Notas iniciais
Muito obrigada as pessoas maravilhosas que comentaram o Epílogo. Voces são anjos que apareceram na minha vida

As pessoas me perguntam como estou vivendo essa nova vida, ainda não tenho uma resposta certa. Já se passaram dez meses desde o dia em que fui chamada para fazer um filme, fato que mudou completamente a minha vida. Feiticeiros foi um sucesso de bilheterias. Artistas de vários países assistiram-no e comentaram o quão bom ele foi. Sem querer me gabar, mas demos tudo de nós. Queríamos fazer algo que as pessoas gostassem, que os fãs gostassem.

Agora tenho amigos nessa nova vida: India Eisley, Chloe Moretz, Thomas Sangster, Madison Lintz, Lily Collins, Odeya Rush, Haille Steinfeld, Julie Anne Smith, Alexander Ludwig, Bradley Cooper e Demi Gene Guynes. Todos eles participaram do filme comigo, o que acabou nos aproximando. Foi incrível trabalhar com eles, foi incrível conviver com eles. Viramos uma enorme família, que até hoje não se separou.

Aos poucos estou me acostumando com tudo isso. A ficha ainda não caiu completamente. Duvido muito que ela vá cair algum dia. Ainda vou me surpreender sempre que alguém me pedir um autógrafo ou foto. Ainda vou me surpreender sempre que for chamada pra fazer outro filme.

Hoje minha família mora comigo, aqui nos Estados Unidos. Meu pai arrumou um emprego como empresário de bandas não muito conhecidas, mamãe virou dona de casa e Carol continua sendo minha empresária. Tivemos que abandonar nossas vidas no Brasil, abandonar o resto da família. Isso não é ruim, mas também não é muito bom. Sinto falta deles.

Já fiz três filmes, dei milhares de entrevistas, viajei pelo mundo todo, conheci gente nova e recebi inúmeras propostas. Por mais que seja surreal, estão dizendo que serei indicada ao Oscar de melhor atriz Coadjuvante, por um filme que fiz ao lado de Brad Pitt. Duvido muito que isso vá acontecer, mas não custa sonhar um pouquinho.

Tirei uma semana de férias e fui para o Egito. Sempre sonhei em ir para lá e ver pessoalmente o quão bonito e histórico é esse país. Surpreendi-me muito com as pirâmides, as réplicas, os desertos, tudo que tem por lá. Foi a viagem mais incrível que já fiz em minha vida, duvido que eu encontre algum lugar tão maravilhoso quanto aquele. Mal cheguei aos Estados Unidos e já fiquei sabendo de mais propostas de trabalhos.

A partir do próximo semestre irei entrar para o elenco de Once Upon a Time, fazendo o papel de Merida. Informaram-me que terei que ficar ruiva e usar lentes, mas não vejo isso como um problema. Sempre quis ser ruiva. Mais uma vez vou entrar para o mundo da fantasia, mas dessa vez é diferente, dessa vez é um conto de fadas. Sempre fui apaixonada por essa série, ou seja, tive mais um surto ao saber que farei parte dela. Essa semana já encontrei os atores, visitei o estúdio, assisti a alguns episódios que estavam sendo gravados, fiz amizades. Foi incrível. Como já disse ante, minha ficha ainda não caiu, então fica difícil acreditar em tudo que está acontecendo ultimamente. Não sei se isso é um sonho, mas vou aproveitar enquanto ele durar.

Nesse momento estou assistindo um filme, antes de me preparar para ir a um desfile em um shopping. Vou atravessar a passarela ao lado da minha amiga Elle Fanning, já que nós duas somos garotas propagandas de uma marca que marcará presença no evento. Acostumei-me a me arrumar mais, comprar roupas novas e bonitas, enfim, me vestir como uma artista de verdade. Quando Carol ficava me atormentando para me arrumar de um jeito mais glamoroso, eu nem ligava, mas agora que mamãe está aqui, resolvi fazer seus gostos e ouvir seus conselhos.

