Cada dia da minha vida

19 Capítulo 19 – Eu prometo


Capítulo 19 – Eu prometo

Afonso despertou lentamente da melhor noite de sono que tivera nos últimos meses, talvez a primeira em que tinha dormido de verdade sem acordar com algum pesadelo ou insônia desde o acidente de Amália. Apesar da janela estar fechada, podia ver a luz do dia, começando a clarear, entrar pelas frestas da madeira. Seu primeiro pensamento foi dormir um pouco mais, não tinha percebido o quanto estivera cansado ultimamente, e tornou a fechar os olhos sem sequer perceber, abraçando Amália instintivamente para mais perto dele, felizmente não acordando a plebeia com o movimento. Mas isso durou poucos minutos.

Lembrando-se de onde estava e dos acontecimentos e emoções do dia anterior, abriu os olhos novamente, e se perguntou qual seria o cronograma da mandingueira, se ela já estaria acordada a essa hora, e se a incomodaria os dois passarem mais tempo ali. Decidindo não se preocupar com tais questões no momento, sorriu ao ver o rosto adormecido de Amália, e a observou por um longo instante, sentindo o coração aquecer ao vislumbrar seu rosto novamente, adormecido, em paz, e com a certeza de suas memórias recuperadas. E com o filho deles vivo!

Deslizou o polegar pelas sardas que adornavam seu rosto, amava isso nela, e sentia-se curioso para saber se o bebê também as teria quando crescesse. Beijou a bochecha da amada, e Amália se moveu, mas ainda sem abrir os olhos.

— Me desculpe... Volte a dormir – sussurrou para ela.

Amália sorriu, e se virou para ele, ainda sem abrir os olhos, e realmente voltou a dormir. Afonso riu baixinho e a abraçou novamente, beijando o topo de sua cabeça e fechando os olhos. Ele realmente queria acordar agora, se preparar para o dia, conversar com ela, conversar com a mandingueira também, cuidar de seu cavalo e pensar numa forma segura de levar Amália para casa, mas o cansaço o venceu, e quando voltou a abrir os olhos, os raios do sol já entravam pelos pequenos espaços na madeira da janela.

— Bom dia, meu amor – Amália murmurou com um sorriso.

Ele sorriu de volta.

— Bom dia – ele lhe disse antes de beijá-la.

— Sobre o que vamos conversar agora? O que vamos fazer primeiro?

— O que você quiser – Afonso respondeu, acariciando gentilmente suas costas enquanto uma das mãos dela afagava suavemente seu ombro.

— O que você acha que será nosso bebê?

Afonso sorriu.

— Eu não sei... Talvez uma miniatura da plebeia mais linda que já vi em minha vida.

Amália riu.

— Ou uma miniatura do meu ferreiro favorito.

Dessa vez foi Afonso quem riu suave e melodiosamente.

— E quem seria ele? – Brincou com ela.

— Um que foi obstinado suficiente pra cruzar a floresta em busca de sua esposa e filho perdidos.

Afonso a abraçou mais apertado e sentiu seus olhos lacrimejarem com o que ela disse, apesar de sorrir. Levou uma das mãos ao bolso e pegou o anel que trouxera de casa, devolvendo-o ao dedo dela, e beijando o local como fizera no dia de seu casamento. Viu os olhos de Amália também se encherem de lágrimas e a plebeia ficar bastante tempo em silêncio enquanto pensava.

— Obrigada.

— Antes de decidir vir até aqui... Eu tive um pesadelo. Acordei de madrugada com um vento forte que abriu a janela do quarto e fez este anel cair no chão ao lado da cama. Parecia um sinal.

— E o que você viu?

— Foi um pouco confuso... Eu podia ouvir você chorar, e chamar por mim. Você estava fugindo de alguma coisa na floresta, e eu não conseguia alcança-la por mais que corresse.

— Os pesadelos costumam ser assim.

Ele assentiu em concordância.

— Quando finalmente alcancei você, você parecia não me ver ou me ouvir, mesmo estando nos meus braços. Eu perguntei onde você estava, mas você não ouvia. No último instante, você deu sinais de perceber minha presença, e meu pânico se dissipou. Mas eu acordei sem que você me dissesse nada.

Amália acariciou seu rosto, entrelaçando os dedos em seus cabelos castanhos.

— Estou aqui agora.

Ele assentiu. Ela o beijou e Afonso a retribuiu durante todos os segundos que puderam ficar sem ar.

— Mesmo nos sonhos estamos conectados.

Amália sorriu, mas não durou mais que um segundo.

— Eu anulei o casamento... Pedi ao rei Augusto – ela falou com tristeza.

— Vamos resolver isso. Estamos juntos de novo, vamos ficar bem – Afonso garantiu, a encarando profundamente.

