Cadeira de espaldar de Deus
1 Oração no fim de tarde
É uma dessas cidades a beira da estrada. Sem nenhum atrativo específico, as únicas pessoas que entram nela são moradores voltando do trabalho em outras cidades ou turistas que tenham conseguido se perder numa estrada totalmente reta.
É uma cidade como qualquer outra. Seus pontos de referência se referem às atividades mais antigas conhecidas pelo homem: prostituição e religião. O prostibulo, a Casa de burlesco e entretenimento adulto da Madame Desiré, num casarão da virada do século passado erguido justamente para tal fim contrasta com a Igreja que, depois de décadas em pequenas garagens e galpões com tetos de zinco e amianto, se encontra numa construção ampla e moderna, mas com arquitetura vinda diretamente do século XVIII para emular a ideia de longevidade e tradição, coisas das quais o pastor e sua paróquia não usufruem.
Não há nada a se fazer nessa cidade. A menos é claro que alguém considere a ideia de passar o dia se divertindo com garotas não tão novas quanto dizem ser e, ou, se confessando para um pastor tão rígido quanto dizem. Cercada pelas plantações de uma refinaria de açúcar serve basicamente como morada para os trabalhadores que lavram a terra com seu suor. Ao fim do dia retornam para suas casas apenas para iniciar tudo novamente no dia seguinte.
Nada de especial acontece nessa cidade. Pessoas trabalham, transam e confessam seus pecadores. Assistindo ao cotidiano da cidade durante uma semana é possível prever o que vai acontecer na semana seguinte e o que aconteceu em anos passados. Mas coisas espetaculares acontecem até nos lugares mais enfadonhos. E é por algo espetacular que essa história está sendo contada.
Saindo do mirrado centro comercial, composto basicamente por um restaurante e lojas de menor importância, e seguindo por ruas desertas e poeirentas em direção a casa das meretrizes, chega-se a um pequeno salão com os tijolos corroídos e desbotados pela ação vil e implacável do tempo. Uma loja de móveis usados ou, para ser mais exato, "Moveis uzados" de acordo com a placa pendurada na entrada. Entre pilhas de cadeiras desencontradas, camas sem estrado e uma legítima Frigidaire que custaria dez vezes mais em qualquer loja retrô da capital encontra-se o proprietário do estabelecimento, com seu sorriso aberto e roupas casuais, pronto para atender os raros clientes ou simplesmente cumprimentar os transeuntes.
O estereótipo perfeito de loja pequena do interior só é quebrado pela imponente cadeira na qual senta em frente a sua loja. Uma cadeira sólida de mogno envernizado até alcançar um tom de marrom extremamente escuro, quase negro. Almofadas de veludo rubro no assento e no encosto ornado com um padrão rico de entalhes que se estendem até os apoios laterais que também são acolchoados com o mesmo material do restante da cadeira. Tal mobília destoante do restante da loja foi um presente dado ao seu falecido pai pela Madame Desiré original. Ambos já deixaram esse mundo há muito tempo, mas a cadeira continua em excelente estado e seu novo proprietário faz questão de mantê-la impecável, da mesma forma que a recebeu quando assumiu os negócios da família ainda na adolescência devido à morte precoce dos pais.
Mesmo que todo homem tenha seu preço, ele garante que essa é a única peça que não está disposto a vender, mesmo tendo recebido propostas exorbitantes diversas vezes. A última delas feita pessoalmente pelo pastor da cidade, que afirmou que a cadeira seria uma interessante e abençoada aquisição para ser posta no altar e simbolizar o aumento e solidez de seu rebanho. Parecia realmente disposto a gastar o dízimo de seus fiéis, alguns pagando tal quantia de forma extremamente sofrida, num objeto de origem reconhecidamente profana.
Seu Carlos, com seu sorriso habitual e se desculpando da forma mais culta que sua baixa formação acadêmica permitia, relembrou o pastor esse pequeno detalhe como motivo para recusar a oferta e foi recebido com o sorriso mais amarelo que uma pessoa seria capaz de dar. A cara fechada de desaprovação do pastor, ao sair com passos duros da loja, deixou claro para qualquer um que estivesse na rua o que havia acontecido. Desde então passou a ser tratado como persona non grata e os fiéis foram persuadidos a não realizar negócios com ele.
Não que gozasse de boa reputação antes do ocorrido. Seu Carlos representava o único ponto de interrogação de toda a cidade e numa comunidade tão pequena quanto essa isso acaba ganhando grande importância e causa diferentes reações nas pessoas. Mesmo os moradores mais antigos são incapazes de precisar fatos da infância e mocidade dele. Lembram-se de seus pais, Francisco e Josefina, vitimados em um terrível acidente de carro há mais de meio século atrás, mas o filho do casal é uma incógnita total. Alguns afirmam que ele mantém a mesma aparência durante anos a fio enquanto todos seguem o ritmo normal do tempo, envelhecendo e se deteriorando. Não tem qualquer tipo de documento, apenas um certificado de conclusão, já ilegível, do primário e impossível de ser verificado, pois a dita escola já fechou há muitos anos. Não se recusa a responder qualquer tipo de pergunta sobre sua vida regressa, mas as respostas são sempre rechaçadas como mentiras e lorotas. As crianças são ensinadas a evitar as proximidades de sua loja e muitos adultos se sentem desconfortáveis e desviam o olhar se o encontram na rua.
