Cabeça de Vento
1 Prólogo
Notas iniciais
Na minha opinião, todo mundo tem um pouco de sorte na vida. Por exemplo, muito provavelmente eu nunca vou ganhar na loteria (já que eu não aposto nada), nunca vou ser escolhida entre milhões de pessoas para entrar em uma faculdade de medicina (já que não quero ser médica), nem compor uma música que fará sucesso. Mas se você levar em conta tudo que já aconteceu nesse mundo, é possível que pelo menos uma dessas coisas vá acontecer a cada um de nós. Eu poderia ter composto uma música ridícula e ela poderia ter virado febre na internet. Poderia criar um canal no youtube onde falaria só de moda. Poderia ter montado uma girlband. Poderia ter entrado pelada em um programa de TV. Poderia ter me casado com um príncipe ou salvado o presidente dos Estados Unidos. Mas minha sorte foi diferente. Minha sorte foi a seguinte: de todos os presentes de aniversário do mundo, eu fui escolher viajar para Hollywood. Onde eu, por pura sorte, estava na hora certa, no dia certo e no lugar certo.
Nunca fui rica, na verdade. Comecei a fazer teatro aos 9 anos de idade, em cursos gratuitos ou onde eu pagava pouquíssimo. Participei de vários testes para novelas, mas sempre fui recusada por ''não ser parecida com a personagem’’. Minha maior chance foi ter entrado para o elenco de um filme brasileiro, onde eu seria uma espécie de figurante. Mas como sou a pessoa mais sortuda do mundo, acabei quebrando o braço semanas antes das gravações, ou seja, fora do elenco. Já estava pensando até em desistir de tudo isso, escolher outra profissão pra seguir, fazer novos planos pra minha vida. Mas a cada vez que eu via os artistas que eu gosto fazendo sucesso, eu pensava ''por que não eu?’’. Então, eu continuava tentando.
Arrumei um emprego aos 13 anos, nada muito difícil, claro. Ajudava minha avó a vender doces e a fazer unhas das clientes, rendia uns 300 reais por mês. Já era um bom começo. Comecei a juntar a partir daquilo. Na época do meu aniversário, resolvi fazer uma viagem para algum outro estado do Brasil, já estava até decidindo qual seria o destino quando minha irmã me disse que eu poderia ir pra algum lugar fora do país. Egito. Sempre tive vontade de ir pra lá, por mais que pareça estranho. Pirâmides e tal. Mas acabei optando por ir a Hollywood, seria um ótimo lugar para ir atrás dos meus ídolos.
A empresa aérea foi a mais barata possível, eu não era tão rica assim. Fui com minha irmã, Carol, já que minha mãe odeia aviões e meu pai estava lotado de trabalho. O hotel também não era dos melhores, mas pra mim era um palácio. Nossa primeira parada foi visitar os pontos turísticos do lugar, calçada da fama, etc. Passaram-se quatro dias e já estávamos arrumando as malas para voltar quando eu resolvi visitar um shopping, para me despedir de vez. Foi aí que tudo começou.
Nunca me achei linda. Tenho olhos castanhos, comuns. Cabelos castanhos, mais comuns ainda. Uma pele branca, mas com várias sardas, das quais eu nunca gostei. Tenho 1,65 (sempre me chamam de baixinha). Já passei por uma agencia de modelos, mas ela acabou fechando. Algumas pessoas dizem que sou linda, porém não confio muito nisso. Não me acho top, pop e muito menos diva. Também não me odeio tanto assim, existe um pingo de amor próprio aqui dentro. Antigamente eu achava minhas mãos bonitas, principalmente as unhas. Grandes e retas. Mas acabei pegando uma mania de roê-las (valeu semana de provas, valeu MESMO), o que acabou deixando-as horríveis. Enfim, nunca fui do tipo de garota popular ou aquelas que todo mundo baba quando ela passa. Mas naquele dia foi diferente, naquele dia alguém me achou bonita. Alguém que não fosse minha mãe.