Amália assentiu.

— O que aconteceu? A guerra, nossa família, Artena...

— Estamos todos bem, exceto Samara – Afonso disse acariciando o rosto da amada, querendo prepara-la para a notícia – Amália... Nem todas as notícias são boas.

— Eu sei... Estou pronta pra ouvir.

Afonso assentiu.

— Você não deve ter esquecido que fizemos uma promessa a Samara, apesar de estarmos separados quando ela nos fez aquele pedido.

Amália assentiu.

— Infelizmente, Amália... Não por boas razões, é hora de cumprir. Levi agora é nosso.

Primeiro o olhar dela ficou em choque, depois se encheu de tristeza.

— Afonso... Como...?

— Levi ficou muito agitado, queria se sentir útil. Fugiu pra tentar lutar. Samara e Diana foram atrás dele, mas ela foi atingida por uma flecha nas costas no instante em que o encontraram. O ferimento foi num local muito delicado, ela só resistiu algumas horas.

Amália ficou em silêncio por um bom tempo enquanto processava as informações, conhecia Samara e Levi há pouco tempo, e ainda nem era mãe realmente, mas seu coração se contorceu ainda assim. Ao menos o menino estava vivo.

— Ele não deve estar bem com isso.

— De fato não... Mas ele ainda tem esperança de ver você outra vez. Isso tem lhe dado forças.

Amália conseguiu sorrir e assentiu.

— Agora ele é nosso... – falou para assimilar – Temos dois filhos – ela sorriu.

Afonso acompanhou seu sorriso.

— Não vai ser fácil. Levi já tem muitas marcas pra alguém tão jovem, mas...

— Vamos achar um caminho. Estamos os três vivos, por hora isso já é muito bom.

Afonso concordou.

— O rei Augusto... Desapareceu quando fugimos do castelo de Artena no fim da guerra. Alguns acreditam no pior. Meu irmão está fazendo a princesa de prisioneira no castelo de Montemor, onde muitos dos que restaram estão agora.

— Dos que restaram?!

— A cidade sofreu muitos danos, Amália. Vidas foram perdidas de ambos os lados, há quem conseguiu fugiu pela floresta e chegou a outros reinos, a maioria, no entanto, seguiu até Montemor, o reino mais próximo, apesar de adversário. As buscas pelo rei continuam, mas sem sucesso até agora.

Amália respirou fundo, e dessa vez não fez esforço para segurar as lágrimas. Afonso sentiu o coração apertar enquanto ficava em silêncio mais uma vez junto com ela, em luto pelo reino onde nascera e que tanto amava.

— Nossa família...

— Nossa casa ficou intacta, mas seria loucura continuar em Artena. Nós a trancamos e levamos tudo que deu pra carregar. Felizmente conseguimos outra casa rapidamente em Montemor. Estamos todos bem instalados.

— Quantas vidas foram perdidas por essa guerra sem sentido?

— Mais do que gostaríamos, entre soldados e civis. Felizmente nenhuma criança.

Afonso ficou satisfeito quando a última informação pareceu relaxá-la um pouco, e secou as lágrimas de seu rosto.

— Há pessoas insatisfeitas com Rodolfo, a falta de água está se agravando, há moradores com dificuldades pra aceitar o povo de Artena, e há outros muito solidários ajudando e até dividindo a água. Muito ainda está se ajustando.

Ela assentiu.

— Eu sei que é difícil, Amália, mas tente não se preocupar tanto com isso. Não é o mais importante pra nós agora. É muito pra qualquer pessoa.

— Eu entendo.

— Você tentou contatar algum de nós enquanto esteve aqui?

— Não, nem teria como. Não havia ninguém além de nós duas por perto. A mandingueira nunca vai à cidade. E ela dizia que não era seguro pra mim sair, que me admiram por quem sou, e que outros me odeiam pelo mesmo motivo, e que havia algum perigo oculto.

— Qual?

— Ela não soube dizer. Achei que fosse Virgílio, mas quando encontrei os lobos, eles agiram de forma estranha antes de irem embora. Achei que fossem me atacar, mas percebi que a mãe estava rosnando pra alguma coisa atrás de mim. Eu olhei e não havia ninguém. A loba e o filhote ficaram dóceis novamente antes de irem embora, mas a mandingueira disse que havia alguém com muitas sombras por perto.

— Eu os vi... Eu vi essa loba carregando o filhote enquanto fugiam de alguma coisa. Passaram correndo na minha frente, o cavalo se assustou. Mas também não havia nada adiante. Uma pessoa, fogo, ladrões, Virgílio, nada...

Afonso vira os lobos. Teria sido assim que a encontrou? Algumas horas haviam se passado desde o incidente até ele encontrá-la.

