Cada dia da minha vida
3 Capítulo 3 – Gravado no coração
Notas iniciais
Capítulo 3 – Gravado no coração

Os trovões gritavam sobre Artena enquanto a chuva forte banhava a cidade. A feira já estava vazia, e poucas pessoas ainda eram vistas correndo em busca de abrigo, mas Amália estava andando por entre as barracas, tão pensativa que parecia nem notar a noite chuvosa. Vinha tendo flashes de memória, sonhos estranhos e inexplicáveis, suas emoções estavam confusas como nunca. Afonso tinha vindo ao encontro dela, ferido, e se sentiu angustiada e inclinada a ajudá-lo ao perceber isso, embora não soubesse porque. Virgílio a convidava para alguns passeios e ela se sentia desconfortável quando alguma memória que ela não reconhecia vinha rapidamente a sua cabeça. Continuava mantendo segredo sobre o bebê. Ele ainda era dela, por mais que não lembrasse de como tinha acontecido, e queria seu filho bem. Virgílio era ciumento, poderia surtar se descobrisse. O que ela iria fazer quando ele percebesse, não tinha a menor ideia, mas essa era sua escolha agora.
Saindo de seu transe, olhou para cima, deixando as gotas de chuva baterem no seu rosto. Por alguma razão isso pareceu muito familiar, e ela se sentiu feliz e em paz, mas vazia. No entanto não conseguia lembrar do que faltava. Logo alguém viria atrás dela se demorasse mais a voltar para casa, já devia ter voltado. Se queria seu bebê bem, não podia se permitir adoecer. Caminhou com pressa para longe da chuva e na direção da casa. Afonso estava morando no castelo agora, tendo aceitado o convite do rei Augusto para liderar o exército do reino após se sair bem resgatando a princesa Catarina de um sequestro cometido pelo duque Constantino, agora foragido. Se ele estivesse em casa e notasse sua falta nessa chuva forte, viria atrás dela? Mesmo que não lembrasse de nada e ainda tivesse sido rude com ele algumas vezes? O quanto Afonso também amava esse bebê? Ele teria contado a alguém do castelo a respeito? Sua mãe lhe dissera que ele concordara em manter segredo por enquanto, especialmente por causa de Virgílio, que era odiado por toda sua família, embora também não lembrasse porque.
******
Amália observou pela janela Virgílio ir embora. Conseguira convencê-lo a deixá-la sozinha. Quando o noivo foi embora, ela olhou para baixo e acariciou a barriga, logo se tornaria difícil esconder aquilo de Virgílio, em algum momento ele perceberia. Ela vinha tendo sonhos... Sonhos que se repetiam. Tropeçando em algo na floresta, mas quando olhava não havia nada e nem ninguém. Então dias depois o sonho mudou. Um homem ferido na floresta, caído entre o capim alto do campo, no mesmo lugar onde antes não havia nada. Amália o encontrava da maneira mais inusitada possível, tropeçando nele. No primeiro sonho pensou estar no meio de uma guerra, encontrando um homem morto. Mas tudo permanecia calmo ao seu redor, e ele respirava. Amália tentava acordá-lo, mas ele não reagia. Ela queria focalizar seu rosto e identificá-lo, mas não conseguia. Então de repente ele segurava sua mão e ela o olhava surpresa, mas sempre acordava antes de poder ver seu rosto. E por algum motivo se sentia desesperada para lembrar, como se um importante tesouro perdido pudesse ser encontrado em tais sonhos. Conseguia sentir que algo faltava, como se fosse tirado dela, mas o que poderia ser?
******
Amália trabalhava em sua barraca de caldos, mas imersa nos próprios pensamentos uma vez que no momento não havia nenhum cliente. Diana a estava ajudando hoje, e a observando atentamente. Na verdade já chamara a amiga uma vez, e Amália não tinha notado. Diana a observou, pensando no que poderia estar ocupando seus pensamentos. Virgílio não sabia do bebê, ainda, Amália havia dito. Logo ela se aproximaria dos três meses de gravidez e para olhos atentos, coisa que Virgílio sempre tinha quando se tratava de praticar algum mal, ficaria fácil perceber. De repente Diana assustou-se quando Amália derrubou uma tigela no chão, que por sorte não quebrou, e preparou-se para amparar a amiga de outro possível desmaio. Mas ela estava apoiada na bancada de trabalho, com um olhar assustado. A loura apanhou o item e o colocou em cima da bancada antes de chamá-la.
— Amália...? Amália?
A ruiva inspirou fundo e ficou numa postura mais ereta, com o olhar ainda perdido. Flashes estranhos tinham surgido repentinamente em sua cabeça. Um homem ferido deitado em sua cama, no seu quarto, na sua casa, os dois conversando na cozinha, os dois olhando as estrelas à noite, e outra lembrança menos clara dos dois conversando em outra noite e ele quase caindo, ainda ferido. Mas ainda não conseguia ver seu rosto. E tinha certeza que não era Virgílio.
— Amália? – Diana tornou a chamar – Você está bem? – Perguntou, agora de fato preocupada.
— Sim. Eu só...
— Da última vez que me disse isso, você desmaiou.
Amália olhou confusa para a amiga, não se lembrava disso.
— Amália, o que aconteceu?
— Diana, me diga, sinceramente... Já abriguei alguém ferido em minha casa?
