Eu praticamente não via o que escrevia com minha própria mão direita, a folha em branco na minha frente sendo preenchida de forma desorganizada pela minha caligrafia corrida. Era sempre assim quando eu tinha um surto de inspiração: precisava colocar as coisas no papel antes que elas sumissem da minha cabeça, então não sobrava muito tempo para capricho. Não que a minha letra seja um primor de elegância, claro.

Estando tomado por um momento de criação, apenas gesticulei na direção em que sabia que Akira estava parado. Nossa comunicação não-verbal era antiga e eficiente, e ele sabia quando não deveria me interromper com as suas conversas. Dessa forma, quando uma voz completamente diferente me perguntou se eu desejava mais café, a surpresa me tomou em cheio. Porém, muito mais do que isso, eu fui rendido pela pura e simples... Admiração.

Parado ali, do lado da mesa, estava a criatura mais bela que eu já tinha visto, sem exageros... Me faltavam palavras para descrevê-lo, e isso porque elas constituem a base do meu trabalho! Acho que nada me espantava tanto quanto o contraste que ele representava, no entanto: a sua beleza, quase sobrehumana, parecia sofrer uma restrição contínua e forçosa do seu uniforme e do ambiente ao seu redor, que tentavam enquadrá-lo na realidade e um padrão rotineiro... Mas sem qualquer sucesso.

E ele sequer parecia ter consciência dessa árdua batalha travada ali, debaixo do seu nariz.

— Anou, sumimasen...

Pisquei, várias vezes, percebendo que na minha contemplação eu havia esquecido de responder à sua pergunta ou... Provavelmente esboçar qualquer reação. Eu senti meu rosto esquentar devido ao embaraço, forçando um sorriso e aceitando rapidamente o refil da bebida quente que ele havia trazido até mim. Observando a xícara na minha frente encher devagar, eu ergui os olhos para olhá-lo mais uma vez, desfiando a pergunta num tom de voz que não transmitia nem metade da empolgação que eu estava sentindo:

— Você é o novo funcionário?

— Hai. — ele respondeu sem titubear, recolhendo o bule de café à sua posição original quando havia terminado a sua tarefa — Hoje é o meu primeiro dia.

— Boa sorte com o seu novo emprego, então... Uruha-san. — eu murmurei depois de olhar o nome preso à sua roupa, abrindo um pequeno sorriso ao constatar que não havia nenhuma outra informação ali. Uruha talvez tivesse algum motivo para não ser chamado pelo seu verdadeiro nome no trabalho.

— Arigatou. — ele respondeu, fazendo uma curta e respeitosa mesura antes de se retirar para atender outras mesas. Foi somente quando parei de acompanhar seus movimentos pelo salão que notei a expressão clara de diversão de Akira, voltada na minha direção.

Aquele cretino tinha uma mão em tudo isso, tenho certeza.

No entanto, eu acho que poderia perdoá-lo. Olhando para as folhas que eu havia enchido de palavras e idéias mais cedo, eu revisei todo o texto que havia produzido no furor da inspiração e sorri internamente ao fazer uma linha comprida e fina, dividindo a folha. Iniciava-se, ali, a introdução do novo protagonista da continuação de \"O Efeito Borboleta\", completa e obviamente inspirado em Uruha. Acho que deveria agradecer Akira pelo seu faro em relação à contratação de pessoal para o café... Mas isso só o deixaria mais convencido.

Ainda sorrindo para mim mesmo, comecei a escrever novamente as cenas que surgiam uma atrás da outra com clareza espantosa na minha mente.

Respirei bem fundo antes de pisar no carpete colorido que cobria todo o chão daquele andar. Meus dedos apertaram com força a pasta já meio gasta que eu trazia em mãos conforme eu forçava meu corpo a dar passos na direção da ampla e cara mesa de madeira que enfeitava o saguão do último andar daquela torre do caríssimo complexo de Roppongi Hills, abrindo um sorriso para a recepcionista que levou mais de dois minutos para fechar a tela do site de fofocas e novidades do mundo do entretenimento antes de voltar seus olhos excessivamente maquiados para mim.

— Konnichiwa! Como posso ajudá-lo?

— Konnichiwa... — eu acirrei os olhos, procurando o crachá que identificava a secretária na sua roupa e ficando ligeiramente perturbado com o tamanho do decote na sua blusa. Desde quando permitiam que funcionárias de editoras se vestissem daquela forma? Ainda mais em um prédio daqueles? Se bem que conhecendo quem era o chefe delas... — Kobayashi-san. Eu preciso falar com Uke-san, meu agente. Eu liguei ontem avisando que viria.