— Tem certeza de que não o viu? – Ela perguntou se referindo a Virgílio.

— Sim. Tomei precauções pra que ele sequer desse por minha falta na cidade ou me seguisse.

— Ela tem me dito que alguém viria por mim em breve. E tudo que eu queria é que fosse você.

Afonso sorriu.

— Parece que eu acordei de um pesadelo.

— Foi tudo tão estranho... Claro que já ouvi falar de pessoas que perderam a memória, mas... Como eu fui esquecer de você?! A pessoa mais importante da minha vida. Eu esqueci de você... E de todo o mal que Virgílio nos fez.

— Não de todo mal... Ainda que tenha sido pelo seu instinto de proteger nosso filho, você reagiu, Amália.

— Meu amor, quando penso que eu podia estar casada com aquele homem...

— Amália, não pense. Não pense nisso, por favor. O que importa agora é que estamos juntos novamente.

— Você me perdoa? Eu sei que não deve ter sido fácil pra você...

— Eu não tenho que te perdoar, Amália. Você sofreu tanto quanto eu. Ou mais. Nós fomos vítimas de uma fatalidade.

Ela assentiu, enquanto Afonso a encarava profundamente.

— Quando eu acordei sozinha naquela carruagem... Todos os momentos que vivemos juntos passaram num instante na minha cabeça. E eu fiquei com tanto medo... Se eu o tivesse perdido...

Afonso repousou a mão livre sobre a dela no ventre.

— Mas não perdeu. Nosso filho está vivo – ele sorriu – Nem pense nisso. Nós temos uma vida inteira pela frente. E teremos esse e muitos outros filhos. Eu prometo.

Amália retribuiu novamente o sorriso dele, e seus lábios se encontraram novamente, com o bebê chutando sua pele sob suas mãos unidas, tornando o momento ainda mais intenso.

******

— Aonde vai, Levi? – Thiago perguntou cedo da manhã enquanto se preparava para trabalhar, todos aparentemente ainda dormiam.

O menino parou a meio caminho da porta, sem nada dizer, parecendo finalmente refletir sobre as implicações da última vez que fizera isso.

— O Afonso não voltou. Já faz um dia inteiro que ele foi embora.

Thiago tomou um instante para pensar.

— Eu sei. Todos estamos preocupados. E eu sei que que pra você tudo está ainda mais difícil. Mas se arriscar sozinho lá fora não vai ajudar. Quando Afonso voltar, principalmente se ele não voltar com boas notícias, não acha que ele se sentiria mal se souber que perdemos você também?

— A guerra acabou.

— Sim. Mas estamos um reino novo e desconhecido, somente Afonso sabe bem como lidar com as pessoas daqui, e você sabe que nem todos os moradores são simpáticos a nossa presença, apesar de ter sido o reino deles que nos forçou a vir pra cá.

O garoto permaneceu em silêncio, parecendo pensar.

— Desde que conhecemos Afonso, ele não nos decepcionou nenhuma vez. E já passamos por muito, apesar de fazer menos de dois anos que Amália o encontrou ferido na floresta.

— Foi assim que vocês se conheceram?

— Sim. Eu e Amália estávamos colhendo ervas e laranjas pra cozinhar na feira. Nos separamos por um momento, e ela tropeçou nele no capim alto do campo. Achou que estivesse morto, mas Afonso conseguiu reagir e mostrar que não. Ele segurou a mão dela com as últimas forças que tinha e não soltou mais. Então Amália foi me chamar pra ajudar.

— O que tinha acontecido?

— Ele estava numa expedição de Montemor pra procurar água quando foram atacados por ladrões, e foi atingido por uma flecha. Embora na época ele tenha nos dito que estava caçando com amigos. Metade ainda estava cravada no corpo dele quando Amália o achou.

— Por que ele não disse logo a verdade? O que vocês fizeram? – Levi perguntou com os olhos brilhantes de curiosidade, parecendo ter finalmente esquecido de seus planos de fugir sozinho outra vez.

— Por que não senta enquanto termino de me preparar pra o trabalho e os outros acordam? É uma boa história. Cada vez que me lembro de como tudo aconteceu mais me convenço de que estava escrito pra ele e Amália se encontrarem naquele dia.

Thiago continuou o relato, sendo ajudado por seus pais e Diana quando os três também acordaram e forneceram mais detalhes, sentindo-se satisfeito por conseguir manter Levi longe de todos os pensamentos tristes que acometiam todos eles ultimamente, mesmo que por pouco tempo. E se agora ele teria novos pais, seria bom que conhecesse a história deles, ainda que não tivessem qualquer ideia se ela terminaria com um final feliz.