Cada dia da minha vida

20 Capítulo 20 – Veja tudo desaparecer


Notas iniciais
Essas fotos dos bastidores e das cenas da novela eram tiradas pelo fotógrafo Artur Meninea.

Capítulo 20 – Veja tudo desaparecer

— Então alguém de fato planejou tudo isso? – Afonso perguntou à mandingueira enquanto conversavam.

— Sim. Pessoas cheias de sombras estiveram à espreita em busca de Amália.

— Terão descoberto sobre nosso filho? – Afonso questionou.

— Por hora o perigo cessará, mas devem se manter de olhos abertos. Quem quer que tenha estado aqui ainda vive apesar da guerra.

— Sabemos que Virgílio esteve aqui... – Amália tentou raciocinar – Mas quem mais teria interesse em me procurar pra me fazer mal?

— Como já lhe disse, muitos a amam por quem você é, e há quem a odeie pelas mesmas razões.

— Corremos perigo voltando à Artena ou Montemor? – A plebeia perguntou.

— Nesse momento não. Mas o futuro é não é uma linha reta – a mandingueira falou desenhando linhas curvas na janela embaçada pela neblina da manhã – É como uma pintura, que só vemos o resultado no final.

— Meu amor – Afonso começou, não querendo relembrar isso a ela – Artena sofreu muitos danos. Montemor é nossa única opção. Podemos ir à Artena se você quiser, mas não pra ficar, ao menos agora.

O olhar de tristeza no rosto dela cortou o coração do ferreiro. Mas Amália assentiu quando a chama de força que ele sempre vira nela se misturou à tristeza em seus olhos.

— Eu imaginei quando você me disse. Se é em Montemor que está nossa família, é pra lá que iremos. Mas eu gostaria de ver Artena uma última vez se pudermos.

Afonso assentiu.

— São bem vindos para ficar por quanto tempo mais precisarem – a mandingueira lhes disse.

— Nós agradecemos – Amália lhe disse com um sorriso – Mas iremos hoje. Já fiquei muito tempo longe de casa, e há muito a ser acertado agora – falou olhando para Afonso em busca de sua opinião, e o ferreiro assentiu – Eu não sei o que teria feito se a senhora não tivesse me ajudado ou onde eu estaria agora, ou que teria acontecido com nosso filho. Muito obrigada.

A mandingueira assentiu com um sorriso.

— É uma criança forte, e certamente virá bem a esse mundo no tempo devido.

Afonso sorriu, sentindo-se aliviado por ouvir tais palavras. Depois de tudo, ao menos seu filho nasceria, e bem. Por mais que parecesse uma loucura acreditar numa profecia, a mandingueira era conhecida por nunca errar suas predições.

— Então vamos conversar sobre a viagem e partiremos hoje.

Amália assentiu quando o ferreiro levantou e segurou sua mão. Acenaram para a mandingueira e saíram para o exterior da casa, onde o cavalo comia grama e balançava a cauda tranquilamente.

— Eu devia ter trazido a carroça. Não é bom pra vocês passar tanto tempo galopando.

— Acha que podemos achar alguma abandonada e em bom estado em Artena?

— Talvez... Levamos a nossa pra Montemor. Mas muita coisa foi deixada pra trás em outras casas.

Amália assentiu.

— Acha que ele consegue levar nós três e ainda andar mais devagar?

— Estamos no meio da floresta, já é meio caminho andado até Artena. Se sairmos logo, chegaremos antes do pôr do sol, podemos visitar nossa casa, procurar o que precisamos, e montar acampamento.

— De qualquer forma não chegaríamos a Montemor ainda hoje.

Afonso concordou.

— Mas não vamos demorar mais que o necessário. Você precisa de cuidados, de roupas novas e descanso.

— Eu descansei bastante nesse tempo aqui, mas confesso que sempre faltava alguma coisa sem você e nossa família por perto.

— Isso nunca mais vai acontecer – Afonso lhe prometeu beijando sua testa.

— Agora me lembrei que quando eu e Diana fomos separadas na feira... Tive a sensação de estarmos sendo observadas. Mas não vimos ninguém.

— Acha que podia ser Virgílio?

— Não sei. Não o vi enquanto íamos ao campo. Podia ser qualquer pessoa.

— A mandingueira confirmou que alguém planejou isso, embora ela não saiba quem. Se Virgílio esteve aqui ele pode muito bem estar envolvido nisso.

— Afonso... Os soldados que me levaram... Eu nunca descobri o que aconteceu com eles. E nem porque não vieram atrás de mim.