— Aa, Shiroyama-kun, não é? — ela abriu um sorriso largo conforme sua mão de unhas longuíssimas pintadas em verde e roxo agarrava o telefone que ficava sobre a sua mesa, seus dedos rapidamente digitando um ramal que ela provavelmente já sabia de cor — Yukkun, seu amigo está aqui!

Acho que nunca tive de fazer tanto esforço para evitar rolar os olhos ou demonstrar qualquer outro típico sinal de irritação e exasperação, mas as secretárias do meu editor eram a mais dura prova de paciência que eu já havia enfrentado na minha vida. Agradecendo com a cabeça quando a recepcionista permitiu que eu entrasse, eu rapidamente fiz o caminho até a porta do escritório de Yutaka, entrando e fechando a mesma antes de dizer:

-...Yukkun? Você só pode estar de brincadeira, Yutaka.

Um homem de cabelos castanhos e semblante infantil me abriu um grande sorriso, sinalizando com a mão esquerda para que eu me aproximasse da sua mesa. Sua sala particular combinava com a opulência de Roppongi Hills; todos os móveis eram de designers de nome, a decoração da sala havia sido feita por um especialista e a grande janela atrás de si com a visão de todo o complexo de diversão, gastronomia e negócios não deixava nenhum visitante esquecer que Uke Yutaka era alguém com muito, mas muito dinheiro. E poder, claro. Essas duas coisas caminham de mãos dadas e, infelizmente, eu não possuía nenhuma delas.

— Yuu, você me machuca de vez em quando. — ele desfez o sorriso para tentar me enganar com uma expressão de mágoa, mas eu conhecia meu editor suficientemente bem para saber que ele não estava nem um pouco ofendido com o meu comentário anterior — Você nem imagina o quão surpreso eu fiquei ao receber o recado de Haru-chan dizendo que você viria hoje.

— Falando nisso, o quê aconteceu com Minako-san?

— Minako? — ele piscou os olhos, alisando a camisa social azul clara que vestia e ajeitando o nó da gravata — Quem é Minako?

— Sua secretária...? — repliquei, apoiando o rosto em uma das mãos e deixando minha frustração transparecer dessa vez — Ou pelo menos era, da última vez que liguei.

— Aa, Mina-chan! — ele respondeu com um sorriso brilhante, dando um soco com uma das suas mãos na outra quando entendeu de quem eu falva — Kami-sama, Yuu-kun. Faz eras que você não me faz uma visita, se essa é a última memória que tem das minhas secretárias...

O semblante do meu editor mudou radicalmente naquele momento: Yutaka normalmente parecia alguém afável, gentil e educado, seu rosto infantil dando a impressão de que ele tinha muito menos idade do que eu e levando todos ao seu redor a acreditarem que ele possuía uma inocência que ele nunca havia tido. No entanto, quando o assunto eram prazos, produção e qualidade técnica do material escrito, a sua verdadeira natureza de profissional dava as caras.

E era deveras assustadora, na minha opinião. Até hoje me pergunto se ele se reconheceu em um personagem secundário de \"O Efeito Borboleta\" que se parece bastante com ele, nesse sentido.

— Eu tive problemas com um bloqueio.

— Um bloqueio. — ele repetiu, deixando seu corpo cair para trás na grande cadeira que ele ocupava e que funcionava maravilhosamente bem na hora de intimidar seus visitantes, que, como eu, sempre sentavam em uma mobília que tinha um terço daquela imponência — Um bloqueio por quase quatro meses... Aoi?

— Hai.

— Você sabe o quê eu tive de dizer aos diretores nesses quatro meses? — ele me perguntou, seu tom de voz tão baixo e calmo que me arrepiava. Eu não sei se isso se deve à minha criação, feita numa casa onde as pessoas eram mais... Enfáticas a respeito de seus sentimentos, mas o modo como Yutaka conseguia gritar comigo sem elevar a voz era amedrontador.

— Eu... Imagino.

— Então você também imagina que me deve explicações a respeito do seu sumiço. — o homem mais novo replicou com cansaço na voz, voltando seu corpo para a frente e apoiando seu rosto jovem nas mãos — Yuu, eu não estou brincando: você sumiu por quatro meses. Eu conversei mais com a sua secretária eletrônica do que falei com seres humanos de verdade nesse tempo. Espero que a sua visita hoje... Seja o sinal de algo positivo.

