.

— Até que enfim, Lucy! Achei que teríamos que subir e te arrastar pelos cabelos – disse Erza, já esbanjando o carinho dela. Poxa, nem desceram do carro pra me abraçar.

— Também senti saudades, Erza – respondi irônica, porém não contive meu sorriso. Esse era nosso jeito, e eu adorava.

Ela simplesmente sorriu, enquanto brincava com a borda de seu macacão preto. Com seus fiéis all-stars nos pés e um rabo de cavalo ela estava muito bonita. Aquela coisa de trabalhar em um sex shop estava fazendo muito bem a ela.

Olhei pra trás, erguendo o meu braço para puxar o cabelo de Juvia que me olhou sorrindo.

— Eu também senti saudades... Ai meu Deus, a gente vai pra Catskill, Lucy!!! CATSKILL!!! – disse Juvia, rindo e batendo palmas. – ela também estava linda, com o vestido azul, sapatilhas e um cardigan branco de mangas compridas.

Apesar do sorriso, Juvia parecia estranha... Como se sorrisse apenas por sorrir, como se estivesse querendo esquecer algo e falhava ao se concentrar no que iríamos fazer. Será que Erza notou alguma coisa? Pra mim fora fácil perceber justamente pelo fato de que Juvia era nossa dose de energia, então quando ela não demonstrava o máximo de alegria — e acreditem, ela demonstra muito mais do que isso — significa que tem algo errado.

— Aham, a gente vai... Quero só ver! Já falei com minha mãe e temos lugar para almoçar! – respondi, guardando meus pensamentos sobre Juvia para depois.

— Pelo amor de Deus. Gente, não vamos extrapolar, tá bom? A gente vai fazer o que temos que fazer sem causar danos em ninguém, entenderam? – repreendeu Erza dando partida no Billie Joe.

— O que foi, Erza?! Tá pensando que a gente vai matar alguém? Nós só estamos empolgadas, só isso.

Que mal tem ficar feliz? Ela já foi cortando nossa onda logo de início, pelo visto ela estava ficando rancorosa que nem a Codinome Poluscão. Mas guardei esse pensamento pra mim, vai saber...

— É isso aí! – Juvia me apoiou. – Nem começa a pirar, sua ingrata! Não se presta nem pra responder nossas mensagens, agora fica aí se fazendo.

Não me contive e gargalhei. Seja lá o que for que tenha acontecido de ruim com Juvia, era bom saber que ela estava voltando ao normal e que nossa companhia retardada ajudava.

— Eu já disse que às vezes eu não tenho tempo de olhar as mensagens! Poxa, será que agora eu tenho que avisar até quando eu for ao banheiro? – dizia a ruiva irritada.

— Tem! – respondemos eu e Juvia juntas. Nem Erza resistiu e começamos a rir.

Demoramos um pouco para sair de Nova York, já que hoje era Sábado e o movimento não era nada escasso. Dava pra notar que Erza estava impaciente, pois ela adorava correr, o que nos trazia o enorme risco de perder nossas vidas. Eu estava rezando para que quando saíssemos da cidade, uma luz divina caísse sobre nós e nos protegesse. É... Talvez eu estivesse exagerando novamente.

[...]

— A verdade é que eu já não sei mais o que fazer para escrever aquele maldito artigo... Nessas horas que eu me pergunto o porquê mesmo de eu estar trabalhando lá... – me lamentei para elas. É engraçado que quando somos adolescente sonhamos com a tal vida de adulto. Só que as coisas se tornam bem mais complicadas.

Já estávamos na rodovia e há uns dez minutos havíamos parado em um posto para abastecer, comprar lanches e ir ao banheiro.

— Eu sei que é chato. Às vezes ficam colocando pressão pra eu terminar os desenhos das lingeries, mas eles não entendem que não é assim tão fácil. E pra ajudar, ainda tem gente que reclama que eu não “respondo mensagens”... – Erza deixou a indireta no ar. Ingrata!

