Cada dia da minha vida
12 Capítulo 12 – Sonho ou desespero
Notas iniciais
Capítulo 12 – Sonho ou desespero
— Não sei porque. Ele deveria de fato estar a léguas daqui seguindo a carruagem. Vá e descubra alguma coisa. Deem um jeito de trazer Virgílio aqui na calada da noite se for preciso. E se não pudermos o manter quieto, você irá se assegurar de calá-lo.
Delano assentiu e se retirou.
— Deseja algo mais, majestade?
— A essa altura o mensageiro de Artena deve estar na metade do caminho até Mazman... Dê um jeito de descobrir onde ele está, Lucíola. Envie-lhe uma carta dizendo-lhe para esquecer a que deveria levar à Mazman e vir a Montemor imediatamente. Ele será bem pago por isso. Se Virgílio começar a ser procurado por outros reinos, poderá revelar o que não deve.
A dama de companhia assentiu e saiu do quarto. Catarina começava a enlouquecer. Estava presa há três semanas e Rodolfo ainda não a deixara sair. Por algum motivo seu plano havia se desmantelado e Amália estava desaparecida, se viva ou morta ninguém parecia saber. O que acontecera com os guardas e porque Virgílio desistira de seguir a carruagem é o que ela precisava descobrir. Se havia alguma chance de Amália estar viva, precisava ser encontrada e eliminada junto com Virgílio o quanto antes.
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— Eu não sei! — O comerciante sussurrou com raiva.
Era madrugada e ela tinha feito Delano subornar alguns guardas para não impedirem ou fazerem perguntas quando ele entrou com um encapuzado misterioso no quarto da princesa enquanto todos dormiam.
— Isso é o que eu devia perguntar a você! Me jurou que Amália estaria segura! Que chegaríamos bem a Mazman! E assim ambos teríamos o que queremos.
— Sim, eu planejei tudo! Mas não sou uma deusa da floresta pra subornar os lobos, o tempo ou os bandidos! Você sabia que haveria riscos fugindo no meio de uma guerra, devia tê-los seguido mais de perto.
— O culpado não me interessa! Eu quero saber o que aconteceu com Amália!
— E como espera que eu adivinhe? Você disse que os soldados estavam mortos e ela desaparecida. Pode ter fugido, pode ter sido levada por criminosos e muitas outras possibilidades. Nada nos resta além de esperar. Também é do meu interesse que nosso acordo se cumpra. Você mantém Amália longe daqui, e eu mantenho Afonso longe de você.
— Pra isso acontecer ela precisa estar viva e ser encontrada. E não é possível ter muita ajuda com todos a dando como morta.
— Também não posso fazer muito. Caso não tenha percebido, estou presa aqui. Já foi bem difícil subornar os guardas sem Rodolfo ou empregados bisbilhoteiros do castelo descobrirem. Não posso mandar Delano vasculhar aquela floresta inteira. Em algum momento a falta constante dele aqui se tornaria suspeita. Até eu sair daqui isso está em suas mãos. E lembre-se! Você não terá benefícios revelando tudo isso a qualquer pessoa.
— Eu que devo lembrá-la de que não perdoo acordos descumpridos, pouco me importando de quem venham. Se Amália estiver morta... Não sei o que pode acontecer – falou com raiva virando-se para sair.
Catarina ficou perplexa pensando no que ele queria dizer, além de não ter lhe dado muitos detalhes da morte dos guardas.
— Descobriu algo? – Lucíola entrou enquanto Delano levava Virgílio para fora.
— Os guardas morreram e a plebeia sumiu sem deixar rastros. Virgílio disse que havia sinais de fuga, mas era impossível ela sozinha ter matado todos, mesmo armada. Pode ter fugido quando os guardas já estavam mortos.
— Mas... Não podem ter morrido todos de repente sem motivo.
— Há lobos naquela floresta. Pelo que sei Afonso podia ter sido morto por um deles quando conheceu Amália, só teve sorte dos lobos encontrarem primeiro um dos ladrões que o atacaram.
