Cada dia da minha vida

23 Capítulo 23 – Família


Capítulo 23 – Família

Amália não viu Afonso ao despertar de manhã. A casa estava silenciosa, então todos ainda deviam estar dormindo. Sentou-se com cuidado na cama, acariciando a barriga e sorrindo num bom dia silencioso ao bebê. Afonso entrou logo depois, trazendo dois copos com água.

— Bom dia, meu amor – ele falou baixinho com um sorriso, confirmando que todos deviam ainda dormir, e lhe entregou um dos copos, que ela bebeu imediatamente, enquanto ele fazia o mesmo, só então percebendo o quanto estava com sede.

Afonso sentou ao seu lado e esperou que ela terminasse e colocasse o copo na pequena mesa ao lado da cama. Ele a envolveu com um braço e beijou sua testa.

— Eu acho... Que seria bom procurarmos um médico. Ter certeza de que está tudo bem.

Ela assentiu em concordância.

— Há um médico em Montemor? O que aconteceu com o de Artena?

— Sabemos que ele sobreviveu. Sua mãe e Diana chegaram a falar com ele logo ao fim da guerra enquanto procuravam você, mas não o vimos em Montemor. Creio que seguiu pra viver em outro reino. Mas temos um sim. Lupércio é médico do reino há bastante tempo e tanto no castelo quanto na cidade já atestamos sua competência. E é uma boa pessoa. Posso trazê-lo aqui quando você se sentir confortável.

— Acho melhor não esperar. Talvez devêssemos fazer isso hoje...

— Não precisa ser hoje. A mandingueira disse que vocês estão bem. Acabamos de chegar, muitos ainda acreditam que perdemos você.

— Você acha que minha presença vai ser um choque pras pessoas?

— Provavelmente. Nossos amigos de Artena ficarão felizes quando virem você bem.

— Como as pessoas daqui estão reagindo a isso? A nosso povo?

Afonso sentiu o peso da conversa que já esperava ter com ela, embora desejasse não precisar. Nem todas as notícias eram boas.

— Não posso mentir pra você. Nem todos aceitaram bem. Algumas pessoas foram muito solidárias e compreensivas, outras se sentiram ameaçadas, como se o reino estivesse sendo invadido, e chegaram a discutir com alguns artenianos.

— É exatamente o que fizeram conosco.

— Eu sei... Mas pouco a pouco eles terão que aceitar, Amália. Infelizmente Montemor tem sua parcela de culpa pelo que houve. E como eu lhe disse, você verá que aqui também há pessoas muito boas.

Ela assentiu.

— Não sei por onde começar. Tenho muito a resolver.

— Por você e nosso filho. Vamos chamar Lupércio, ele é confiável, não dirá a ninguém o que veio fazer aqui. Nós vamos decidir como isso vai ser. Vamos descansar hoje, conversar com nossa família, esclarecer tudo, falar com Levi... Contar sobre os seus lobos.

Afonso abriu um sorriso satisfeito quando Amália finalmente riu.

Meus lobos?

— Você é uma pessoa tão amável e encantadora que nem os animais mais perigosos deixam de perceber.

Ela riu novamente.

— Queria que você estivesse lá. E Levi. Ele ia gostar. Foi divertido, apesar de assustador.

— Tenho certeza que sim. Quem sabe um dia.

— Onde estão todos?

— Dormindo. Ainda é cedo. O sol mal nasceu.

Amália assentiu novamente, e virou para ele, repousando em seu peito e permitindo que Afonso a abraçasse.

— Tudo bem?

— Sim... Eu só... Senti muita falta disso.

Ele sorriu, ao mesmo tempo que seu coração apertou.

— Eu também. Mas nunca mais vamos precisar sentir isso de novo.

Amália o olhou, e Afonso se abaixou para alcançar seus lábios. O bebê começou a chutar enquanto se beijavam, suavemente, não parecendo incomodado. Os dois sorriram e continuaram o beijo, entrelaçando os dedos de uma das mãos e derramando cada segundo que sentiram de saudade naquele beijo.

******

Quando os dois decidiram ir à cozinha minutos mais tarde, ainda muito cedo para todos estarem acordados, encontraram Levi sentado sozinho em uma das cadeiras da mesa. O garoto parecia pensativo e distante, e levou algum tempo para perceber os dois parados ao seu lado.

— Você está bem, Levi? – Amália lhe perguntou.

O garoto respondeu com um aceno positivo de cabeça.

— Ei... – Afonso começou tentando deixar o menino mais relaxado – Podemos conversar?

Ele assentiu novamente, e os dois se sentaram ao seu lado. Afonso refletiu um pouco, tentando decidir como começar aquela conversa, que em seus pensamentos parecera muito mais fácil do que realmente era agora. E só então a verdade pousou em seus ombros. Ele já era pai, mesmo que seu bebê ainda não tivesse nascido. E de duas crianças, um bebê e um menino de doze anos já marcado pela vida, apesar de tão jovem. Talvez fosse fácil para Levi aceita-lo, uma vez que mal convivera com o pai, e que já era apegado a ele. Mas a perda de Samara ainda era recente para que o mesmo ocorresse tão fácil com Amália. E isso exigiria muita paciência dos três.

