Caçador Herdeiro - Vento Sufocante
2 1. Um "tranquilo" primeiro dia de aula
Se, por ventura, o seu sonho é ser um Caçador de Vampiros ou algo do tipo eu logo aviso: não é a melhor coisa que há nessa vida, pois você pode se dar muito mal...
~ CAÇADOR HERDEIRO ~
Eu realmente pensei que teria um primeiro dia de aula tranquilo. Pensei que faria novas amizades e que poderia seguir a minha nova vida de boa.
Como eu estava enganado.
E tudo começou quando ouvi o seguinte grito:
— Dio! Hora de acordar!
Era a minha mãe.
Aí vai uma dica: se é o seu primeiro dia de aula em uma nova cidade, não encare grandalhões, não se apaixone pela garota mais popular da escola e não ouça conversas estranhas que envolvem você no banheiro. Vai por mim, se você fizer isso, vai ficar traumatizado. Não que seja tão ruim assim, o problema vem depois: as dúvidas. Claro, eu sempre senti coisas estranhas ao meu redor, incluindo um morador de rua que me atacou do nada anos atrás e uma velha que dizia que eu tinha um sangue apetitoso; pena que eu não achava o mesmo dela. Mas o que vi no meu primeiro dia de aula... sem dúvidas ficará marcado por toda a minha vida.
Enfim. Eu comecei me espreguiçando, cansado por conta da mudança de ontem. Minhas pálpebras ainda pesavam e eu não estava tão disposto a começar uma nova vida em um lugar totalmente diferente. Não que eu tivesse escolha. Escovei os dentes, vesti o meu novo uniforme – uma camisa branca, padrão de escolas estaduais – e desci para tomar o café da manhã.
— Bom dia, mãe — falei, sem muito ânimo.
— Bom dia, filho.
Minha mãe. O nome dela era Sara, e embora tivesse trinta e quatro anos de idade, aparentava ter vinte e cinco. Talvez por causa do corpo magro, ou por possuir uma pele pálida e lisinha. O meu pai escolheu bem a mulher certa para viver juntos por uma vida inteira. Além de bonita, minha mãe era uma mulher extraordinária. Eu juro pra você que os problemas que tive na antiga escola não foram culpa minha. Sabe, eram os valentões que vinham arrumar briga – e saíam apanhando, pois fui treinado em artes marciais desde pequeno pelo meu tio Michael. Agora vá dizer isso aos professores. Você pode apanhar, ser oprimido, ser menosprezado; a culpa sempre vai ser sua. E com um pouco de “sorte”, você pode ter uma mãe malvada que vai deixar sua bunda vermelha de tanta cintada por não admitir receber bilhetes e observações do diretor. Felizmente, a minha mãe não era assim. Sempre foi compreensiva e uma pessoa digna de admiração. Ela me corrigia quando eu estava errado, e quando eu era culpado injustamente, me chamava para conversar e resolvíamos as coisas rapidamente. De alguma forma, Sara sabia quando eu estava mentindo ou falando a verdade – e não fosse por isso, eu perderia as contas de tantas vezes apanharia sem ter feito nada.
E ela era adotada. Não falávamos muito sobre o assunto, mas a minha mãe foi adotada quando ainda era um bebê. Ainda assim, minha avó sempre a tratou como se fosse uma filha legítima. O que me faz perceber que, para se amar alguém, não é necessário ser do mesmo sangue.
Eu me sentei à mesa e ela me serviu, enchendo a minha xícara com um café que acabara de passar.
— Está ansioso? — perguntou, um sorriso lindo estampado em seu rosto e olhos exageradamente escuros encravados em mim.
— Ah, claro que sim – eu ironizei, sem conseguir evitar. É, eu ainda estava bravo.
Ignorando minha ironia, ela persistiu:
— Tenho certeza de que você vai fazer muitos amigos.
— Só espero que não queiram me bater — falei seco.
— Não se preocupe, eu sei que vão gostar de você.
— Aham. Assim como os valentões da outra escola?
— Não, assim como os seus amigos da outra escola.
Eu senti uma certa tristeza quando lembrei dos meus colegas. Eu os conhecia desde a infância, e agora...
Minha mãe me serviu com torradas que tirara de uma das partes do armário e também se sentou.
— Filho, eu sei que você sente falta dos seus amigos e queria ficar lá-
— Mãe, não precisa tentar se explicar. É sempre a mesma coisa. Eu só não entendo o porquê dessa mudança repentina. Nós estávamos tão felizes em Belém, não entendo por que tivemos que sair de lá.
— Diogo, eu já expliquei mil vezes que o seu pai está aqui a negócios.
