Cada dia da minha vida
15 Capítulo 15 - Marcas da guerra
Notas iniciais
Capítulo 15 – Marcas da guerra
— Afonso... Já faz meses. Sua família não foi a única que perdeu um ente querido na guerra, nem a única que perdeu uma esposa e uma criança. O que aconteceu foi horrível. Mas vocês vão encontrar um jeito de lidar com isso. Só precisam de mais tempo. Uma guerra demora muito a sair das vidas de quem afetou, quando sai.
— Posso compensar o dia de trabalho no domingo.
— Não é isso que eu quis dizer. Você pode ir. Só não gosto de vê-lo assim por esperanças que podem ser falsas mais uma vez. Nós também perdemos pessoas aqui em Montemor. Também pensamos nelas todos os dias, e acho que alguns de nós nunca vão parar de procurar. Se você é uma dessas pessoas, só posso lhe desejar boa sorte.
— Obrigado, meu amigo – respondeu apertando a mão de Emanuel e trocando um leve sorriso com o patrão.
******
— Afonso!!
O ferreiro fez o cavalo parar e se virar quando reconheceu a voz de Cássio. Ele estava correndo em sua direção, seu cavalo parado um pouco atrás.
— Ainda bem que o alcancei a tempo – falou ofegante.
— Cássio...? Como soube que estou aqui?
— Eu vi você saindo da ferraria quando o comércio ainda estava vazio. E deduzi do que se tratava. Você precisa saber de algo.
— O que você descobriu?! – Perguntou descendo do cavalo para encarar o amigo
— A casa da mandingueira. Eu ainda não tenho pistas, mas me lembro de uma vez ter ouvido sua avó falar de um povo antigo que vivia numa região profunda da floresta, longe da trilha dos viajantes, por isso dificilmente eram achados. Hoje... Ainda tem uma pessoa desse povo viva.
— A mandingueira... – deduziu.
— Isso! – Cássio assentiu com a cabeça para reforçar seu ponto.
— De que lado da trilha?
— Não sei. Mas deve ser o lado oposto ao da cidade, o que leva na direção do mar, porque ninguém nunca viu qualquer pessoa morando do lado de cá. E ouvi histórias de algumas pessoas, que adentraram a floresta pra colher lenha ou outras coisas, e avistaram alguém andando entre as árvores mais distantes. Dizem não saberem se tratava de um homem ou uma mulher, mas os fios de cabelo pareciam fogo. Alguns estão com medo, dizem ser mais uma bruxa na floresta. Outros acham que são espíritos. Mas...
— Amália!
— Foi exatamente o que pensei!
— Mas porque ela não viria até a cidade?
— Talvez ela tenha visto Virgílio na floresta. Se for mesmo ela... Se ela for a mulher que eu vi naquele dia... Pode estar com medo. Provavelmente ela nem sabe que a guerra acabou. E se for ela, está explicado porque não temos sequer uma pista em lugar algum.
Afonso respirou fundo e Cássio se preocupou com as consequências de suas revelações.
— Escute – pediu ao amigo – Eu não quero que você se encha de esperanças pra elas caírem por terra de novo. Eu contei isso porque são boas informações. Mesmo se não for ela, se você chegar à casa da Mandingueira, ainda poderá perguntar se ela sabe de algo. Eu tenho certeza que ela vai ajudar.
— Obrigado, Cássio.
Os dois se abraçaram e voltaram a montar os cavalos, seguindo em direções opostas. Afonso adentrou a floresta rapidamente, desejando se manter o menos visível possível a longa distância, e torcendo para não se deparar com nenhum encontro indesejável e inconveniente, especialmente se fosse Virgílio.
Enquanto percorria o local, lembranças iam e vinham e lhe causavam dor tanto quanto o faziam suspirar de alegria. Amália deveria estar em casa, segura e confortável, sendo cuidada e criando as lembranças mais felizes que eles pudessem lhe oferecer de sua gravidez, por mais que ela não se lembrasse dele. A possibilidade de ter essa esperança estilhaçada mais uma vez era terrivelmente dolorosa, por isso Afonso afastou tais pensamentos e tentou se focar em localizar a casa da mandingueira enquanto avançava cada vez mais para o interior da floresta.
Era em momentos como esse que percebia que a floresta era mais extensa do que aparentava vista de longe ou em suas lembranças, e que não era à toa que às vezes levasse um dia inteiro para ir de Montemor à Artena ou o caminho contrário.
Lembranças da guerra voltaram a sua mente quando pensou nos caminhos dentro da floresta. Quantas pessoas haviam tentado fugir por ela, quantas tinham conseguido, e quantas nunca voltariam, as que haviam encontrado, nem todas vivas, e as que pareciam ter sumido para sempre... Tudo por puro orgulho e ganância desnecessários do rei incompetente e frio que seu irmão se tornara. Até mesmo Amália e o rei Augusto tinham se perdido.
O passado voltou a confundir seu coração, e Afonso não conseguiu evitar pensar o que teria acontecido se ele não tivesse desistido do trono. Se a guerra teria deixado de existir, se Amália estaria segura e bem, ainda que longe dele. Outro lugar em sua cabeça dizia que não adiantaria. Ninguém sabia quem tinha cometido o atentado contra o rei Augusto. Catarina ainda poderia ter declarado guerra a quem quer que fosse por isso caso a briga de Rodolfo com o rei não o transformasse em suspeito. E todos seriam envolvidos da mesma forma.
— Por que ela saiu de casa naquele dia...?