— Cássio encontrou marcas na estrada de terra que vem de Artena, indícios de que alguém montou acampamento ali, e cinzas de fogueira, mas nada além disso.

— Deve ser onde eles pararam naquela noite, onde consegui fugir. Mas por que simplesmente sumiriam sem vir atrás de mim? Eu feri um deles, tinha certeza que viriam.

— Se alguém os pagou pra fazer isso, podem ter desistido, achado que o serviço não valia mais a pena, e ido embora.

— Talvez...

— Você reconheceu alguma coisa? Armaduras, uniformes... A carruagem?

— Não tive tempo de reparar nisso. A carruagem parecia comum, nada que identificasse algum reino. O único soldado que consegui ver bem antes de fugir não estava usando armadura.

Afonso assentiu, e de repente seu olhar ficou distante quando ele pareceu se lembrar de algo, e soltou a mão dela para desprender a corrente que tinha em volta do pescoço e desaparecia no tecido da camisa, que somente agora Amália tinha percebido que estava ali. Ela arregalou os olhos em surpresa quando o viu segurar seu colar diante de seus olhos.

— Eu tenho que lhe devolver isso. Eu o encontrei com a corrente manchada de sangue e quebrada, fincada no chão por uma flecha, perto do lugar onde nos conhecemos. Eu o consertei no que restou da ferraria em Artena. Pelo estado em que o encontrei eu achei que você...

Amália não conseguiu dizer nada e apenas estendeu a mão para tocar o pingente e a outra para acariciar o rosto dele, antes de Afonso ajuda-la a prender o adorno em volta do pescoço, agora perfeitamente limpo e consertado.

— Mas não aconteceu. Estou bem aqui na sua frente – ela lhe disse, ainda afagando a pele do amado.

Afonso assentiu e encostou sua testa na dela.

— Eu tinha certeza que aqueles homens tinham roubado.

— Também foi o que me pareceu. Foi nesse lugar que você e Diana foram separadas?

— Não... Estávamos lá momentos antes. Então voltamos à feira quando ouvimos gritos, e fomos separadas lá. Eu não me lembro de nada, nem de ter sido ferida, só de uma pancada na cabeça, o barulho, e Diana gritando por mim.

— Isso parece algo maior do que Virgílio faria sozinho. E apesar do quão insano tem se tornado, não acho que ele a apagaria assim, é muito indiscreto pra forma como ele age.

— Eu concordo.

— Podem ter sido apenas desertores tentando se aproveitar da primeira pessoa que encontraram.

— Eu pensei nisso também, mas a mandingueira disse que alguém planejou isso. E a forma como você encontrou meu colar... Não parece que alguém o deixou lá daquela forma de propósito?

— É verdade... Seja quem for, não vamos mais tirar os olhos de vocês, isso nunca mais vai acontecer de novo. E eu mesmo irei advertir Virgílio quando voltarmos a Montemor. Não temos provas contra ele, apenas testemunhas, mas sabendo que estamos de olho nele não se atreverá a ser tão ousado outra vez.

Amália assentiu, permitindo que o amado a abraçasse.

******

Não tinham ficado muito mais tempo na casa da mandingueira. Arrumaram suas coisas, agradeceram mais uma vez e se despediram da mulher. Artena não estava muito longe, e Afonso escolheu caminhar por alguns períodos, apenas guiando o cavalo com Amália montada nele, a fim de não cansar tanto o animal e fazê-lo andar mais devagar. Antes do pôr do Sol já estavam na entrada da cidade, Afonso olhou para a plebeia, que dormia serenamente apoiada nele e segura em seu abraço, e sorriu, desejando que pudesse deixa-la dormir, mas eles precisariam caminhar agora, e logo parariam para descansar. O ferreiro a abraçou mais firme e se inclinou, beijando demoradamente seu rosto.

— Meu amor... – sussurrou contra sua pele – Já chegamos à Artena.

Amália se moveu e abriu lentamente os olhos, levando alguns segundos para absorver a informação.

— Acho que poderíamos ir caminhando daqui, poderemos observar melhor os arredores.

Ela assentiu e Afonso desmontou do cavalo, ajudando-a a descer em seguida para que pudessem caminhar juntos.

Os dois pararam ao chegar ao lugar do campo onde se conheceram e onde Amália havia sumido no início da guerra. Deram as mãos firmemente e não conseguiram evitar um sorriso, apesar de saberem do que encontrariam mais adiante. Afonso beijou sua mão, como uma promessa de que suportariam tudo juntos, e seguiram em frente.