— Lucy, eu acho uma boa a gente seguir o Professor Gildarts. Com certeza isso ia dar uma matéria e tanto! – e lá vinha Juvia de novo com aquela ideia absurda de seguir nosso antigo professor de História. Não que aquilo não me interessasse, mas quem iria querer ler uma matéria sobre um professor de Catskill?

— Juvia, deixa de ser retardada... Me diz, como a gente vai seguir o Professor Gildarts se nem sabemos onde ele mora... E pior: vai que ele pensa que nós somos umas psicopatas – o que eu não descarto – e chama e polícia?! Nós já atingimos a maioridade e podemos ser presas por isso! Aí sim vai tudo por água abaixo. Não vou nem precisar me preocupar com a matéria da revista porque nem emprego vou ter!

— Tá bom, tá bom... Foi só uma suposição... Mas olha só, pode dar certo. Porque se formos na nossa antiga escola vão nos dizer se ele ainda trabalha lá. Podemos encontrar ele no local, esperar ele sair e pronto! Pimba na gorduchinha!

Sinceramente, Juvia me dava medo quando abria aquele sorriso depois de ter uma ideia que ela achasse que daria certo... Ela poderia ser muito, mas muito insistente... Só eu sabia o quanto.

— Juvia, só tem uma probleminha... Nossa antiga escola não abre nos finais de semana! E outra, quem vai querer ler uma matéria sobre ele? Não dá, não tem lógica isso. — respondi, convicta.

Ela suspirou derrotada e se atirou no banco de trás. Erza mantinha-se atenta na estrada, como se não quisesse participar daquela nossa pequena discussão sem sentido algum. Mas no fundo eu sabia que gostaria muito de saber o que aconteceu com nosso amado professor de História. Decidi que esqueceria aquilo por enquanto, pensando em algo mais divertido para fazer.

— Erza, liga o rádio aí, vamos cantar uma música! – pedi, animada. Logo Juvia ergueu-se de novo sorrindo e Erza do mesmo modo, ligou o rádio. Ela foi passando de estação em estação até que paralisou ao ouvir as notas tão conhecidas por nós. Simplesmente amávamos aquela música antigona, como costumávamos chamar. Era perfeita para momentos apaixonados, mas nós gostávamos dela por cantávamos do nosso jeito especial: toda desafinada!

Ainda bem que estava recém no primeiro refrão e rapidamente nos pusemos a cantar junto com o vocalista:

— Whatever I sai, whatever I did. I didin’t meant it... I just want you back for good! Want you back, want you back, want you back for good!– Erza e Juvia faziam o coro mais do que engraçado... — Whenever I’m wrong, just tell me the song and I’ll sng it! You’ll be right and understood! I want you back for goood!

Um dos fatores que nos levaram a amar aquela canção foi que, quando éramos crianças, gravamos um vídeo fazendo uma dublagem muito esquisita nada legal da música. Mas admito que era super engraçado de assistir.

De repente me senti aquela criança de novo, que via graça em tudo, que ainda vê. E tudo aquilo era mágico... E mais uma vez, aquela sensação de que algo aconteceria me atingiu novamente. Mas desta vez, eu não me senti ansiosa... Eu estava com minhas amigas, do jeito que sempre estávamos. Rindo, brincando e agindo naturalmente, como realmente éramos. Como somos. Sem inibições, sem restrições, sem fingimento... Apenas três amigas retardadas que, apesar de brigar de vez em quando, se amavam. As camioneiras...

Em meio a muita cantoria e gargalhadas, chegamos a Catskill! Finalmente... Várias árvores ainda rodeavam a entrada da cidade e a mesma continuava linda. Apesar de pequena, nossa amada cidade era muito bonita, cheia de árvores e montanhas... Havia vários lugares que gostávamos de visitar quando éramos crianças. Eu estava emocionada. Olhei para as meninas e vi que elas também estavam tão entorpecidas quanto eu.

