Cada dia da minha vida
1 Capítulo 1 - As escolhas do destino
Notas iniciais
Capítulo 1 – As escolhas que movem o destino
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Era apenas um dia normal. Um dia normal colhendo ingredientes no campo com Tiago. Só isso. Era pra ser uma expedição rápida buscando pela água que Montemor tanto necessitava. Mais uma expedição da qual logo ele voltaria e poderia deixar Crisélia tranquila mais uma vez por ele estar seguro de volta no castelo.
Mas nada que se planeja oferece uma garantia de que se cumprirá da forma como cada um imagina. E Afonso não voltou pra casa naquele dia. Provavelmente não voltaria nunca. Estava morrendo. Sozinho nos campos de onde quer que estivesse. Rodolfo teria que assumir o trono, ele queria tanto isso quando criança... E fugia disso agora como os criminosos fugiam do exército. Mas assim como acabara de acontecer com Afonso, ele não poderia escolher. Às vezes do nada a vida decide escolher por você, pouco se importando se você entende ou se deseja aquilo. E é assim que ia ser o fim.
Se pudesse ao menos saber quantas horas ou minutos ainda levaria para dar seu último suspiro... Se fosse antes do frio da noite chegar, antes da chuva cair, ou de algum animal selvagem o encontrar, ele ficaria grato. Ficou confuso depois do que pareceu uma hora. Ou seria mais? Não sabia se seu ferimento ainda estava doendo ou não. E Afonso sabia que isso não era bom. Se a dor sumisse ele provavelmente dormiria, levando com ele qualquer chance de conseguir ajuda. Não devia haver nenhuma pessoa por quilômetros, mas ele podia tentar se arrastar ou levantar e continuar andando antes de ser tomado pelo sono se a dor parasse. Doía demais tentar remover a ponta da flecha, não queria tentar sozinho, e nem tinha forças para isso.
Não havia o que fazer. Por enquanto aquela pedra estava confortável, embora tivesse começado a chover. Ou era alguém andando entre o capim? Ou algum animal pisando em cima dele? O toque era leve, se Afonso tivesse sorte poderia ser apenas um filhote curioso de algum animal da floresta, e com mais sorte ainda o pequeno não chamaria seus pais quando saísse dali. Mas havia um som incompatível com seus pensamentos confusos. Um som humano. Gentil, e um pouco assustado talvez. O barulho de movimento na terra e no capim ficou mais evidente. Então ele notou que era uma mão humana o tocando. O toque mais suave e delicado que ele sentira por muito tempo.
— Ei!
Ele queria responder, mas seu corpo não reagiu.
— Ei!
Era uma mulher tentando acordá-lo. Ele precisava falar com ela. Ela podia ser sua única chance de não morrer jogado em um lugar qualquer. Ela poderia ao menos avisar o que houve a Montemor. A mão delicada deslizou por seu braço e ele fechou a mão em volta da dela com todas as forças que ainda tinha. Talvez a tivesse assustado. Ela ficou em silêncio. Depois tentou se soltar dele, parecia querer testá-lo, não deixá-lo. Mas Afonso não a soltou, e ela devolveu a mão a dele. Não sabia por quanto tempo ficaram assim, mas ele se sentiu tranquilo, sentiu que podia morrer em paz ali mesmo agora que tinha sido encontrado.
— Você pode me ouvir?
Afonso percebeu que ela era jovem agora que a ouvira melhor. Não conseguia responder, então tentou apertar de leve a mão dela. Talvez tivesse conseguido, porque ela apertou de volta. A outra mão dela o tocou perto do ferimento e provavelmente ela se inclinou um pouco para ver melhor.
— Não consigo tirar você daqui sozinha. Preciso chamar meu irmão. E tem que ser rápido se você quiser viver. Eu prometo que eu vou voltar.
Ele acreditou nela. O que mais lhe restava a fazer? Não queria ser deixado sozinho de novo, mas ele precisava acreditar. E alguma coisa na voz dela o fez se sentir seguro sobre isso quando ela soltou sua mão e correu para algum lugar.
Amália usou a árvore entre o campo e a floresta como guia. Foi fácil encontrar Tiago, mas seu irmão a olhava como se estivesse delirando quando ela contou o que acabara de acontecer e o levou até o homem ferido.