— E é! — eu respondi com vigor, abrindo a pasta que até então estivera descansando no meu colo e retirando dela um calhamaço de folhas impressas; havia dado algum trabalho digitar e revisar os novos capítulos que haviam sido concebidos ao longo das últimas semanas no The Caffeine Conspiracy, especialmente com Tolkien carente de atenção e escolhendo os piores momentos para pular em cima do teclado e ocasionalmente deletar meu trabalho ao descobrir atalhos que até eu desconhecia.

— Hmmm, finalmente. — ele comentou ao pegar todo aquele papel da minha mão, folheando o material por cima — Estou engando ou você está reescrevendo a continuação?

— Sim... Decidi começar tudo de novo.

— Posso falar francamente, Yuu? — ele indagou da sua posição, colocando as folhas sobre a mesa e me encarando de uma forma penetrante.

Senti meus dedos agarrarem a extremidade da cadeira que eu ocupava com força.

— Claro, Yutaka-san.

— Ainda bem. Seu rascunho inicial estava uma merda e eu não iria conseguir aprovação de ninguém para publicá-lo. E eu odiaria dar uma notícia dessas para você, sabe... — ele emendou, abrindo um sorriso — Eu gosto de você. Apesar de todos os problemas que você me dá.

— Você gosta é da renda dos livros, isso sim.

— Também. — ele concordou com a cabeça, mantendo o sorriso no lugar até suas próximas palavras — Você sabe que esperamos muito de você, Yuu. \"Aoi\" é alguém genial e a continuação da sua obra-prima não pode ser inferior. Nada menor do que \"fantástico\" será aceito pelos diretores da editora, como você bem sabe.

Fiz um barulho com a garganta, olhando para o lado e contemplando um quadro de algum pintor contemporâneo que enfeitava o ambiente antes de comentar:

— Bela forma de tirar a pressão dos meus ombros.

— Yuu-kun, lembre-se que você tem um contrato e prazos para cumprir. Estou imensamente grato por ver que ainda lhe resta alguma responsabilidade... Mas eu não vou poder cobrir a sua falta de resultados por muito mais tempo. — ele pontuou a sua frase com um gesto rápido que tirou uma mecha de cabelo castanho da frente dos seus olhos, suas mãos abrindo uma gaveta da sua mesa e retirando uma agenda preta e lustrosa de dentro — Vejamos... Quantas folhas você acha que escreveu?

— A introdução e uns quatro capítulos. — respondi, mordendo o lábio inferior. Internamente, eu estava torcendo para que ele...

— Folhas, Aoi. Capítulos podem ter apenas uma página, mas eu preciso da medida em folhas.

Suspirei. Droga, Yutaka sempre me desarmava nessa parte. Havia sido muito mais fácil quando consegui publicar \"O Efeito Borboleta\" originariamente, já que ele estava totalmente concluído quando fui atrás de uma editora que o aceitasse. Escrever com contratos e um agente fungando no meu pescoço e engatando uma amizade duradoura com a minha secretária eletrônica era bem diferente. Que espécie de liberdade para criar um escritor possui nessas condições?

— Acho que são umas sessenta páginas.

— Acha? Então você está arrendondando para cima. — ele emendou com um sorriso pequeno que transmitia aquela sensação de quem sabe das coisas ao anotar aquelas informações na sua agenda e, infelizmente, ele estava certo. Acho que não tinha chegado a cinqüenta e cinco, da última vez que contei antes de fazer a impressão em casa — Mas muito bem, eu vou ler tudo e entro em contato com você logo a seguir. Atenda seu telefone, Shiroyama... E sim, encare isso como uma advertência.

Engoli em seco, forçando um sorriso a aparecer logo em seguida no meu rosto:

— Wakatta, wakatta. Agora entendo porque você ganhou aquele apelido estranho, \"Kai\".

— Entende? — ele abriu um sorriso genuíno, fazendo uma pausa para solicitar café com muito açúcar para Haru-chan do lado de fora — É como dizem, meu caro... Quem avisa amigo é. E acredite, por mais que você pense o contrário... Eu sou seu melhor amigo aqui dentro.

Era bastante deprimente perceber que ele estava coberto de razão.

Entrei no Conspiracy fugindo de pingos grossos de chuva; era impressão minha ou estava chovendo mais do que o normal para dias de outono? Tirei a mochila que sempre carregava de um dos lados do ombro, examinando-a com cuidado: ela tinha alguns buracos devido ao peso que por vezes eu carregava e também porque Tolkien a havia adotado como seu afiador de unhas favorito... Mas água entrando ali e arruinando meu material de trabalho era a última coisa que eu precisava. Talvez eu devesse seguir o conselho de Akira e comprar um arranhador para o gato e uma nova bolsa ou pasta para mim...