— Ah, qual é, mãe? Mas precisava mudar a família toda? — Mordi uma torrada, irritado. — Esses negócios não devem ser tão longos assim.
— Nós não sabemos. — Ela desviou o olhar, curvando os lábios.
E era verdade. Eu não sabia do que o meu pai trabalhava, pois minha mãe nunca me falou nada — isso se ela também soubesse. Nós sempre fomos muito próximos um do outro. Porém, ultimamente e sem justificar nada, ele vinha só uma ou duas vezes por mês para nos visitar. Eu já estava com muita saudade dele, não o via já fazia mais de dois meses. Inclusive, na mudança, ele enviou alguns caras para nos ajudar, ao invés de pelo menos aparecer. Talvez ele sequer sabia como era a nossa nova casa.
Comemos o resto do café da manhã em silêncio.
***
Uma rápida descrição da Escola Estadual Roberto Martins: era um edifício verde de três andares. Acima do conjunto de portas, janelas que enfeitavam a fachada, provavelmente para possibilitar um aluno com tédio de contemplar a praça que havia aqui em baixo – que estendia-se à minha volta em um verde vivo e com um gramado bem tratado. Havia alguns bancos de pedra aqui e ali, todos ocupados por alunos uniformizados. Havia árvores também, mas estas eram minoria; e foi no tronco de uma delas que eu fiquei encostado.
Não tinha amigos, não conhecia ninguém, portanto a saída foi ficar sozinho mesmo. Ao contrário dos outros adolescentes. Conversavam entre si, riam, gargalhavam, meninos e meninas que realmente estavam se divertindo. Tinham entre quatorze e dezessete anos, uma vez que o turno da manhã do colégio Martins era propriamente voltado para o ensino médio; e notei alguns caras me observando, não muito longe, pelo canto do olho.
Lembra dos valentões que mencionei lá atrás? Então, são esses. E eu fiz a coisa mais óbvia que um calouro magricela como eu deveria fazer.
Os encarei de volta.
Eles eram grandes, robustos, expressão muito séria. O mais alto tinha a cabeça raspada; o segundo era loiro e o terceiro tinha cabelos castanhos. Firmei meus olhos nos três para ver até onde iam, e em momento algum eles desviaram o olhar. Admito que senti minhas pernas bambearem, agora o motivo eu não fazia ideia. Não foi medo, porque ouso dizer que eu era acostumado com essas coisas — valentões me estudarem para depois agirem. Dessa vez, eu realmente estava me sentindo intimidado. E a cena só teve fim quando a sineta da escola soou, um barulho muito alto vindo do interior do prédio verde, atraindo a atenção de todos os alunos – e fazendo o meu corpo se acalmar. Simultaneamente, a multidão encaminhou-se para a entrada que havia adiante de uma ruela de paralelepípedo – que ficava entre o edifício verde e a praça do campus. E os grandalhões sumiram na bagunça.
Entrando, atravessei o amplo pátio principal e subi as escadas no final dele, quase espremido, ficando perdido no corredor lá em cima – eu não sabia onde era a minha sala! A única coisa que sabia era que ela ficava no primeiro andar, pois todos os primeiros anos situavam-se ali. Havia, no entanto, dois corredores para se seguir no final daquele, e eu não fazia ideia para qual ir. Ao contrário dos outros adolescentes, que passavam por mim e dobravam as "esquinas" sem sequer me dar atenção. Fiquei até irritado com aquilo, embora houvesse um pequeno detalhe: eu não pedia a ajuda de ninguém. Era novo, tímido, sem coragem para chamar alguém e perguntar: "Você sabe aonde fica a minha sala?" ou “Pode me emprestar um mapa?”. Eu não queria passar vergonha...
E foi aí que uma menina apareceu, ao meu lado:
— Está perdido? – ela me perguntou, com um sorriso muito bonito.
Bonito até demais.
E embora fosse uma garota que não fazia o meu tipo, algo nela me chamou a atenção. A menina era uma típica pratricinha: tinha cabelos lisos e escuros que desciam por suas costas em camadas, e a sua pele era clara e macia. Seus olhos castanhos, de alguma forma, passavam uma sensação de carinho, e eu confesso que ela tinha um corpo... chamativo, digamos assim. O uniforme escolar ficava perfeito nela, deixando-a mais linda e atraente. E ela sorria generosamente, transmitindo uma sinceridade enorme.
Ok, ela era uma patricinha bonita e simpática. Uma patricinha que me deixou sem palavras. Tão sem palavras que ela ainda esperava pela minha resposta, aparentemente estranhando a minha atitude. Consegui recuperar a falar, no entanto, gaguejei feito um bocó:
— É... eu...
