Notas iniciais
E esse é o último capitulo dessa fic! Sim, o último. Mas a história da Saphira ainda está longe de acabar. Em breve também irei escrever o segundo livro, então fiquem sempre prestando atenção nas minhas histórias. Boa leitura e até a próxima fic!
Entramos no navio Estrela da Manhã quase em cima da hora. Os marinheiros nos levam até um dos belos quartos e deixam nossas bagagens na porta para nós e se retiram depois de um rápido aceno de cabeça e correm para a proa terminar o carregamento de mercadorias acima de nós. Passamos um tempo lá embaixo descansando e revendo nossas bagagens e afiando nossas armas enquanto ainda podemos ter um pouco de conforto. Um sino toca algumas horas mais tarde anunciando a janta e nos juntamos aos marinheiros e comerciantes no pequeno refeitório e tentamos nos entrosar entre eles conversando amenidades como simples turistas fariam. Pouco depois, vejo Liev e Morgan demonstrarem cansaço e entrego a chave do quarto para que eles possam ir dormir enquanto eu e os garotos ainda permanecemos acordados conversando sobre o caminho que poderia ser usado para ir até a Cidade da Aurora na Irlanda. Pedimos um mapa do lugar, papel e caneta para tentar traçar uma rota que coincida com a descrição das lendas sobre a cidade escondida. Nos perdemos no tempo conversando e anotando tanto no mapa quanto nas folhas que recebemos, passando boa parte da noite acordados e vemos o refeitório esvaziar pouco a pouco até que só reste a nossa mesa ainda de pé e uns poucos funcionários trabalhando na limpeza do salão e quando eles terminam tudo, somos obrigados a nos retirar e parar de debater sobre o mapa e nos permitimos descansar nas camas de colchão fino no quarto pelas últimas horas da noite. Podemos resolver o resto quando chegarmos à costa da ilha para onde estamos indo.
Acordo poucas horas após o amanhecer e saio do quarto em silêncio para não acordar nenhum deles de seu sono mais que merecido e saio depois que me visto as pressas e subo até a proa vazia com exceção do capitão conduzindo o timão do barco com tanta concentração que acho que nem percebeu que não está mais sozinho do lado de fora. Me aproximo da beira do navio e me encosto para observar a imensidão azul do mar a minha volta. Não sei exatamente quanto tempo passo lá parada observando a paisagem e procrastinando até ouvir a voz de Theo me chamando. Eu me viro e deixo ele se aproximar o bastante para conversarmos em um tom normal.
—Prefiro você com o cabelo solto.-ele diz e puxa gentilmente o prendedor do meu cabelo fazendo-o cair sobre os meus ombros como na noite anterior. Depois passa uma mecha dos meus cabelos atrás da minha orelha e me entrega a fita que estava usando para manter o rabo de cavalo firme. Não me lembro de quando deixei ele tomar essas liberdades.-O que está fazendo aqui sozinha?
—Não estou sozinha.-digo e sorrio.-O capitão está bem ali.
Eu aponto para o lugar onde o capitão segura o timão e cantarola alguma melodia alheio a nossa conversa.
—Sabe o que eu quis dizer.-ele conclui.
—Eu sei.-me viro para o mar de novo.-Só estou pensando.
—Em que?-ele arrisca perguntar.
—Em coisas.-respondo.-No passado, na Cidade da Aurora. Tudo.
—Deixe para pensar nessas coisas quando chegarmos no porto?
—E eu devo pensar em que então agora?-pergunto-o.
—Me conte uma história.-Theo me pede.
—Que história?-pergunto interessada no que ele tem a dizer.
—A sua.-eu franzo as sobrancelhas para tentar entender onde ele quer chegar com isso.-Por favor, sei tão pouco sobre você. Me conte sua história, de quando você foi para a Caçada e tudo mais. Não deve ter sido fácil.
—E não foi.-respondo-o. Ele me olha em súplica para tentar me convencer a contar mesmo minha história.-Se eu contar meu passado para você, vai fazer o mesmo depois?
—Talvez.-ele diz sorrindo.-Quem sabe? Você vai ter que arriscar.
Suspiro e fico alguns instantes em silêncio ponderando a sua sugestão. Decido por contar, que mal pode acontecer por ele saber meu passado? Todos os meus atuais inimigos já fazem parte dele mesmo.
