Caída

4 Primeiras Impressões


Acordo de manhã sem a menor pressa de ir para a escola. Sei que é errado pensar assim, mas sei que irei passar pelo mesmo que passei no dia anterior. E não queria isso novamente.

Não enrolo muito no banheiro, então quando desço ainda pego meu pai tomando café.

- Bom dia, passarinha – Era esse meu apelido desde pequena, e nem sei o porquê – Dormiu bem?

- Sim pai. – Pude dizer sem mentir – O que nós temos para o café?

- Nós somos uma típica família americana não é não? Então temos ovos e bacon para o café. Com suco de laranja.

Dou uma risadinha. Meu pai sempre bagunça com os típicos costumes familiares americanos. Ele é da Europa. E confesso que foi bom ser criada quase toda minha vida na Inglaterra. Mas a América me conquistou. Sabe por quê? Starbucks. Sento na bancada de mármore negro junto ao meu pai e ele faz a pergunta que estava torcendo para que ele não fizesse.

- Como foi sua aula ontem?

- Hã... Eu já tive aulas melhores. – Eu poderia muito bem mentir para ele. Mas eu e meu pai sempre fomos muito sinceros um com o outro. Por isso disse a verdade. – Sinceramente, foi uma merda. Primeiro, eu me perdi nessa cidadezinha, depois cheguei atrasada no colégio. Todos ficaram me olhando como se fosse uma aberração e o primeiro professor do dia me tratou com uma gentileza incrível, para não dizer ao contrario. E ainda senti que alguém... – Eu ia falar que senti alguém me observando. Tipo, espionando mesmo.

- Sentiu o que querida?

- Nada pai... Senti uma dor de cabeça muito forte... A única coisa boa do dia foi eu ter achado uma Starbucks. E parece que é aqui perto. – Disse forçando um sorriso.

Bem, o meu falso sorriso foi o suficiente, e eu me senti culpada por omitir essa parte de meu pai. Mas eu sinceramente não queria que ele se preocupasse com algo tão tolo quanto um frio na espinha. Enfim, terminei meu suco de laranja e me dirigi ao meu carro, fazendo uma pequena prece para que não me perdesse novamente.

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Felizmente consegui chegar ao colégio em oito minutos, um tempo recorde comparado a minha primeira tentativa. A música no player era perfeita: hoje eu estava me sentindo ótima, a procura de alguém que me fizesse se sentir em casa.

Saio do carro, olho no relógio, e descubro que ainda tenho vinte minutos (graças a Deus) antes de bater a campa. Olho em direção da escada principal e vejo um rabo de cavalo cobre muito familiar. Reconheço Judith e decido ir falar com ela. Afinal, ela foi a única pessoa legal comigo desde que cheguei (ontem).

- Oi – Disse para ela esperando uma resposta amigável

- O que é?! – Ela levanta o rosto e sua expressão de ira se torna uma de pura vergonha – Oh, Courtney. Desculpe, eu achei que fosse o Jason.

- Hããã... Ok. Quem é Jason?

Percebi que ela olhou para as minhas costas e murmurou bem baixinho:

- Falando no diabo...

Olho para trás e imediatamente me surpreendo. O menino para o qual estou olhando parece um daqueles rebeldes saídos de filmes de ação. Ele usava uma jaqueta de couro preta com uma camisa branca por baixo, calça jeans azul meio desbotada e botas de motoqueiro. Seus cabelos batiam na altura do queixo, e eram pretos como a noite. Suas feições eram delicadas demais (numa forma masculina, claro) para o resto de seu visual bad boy: lábios cheios e vermelhos, um nariz afilado que qualquer um desejaria... Porém os olhos eram o que prendiam você. Apesar de ser um tom castanho claro comum, eles te prendiam e seduziam e me dava vontade de agarrar ele ali mesmo e...

- Bem, pelo visto vocês estavam falando de mim não?

Sua voz grave e presente me fez sair de meus pensamentos obscenos.

- Estávamos Jason. Agora saia daqui! – Disse Judith, quer dizer, Ju, cheia de um ódio surpreendente para uma garota de 1, 56 cm de altura.

- O que eu fiz para você Judithzinha? – Disse ele, enfatizando o inha, e com uma voz que dizia eu vou continuar fazendo só porque te irrita.