Amália sentiu seu coração se estilhaçar ao ver a feira abandonada e a cidade vazia, além de barracas destruídas pelo chão, flechas espetadas no chão e nas paredes das casas e estabelecimentos comerciais, marcas de cortes de espada e de fogo manchando vários lugares, e um silêncio tão triste e cruel quanto a morte, completamente diferente do som alegre das pessoas conversando, crianças correndo pela feira, e a música animada que às vezes era tocada ali. Ela apertou a mão de Afonso com mais força, sem sequer perceber. O bebê se moveu ao sentir sua comoção, e instintivamente Amália acariciou o local para acalmá-lo.

— Amália, você está bem? Tem certeza que quer prosseguir?

— Sim – ela murmurou num tom triste, mas firme.

Os dois adentraram a cidade, caminhando pelas ruas que costumavam passar nas idas e vindas para a feira e a ferraria.

— Foi aqui que Samara foi atingida – Afonso revelou quando já tinham andado por alguns minutos.

— É uma pena que isso tenha acontecido. Levi já passou por muito... Nós faremos o melhor possível por ele, mas não será a mesma coisa, Afonso.

— Eu sei. Mas não há volta. E todos nós teremos que aprender a viver juntos agora. Também não foi fácil pra mim e Rodolfo. Sei que não seremos pra ele a mesma coisa que minha avó foi pra nós, mas como você disse, vamos fazer o melhor que pudermos.

Amália assentiu e conseguiu sorrir de leve. Afonso não falava muito a respeito de sua avó, embora isso tivesse começado a mudar conforme ele sentia menos dor e tristeza por tê-la perdido. Ele já havia citado esse fato. Porém, Amália nunca tinha refletido a fundo como isso teria sido para ele e o irmão. Agora, imaginando a situação de Levi, e vendo a ambos como a nova esperança do menino, o cenário parecia muito real e claro para ela. E eles tinham um bebê a caminho, talvez isso tornasse tudo ainda mais difícil, ela já ouvira falar sobre crianças com ciúmes dos irmãos mais novos no início. Mas já com treze anos, ela esperava que Levi conseguisse lidar um pouco melhor com a situação, apesar da perda irreparável e recente de sua mãe. Talvez o bebê até ajudasse a aproximá-lo dos dois mais rápido, especialmente dela, uma vez que o garoto já gostava bastante de Afonso.

— Eu já ouvi falar de crianças que no começo ficam com ciúmes dos irmãos recém-nascidos. Temos um bebê chegando. Você acha que isso acontecerá com Levi?

— Eu não tinha pensando nisso ainda.

Caminharam mais alguns metros enquanto Afonso refletia.

— Eu acho que com a perda recente que ele teve nem vai conseguir se preocupar com isso. Pode ser até bom. Se ele cuidar do irmão conosco, poderá ter momentos mais felizes, e se aproximar de nós mais rapidamente, Amália. Mas se acontecer, vamos falar com ele sobre isso.

Ela sorriu.

— Isso é o que você esperava ouvir?

— É que... Eu estava pensando exatamente isso antes de lhe perguntar.

Dessa vez foi Afonso quem abriu um grande sorriso, sequer sabendo como chamar o que sentira com a conexão de pensamento dos dois, embora isso não fosse novidade.

Continuaram a caminhar em silêncio até se aproximarem do início da floresta e chegarem a sua casa. Amália notou a diferença imediatamente, não vendo os cavalos e nem a carroça do lado de fora.

— Vamos? – Afonso encorajou.

Ela concordou e ele acomodou o cavalo no local de costume, em seguida usando uma faca para destrancar a porta da casa. Amália entrou sem dizer uma palavra, olhando para o pouco que havia restado, apenas o que não pode ser carregado ou desmontado. A alegria de todas as lembranças felizes que vivera ali se misturou à dor de serem obrigados a deixar o lugar. Afonso a abraçou pelas costas e beijou seus cabelos, sabendo que ela precisava muito mais de conforto do que de palavras agora, e Amália entrelaçou seus dedos com os dele, não impedindo que as lágrimas corressem mais uma vez.

— Eu queria muito criar nosso filho aqui.

— Eu também, Amália.

— Ainda quero trazê-lo aqui um dia, mesmo se nunca mais voltarmos.

— Nós o traremos. Traremos todos os que tivermos.

Ela assentiu.

— Vamos dormir aqui? Ou acampar na floresta?