Pensando nesses detalhes, eu quase esqueci de olhar para a frente enquanto andava, escapando por pouco de colidir com um dos garçons mais idosos do café e que, senão me engano, era o vice-comandante do local. Anos de experiência do senhor e com certeza uma mente menos confusa evitaram um desastre e, depois de murmurar uma desculpa, eu me encaminhei para a mesa que eu sempre ocupava diariamente. No entanto, havia um imprevisto.

Alguém já estava sentado ali. Mais precisamente... Uruha.

O novo funcionário do café estava exatamente do lado que eu sempre me acomodava antes de ingerir as quantidades nada saudáveis de café de cada dia, parecendo ocupado com papéis, lápis e uma calculadora; provavelmente ele estava fazendo as contas de fornecedores ou alguma coisa do tipo, mas sua expressão era muito mais concentrada do que eu esperava de alguém na posição dele. Parando do lado da mesa sem sequer ser notado, notei com uma certa surpresa que a sensação de ser ignorado por alguém que estava tão próximo de mim era curiosa. Deveria ser isso que ele sentiu quando me perguntou se eu desejava café há quase um mês.

— Uruha-san, você faria o favor de continuar suas contas na minha sala, se quiser? — a voz de Akira veio de algum lugar atrás de mim e logo senti a mão quente do gerente do local no meu ombro, sua figura aparecendo ao meu lado momentos depois com um sorriso nos lábios — Shiroyama-san vai ter um chilique se ficar sem a sua mesa por muito tempo.

— Aa, claro, sem problemas. — o jovem garçom loiro replicou, suas faces sendo prontamente tingidas pelo mais leve rubor antes de voltarem à sua tonalidade normal. Aquela havia sido uma visão particularmente encantadora, na minha opinião — Eu não sabia que esta mesa estava reservada...

— E não está. — o gerente emendou, ajudando seu funcionário a recolher todas as folhas que estavam espalhadas — Mas Shiroyama-san é um escritor e você sabe como esse tipo de gente é cheio de manias estranhas. Vou levando essa parte para o escritório.

Uruha me deu um sorriso rápido e que transmitia uma boa parte de diversão com outra dose de compreensão enquanto o som dos passos de Akira sumia para os interiores do café que eu nunca havia visitado. Ele deu espaço para que eu passasse por trás dele e eu agradeci com a cabeça, jogando a mochila no banco ao meu lado e me preparando para retirar meu material dali e dar início a mais um dia de trabalho movido a cafeína... E que, com sorte, seria produtivo como as semanas passadas havia sido.

— Então é por isso que você tanto escreve.

Ergui a cabeça e percebi que o homem loiro ainda estava do meu lado, me observando com algo que poderia ser enquadrado como curiosidade no olhar. Foi a minha vez de abrir um sorriso, jogando fios rebeldes do meu cabelo negro para o lado antes de confirmar com a cabeça.

— Hai, é por isso mesmo. O Conspiracy é... Meu escritório, digamos assim. Hikaru costumava dizer que esta era minha segunda casa.

— Hikaru? Hikki-chan? — ele perguntou, seu rosto se modificando para indicar a surpresa que ele sentia — Você a conheceu?

— Claro que sim. Hikki-chan foi a inspiração principal da minha heroína no primeiro livro... Sem ela eu não sei onde estaria.

Um momento de silêncio se seguiu entre nós e eu me descobri fascinado pelo modo como o rosto de Uruha se transformava lentamente, cada emoção sua sendo exibida com uma sinceridade e exatidão que seriam provavelmente o delírio para qualquer pintor que buscasse um modelo expressivo ou então um diretor de cinema. A sua beleza ampliava e intensificava cada trejeito seu e era impossível não notar o modo como seus lábios brilhantes se curvavam para cima ao formar um sorriso ou então como as suas sobrancelhas subiam e desciam para compor as suas expressões de dúvida ou espanto.

— Somos dois então, Shiroyama-san.

— Dois? — repeti o número, ainda com o olhar fixo no mais novo funcionário do café e inegavelmente impressionado pelo leque de emoções que ele demonstrava.

— Dois homens que não sabem onde estariam sem Hikaru.

O sorriso enigmático e misterioso que ele me deu antes de pedir licença e se retirar para os fundos do estabelecimento virou a marca registrada do herói do meu livro atual.

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.