— Parece que ele não consegue falar. Não sei se dói, se não respira direito... – disse se abaixando ao lado dele e tomando sua mão outra vez, sem nenhuma resposta agora – Está inconsciente.
Tiago se forçou a deixar seu espanto de lado e se abaixou do outro lado do desconhecido, verificando se ele respirava.
— Melhor assim. Isso deve causar muita dor.
— Está vivo. Não podemos deixá-lo aqui.
Tiago balançou a cabeça negativamente, concordando com a irmã. Era uma situação emergencial, não havia outro caminho.
— Vamos levá-lo pra carroça depressa. Você cuida dele em casa enquanto eu vou atrás do médico.
Amália assentiu e os dois o levantaram da melhor maneira que podiam. Com algum esforço conseguiram colocá-lo na carroça ao lado do cesto de laranjas e dos outros ingredientes coletados. Tiago controlou o cavalo enquanto Amália se curvava para trás para verificar o desconhecido. Estava ficando pálido, mas continuava respirando. Chegaram em casa em poucos minutos, e levaram o homem para o quarto de Amália enquanto eram interrogados por seus pais, especialmente Martinho.
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— Segurem ele. Isso pode acordá-lo, e causar dor – o médico orientou após remover a camisa ensanguentada.
Martinho os observava da porta, não muito satisfeito em ter um completo desconhecido ferido sendo tratado em sua casa. Os dois irmãos e Constância seguiram o conselho. Tiago sentou-se em um lado da cama, prendendo as pernas, Constância segurou firmemente as mãos dele e Amália se certificou de protegê-lo de uma pancada na cabeça caso ele acordasse e se contorcesse.
O médico limpou o ferimento com álcool e segurou a flecha quebrada, a puxando com cuidado para fora. O procedimento foi rápido, mas pareceu durar uma eternidade para os três que continham o homem desacordado. Ficaram gratos por ele não acordar, especialmente quando o ferimento voltou a sangrar com a remoção da flecha. O médico observou por alguns segundos antes de pressionar o local com um pano. O homem se mexeu com um gemido incomodado, e sua cabeça virou para o travesseiro, mas ainda não acordou.
— A flecha pode contaminar o local. Tem que ser muito bem limpo sempre que trocarem as ataduras – explicou antes de limpar o lugar com mais álcool.
Quando o sangue estancou, Tiago ergueu o corpo dele para o médico poder enfaixar e checar seus sinais vitais uma última vez.
— Ele vai viver? – Amália perguntou quando o homem se levantou para sair.
— As chances são muito boas.
Ela e Tiago sorriram aliviados, apesar de sequer conhecerem quem haviam acabado de salvar.
— Ele perdeu sangue e não sabemos o que mais aconteceu antes de vocês o encontrarem. Deve acordar com muita sede. Usem as ervas que recomendei se ele tiver febre, e as chances disso acontecer são relativamente altas nos primeiros dias de recuperação. Troquem as ataduras sempre e limpem bem o ferimento, além de aplicar as ervas. Se ele voltar a sangrar intensamente, eu devo ser chamado.
Os três assentiram.
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Luzes e sons começavam a atingi-lo. Afonso se mexeu, não reconhecendo a cama em que estava. Ficou surpreso por acordar para começar. Ele não sentia que estava morto. Sentiu dor e percebeu que o local ferido de seu corpo estava enfaixado. Respirou fundo para se acalmar e abriu os olhos. Era dia. Estava tudo embaçado. Talvez na sua frente houvesse uma janela. Olhando para o lado viu um vulto de pele clara e cabelos ruivos. Não lembrava de nada do que acontecera muito claramente. Quando sua visão tomou foco Afonso enxergou uma linda jovem o encarando, talvez a mesma que o salvara? Suas lembranças estavam nubladas, mas lembrava de ter segurado fortemente a mão de alguém numa tentativa desesperada de ser ajudado, uma mão menor que a sua.
— Onde eu tô?
— Você está na minha casa. Eu e meu irmão te encontramos desacordado na floresta essa manhã e o trouxemos pra casa.
Então era mesmo ela. Afonso tentou se levantar, mas ela não deixou, e o empurrou de volta para a cama com cuidado, falando do quão grave era sua situação, e lhe dando um copo de água depois. O nome dela era Amália, tão lindo e doce quanto ela. Seu irmão se chamava Tiago, e era igualmente gentil. Sentiu que eram confiáveis, mas não contou a verdade. Ainda não. Talvez partisse dali dias depois sem jamais dizer que tinham salvado a vida do futuro rei de Montemor. As melhores pessoas podiam se transformar de água em vinho com informações importantes em suas mãos. Eles não pareciam ser tal tipo de pessoa, mas essa era a decisão mais prudente no momento.
