Cada dia da minha vida
17 Capítulo 17 – Eu te amo
Capítulo 17 – Eu te amo
A plebeia sentiu o bebê chutar, e instintivamente levou a mão ao local onde sentiu o movimento, não sabendo se queria tranquilizar o bebê ou a si mesma.
Amália pegou sua cesta e levantou o mais lentamente que era possível, evitando olhar nos olhos cor de âmbar do animal. Mesmo assim a loba rosnou mais alto quando o filhote finalmente chegou a seus pés, e emitiu outro ruído que até parecia um latido. Amália recuou alguns passos quando o pelo da loba se eriçou, e ela abaixou a cabeça e ergueu os ombros em sinal de ameaça. Escaparia se corresse? Ou era melhor arriscar esperar que os dois fossem embora?
Continuou andando de costas, não se atrevendo a baixar sua guarda, mas então a cena se tornou estranha. Ainda que ela avançasse, os dois lobos não saíam do lugar. O filhote que poucos minutos atrás brincara feliz com ela, agora estava sentado embaixo de sua mãe, com as orelhas caídas e um olhar amedrontado. Somente quando se atreveu a encarar a mãe de novo, Amália viu que a loba rosnava não para ela, mas para alguma coisa ou alguém mais além entre as árvores, atrás dela! As lembranças de Virgílio naquele dia a amedrontaram ainda mais, e sentiu-se encurralada, procurando rotas de fuga pelos lados.
Olhou para trás, preparando-se para correr em outra direção, mas não havia ninguém. Seus olhos continuaram rastreando a floresta, não conseguindo ver nada de anormal. De repente o rosnado da loba diminuiu e Amália olhou para onde estava antes, vendo-a rosnar agora para o lado, e depois para trás, virando-se e andando de costas com seu filhote na direção de Amália. A plebeia recuou mais alguns passos enquanto pouco a pouco o animal se acalmou até parecer um simples cão inofensivo, e virou-se para encará-la. Seus olhos eram tão penetrantes e de um laranja tão vivo que poderiam facilmente hipnotiza-la. E talvez tivesse acontecido exatamente isso, pois seus pés travaram no chão quando a loba andou em sua direção e o filhote correu novamente para Amália, saltitando em seus pés para brincar de novo.
Sua respiração descompassou e tudo que pode pensar foi em como ela poderia morrer aqui sozinha com seu bebê agora, sem que sua família jamais soubesse, sem que Afonso nunca a encontrasse e nunca descobrisse que ela recuperou a memória. Mas tamanha foi sua surpresa quando a loba abaixou brevemente as orelhas em sinal de simpatia, e fuçou gentilmente sua barriga de cinco meses, já evidente.
Amália respirou fundo e relaxou, finalmente soltando as mãos ao lado do corpo, embora ainda estivesse tremendo, e deixando que a loba a observasse enquanto ela cuidadosamente se abaixava para brincar com o filhote, sem perceber uma mulher que trajava um longo vestido bordô escapando por entre a vegetação, na direção em que a loba estava rosnando minutos atrás. Tão de repente quanto tinha aparecido, ela começou a se afastar, olhando para trás para que o filhote a seguisse. Amália levantou-se, vendo os dois desaparecerem em algum lugar da floresta.
— Amália!
Ela se virou para ver a mandingueira olhando em sua direção. Desde quando ela estava ali? A plebeia não a culpava por não tentar ajudar caso tivesse visto a cena. Que chances ela também poderia ter se fosse atacada?
— Alguém está a caminho por você, mas o perigo também cresce. Felizmente você tem muita proteção.
— A senhora viu?
— Acabei de chegar, mas vi o suficiente. Esses animais são tão mal vistos pelas pessoas quanto qualquer um que seja diferente delas. Não atacam por nada como costumam dizer, mas de fato havia algo ruim por perto. Eles a protegeram.
— E o que ou quem seria?
— Alguém com muitas sombras. É melhor nos recolhermos por hora, ainda que o perigo já tenha passado.
A plebeia assentiu, olhando em volta enquanto seguia a mandingueira de volta para a casa.