Eu estava andando tranquilamente no shopping quando um homem me parou. No primeiro momento pensei em correr, fugir dali, mas aguentei firme e conversei com ele. O cara falou que se chamava Andrew, que era diretor de um filme e que estava procurando uma garota como eu. Não entrei na onda, claro. Que espécie de cara te para no shopping pra dizer que você é o tipo de garota que ele estava procurando a séculos? Olhei ao redor pra ver se não era nenhuma pegadinha, mas se fosse, as câmeras estavam bem escondidas. Minha irmã, que estava olhando algumas roupas, parou tudo que estava fazendo e correu na minha direção. Como sempre, maluca. Ela nem perguntou quem era o homem, começou a conversar com ele normalmente, como se fossem velhos amigos. Quando vi, já estava dentro de um táxi, sendo levada a um estúdio?! Sim, isso estava ficando cada vez mais louco. Carol nunca foi do tipo de garota que se importa comigo, sempre me deixa pelos cantos. Cheguei a pensar que aquilo era um plano pra me sequestrar, alguma coisa assim. Ela iria se livrar de uma vez por todas de mim. Mas quando chegamos ao destino, vi que aquilo não era uma pegadinha ou alguma câmera escondida. Aquilo era real. Até me belisquei pra ver se era um sonho, mas nada mudou. Eu continuava ali, dentro de um carro, entrando no estacionamento de um set de gravações.
Quando chegamos ao local onde estavam sendo realizadas as gravações, Andrew me levou ao escritor do livro, que seria a base para o filme.
— Eu a encontrei, Phillip. — ele disse todo animado.
O escritor se virou, já preparado para brigar com Andrew. Quando ele me viu, sua expressão mudou totalmente. Seu rosto ficou congelado por um tempo, até que ele deu um sorriso e veio até mim.
— Melinda. — ele disse num sussurro.
Melinda? Não, não podia ser. Melinda era o nome da personagem de um livro, no qual eu era uma verdadeira fã. A história girava em torno de uma menina que descobriu que era uma bruxa, uma princesa que havia sido tirada da família. O livro se chama Feiticeiros e só tinha sido lançado a edição 1. A um tempo atrás eu tinha lido algo sobre um fechamento de contrato entre o escritor e um diretor, para que eles começassem a rodar o filme. Mas isso tinha sido a bastante tempo, pra mim eles já tinham até terminado o filme.
— Qual é seu nome? — Phillip perguntou. Pela primeira vez eu não tinha palavras, ainda estava muito atordoada com tudo isso.
— Sarah. Sarah Hoper. — respondeu minha irmã.
Fiquei um pouco pasma, meu nome nem era esse. Meu nome sempre foi Sarah Alves. Pelo menos é isso que me falaram.
— Sarah... O mesmo nome da minha filha. Como adoro esse nome. — disse o escritor. — Você poderia dar uma volta comigo, Sarah? Pra gente conversar.
— Claro. — dessa vez as palavras saíram pela minha boca.
Phillip me mostrou todo o lugar enquanto me contava sobre os planos do filme.
— Quando recebi a proposta do Andrew, pensei em recusá-la, porque seria difícil achar alguém que se parecesse com a Melinda que eu havia criado nos meus sonhos, sabe? — ele disse e eu assenti. — Mas acabei aceitando, já que eu tinha plena certeza de que algum dia ela iria aparecer. E ela acabou aparecendo, não é?
— Você acha mesmo que eu me pareço com ela? — perguntei.
— Você não se parece com Melinda, você é a própria Melinda. Sempre a imaginei assim, com esse rosto frágil, mas que ao mesmo tempo mostra que tem uma garota forte aí dentro. Só essas sardas que não estavam na minha mente. — já ia dizer que eu podia tirá-las, usar maquiagem, mas ele continuou. — Elas fizeram toda a diferença. Agora ela não é só uma bruxa comum, ela é uma bruxa com sardas.
Não pude evitar dar uma gargalhada, o que acabou gerando um enorme sorriso no rosto de Phillip.
— É sério isso tudo? Tipo, eu estou mesmo aqui? Conversando com você, dentro de um set de gravações. Isso é inacreditável. — disse com os olhos brilhando.
— Eu pensei o mesmo quando estava escrevendo o livro. Pensando se ele algum dia fosse fazer sucesso, se algum dia as pessoas fossem mesmo lê-lo. Afinal, você já ouviu falar nele? — ele perguntou com uma expressão triste.
— Não só li, como sou mega fã. — sorri ao lembrar-me de quando eu lia e relia o livro.
Depois de muito tempo conversando, ele pediu que eu aceitasse o convite e atuasse como a Melinda, que seria a protagonista do filme. Pensei em tudo que eu teria que deixar pra trás, pensei se eu suportaria ficar tanto tempo longe da minha família. A decisão era somente minha. Esse era o meu sonho. Ser uma atriz. Não me imagino fazendo nenhuma outra coisa sem ser atuar.
— Eu aceito. — disse depois de pensar muito.
Pela primeira vez na vida eu me parecia com a personagem. Pela primeira vez na vida eu tinha a chance de realizar meu sonho. Pela primeira vez na vida eu tinha a chance de ser alguém.
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