O ferreiro olhou para a esposa, e o olhar que Amália lhe devolveu lhe deu total certeza de que ela o estava observando, que tinha acompanhado seus pensamentos, e que estava bem com aquilo. Afonso entrelaçou seus dedos com os dela em cima da mesa e encarou Levi.

— Levi... Eu acho que você sabe do que queremos falar.

— Sim, eu sei. É o que sempre dizem quando algo assim acontece.

O casal não perdeu os sinais do coração ainda ferido e fragilizado do garoto, já tinham notado que às vezes Levi podia falar de maneira que parecia precipitada ou rude tentando se proteger de mais momentos dolorosos.

— É verdade. Mas ainda não foi dito pra você. E nós queremos que fique claro que você não é qualquer pessoa pra nós – Afonso respondeu, conseguindo finalmente que o garoto os encarasse de volta com alguma disposição real para a conversa – Todos nós passamos por muito recentemente, principalmente você. Nós sabemos que faz pouco tempo, que ainda dói, e que jamais algo ou alguém vai reparar a perda que você sofreu.

Levi assentiu em silêncio, fazendo um esforço admirável em conseguir manter as lágrimas apenas brilhando em seus olhos.

— De agora em diante você vai viver conosco – Amália começou, tentando ser cuidadosa com as palavras – E não vamos deixar você por nada.

— Vocês logo vão ter um bebê. Vão ficar muito ocupados.

— Sim – Afonso lhe disse – Seu irmão. E você nos ajudará a cuidar dele. Bebês não dão só trabalho o tempo todo. Eles trazem muitos bons momentos – Afonso sorriu.

— E com um irmão mais velho tão forte nos ajudando a cuidar dele, tenho certeza que crescerá feliz. Claro que no início o bebê vai precisar de muita atenção, mas ainda assim estaremos aqui sempre que você precisar.

— Amália está certa. Vamos crescer juntos.

— Como se você fosse meu pai...

— Sim

— E como se você fosse minha mãe.

— Você não precisa nos chamar assim se não quiser – Amália lhe disse – Mas quero que saiba que estamos aqui pra você.

— Ninguém vai tomar o lugar dela.

— Eu não quero tomar o lugar da sua mãe, e nunca vou querer. Samara foi nossa amiga mesmo antes de nos pedir pra cuidar de você, e nunca vamos esquecer a grande mulher que ela foi ou querer mudar o lugar que ela sempre vai ter na sua vida. Mas novamente eu lhe digo que nada vai lhe faltar e que você não ficará sozinho, Levi.

O garoto deixou lágrimas silenciosas caírem enquanto refletia. O casal se entreolhou pensando no que fazer, e decidiram deixá-lo chorar. Não era bom aprisionar dores fortes, pois tendiam a consumir qualquer pessoa de dentro para fora.

— Você não será menos nosso do que seu irmão – Amália falou quando o menino secou os olhos alguns minutos depois – E nesse exato momento acho que ele está ansioso pra conversar com você pela primeira vez. Você quer senti-lo? – Amália lhe estendeu a mão com um sorriso.

Por um instante a plebeia temeu que Levi fosse recusar, mas ele assentiu e permitiu que ela guiasse sua mão ao local em que o bebê se movia sob suas roupas. Afonso observou a cena encantado, sentindo o coração pular quando Levi riu.

— Eu nunca tinha feito isso antes.

— Nunca? – Afonso perguntou – Vocês nunca tiveram parentes próximos com crianças?

— Não. Chuta mais forte do que eu pensava.

— É verdade. Pra alguém que deve ser tão pequeno, parece ser muito mais forte do que poderia – Amália lhe disse – E ele ainda chuta mais forte que isso às vezes.

— E se for uma menina?

— Vamos ficar felizes do mesmo jeito – Afonso falou – E você vai ser o guarda-costas dela.

Levi riu, as lágrimas completamente esquecidas agora.

— Já sabem que nome vão dar?

— Conversamos sobre isso algumas vezes e já temos nomes, mas ainda vamos tomar uma decisão final – Amália respondeu – Você poderia nos ajudar.

— Nada mais justo do você ajudar a escolher os nomes dos seus irmãos.

— Mas como sabem que vai ser mais de um?

— Não sabemos – Afonso disse – Mas esse é o primeiro. Os nomes que sobrarem guardamos pros próximos.

Amália riu.

— Você está mais ansioso do que eu – ela disse.

— E quais são? – Levi perguntou.

— Bem... Nós pensamos em Davi se for um menino. Significa aquele que é amado – Afonso falou – E Mia se for uma menina. Tem significados diferentes em alguns lugares, mas alguns deles são amada, perfeita e rebelde.

— Eu gostei – Levi lhes disse – Onde você aprendeu isso? Sabe os significados de todos os nomes?

— Não – Afonso falou – Existem muito mais nomes no mundo inteiro do que qualquer pessoa poderia aprender. Mas minha avó me falou de alguns, outros aprendi durante meus estudos ou em livros que tínhamos no castelo. Levi, por exemplo, significa união ou alguém que está unido a outra pessoa.

— Exatamente como você vai nos manter ainda mais unidos agora – Amália falou, segurando a mão do garoto com gentileza enquanto Afonso os abraçava e beijava os cabelos dos dois.

Dentro dos quartos dos que supostamente ainda estavam dormindo, Constância e Martinho, Tiago e Diana sorriram ao ouvir a conversa entre pais e filho, que tinham feito questão de não interromper.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.