******
Amália acabou dormindo na cadeira ao lado da cama de novo depois de ele ter uma febre forte e delirar. Estava escuro quando ela abriu os olhos. Sentou-se numa posição melhor, dolorida pela forma como havia dormido, e seus olhos caíram sobre o homem desfalecido em sua cama outra vez. Ela não conseguia evitar verificar se ele estava respirando toda vez que acordava, e o observou. Sim, ele estava vivo, parecia respirar bem. A febre já quase não existia depois dela e Constância cuidarem dele até tarde. Todos deviam estar dormindo há horas.
Amália saiu do quarto e voltou com outro copo e um jarro com água, deixando-os em cima da mesa. Sentou-se outra vez onde estava, novamente o observando, se perguntando quem ele era, de onde tinha vindo, porque estava ali, e o que tinha acontecido, se havia alguém procurando por ele, alguma família preocupada... Embora ele não usasse aliança. Mas podia ter pais e um irmão ou irmã preocupados, como os dela estariam se ela sumisse. Ele podia ser qualquer pessoa, até um criminoso. Talvez seu pai estivesse certo em estar com algum receio. Mas algo em sua expressão parecia tão doce e sincero. Pensando nisso, ela dormiu de novo.
******
Amália entrou no quarto tarde da noite. Todos estavam dormindo. Ela ficou parada na escuridão o observando, ainda um pouco nervosa pelo ocorrido de horas atrás. O que ela ia fazer? Como resolver aquilo de maneira pacífica e se desculpar com alguém tão ressentido como Virgílio? Amália não se importava realmente se ele não quisesse perdoá-la, ele tinha esse direito, mas ela não tinha feito aquilo do jeito certo, e por isso lhe devia desculpas.
Ela tentou impedir Afonso de partir. Ele mal podia ficar em pé sozinho, morreria antes de completar metade da viagem. Então ele tinha começado o momento que ela ainda não sabia que mudaria sua vida para sempre. Salvar um desconhecido ferido na floresta. Beijar a plebeia que o salvou e ganhou seu coração sem fazer qualquer esforço. Duas decisões tomadas em poucos dias que afetariam para sempre a vida de incontáveis pessoas. Talvez sabendo disso antes os dois tivessem pensado em decidir algo diferente, mas o destino é implacável. Não negocia. Ele os colocaria de volta juntos de novo. E de novo. E de novo.
Amália recuou com o alarme em sua consciência, mas alguma coisa mudou em um segundo. De todos os beijos que recebera ultimamente, aquele foi o primeiro que fez seu coração disparar e que a fez desejar estar daquele jeito para sempre. Então antes que o alarme perturbador em sua mente soasse outra vez, ela beijou Afonso de volta. E parecia certo, como se algo fechasse um buraco em seu coração que ela nem sabia que tinha, como se tivessem nascido para aquele momento e de alguma forma qualquer coisa em sua vida agora fizesse sentido. O primeiro beijo nos últimos meses que a fez se sentir apaixonada, segura e amada ao mesmo tempo, um beijo que ela fez questão de repetir, que seu coração implorou para jogar tudo que a impedia fora e correr de volta para ele.
A plebeia caminhou em silêncio até a cama e sentou-se ao lado dele, estendendo as mãos para verificar o ferimento sob as ataduras, por um milagre estava tudo bem. Virgílio tinha batido nele. Ela ficou com tanto medo. Se o ferimento tivesse aberto e sangrado de novo, mesmo que Afonso estivesse se recuperando bem, poderiam tê-lo perdido dessa vez. Amália levantou e tornou a sentar-se perto do travesseiro, agora afagando os cabelos escuros. Afonso não acordou. E ela agradeceu por isso nesse momento. Precisava ficar sozinha com seus pensamentos para se acostumar com a ideia da mudança que os dois haviam feito em suas vidas. E fosse o que fosse acontecer, Amália estava grata. Por ser libertada daquele destino ao qual não pertencia, onde ela demorou tanto para perceber que não queria estar.
— Obrigada – ela sussurrou com um sorriso.

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