******
Brice sorria enquanto observava de longe as duas mulheres voltando pelo caminho de onde tinham vindo. Sua curiosidade tinha vencido dessa vez, e fora divertido brincar com Amália e com os lobos. Isso provava sua inocência, e evitava mais perguntas inconvenientes vindas de Selena.
Finalmente satisfeita, decidiu que era hora de se retirar e voltar a sua casa escondida em outro ponto da floresta.
******
Afonso assustou-se quando o cavalo relinchou e se ergueu nas patas traseiras de repente.
— Shh... – sussurrou acariciando o pescoço do animal para acalmá-lo.
Mesmo após voltar ao normal o cavalo recusou-se a prosseguir e continuou arfando em nervosismo. Teria se machucado durante a noite sem que Afonso tivesse percebido? O ferreiro estava prestes a desmontar quando um enorme lobo cinzento, carregando um filhote na boca, passou correndo alguns metros à frente dos dois, como se fugisse de alguma coisa na floresta. O cavalo voltou a se empinar e relinchar, e Afonso temeu que isso atraísse os predadores, mas não aconteceu. O que poderia haver ali de mais perigoso que os lobos? Ladrões? Caçadores? Fogo? Não havia fumaça à vista. Podia ser qualquer coisa. E Amália podia estar em qualquer lugar.
— Amália!
Tão logo conseguiu acalmar seu cavalo, o fez avançar seguir em frente. Poucos metros à frente as árvores começaram a diminuir, e na terra que podia ser vista entre as folhas caídas no chão e a grama, era possível ver as marcas das patas do lobo. Afonso desmontou do cavalo, segurando o animal pelas rédeas, quando as pegadas começaram a sumir entre a folhagem do chão.
— Acabam aqui...?
Procurou por mais rastros no chão, pensando em como seria útil ter um cão farejador agora. Eles não eram comuns em Montemor, mas sabia que existiam pessoas capazes de treiná-los para isso. Não sabia como reconstituir os passos do lobo o ajudaria a achar Amália, mas se algo relevante acontecera por perto, podia indicar presença humana.
Quase desistiu da busca quando a grama no chão começou a diminuir e pegadas bem menores podiam ser vistas junto às grandes pegadas do lobo, ou loba, essas menos profundas, indicando que no momento em que foram feitas os animais não estavam com pressa, e era seguro o suficiente para que o filhote circulasse pelo local.
— O que aconteceu aqui pra assustar um lobo?
Afonso deu mais alguns passos, abaixando-se quando viu novas marcas no chão, e podia jurar que seu coração parou por um instante, e depois disparou num ritmo capaz de atordoá-lo, de esperança e medo ao mesmo tempo.
— Eu sabia... — sussurrou — Eu sabia...
Tinha todas as chances de estar sendo enganado por seu desespero ou suas memórias, ou de estar perdendo a cabeça, mas no fundo tinha certeza. Eram as marcas das botas de Amália. O mesmo par que ela estava usando quando sumiu. Sabia disso porque era o único que estava faltando entre seus pertences. E eram pegadas recentes! Tão recentes quanto as dos lobos.
— Amália...
Sua cabeça disparou inúmeras teorias de onde ela estaria agora, algumas nada felizes... Mas então raciocinou, se por medo ou dedução não soube dizer. Não havia nenhum rastro de sangue no chão, nem no pelo dos lobos quando os viu. Procurou melhor e viu que até mesmo havia a marca de um cesto no chão. Mas não havia continuidade das pegadas, a grama tomava novamente o caminho em volta. Afonso apenas podia ver que uma das marcas seguira para uma determinada direção, desaparecendo nas folhas. Não aprecia ter sido feita com força ou pressa, então provavelmente ela não fora embora fugindo. Talvez as pegadas dos lobos estarem perto das dela fosse apenas uma coincidência. Talvez eles a tivessem farejado, mas ao chegar já não encontraram nada, ou encontraram outra coisa, talvez o que os tivesse feito fugir e também já estava mais ali.