— E se ela estiver mesmo morta?
— Então metade do plano já estará cumprida.
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Afonso parou de trabalhar quando teve certeza de que era observado pelas costas. Emanoel tinha saído por um tempo para buscar algo para a ferraria. Deixou de lado o que estava fazendo e virou-se para a porta, vendo Rodolfo parado o olhando. Do lado de fora algumas pessoas olhavam para os dois, e Rodolfo os olhou ameaçadoramente, fazendo todos voltarem a suas tarefas.
— O que quer aqui?
— Falar com você.
— Não há nada pra ser dito.
— Claro que há.
— O que, Rodolfo?! O que? Dizer que sente muito por todas as vidas perdidas? Por o rei Augusto estar desaparecido? Por um reino inteiro ter sido destruído e vidas destruídas sem motivos?!
— Por ela. Eu não sabia. Eu não tinha intenção...
— De matar minha mulher? Uma das pessoas mais fortes e bondosas que já encontrei em toda a minha vida. Se há alguém nesse mundo que não merecia morrer sozinha numa guerra era Amália. Qual é a diferença agora, Rodolfo? Por que não caminha pela cidade e procura cada uma das pessoas que perderam suas casas, famílias, maridos, esposas, filhos... Por que também não pede perdão a cada uma dessas pessoas? – Questionou permitindo-se chorar mais uma vez – Quase dois meses sem notícias. Você tem alguma ideia de como os pais dela e o irmão estão? E como estariam se ela não tivesse perdido o bebê naquele acidente?
O olhar de Rodolfo já estava apreensivo, e mudou completamente ao ouvir essas palavras. Tinha ouvido falar da gravidez de Amália, mas não sabia se era verdade.
— Eu sinto muito...
— Saia daqui.
— Talvez ser rei fosse mesmo seu único destino. Mas você escolheu fugir dele. Você teria sido um bom rei, Afonso. Reconheço isso, apesar de nossas desavenças.
‘O destino é que deve seguir você, seja aonde você for’, as palavras de Crisélia ecoaram na cabeça de Afonso, e somente essa doce lembrança o impediu de gritar com Rodolfo. Afonso ficou surpreso, para não dizer assustado quando Catarina apareceu na porta da ferraria, seguida por alguns guardas.
— Mesmo se você não viu meu anúncio, deve saber o que houve.
— Eu sinto muito – Catarina falou ao vê-lo chorar – Eu não a conhecia bem, mas tenho certeza que eram muito felizes.
Afonso se manteve calado, e só pela presença da princesa não escorraçou o irmão do lugar. Secou os olhos com uma das mãos e encarou Rodolfo com frieza.
— Não temos mais nada pra discutir. Vossa majestade pode continuar o passeio, e eu posso voltar a trabalhar – falou simplesmente voltando a bater a peça de ferro que estava fazendo.
Rodolfo não demonstrou, mas estava chocado pela frieza do irmão, ao menos um pouco. Afonso não deu importância quando ele e Catarina foram embora, e fechou os olhos por um instante, novamente mergulhando naquela dor profunda que vivia desde o desaparecimento de Amália. Fitou o coração de ferro que estava fazendo. Não tivera tempo de cumprir sua promessa, de fazer aquela surpresa a ela.
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A mandingueira verificou seu pulso ferido. Estava cicatrizado e quase não havia mais marcas. O bebê havia crescido nas últimas semanas e agora, aos quatro meses e meio, sua gravidez era bem mais notável. Tudo que queria era ter Afonso e sua família com ela.
Estava aprendendo sobre ervas medicinais com a mandingueira, que continuava insistindo que não era seguro para nenhuma das duas se aproximar de Montemor agora, e nada mais havia para ser visto em Artena.
— Ele precisa saber que estou viva. Que o bebê está bem. E que me lembro dele.