Mesmo com essa aura que afasta as pessoas e a proibição explícita do pastor, as pessoas continuam a frequentar sua loja sempre que precisam se livrar de algum cacareco sem utilidade. Ou simplesmente troca-lo por outra coisa que julgue mais útil. Graças a essa desobediência por parte do seu rebanho o pastor ficou sabendo de algo que estava deixando a cidade em polvorosa.
Seu Carlos havia trocado de cadeira. O imponente trono de veludo estava agora nos fundos da loja, ao lado de um humilde catre que usava para tirar uma soneca depois do almoço. Uma simples cadeira de carvalho tomou seu lugar na recepção dos clientes. Trocar um confortável e impecável trono por uma simples cadeira com verniz gasto e lascado atiçou a curiosidade mesmo daqueles que preferiam manter distância de tudo relacionado a ele.
A história que foi passada foi a seguinte: um certo dia, perto do horário de fechar, um rapaz usando um sobretudo marrom apareceu carregando a cadeira. Disse ser um funcionário da refinaria que havia recebido a tarefa de descartar alguns móveis usados e pensou que Carlos poderia se interessar por alguns deles. De fato, a caminhonete que o rapaz dirigia estava com alguns móveis e eletrodomésticos interessantes, mas foi justamente a cadeira gasta, que o rapaz afirmou que jogaria fora, que chamou sua atenção. Pensou que seria interessante usá-la para treinar suas habilidades de carpintaria, por isso pediu ao rapaz que a vendesse junto com o resto das outras coisas. No entanto, mesmo depois de verificar tudo que deveria ser consertado, foi acometido por uma certeza que não deveria mexer nela de forma alguma. O encosto e assento totalmente retos se mostraram mais confortáveis do que seria de se supor e, muitos reviraram os olhos ao ouvir isso, sentia uma calma e paz de espirito inabaláveis sempre que sentava nela. Não soube precisar a aparência do rapaz da refinaria, se lembrava apenas do longo cabelo negro, o que o fez classifica-lo com hippie, e das cicatrizes no dorso e na palma das mãos.
A história foi passando de boca em boca até que chegou ao conhecimento do pastor. Ficou irritado e esbravejou penitências contra a blasfêmia cometida pelo seu rebanho, pois alguns já consideravam a cadeira como algo divino. A descrição do rapaz, mesmo que imprecisa, servia justamente para alimentar ainda mais esse boato. “Esse tolo foi tocado pelo diabo e não é capaz de perceber isso. Mas o que mais me entristece é que até mesmo os senhores, que se dizem tementes a Deus, estão sendo ludibriados por tal entidade maligna. Orai e sigam os ensinamentos que lhe são passados pelo Senhor, do qual eu sou apenas um mensageiro de sua palavra” terminava assim todos os seus cultos desde que Seu Carlos passou a declamar as maravilhas de sua nova cadeira para todos que estivessem interessados em ouvir.
De início, não haviam muitos. Mas o medo do contato com o peculiar dono da loja de móveis usados da cidade foi aos poucos sendo superado, conforme as pessoas comprovavam por si mesmas a natureza mística da cadeira. Mesmo os mais temerosos e céticos afirmavam uma grande melhora de espírito quando sentavam na cadeira e ouviam as palavras de alento e motivação de seu dono. Alguns até mesmo afirmavam sentir realmente a presença de Deus.
O pastor continuou impassível, mas era inegável que isso já estava afetando sua congregação. Os fiéis já não o procuravam com tanta frequência quanto antes e até mesmo faltavam aos seus cultos, coisa que nunca havia acontecido. Passou a ver seus fiéis e outros moradores da cidade se aglomerarem naquela loja como se ela tivesse virado um ponto de encontro ou atração turística da cidade. Se reuniam para falar sobre coisas do cotidiano e outras banalidades. Todos bem-vindos e tratados como iguais, desde as prostitutas da Madame Desiré até os trabalhadores da refinaria e seus filhos. Seu Carlos falava para todos e com todos, mesmo que em sua simplicidade não entendesse o real significado daquilo que aquele povo todo estava fazendo em frente a sua loja.
Mas o pastor sabia. Estavam testemunhando o nascimento de uma nova religião e, como todos sabem, a cidade é pequena demais para ter dois mensageiros da palavra do Senhor. Sabia que novas propostas de compra da cadeira bastariam apenas para mostrar aos fiéis que já estava desesperado para recuperar seu rebanho, sem contar que as doações já haviam diminuído bastante ao ponto de terem dificuldade para manter as novas instalações que eram o orgulho e representação do sucesso do pastor. O nascimento de uma nova religião e a morte de outra.
