Caçadores da Lua
2 1. Nascer do sol
Dias atuais.
– Eu odeio isso.
– Você odeia o nascer do sol?
Não, eu não odeio o nascer do sol. Talvez esteja cansada de ver ele todos os dias durante mais de duzentos anos, mesmo que ele seja bonito e diferente em cada dia.
Odeio ter que conviver com as pessoas quando eu sei que elas irão envelhecer e morrer, e eu vou continuar aqui, com carinha de dezesseis anos. Odeio ter que guardar segredos das pessoas que eu gosto. Odeio não poder crescer, envelhecer, superar, formar uma família. Droga, eu odeio até ter que ir pra escola parecendo uma esquisitona só pra passar despercebida.
P.S: Eles nunca deixam que uma garota que usa moletom até nos dias mais quentes de verão, ou que usa óculos fundo de garrafa, ou que não sabe fazer um coque descente no cabelo passar despercebida.
Olho pro meu irmão e arqueio uma sobrancelha, ele sabe que eu não odeio o pôr do sol.
– Bom, nada de reclamação hoje, é meu aniversario de 127 anos. — Ele diz.
Alex não é meu irmão de verdade, mas é como se fosse. Nessa família de mentira, a única pessoa com quem eu posso ser verdadeira é ele, mesmo sabendo que, em condições de vida normais, nunca teríamos nos conhecido. Ele é a única pessoa que sabe dos meus segredos, que sabe realmente o porquê deu me fazer parecer uma aberração toda vez que vou pra escola, a única pessoa que não vai envelhecer e me deixar sozinha.
Bom, só se um lobisomem arrancar a cabeça dele ou um Gooder capturá-lo. E acredite, as chances disso acontecer não são tão pequenas quanto gostaríamos.
Nós estamos sentados no telhado da nossa casa gigantesca, nossos pais de mentira estão lá em baixo, dormindo. E eu tenho aula daqui a umas duas horas.
– Você sabe que não precisa ir pra escola se não quiser. Nem hoje, nem nunca. — Diz Alex, como se soubesse no que eu estava pensando.
– E ficar trancada aqui até que Luke chegue com um trabalho pra mim? Não, obrigada.
– Não é assim. Você pode viver, beber, dançar, curtir... Fazer o que quiser. E quando o Luke chegar com um trabalho, você faz. Viver como se fosse seu ultimo dia aqui, mesmo sabendo que isso não é verdade.
– Tentei isso nos anos 20, lembra? Ressaca é uma droga. — Digo, encerrando a conversa.
O Alex não estuda, pros humanos (Lê-se: Vizinhos e fofoqueiros da cidade em geral), ele trancou a faculdade e é só mais um vagabundo sem futuro. Mas eu sei que o Alex já se formou em mais coisas do que eles poderiam contar.
– Feliz aniversário. — Eu digo e pulo do telhado pra sacada do meu quarto, porque sei que não vou errar.
Não vou errar porque sou uma Ever, praticante de forças do mal.
Com Forças do Mal, eu quero dizer poderes vindos do inferno, ou dados de presente pelo diabo, sei lá, chame do jeito que quiser. Não sei se Deus e Lúcifer realmente existem, não sei se existe mesmo essa briga eterna entre eles, eu ainda não estou nesse nível. Mas eu sei que o inferno existe, ah, existe, até Evers como eu querem fugir de lá.
Deito na minha cama e fico lá pelo que parecem ser dias, mas, quando meu telefone toca, percebo que só se passou uma hora. Levanto e atendo.
– Você não vai acreditar! Por que não atendeu minhas quinhentas ligações ontem?
E, pela histeria, eu sei que é a Mabel.
– Ah, eu não vi. E é verdade, passei a noite toda conversando com o Alex.
E sim, eu durmo, isso é tudo que eu faço depois que chego da aula e não tem nada a ver com o fato de ser uma Ever, só sou uma adolescente com o corpo eternamente mal acostumado que tem duzentos anos mas ainda troca o dia pela noite.
– Você não vai acreditar! Ela repete.
– No quê?
– Entrou um garoto tão lindo no colégio! Obviamente Caroline já tá tentando por as garras nele, mas eu não ligo...
Ela começa a falar tão rápido que eu acabo me distraindo. Mabel é minha melhor (e uma das únicas) amiga do colégio.
Eu cheguei na cidade no inicio do semestre O pessoal da antiga já estava começando a desconfiar do fato de que a gente não envelhecia e, como é esperado, não fiz nenhum amigo. A Mabel chegou no meio do semestre, depois que a mãe se divorciou do pai e quis começar uma vida nova em um lugar novo. Eu era a única pessoa que não tinha dupla na aula de biologia e ela se sentou comigo. Acabamos virando amigas por puro desespero: Eu sempre sentava sozinha na hora do recreio e ela não conhecia mais ninguém.
– Tessa? — Chama Mabel, me fazendo voltar pra realidade.
– Hm?
– Você vai na aula hoje?
– Não sei.
– Ah, por favor! Você já ta acordada, qual sentido de acordar cedo e não ir na aula? Por favor! Por favor! Ontem a Mind também faltou e eu tive que sentar com os meninos, se isso acontecer de novo eu juro que...
E ela volta a falar histericamente.
A verdade é que eu não odeio acordar cedo e ir pra escola (na verdade eu nem dormi). Odeio ter que andar pelos corredores tentando fingir que sou invisível, odeio o jeito que as lideres de torcida sem cérebro olham pra mim como se fossem superiores, odeio o fato de que ate os professores parecem sentir necessidade de me ignorar.
Não que eu queira por um cachorro minúsculo dentro de uma bolsa, tingir o cabelo de loiro e sair desfilando pelos corredores; mas também não queria ter que prender meu cabelo preto em um coque ridículo, ou ter que usar um moletom do mesmo tamanho que os caras que sobrevivem na base de pizza usam, ou ter que por um óculos fundo de garrafa maior que minha cara pra ofuscar meus olhos azuis. Só queria ser eu mesma.
Mas não posso.
– E então? — Chama Mabel.
– O quê?
– Você vem ou não?
Solto um suspiro.
– Tá legal, vou arrumar a mochila.
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