— Não há ninguém na cidade, ninguém pra nos fazer mal. A cama do nosso quarto é uma das coisas que não conseguimos carregar e improvisamos outra em Montemor. Podemos fazer uma fogueira do lado de fora. Há grama pra alimentar o cavalo, e creio que ainda aja alguma água no poço. A comida que a mandingueira nos deu deve durar até chegarmos a Montemor. Se você quiser, podemos passar a noite aqui.

Amália se libertou suavemente do abraço para ir até à janela, vendo o sol começar a se pôr.

— Acho que é melhor do que passar outra noite na floresta. E acho que me sentirei melhor tendo uma noite pra me despedir.

— Então assim faremos.

Os dois acenderam uma fogueira do lado de fora e as velas que tinham sobrado na casa abandonada. Colocaram água para o cavalo no cocho, sentaram-se abraçados na frente do fogo como haviam feito tantas vezes antes naquele mesmo lugar e deixaram seus pensamentos vagarem um pouco. Se não tivessem visto a destruição na cidade, que só não chegara aonde estavam porque a casa era mais isolada que as demais, pareceria que nada tinha acontecido.

— Eu sinto muito...

Amália o olhou quando Afonso falou de repente.

— Afonso, nada disso foi culpa sua. As escolhas de seu irmão não lhe dizem respeito.

— Eu falo do trono de Montemor. Se eu não tivesse feito as escolhas que eu fiz... Talvez nós não teríamos passado por uma guerra. Uma coisa leva a outra.

— Afonso... – Amália o calou tomando seu rosto entre as mãos – Muito pelo contrário... Você, mais do que ninguém, fez de tudo pra que isso não acontecesse. Foi a insensatez do rei Rodolfo e a teimosia da princesa Catarina que nos encaminharam a essa situação. A culpa não é sua.

— Mas eu não consigo parar de pensar. E se eu fosse o rei de Montemor?

— Mas não é. Você fez a sua escolha. Rodolfo, a dele. E eu a minha – Amália lhe disse encarando-o profundamente e levando uma mão aonde podia sentir o coração dele bater – Afonso, não há como prever o que poderia acontecer se você ainda estivesse em Montemor. Poderia haver paz agora? Talvez... Ou poderia haver outra guerra, ou você é quem teria sofrido uma tentativa de atentado... Meu amor, não há como controlar o destino – falou afagando novamente seu rosto, desejando de alguma forma tirar aquela tristeza e as lágrimas dos olhos dele.

— E quanto às escolhas que fazemos? As nossas decisões, as nossas convicções, Amália...

— Eu sei sobre as decisões que eu tomei pra minha vida. E é por isso que eu estou aqui, agora, do seu lado.

— No começo de tudo, Levi me perguntou de que lado eu lutaria na guerra. E eu não tinha uma resposta.

— Você não precisa escolher um lado.

— Não... Mas fazer o que? Eu deveria ter ficado sentado de braços cruzados como um covarde?

— De certa forma, agora, você pertence aos dois reinos.

— Independente das razões que Montemor ou Artena usem pra justificar a guerra, a verdade é que não me sinto parte de nenhum dos dois.

— Talvez isso fosse acontecer de todo jeito, não importando o quanto tentássemos evitar.

— O rei Augusto voltou a fornecer água a Montemor, e mesmo assim Rodolfo insistiu na guerra. Tentei conversar com ele, mas foi irredutível. Então me juntei ao exército de Artena. Essa foi minha escolha, e também meu destino...?

— Eu poderia até tentar mudar o destino. Mas as suas escolhas... – ela riu.

— Você está me chamando de teimoso? – Afonso perguntou, finalmente rindo com ela – Eu não posso negar que costumo voltar atrás das minhas decisões, Amália. Mas não se esqueça que você foi uma delas. A melhor de todas. Da qual eu jamais me arrependerei.

Afonso quis ficar ao seu lado, e agora precisariam partir de Artena, mas juntos novamente. Ela sorriu, e os dois se beijaram, por um instante se permitindo ver tudo desaparecer, como toda a vida que tinham desaparecera em poucos meses, e agora teriam que reconstruí-la num futuro totalmente novo.

Os dois respiraram fundo e mantiveram os olhos fechados por um momento quando se afastaram. Quando se olharam novamente, Amália voltou seu olhar para as estrelas.

— Vamos nos mover como aquelas estrelas agora.

Afonso sorriu ao perceber do que ela estava se lembrando.

— O destino vai nos seguir, seja lá aonde formos.