Mas ele não estava disposto a permitir que isso acontecesse.
Junto com os fiéis que ainda lhe restavam e transeuntes que simplesmente o acompanhavam com pura falta do que fazer, marcharam pelas ruas poeirentas em direção a loja de “Moveis uzados”. Chegaram lá pouco antes do crepúsculo e viram uma horda de moradores reunidos sobre o brilho vermelho do sol, ouvindo atentamente cada palavra que Seu Carlos dizia enquanto se revezavam para sentar na cadeira, que agora era chamada por todos de Altar do Profeta. Mais que apenas um mensageiro, com sua gramatica simples e roupas casuais, Carlos havia se tornado um profeta para aquelas pessoas.
― Vergonha! Vergonha! ― gritou a plenos pulmões e atraiu a atenção de todos ― É apenas isso que posso sentir vendo tantos desgarrados e pederastas reunidos para venerar esse homem como a um Deus. Pessoas que julguei serem gente de bem, tementes a Deus, dividindo o mesmo espaço com mulheres que ganham a vida em pecado, contra os princípios da boa fé cristã. E para que? Ouvir palavras torpes e vazias desse homem tocado pelo diabo. Todos vocês estão enveredando pelo caminho da perdição e nada de bom os espera nele. Inferno, irmãos e irmãs, é isso que os espera ouvindo esse pecador. Me entristece saber que parte disso é culpa minha. Falhei na minha missão divina de guia-los para a salvação, mas ainda há tempo. Se arrependam, provem que são pessoas honradas, voltem para o caminho certo e permitam que eu os guie novamente. Deixem que Deus sinta orgulho de vocês novamente.
Silêncio. As palavras pesam no ar enquanto todos permanecem calados. Talvez pensando em suas ações nos últimos dias. Seu Carlos, antes alegre por finalmente se entender com o resto da cidade e por poder ajuda-los, enrubesce de vergonha, como que admitindo seu erro mesmo que saiba não estar fazendo nada de mal. Antes que possa falar alguma coisa e se desculpar pelas coisas que é acusado, uma confusão generalizada começa. Algumas pessoas que estavam na loja tentam voltar para casa, mas são impedidas pelo conjunto de moradores que acompanham o pastor e assim começa o empurra-empurra que logo evolui para uma grande briga que ocupa a rua inteira. Vizinhos trocando socos entre si apenas por divergências de pontos de vista. Carlos tenta apaziguar os ânimos de todos enquanto algumas pessoas insistem que ele deve ir para algum lugar seguro. Suas palavras já não fazem mais efeito. De repente, um brilho laranja e calor atingem os manifestantes. A loja está pegando fogo. Labaredas lambem as paredes e o cheiro de plástico derretido. O som da madeira dos móveis crepitando pelo calor. Aparelhos caindo das paredes e cd’s queimando com chamas coloridas e bruxuleantes. Todos param para assistir a loja queimando, sabem que é impossível fazer algo para salvá-la. É possível ver o trono queimando e se desmanchando ao fundo, enquanto o proclamado Altar do profeta permanece na entrada sem ser atingido pelas chamas. O pastor corre em sua direção, talvez para saciar sua cobiça e tomar para si tal objeto que afirmam ser divino, mas Seu Carlos é mais rápido. Agarra o espaldar da cadeira e a atira no meio das chamas. A cadeira caí tombada dentro da loja e, por um momento, parece afastar as chamas de si, mas logo é possível ouvir sua madeira rachando e ficando negra momentos antes do teto desabar. Pouco a pouco, todos se afastam sabendo que tudo chegou ao fim.
Peritos, tanto os policiais como os contratados por alguns moradores, não foram capazes de descobrir a causa do fogo. A origem do fogo foi o trono e algumas notas fiscais, mas não encontraram o que pode ter iniciado o incêndio. Como se tivessem sofrido combustão espontânea. Dizem que Seu Carlos, abalado com o ocorrido, se mudou para cidade grande apenas para encontrar sua morte. Afirmam que seu corpo definhou rapidamente, como se todos aqueles anos que não passaram para ele o tivessem encontrado de uma só vez. A igreja, incapaz de arcar com os custos da nova sede, voltou a operar numa pequena garagem cedida por um frequentador. O pastor segue com seus sermões como se nada tivesse ocorrido naquele dia. Mas, se você sair do centro comercial em direção à Casa da Madame Desiré, mesmo depois de passado todo esse tempo, vai encontrar as ruínas queimadas de um pequeno salão. Talvez possa encontrar algum fiapo de veludo vermelho esquecido muito tempo.
Ou até mesmo sentir o cheiro característico de carvalho envernizado.
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