Enquanto Erza rodava pela cidade a caminho da casa dos meus pais, nós observávamos tudo quietinhas. Parecia que nada e tudo havia mudado ao mesmo tempo. A cidade parecia intocada. As casas, todas sem cerca, a maioria da cor branca pareciam também as mesmas de anos atrás. Se bem que, a esta altura eu já não sabia, talvez minha mente estive pregando peças...

Pessoas andavam sorridentes pelas ruas, crianças ainda brincavam na rua como nós fizemos há tanto tempo. Fiquei pasma quando notei que a cafeteria de Evergreen, a Coffee Seduction ainda existia... Meu Deus, teríamos que voltar ali mais tarde para tomar café.

— Ainda existe... – Erza murmurou do meu lado, com os olhos marejados...

— Sim, existe... E ela não trocou o nome escroto... – sorrimos.

— Combina com ela. – disse Juvia, tão emocionada quanto nós.

Naquele momento eu percebi que aquilo tudo mexia com elas tanto quanto comigo. Eu não era a única que me sentia daquele jeito, com saudade dos velhos tempos. Que parecia ter tomado um rumo, mas ao mesmo tempo sentia-se desgovernada... Não era só pela cafeteria, era por tudo que aquela cidade representava. Cada mínimo detalhe era importante. Estávamos todas no mesmo barco: eu, Juvia, Erza e Billie Joe, o carro.

Passamos pelo Kopper, a vídeo locadora onde pegávamos os filmes mais estranhos que alguém da nossa idade poderia assistir. Ainda lembro-me da nossa maratona de “Princesas Disney”... E claro, naquela época ainda não lidávamos com a internet, então contávamos com um celular com câmera fotográfica e a impressora que a vídeo locadora — com um “quê de papelaria” — tinha para imprimir nossas fotos mais constrangedoras e colocá-las em nosso caderno.

Ri da careta que Erza fez, provavelmente estava lembrando-se da vez que tiramos uma foto dos pés sujos de Juvia e falamos para o atendente que eram os pés de Erza.

Fomos saindo de nosso devaneio quando passamos pelo departamento da Polícia Civil. Parecia ter certa agitação lá dentro... Não que aquilo fosse muito frequente na nossa época, mas nos dias de hoje era bem possível.

De repente um homem alto, vestido socialmente saiu do estabelecimento, parecia estar com pressa... Ele era ruivo, um ruivo diferente, num tom mais claro. Na verdade o cara era atraente, pelo menos de longe. Parecia ser um dos policiais... Será? Mas devia ser novo, porque ele não me parecia familiar.

Antes de entrar em seu carro, o homem lançou um olhar para onde eu estava e tudo paralisou ao meu redor... Os olhos dele, eu queria poder enxergá-los de perto. Queria poder ver seu rosto de perto. Havia uma magnetismo ali que eu não saberia explicar.

Ele sustentou seu olhar no meu por segundos ou minutos, não sei, fazendo com que um arrepio percorresse minha coluna, mas era um arrepio bom. Parecendo lembrar-se de alguma coisa, logo entrou no carro e saiu dali.

E mais uma vez naquele dia, a sensação de que algo aconteceria me atingiu. Isso já estava virando um incômodo. Um incômodo agradável, talvez.

Notas finais
É isso, gente... Prometo que no próximo, a história começa a se desenvolver mais. Pelo menos agora conhecemos um pouco mais sobre as personalidades das meninas... Gostaria de dizer que fiquei imensamente feliz quando recebi reviews, dizendo que talvez fizessem um "caderno de memórias". Fiquei feliz mesmo, e aconselho que façam. É muito, muito, muito bom! E então, o que acharam? Quem será o misterioso ruivo? Acho que não preciso dizer, não é? Enfim, era isso. Por favor, comentem. Eu fico muito feliz com isso também! Beijos e até o próximo!