- Por favor, Jason, hoje não tá? Hoje não...

Jason cedeu e acabou desviando a atenção de Judith para mim:

- E você? Algo a declarar?

- Não, eu só... Queria que você fosse embora. Por favor.

Finalmente ele se virou e foi-se embora. Olho para Judith e pergunto:

- O que foi que ele te fez?

- Nada com o que deva se preocupar Courtney. Sério.

- Ele não me parecesse boa pessoa...

- E ele não é... – Sussurrou ela, mas não baixo o suficiente.

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Hoje as aulas foram melhores que as do dia anterior, e em quase todas elas Judith também participava, ou seja, não fiquei perdida que nem uma pateta. Já me acostumei com os corredores longos de pedra decorados com móveis e ornamentos de aparência cara. Na hora do almoço, acompanho Judith em direção ao seu grupo de amigos (que prometi pra mim mesma saber os nomes até o final desse dia) com uma bandeja nas mãos onde se encontra somente uma lata de chá sabor pêssego e uma salada. Não que eu seja daquelas psicóticas que só comem verde ou algo parecido. Eu só estava sem fome. Quando sentamo-nos à mesa todos pararam de falar para nos analisar. Judith está parecendo uma marinheira, com uma saia azul marinho, camisa de manga branca e uma boina azul e branca. Eu estou um pouco menos arrumada. Estou trajando uma calça jeans preta com uma regata branca e um casaquinho bege. Enfim, o silêncio não durou muito, e logo todas as outras cinco pessoas da mesa começaram a comer. Parei para conta-los e vi que havia três homens e duas mulheres.

- A menina morena de cabelos cacheados se chama June. A menina loira se chama Paige. Os meninos são praticamente iguais, então vou dizer pelo cabelo. O de cabelo preto espetado se chama Jones. O de cabelo loiro caído é o Stark. E esse perto da gente de cabelos cobre é o Fred. Ele é meu irmão. – Sussurrou Ju rápido demais, porém devagar suficiente para eu poder decorar os nomes.

- Er, obrigada. Você leu a minha mente.

- Talvez você não goste de todos. Eles são abominavelmente sociais demais. Então vão se deixar levar pelo que ouvirem de você. O mais legal é o Fred, e não digo isso só por ser meu irmão. Ele até que dá um bom amigo de vez em quando – Diz ela sorrindo

Porém nada disso consegue desviar da minha mente a pergunta que me atingiu tão rápido quanto a soltei:

- Por que você estava tão irritada com Jason hoje de manhã? – Rapidamente cubro minha boca – Desculpe. Sei que não é da minha conta.

-Não precisa se desculpar. Minha família vem passando por momentos difíceis agora e Jason parece saber de tudo. Ele meio que joga na minha cara. Mas eu mereço isso. Eu fui a primeira, a saber, sobre o passado dele.

Ela não devia ter dito isso, pois só fez outra pergunta nada impessoal passar por minha cabeça:

- E o que tem o passado dele? – Pergunto, como uma criancinha ansiosa por saber o final da história.

- Bem... Ele veio de Connecticut. Ele tem dezoito anos, e se mudou pra cá aos dezesseis. Tipo, ele simplesmente fugiu de casa e arranjou dinheiro para vir pra cá. Depois de um tempo descobri o motivo de ele ter fugido. O pai dele era alcoólatra e sempre batia nele, na mãe e no irmão mais novo. A mãe é garota de programa, só que ninguém sabe disso. A não ser Jason, que a viu certa vez. O irmão é usuário e traficante de drogas desde doze anos de idade. Mas o que realmente o fez vir para cá foi uma suspeita de assassinato. Três pessoas mortas. Ele me disse que fez o que fez para salvar o irmão. Porém ninguém acredita.

- E você? Acredita?

- Sinceramente, eu não sei o que pensar Courtney... Mas vamos comer. É o melhor que podemos fazer agora.

Sei que a conversa já havia acabado. Me concentro na minha salada e sinto o frio na espinha novamente. Viro-me para ver quem anda me observando, como da primeira vez. Porém a diferença entre essa e a primeira foi que a pessoa não fugiu. E, ao longe, numa das últimas mesas do refeitório, Jason me olhava fixamente.

Notas finais
Jason incluido na estória =D