—Eu entrei para a Caçada aos 8 anos.-começo a contar e ele se senta sobre a murada do navio para ouvir minha história sorrindo por ter me convencido.-Tive um desempenho exemplar nos testes físicos e escritos mesmo tentando me auto-sabotar. Aparentemente, não consegui. Disseram que eu era uma espécie de prodígio ou sei lá e não quiseram nem sequer negociar com a minha família quando foram me buscar no final daquela mesma tarde. Pegaram minhas malas e me levaram para Londres mesmo contra minha vontade. No início eu só sentia raiva e vontade de fugir, mas sabia que tinha que esperar a oportunidade certa. Nas aulas teóricas me sentava no fundo da sala e fingia não dar à mínima para o que o professor estivesse falando, mas até que tinham algumas coisas interessantes. Infelizmente, conheci Courtney na mesma semana em que cheguei naquela mansão. Era de outra cidade, mas também teve um desempenho exemplar como o meu e se sentava próximo de mim de propósito só para tentar ver se eu me irritava com suas provocações. Ele já tinha 9 anos, mas era novato, então estávamos sempre nas mesmas salas, nos mesmos lugares. Depois de cerca de dois meses eu tentei fugir, mas foi uma péssima ideia. Dois caçadores mais velhos me encontraram e me prenderam em uma espécie de cela como punição para "crianças rebeldes". Fiquei trancada lá durante uma semana.
Eu olho para Theo e percebo que ele não sorri mais. Parece bastante concentrado em cada palavra que eu digo. Seu passado deve ser um pouco parecido com o meu, mas não me importo com isso.
—Poucos dias depois que eles me liberaram da minha prisão, voltei para sala e vi que havia um garoto novo. Magrelo e com cara de sabichão. Era a nova chacota de Courtney e seus amigos idiotas.-eu continuo dizendo.-No começo ele era ainda mais quieto e irritado do que eu, se é que isso é possível. Acabei me identificando tanto com ele que me senti na necessidade de protegê-lo das tentativas de humilhação da parte de Courtney. Foi a primeira pessoa com quem me importei na vida. No começo ele nem sequer falava comigo com medo do que iria acontecer quando eu começava a discutir com Courtney, mas depois de alguns dias ele decidiu se abrir comigo. Me contou que seu nome era Adam e me disse como tinha ido parar naquele lugar, a partir dali nos tornamos amigos de verdade. Nessa época, ainda queria voltar para casa, mas quanto mais me aproximava de Adam, menos queria ir embora. Acabei baixando a guarda e decidi ficar porque queria manter meu amigo, meu primeiro e único amigo de infância. Eu nunca fui do tipo que me importava com popularidade e não me incomodava de ficar com Adam enquanto todos saiam para passeios noturnos pela cidade. Na puberdade, nos tornamos cúmplices e eu o ajudava a fugir da mansão para participar das suas amadas festas na casa do filho de um famoso comerciante londrino na época. Eu nunca demonstrei interesse romântico por ninguém, por algum motivo era fechada até mesmo para isso, mas aconselhava Adam quando ele queria tentar algo mais que amizade com alguém.
Theo franziu as sobrancelhas quando percebeu que eu disse "alguém" e não "garota".
—Ah, não se surpreenda.-eu digo rindo.-Adam é bissexual. Ele diz que se interessa por pessoas, não gêneros. Nunca tive nada contra. Acho que as pessoas têm que fazer o que deixarem-nas felizes. Se isso deixa Adam feliz, eu também fico feliz por ele. Nosso início de adolescência foi relativamente fácil. Na época eu era só uma humana comum, então não tinha nada a esconder. Mais tarde o treinamento físico já estava em estado avançado e nossas aulas teóricas finalmente acabaram. Um por um, íamos sendo chamados para nossa primeira missão. Nos levariam até um lugar vazio durante a noite e soltariam um dos seus demônios capturados para que nós o pegássemos de volta. Ou o matasse, se fosse necessário. Eles não se importavam realmente com o destino do demônio, queriam avaliar o desempenho de cada novo guerreiro. Quando chegou a minha vez, estava determinada a ser a melhor. Me mandaram para o bosque perto da cidade e soltaram um demônio Rarzut, uma espécie que pode se multiplicar apenas dividindo-se ao meio, e me mandaram buscá-lo antes das 2h da manhã. Eu tinha duas horas para buscar um demônio esquivo que se dividia ao meio, mas estava disposta a correr o risco. Eu estava indo bem seguindo seu rastro até que ele começou a se aproximar demais de Londres e eu comecei a me preocupar. Por algum motivo que nunca descobri, tinha um garoto talvez dois anos mais velho do que eu caminhando em uma clareira no mesmo momento em que estava prestes a pegar o demônio, mas ele viu o garoto e decidiu que era uma boa ideia tentar matá-lo. Eu não podia deixar isso acontecer, então puxei o garoto e o fiz me seguir para longe de lá.
—Por que você não sabe o que o fez ir até lá?-Theo pergunta.
—Já vou chegar nessa parte.-digo e o peço para ficar calado por mais um tempo.-Corremos muito longe mata a dentro, mas assim que paramos para descansar, o demônio Rarzut se aproximou e se dividiu diversas vezes até estarmos cercados. Eu matei cada clone daquele demônio miserável, mas o garoto, Thyago era o nome dele, se aproximou de mim enquanto eu ainda estava no meio do meu acesso de fúria. Por pura idiotice minha, descontei minha raiva nele antes mesmo de perceber que era sua voz me chamando e não outro demônio tentando me enganar. Quando percebi, o garoto já estava morrendo no chão com uma ferida no peito. Thyago morreu nos meus braços enquanto eu implorava para que ele continuasse lutando por sua vida. Quando os outros caçadores chegaram já era tarde demais. Foi tudo culpa minha.