Ganhei de Madison uma gata malhada. Ela tem pelos brancos, amarelos e marrons, se parece com um tigre. Ela se chama Clove, pelo simples fato de que eu amei esse nome e só de bater o olho na gata, percebi que ela tinha cara de Clove. Essa é uma das mil coisas que acontece comigo e que eu não consigo explicar de jeito nenhum. Além da gata, possuo mais duas cadelas que ganhei quando fui ao Brasil visitar minha família. Kaya é uma labrador branca como a neve, tem olhos cor de mel, é super agitada e não gosta de parar de casa. Minha prima, Samantha, achou que seria legal me presentear com um cachorro desse tamanho, já que eu reclamava de estar muito só. Lucy é um husky siberiano, parece um lobo. As vezes até me assusto só de olhar para ela, é tão grande que parece um monstro. A ganhei de minha tia Isabel, que é meio maluquinha e tem alguns parafusos soltos. Como minha família é muito bagunçada e as notícias se espalham de um jeito totalmente errado, ela pensou que eu precisava de um cachorro grande para fazer um filme e servir de companhia. Oi? Sim, eu disse que ela é meio doida das ideias. Enfim, agora tenho duas cadelas, uma gata, um aquário enorme e lotado de peixes, um cágado, um papagaio e um hamster. Minha casa é um verdadeiro zoológico, mas eu gosto disso. É como estar no Brasil de novo. Nunca me sinto sozinha, pelo simples fato de ser impossível ficar sozinha. Mesmo se minha mãe for jantar com meu pai, minha irmã sair com um de seus pretendentes, eu ainda vou ter os animais. Que, se você quer saber, me fazem mais companhia do que minha própria família junta.

— Pirralha, eu vou sair com o Matt. Vê se não quebra a casa. — gritou Carol enquanto saia pela porta, fazendo um barulho tão alto que toda a rua deve ter escutado.

Meu pai e minha mãe haviam saído para acampar na porta de uma casa de shows, onde estaria presente uma banda de rock da qual eles eram muito fãs. Os dois se conheceram em um show como esse, eram do tipo de adolescentes doidões que fogem de casa e que apedrejam carros. É isso que eu mais gosto neles. Ter pais malucos é ótimo, você pode fazer coisas doidas e ninguém pensa que você ficou pirada, já que seus pais também são desse tipo.

O filme que estou vendo é Harry Potter e a Camada Secreta. Por mais que eu seja fanática por toda a série, não estou muito no clima para assistir nada ou ficar comentando cada fala dos personagens. Mesmo a casa estando lotada de bichos de estimação, não é a mesma coisa que ter a casa cheia de gente de verdade. Afinal, animais não falam.

Ouço a companhia tocar e me arrasto, literalmente, até a porta. Nem me preocupo em arrumar meu cabelo, passar uma maquiagem, vestir uma roupa melhor. Só pode ser Elle, que veio me buscar para o desfile, apesar de ainda faltar umas três horas.

— Ai meu Deus! Por favor, me diga que estou tendo um pesadelo. — ela fala, fazendo sua melhor pose de assustada.

— Nem vem, Fanning. Ainda falta muito tempo. — respondo, me jogando no sofá mais uma vez.

— Muito tempo? Faltam tres horas, Sarah. Tres horas para arrumar seu cabelo. Tres horas para vestir uma roupa que seja descente. Tres horas para chegar ao shopping. Tres horas para fazer a maquiagem. Não temos tempo nenhum! — Elle esbraveja. Apesar dela ser muito amorosa e atenciosa, as vezes ela age como uma maluca total. Isso que eu gosto nela.

— E o que você sugere, Mary? — provoco. Como esse é o primeiro nome de Elle e ela o odeia, sempre uso essa tática para encher a paciência dela.

— Ah! Mas agora você vai ver! Mexeu com a pessoa errada, mocinha! — ela grita, me arrastando até o quarto como se eu pesasse uns 20 quilos.

Mesmo não tendo certeza do que viria pela frente, já imaginem o pior. Elle me levou até o quarto e me obrigou a tomar um banho tão rápido que nem deu tempo de cantar duas músicas. Em seguida, ela secou meu cabelo, fez um chapinha, depois uns cachos, inventou uma maquiagem natural e escolheu uma roupa para mim. Depois de revirar meu closet inteiro, ela finalmente achou um macacão verde água, pegou uma sandália de salto cor da pele, algumas joias e me entregou.

— Eu ainda não entendo porque você tem tanta roupa mesmo assim não usa a maioria delas. — ela resmungava, mais pra ela mesma do eu para mim.

— Não acho importância nenhuma nelas. Prefiro minha calça, minhas botas e uma jaqueta básica. — digo, mesmo sabendo que ela ignoraria meu comentário. — E eu não entendo porque você precisa alisar meu cabelo pra depois fazer os cachos. Não é mais difícil? Tipo, você alisa uma coisa e depois enrola ela? É surreal.