— Ele saberá quando chegar o momento. Há algumas coisas que não dependem só de nós para acontecer. Você é uma pessoa muito querida por quem é, e pode ser odiada pelo mesmo motivo.
— Então foi realmente alguém que ordenou meu sequestro?
— De fato há alguém procurando por você nesse momento. E não sinto boas vibrações. Por isso o melhor é ficar aqui até que seja seguro sair.
******
Amália estava lá. Ela estava na floresta, ele sempre soube! Sozinha, perdida e aterrorizada. A ruiva correu rápido por entre as árvores quase tropeçando e por um milagre não colidindo com nenhuma delas. Se escondeu atrás do tronco de uma das maiores árvores que encontrou quando julgou seguro descansar, mas ofegante e olhando para os lados, apavorada. Sua respiração indicava que sentia dor e seu olhar que estava machucada em algum lugar. Lágrimas escaparam de seus olhos quando ela se deixou cair no chão.
O coração de Afonso poucas vezes doeu tanto. Ver sua esposa grávida e sozinha chorando no chão da floresta fria acabou com ele. Uivos cortaram a noite de lua cheia, e Amália silenciou, de olhos arregalados e respiração ofegante, sua mão deslizando pelo ventre enquanto a outra segurava a capa em volta dos ombros. Quando os lobos se calaram o rosto dela se contorceu em tristeza e ela voltou a chorar pelo pânico da situação e Afonso pode ouvi-la chamar por ele. Foi quando finalmente gritou o nome dela, mas Amália não o ouviu, ainda que sua voz ecoasse um pouco.
Afonso correu, mas Amália parecia mais distante do que quando começou a se mover. Ela chorou e chorou, até deitar no chão, se viva ou não o ferreiro não pode ter certeza, e tinha medo de descobrir. Tinha que chegar até ela, saber onde estava ferida, se o bebê estava bem, o que tinha acontecido...
— Meu amor! – Chamou desesperado quando finalmente se ajoelhou ao lado dela e a puxou para o colo, beijando sua testa, acariciando os cabelos ruivos e chorando junto com ela – Acabou, estou aqui! Você está bem. Onde você se feriu? O que fizeram com você?
Amália chorou mais e escondeu o rosto no peito dele, apertando sua camisa com uma das mãos e se encolhendo em seu colo. Ela se acalmou minutos depois, ainda respirando ofegante, mas em silêncio.
— Onde você veio parar?
— Meu amor... – ela murmurou baixinho, ainda incapaz de dizer qualquer coisa.
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Afonso sentou na cama muito assustado, quase caindo dela, ficando ao mesmo tempo frustrado, aliviado e desesperado ao perceber que nada passara de um sonho, e decepcionado ao estender a mão para o outro lado da cama e perceber que continuava sozinho.
— Amália... – murmurou confuso e aterrorizado para a escuridão, levantando-se com cuidado e indo até a janela, a lua cheia brilhou quando a abriu.
Diferente de Artena, ele só viu mais casas ao invés da floresta em volta da casa. Já tinha feito rondas pela floresta várias vezes com Tiago, Diana e até mesmo Selena já havia ajudado. Pensamentos de Amália vagando sozinha na floresta o aterrorizaram. Cássio constantemente visitava reinos vizinhos a pedido do rei, e vinha lhes trazendo notícias secretamente, mas ninguém relatara ter visto uma mulher com a descrição de Amália. Pela passagem do tempo foram obrigados a revelar a algumas pessoas que ela podia estar grávida, se o pior não tivesse acontecido, e continuavam sem notícias.
Afonso se sentia desesperado com o sonho que acabara de ter, uma parte dele queria sair naquele mesmo instante para vasculhar a floresta outra vez. Mas era óbvio que não conseguiria muito procurando sozinho no escuro, só preocuparia a família quando acordassem e não o vissem. Cobriu os olhos com as mãos tentando aliviar a tensão que sentia, mas não conseguiu conter as lágrimas.
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