Theo percebe como fico mexida com essa parte e tenta me apoiar colocando uma das mãos sobre meus ombros.
—Não foi sua culpa.
—Foi, sim. Foi tudo culpa minha e eu matei um inocente.-Digo e tento continuar essa história sem chorar.-O problema é que eu tinha o gene da licantropia e não sabia porque ele não tinha se manifestado em ninguém da minha família há gerações. Apenas minha irmã mais nova tinha a força sobre-humana típica dos lobos, mas não sabíamos o que era na época. Foi só depois que eu me recuperei de semanas de repouso por estar péssima física e mentalmente depois daquela noite que eu fui atrás de respostas. Eu não sabia que eu estava mal por causa da licantropia, mas quando matei aquele garoto inocente desencadeei uma lenta transformação que me deixou de cama por muito tempo. Quando descobri o que era, já era quase lua cheia. A minha primeira noite como lobisomem e a transformação seria irreversível. Tentei resistir, mas foi como tentar lutar contra um tornado.
—O que quer dizer com isso?-Ele me olhou confuso.
—Você não luta contra um tornado, Theo, só tenta sobreviver a ele.-explico-lhe.-Foi o que eu tentei fazer. As primeiras transformações eram dolorosas e me deixavam sem controle nenhum. Não tinha ninguém para me ajudar na parte de ser lobisomem, mas com o tempo aprendi sozinha e hoje consigo controlar minha transformação como qualquer lobo experiente. Não foi fácil esconder de todos esse meu segredo, mas consegui. O resto da história você já sabe, porque o que eu tenho pra contar depois disso foi a chegada dos Inquisidores na mansão naquela noite.
—Você é nova, mas realmente tem bastante coisa para contar mesmo.-ele diz e se levanta para ficar de pé ao meu lado de novo.-Só não entendi quantos anos você tem exatamente.
—Agora eu tenho 18.-respondo-o.-Devo ter completado 18 em algum momento da viagem até aqui, não tenho certeza do dia exato. E você? Eu também não sei sua idade.
—Eu tenho 20, pensei que soubesse.-ele responde e eu nego com a cabeça. Eu realmente não sabia sua idade.-Você nunca ficou com ninguém?
—O que quer dizer com isso?-pergunto-o.
—Você sabe, nunca beijou ninguém?-ele pergunta e eu nego.-Nunca teve nenhuma experiência romântica?
—Não tive muito tempo para me preocupar com isso na minha vida, caso não tenha percebido.-digo dando de ombros e fazendo pouco caso dos fatos.
—Eu notei.-ele responde.
Estende sua mão direita e levanta meu queixo delicadamente me fazendo olhá-lo. Se aproxima cada vez mais de mim da forma mais lenta possível como se me desse a chance de recuar. Eu sei o que ele quer e eu vou deixar que faça. Quando faltam poucos milímetros para nos tocarmos e posso sentir sua respiração se misturando a minha, fecho meus olhos e deixo que ele me beije como queria fazer. Sua boca se movimenta junto a minha e com certeza estamos nos beijando. Apoio minhas mãos no seu pescoço e ele não tira sua mão do meu queixo até que o ar se acaba e paramos o beijo aos poucos.
Antes que eu fale qualquer coisa, ele me olha com carinho e me abraça com seus braços na minha cintura.
—Mas eu sou uma loba.-falo com a voz abafada contra a sua camisa.
Ele se afasta um pouco e me faz olhá-lo nos olhos.
—E dai que você se transforma em um lobo demoníaco uma vez por mês?-ele me pergunta sorrindo.-Normalidade é chato.
—Tem razão.
Separo-me dele quando ouço o mesmo sino de ontem à noite e o capitão grita lá de cima que estamos nos aproximando do Porto. Quando os primeiros pedaços de terra começam a aparecer cortando o mar, todos os marinheiros e os meus amigos se reúnem na área aberta do barco se juntando a nós e ao capitão. Minha viagem só está começando, mas é bom ter pessoas com quem me importo por perto.
Alguns marinheiros ajudam o capitão com as velas e as máquinas da embarcação e Theo me abraça de lado enquanto nos aproximamos do nosso destino na ilha a nossa frente.
Finalmente, chegamos.
Notas finais
Muito, muito obrigada a todos que leram essa fic. Agradeço até os fantasminhas que mesmo não comentando esperavam o próximo capitulo ser postado. Por enquanto, não tenho data para postar a continuação, mas aos que tiverem interesse, tenho outras histórias ainda em andamento.
Esse é o link da minha nova original que vai falar sobre realidades alternativas, então para os que gostam, boa leitura e nos vemos por lá!
https://fanfiction.com.br/historia/708797/O_Outro_Lado/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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