— Surreal? Bem, querida aprendiz, seu cabelo, como você mesma diz, as vezes precisa de força bruta. Não é fácil pegar um cabelo todo molhado e ondulado e começar a fazer cachos, vai ficar um frizz horrível no topo da sua cabeça. Por isso eu aliso antes. Pra tirar o frizz. — explica a loira, sem nem tirar os olhos da revista que estava lendo. Vogue.

— Pronto. Acabou a sessão tortura. — agradeço depois de calçar o último pé da sandália.

Assim que escuta meu comentário, Elle tira os olhos da revista e me olha com uma expressão horrorizada.

— Ficou tão ruim assim?

— Ruim? Ruim? — ela pergunta perplexa enquanto me coloca de frente pro espelho. — Eu sou uma fada madrinha! Eu sou uma pessoa surreal!

Ao olhar para meu reflexo, percebo o que a deixou tão assustada. Eu estava bonita. Bonita não é a palavra que mais se encaixa. Eu estava linda. O que mais me surpreendeu foi que eu não parecia com a Sarah que estampava as revistas, cheia de maquiagem e photoshop. Eu me parecia com a Sarah de antigamente, como a Sarah do Brasil, como a Sarah normal. Acho que nunca tinha ficado tão bonita naturalmente, claro que, com a ajudinha de uma base ali e tal. Agora eu parecia uma pessoa surreal.

Ao chegar ao shopping, o pânico tomou conta de mim, como sempre acontecia em desfiles. Passar por uma passarela longa, onde todos ficam te encarando e tirando fotos, isso era uma coisa pela qual eu não tinha me acostumado mesmo. Por mais que seja fácil para algumas pessoas, para mim não era. Prefiro nadar nas cataratas a desfilar sozinha por uma passarela dessas. Ainda bem que eu tinha Elle.

Depois de passar pela multidão, dar autógrafos, tirar fotos, me levaram até o camarim. Vesti um vestido azul esvoaçante, sem nenhum brilho ou lantejoula, o que me deixou mais confusa ainda. Geralmente, as roupas dessa marca eram muito chamativas e ofuscantes.

— Não te disseram, querida? — disse uma das mulheres que estavam fazendo meu penteado. — Vocês vão usar roupas menos ‘’cheguei’’ nessa noite. As críticas estavam muito negativas. Ninguém concordava em colocar uma roupa curta e colada em uma menina de apenas 14 anos. Além do mais, esse é bem mais bonito. Ele realça seus olhos. Eles são lindos, não? É uma mistura de mel com verde.

— Meus olhos não verdes... — comecei a falar, mas fui interrompida pela assistente do evento.

— Um minuto pra vocês estarem atrás do palco.

Elle teve que, mais uma vez, me arrastar pelos corredores até chegar a cortina que nos separava da passarela. Nós teríamos que encerrar o desfile com chave de ouro. Por mim, eu saía correndo dali naquele mesmo momento, mas minha amiga contava comigo, eu não podia deixar ela sozinha.

— Olha, eu sei que você nem queria estar aqui...

— Voce sabe que não, mas, sabe, eu me acostumei. Agora eu gosto, por mais que eu sinta um medo dos infernos, eu gosto. Voce me ensinou a gostar. Voce me ensinou a ver o mundo da fama de uma outra forma, Elle. Agora nós vamos entrar e você vai brilhar como nunca brilhou antes. — minha voz soava baixa e seca, mas eu sabia que cada palavra tinha sido verdade. Por mais que eu tivesse vontade de morrer no momento em que pisasse naquela passarela, eu ainda sentia uma coisa boa.

— Eu não vou brilhar sozinha, Sarah. Nós vamos brilhar. Nós duas.

As cortinas foram abertas e Elle segurou minha mão. Ouvimos os nossos nomes ecoarem sob o imenso salão e a música começou. Shake it off. É impressionante como as pessoas descobrem tudo da nossa vida. Como é que elas sabiam que éramos fãs da Taylor? Ah, isso não importa. O que importa agora é que vou sentir uma vontade de me jogar de um precipício, mas depois isso vai passar e vamos ficar rindo a noite inteira.

Dei o primeiro passo na passarela. No momento em que meu pé direito tocou o chão, uma corrente elétrica percorreu meu corpo. É, não deve ser tão mal assim. Afinal, se fosse, as modelos morreriam de 5 em 5 minutos.

Notas finais
Elle Fanning
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.