Sabia que a pergunta era estúpida. A força de vontade de Amália era algo imbatível. Mesmo grávida e na iminência de uma guerra era claro para todos eles que ela continuaria trabalhando até o último instante que fosse possível. E isso era uma das coisas que a fazia ser a mulher por quem ele se apaixonou. Nunca poderia culpá-la. Ou Diana. A feirante ainda se culpava pelo ocorrido, e Afonso não fora o único a encontrá-la chorando sozinha em algum lugar por Amália ter desaparecido.
— E se está aqui... Por que não voltou? Onde está? Como estás se protegendo, meu amor?
Ninguém que relatara as aparições da pessoa estranha na floresta soubera discernir se tratava-se de homem ou mulher, e isso o assustava. A essa altura a gestação devia ser perceptível, mas ninguém percebera. Os relatos diziam que a pessoa se escondia por baixo de uma capa. Se agarrou à esperança de que essa fosse a explicação. A capa podia esconder.
As palavras de advertência e preocupação de Cássio e Emanuel ecoaram em sua cabeça. Lembrava-se bem do que tinham dito, e sabia que estavam completamente certos, mas era impossível... Era impossível que seu coração ignorasse a esperança que sentia. Em algum lugar gritava que tinha que ser Amália, que ela ainda carregava o bebê que tanto esperavam, e que não aceitaria nada diferente disso.
— Mas será o que for – falou para si mesmo – Isso é algo que eu não posso escolher, mesmo se quiser com todas as minhas forças.
Queria acelerar o cavalo para adentrar mais rápido a floresta, mas estava indo lentamente, verificando cada canto que seus olhos conseguiam alcançar, não querendo perder nenhuma evidência de vida ali. Por mais que fosse cedo, nesse passo acabaria levando até o dia seguinte para atravessar a trilha dos viajantes, mas não tinha importância. Ele chegaria até lá cedo ou tarde, e havia se preparado para isso. Montar um acampamento não seria um problema. Seu cavalo também precisaria descansar em algum ponto. Tudo que esperava é que não precisasse lidar com o azar de se deparar com lobos, especialmente à noite.
******
— Acha que Virgílio pode a estar traindo?
— Eu não sei, Lucíola... – Catarina respondeu enquanto as duas tentavam passar despercebidas no grande jardim do castelo – Ele não age como se estivesse. Parece tão desesperado quanto Afonso pelo sumiço de Amália. Mas Virgílio é frio o suficiente pra conseguir fingir tão bem quanto fingiu quando fechamos sua loja. Não vou descartar a possibilidade até ter certeza. Por enquanto... Vamos deixar que ele sirva como um bom cão de caça, e continue procurando por Amália por nós.
— Majestade... Vale mesmo a pena? Ela já sumiu há muito tempo. Se estivesse viva já teria voltado. E se alguém a prendeu...
— Amália não é boba, Lucíola. Ela conseguiu fugir de todos os nossos guardas, se vivos ou mortos não sabemos, mas eu dei ordens de que a prendessem bem e a nocauteassem, e ainda assim ela conseguiu escapar. Ao menos é o que Delano acha. Alguém pode sim ter interceptado a carruagem na floresta, ou tê-la encontrado depois que os guardas foram mortos, ou até tê-los matado... E levado Amália em seguida. Mas não vou parar até ter certeza. Ela é um problema que quero eliminar de uma vez por todas. Isso manterá as portas abertas pra tudo que desejo fazer.
— Se descobrirmos que alguém a prendeu vamos busca-la e matá-la? – A dama de companhia perguntou no mesmo tom sussurrado, olhando em volta para se certificar que estavam realmente sozinhas.
— Se descobrirmos onde ela está... Simular um acidente não seria difícil. Uma flecha perdida, uma cobra venenosa, algo envenenado que pudesse passar a impressão de uma doença... Meios não faltariam pra isso.
Lucíola arregalou os olhos enquanto a princesa não estava olhando, um tanto aterrorizada com a capacidade da jovem em planejar e cometer tais atrocidades, ainda que ela própria também não se importasse com o destino de Amália. Mas era apenas a dama de companhia da princesa, e seu destino era segui-la.
— E depois?
— Depois vem o melhor... E a parte mais estratégica disso tudo. Encontrar uma forma convincente de destituir Rodolfo e substituí-lo por Afonso. Assim teremos reinos prósperos e unificados. Rodolfo é tão patético como governante como é quanto companhia, destruirá Montemor se continuar aqui por muito tempo. Afonso é que foi preparado para isso desde sua infância, ele sabe o que fazer pra cuidar do reino e de seu povo.
Lucíola sabia que Catarina também pouco se importava com o povo, estava pensando em sua própria imagem. Ela poderia se favorecer enquanto Rodolfo fazia o contrário por si mesmo, mas em algum momento todos perderiam a paciência, e seria nesse momento que precisariam de Afonso.
— Acha que Afonso aceitaria voltar ao trono com Amália morta? E depois de tudo que houve na guerra?
— Por mais honrado e altruísta que ele seja, não aguentará ver o povo de sua terra sofrendo, ainda mais sabendo que tudo isso começou porque ele abdicou do trono. Em algum momento ninguém mais vai aguentar Rodolfo, e ele terá que voltar, mesmo se for pela pressão dos plebeus. Ou nem que seja pra proteger a honra de sua amada Amália. Um homem como Afonso não gostaria que todos a culpassem por isso, esteja ela viva ou morta. E espero que morta. Assim será muito mais fácil e rápido.
— E Virgílio? Se decidir entregar o que sabe quando não precisarmos mais dele? Ou se Amália...
— Vamos manter o plano original pra ele também. A vida dele dura até quando eu quiser.
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