Levantou-se e tentou respirar, dando tempo para sua mente e seu coração recuperarem o ritmo normal. Pensou em gritar por ela, mas se houvesse mesmo algum perigo invisível, notado apenas pelos lobos, e Amália estivesse por perto, não poderia atrair o risco até ela?
Tomou outra respiração profunda, se forçando a manter o silêncio. Quando decidiu que já estava bem o suficiente, montou novamente no cavalo e seguiu a provável direção das pegadas escondidas pela grama, não notando a segunda trilha de calçados diferentes ainda mais escondida nas folhas em volta.
******
Amália passou pela porta, desejando sentir um pouco a brisa suave da floresta enquanto a mandingueira se ocupava de seus estudos e afazeres diários dentro da casa, não percebendo quando a mulher mais velha sentou-se e jogou seus búzios em cima da pequena mesa onde lia o futuro para as pessoas, e sorriu, lançando um olhar para a plebeia do lado de fora. Mas nada disse. Ela descobriria sozinha. O perigo ainda rondava a vida de Amália, e agora finalmente ela teria um caminho seguro de volta para casa.
A plebeia andou alguns passos adiante, não querendo se afastar muito por hora após o incidente estranho com os lobos. Seus pensamentos vagaram por entre a vista das árvores e voltaram ao ocorrido. Sorriu ao se lembrar. Fora adorável brincar com o filhote, e arriscaria dizer que talvez também pudesse brincar com a mãe se tivessem tido mais tempo para que a loba confiasse nela, se não houvesse algum perigo oculto por perto. Essa seria uma daquelas histórias que Amália adoraria contar até para seus netos. De repente ela começava a imaginar e entender porque algumas pessoas que viviam isoladas gostavam de viver na companhia de animais, mesmo que fossem selvagens e supostamente perigosos. Aquele único instante lhe mostrou mais gentileza por parte deles do que algumas pessoas conseguiam demonstrar em muito mais tempo de convivência. Talvez sua condição materna estivesse deixando seu coração mais sensível aos outros seres vivos, ou talvez fosse algo que somente descobrira agora, mas o passar do tempo lhe responderia isso.
— Quando vai ser seguro voltar pra casa...? Se ela ainda existir? – Murmurou para si mesma.
O som distante de cascos batendo no chão se infiltraram em seus devaneios, e de repente Amália entrou em alerta novamente, recuando alguns passos e olhando em volta, automaticamente protegendo a barriga com as mãos.
O barulho ficou mais suave, apesar de mais alto, conforme o cavalo se aproximava, e a essa altura Amália estava pronta para correr ou lutar se preciso, mas a visão que teve a paralisou onde estava. O coração disparou e o ar faltou por um instante, obrigando-a a respirar fundo. Sentiu o corpo enfraquecer e suas pernas se dobrarem, felizmente em tempo suficiente para Afonso desmontar do cavalo e correr até ela, a envolvendo antes que encontrasse o chão.
O ferreiro se abaixou devagar, até os dois estarem sentados no chão de terra. Amália sentiu todos os seus músculos perderem a força e fechou os olhos quando as lágrimas vieram. Enterrou o rosto no peito dele quando Afonso a abraçou com mais força e beijou seus cabelos.
— Shh... – ele lhe disse baixinho – Estou aqui.
Amália o sentiu estremecer quando ele também começou a chorar, e finalmente seu corpo encontrou forças para se mover novamente, também envolvendo Afonso e o apertando contra ela. Ele se perguntou se o choro significava que suas memórias estavam de volta, e a resposta veio em seguida. Poderia não significar nada, ela sabia seu nome mesmo depois de perder a memória... Mas não havia dúvidas na forma como ela pronunciou.
— Afonso...
O guerreiro chorou mais e a abraçou mais forte. Sentir o corpo dela contra o dele, tendo a certeza de que não só ela, mas seu filho estava vivo, era tudo que ele podia desejar agora.
— Eu te amo – sussurrou para ela – Eu te amo.
Amália assentiu e também o apertou mais forte, deixando que as lágrimas viessem até se livrar de todo o peso que tinha carregado desde o início da guerra.

Fale com o autor