A loura arregalou os olhos, e seu coração se agitou. Amália estava lembrando de alguma coisa? Diana não sabia o que exatamente acontecera na primeira estadia de Afonso na casa da família, mas sabia que Amália e Tiago o haviam levado ferido para casa e cuidado dele. E que Virgílio aparecera furioso certo dia após visitar a casa de Amália na noite anterior, falando sobre um desconhecido ferido que a família estava abrigando.
— Sim – Diana falou com um pouco mais de empolgação do que pretendia, automaticamente se contendo e olhando em volta buscando por sinais de Virgílio, agradecendo por não vê-lo – Meses atrás você e Tiago encontraram Afonso ferido na floresta e o levaram pra casa.
Amália arregalou os olhos. Os sonhos... Agora faziam algum sentido. E Tiago também lhe dissera que haviam encontrado Afonso ferido o levado para casa, onde cuidou de seus ferimentos dia e noite, segundo o irmão, embora ainda não se lembrasse.
******
— Aquele beijo... Eu sei que você sentiu algo.
Amália lembrou... Ela sentiu raiva, mas só depois de se perder por alguns segundos o beijando de volta, e não sabia porque tinha feito isso. E certamente não fez porque estava grávida dele. E bateu nele. Por algum motivo sentia como se já tivesse feito isso antes.
— Me deixa em paz.
— Agora é só uma questão de tempo, Amália. Eu sei que você vai lembrar de tudo. Porque a nossa história não tá só na sua memória. Ela tá no seu coração também.
A plebeia o encarou por mais um instante antes de se virar e caminhar para longe. Os pensamentos e os sonhos confusos se embaralhavam em sua cabeça, a fazendo se sentir triste e assustada. Uma parte dela se sentia perseguida, e odiava isso. A outra fazia um esforço imenso pra tentar lembrar de algo que esclarecesse tudo isso, mas não conseguia, e isso a deixava nervosa.
— Minha irmã, o que...
— Vamos embora!
— Amália...
— Você armou tudo isso.
O mais jovem desviou o olhar e passou as mãos pelo cabelo tentando pensar em como lidar com a situação.
— Minha irmã, eu nunca faria nada pra lhe fazer mal. Você sabe disso. Eu só achei que trazendo você aqui, onde tudo aconteceu, podia ajudar a lembrar de alguma coisa, a esclarecer seus sonhos. Afonso é um grande homem, uma das pessoas mais nobres que já conhecemos em toda a vida, e eu lhe garanto isso. Ele ama você como eu nunca vi uma pessoa amar alguém.
A ruiva não disse nada, apenas subiu na carroça esperando pelo irmão. Sabia que não podia evitar Afonso para sempre. Se o seu bebê era mesmo dele, em algum momento teriam que falar sobre isso, e pensar no que fazer.
******
— Mamãe...
— O que, minha filha?
Constância sentou na beirada da cama, observando sua primogênita triste e com um olhar perdido. Ela acariciava a barriga.
— Ainda não acredita que está grávida?
— Acredito. Eu sei.
— Como posso ajudar você agora?
— Como foi?
— Como foi o que?
— Que descobrimos? Diana disse que eu desmaiei na feira uma vez, mas não me lembro disso.
Constância sorriu, talvez o primeiro sorriso radiante e sincero que dava depois do acidente de Amália.
— Só Diana estava com você. Na feira durante a manhã. Foi logo depois que você e Afonso voltaram da lua de mel. Ela disse que vocês estavam conversando, então você parou de falar e ficou muito estranha.
Amália encarou a mãe atentamente, querendo ouvir mais.
— Ela perguntou se você estava bem, mas você se queixou de uma tontura. Antes que você falasse mais alguma coisa, desmaiou. Diana evitou que você batesse no chão. Outras feirantes ficaram cuidando de você enquanto ela foi chamar Afonso e Tiago na ferraria. Depois voltou e ajudou a trazer você pra casa. Você chegou aqui ainda inconsciente, acordou enquanto o médico cuidava de você.
— Ele estava aqui?
— Chegou logo que o médico saiu desse quarto e nos contou – a mais velha sorriu – Afonso ficou tão feliz. Tão feliz que parecia uma criança. Vocês dois ficaram tão felizes. Todos nós ficamos. Comemoramos. Você reclamava que não queria ser superprotegida, mas ele só queria ter certeza que você e o bebê estariam sempre bem. Afonso, Diana e Tiago seguiam você como guardas de um castelo protegendo uma princesa, como continuam fazendo.
Os olhos verdes marejaram. Como podia não lembrar de algo tão lindo? Como podia não ter certeza se tinha mesmo acontecido? Quem era realmente o vilão de tudo isso? O que faria quando Virgílio descobrisse?
— Você precisa conversa com ele em algum momento.
— Eu sei.
— E Virgílio...
— Eu não sei porque vocês o odeiam tanto. Ele é ciumento, e isso é tudo que me lembro.
— E agressivo. E mau. Em algum lugar eu sei que você sabe disso também, e em algum momento vai se lembrar. Você pode ter adiado o casamento por causa do torneio e da feira, mas no seu coração você sabe que não foram os únicos motivos.
Tiago tinha dito a mesma coisa mais cedo. Se isso era verdade, ela precisava fugir. Ou terminar com Virgílio, antes que ele descobrisse sobre o bebê.
— O que eu faço? – Ela sussurrou, agora deixando as lágrimas caírem por seu rosto.
Constância puxou a filha para um abraço, beijou seu rosto e acariciou os cabelos longos.
— Ainda não sei, mas tudo vai ficar bem.
Fale com o autor