— Não sabe qual é a sua sala — ela sugeriu, olhando para mim com um ar de ironia, como se o fato de eu ficar envergonhado a divertisse.
— Isso — respondi, tentando me mostrar firme. — Sou novo nessa escola.
— Pode deixar que eu te ajudo. — Ela sorriu mais uma vez.
Pegou simpaticamente o papel que estava na minha mão e leu. Depois disse:
— Que coincidência! É a mesma sala que a minha! — Ela parecia feliz. Por fazer uma caridade, talvez.
— Legal. – Eu senti que fiquei vermelho.
Ela me explicou o caminho e disse:
— Te encontro lá mais tarde, preciso falar com uma amiga antes. Dentro de alguns minutos começa a aula. — E, quando já estava saindo, ainda acrescentou: — E cuidado para não se perder por aí, Diogo. – E sorriu graciosamente, entrando no corredor à direita.
Confesso que não consegui tirar os olhos dela, ainda nas nuvens, e me perguntei que sensação estranha era aquela. Era a primeira vez que eu sentia algo do tipo. E ela havia gravado o meu nome, que estava no papel.
De repente, um arrepio estranho percorreu o meu corpo.
— Você é um cara de sorte — disse uma voz atrás de mim, o dono surgindo ao meu lado.
Esse era um garoto da minha idade, e apesar de ter praticamente a mesma altura que a minha, tinha uma aparência totalmente diferente – com destaque para os seus cabelos roxos, volumosos e desarrumados. Ele vestia o uniforme padrão da escola e tinha um olhar cativante, olhos que tinham um tom escuro de azul. E pelo seu sorriso travesso, deduzi que ele era um tipo de cara animado e, talvez, sarcástico.
Olhei para ele e pensei ter visto as íris de seus olhos ficando amareladas por um instante, mas logo voltaram ao normal, fazendo-me engolir em seco.
Perguntei:
— De sorte? Por quê?
— A Sofia é muito popular entre os alunos, além de ser extremamente certinha e reservada.
Sofia, pensei, esse era o nome dela.
— E o que isso tem a ver? – eu arqueei uma sobrancelha, tentando disfarçar a curiosidade que surgia aos poucos.
— Ela simplesmente é uma garota que não dá bola tão fácil aos garotos! — Ele parecia entusiasmado, como se aquilo fosse uma façanha incrível.
— Então você quer dizer que...?
— Ela gostou de você.
— Bobagem — falei, incrédulo. Era muita areia para o meu caminhãozinho. — Eu me chamo Diogo. Diogo Kido. — Estendi a mão, por educação.
— Meu nome é Natsuno Kogori, prazer! — Ele a apertou e sorriu, eu notando a pequena coincidência que havia ali: ambos tínhamos sobrenomes estranhos. Bom, o nome dele também era estranho, então ele estava ganhando.
— Falou, mano, eu preciso ir pra minha sala – eu disse.
— Sua sala é a 2, não é?
— Sim — respondi. — Por quê?
— É a minha também. Vamos?
— Hã, vamos.
Então rumamos à nossa sala, dobrando o corredor à esquerda, como Sofia instruiu. A essa altura, não havia mais quase ninguém por perto.
Dobramos outro corredor e fomos até o seu final, onde havia mais um corredor. Reparando melhor, percebi que os corredores daquele andar formavam uma espécie de quadrado, com as salas sempre à direita e algumas escadas à esquerda.
Entramos na sala 2, que ficava de frente para o fim do corredor onde estávamos.
Natsuno conhecia muita gente, portanto as cumprimentou de forma simpática e, de certo modo, brincalhona, sempre fazendo brincadeiras ou sorrindo bastante. Eu simplesmente me sentei em um lugar perto da janela e fiquei olhando para fora, a linda praça que ficava no campus em frente ao prédio da escola, à minha esquerda. (Por isso eu mencionei sobre a janela estar ali para alunos entediados. Eu era um desses alunos. Bem clichê, para falar a verdade). Sentei no quinto lugar da minha fileira.
Natsuno sentou-se na carteira em frente à minha e ajeitou seu material escolar.
— Calouro Diogo, meu camarada, seja bem-vindo ao inferno. Brincadeira – ele riu. – Mas e aí, está ansioso?
— Oh, demais – eu ironizei. – Eu amo a escola. No sentido figurado.
— É, eu te entendo.
Não houve muita lição devido ao começo do ano letivo, por isso Natsuno e eu ficamos conversando sobre nossos passados.
Ele falou pouco de sua vida. Disse apenas que seu pai era policial e que morava com a avó — percebi seu tom de voz um pouco triste enquanto falava dessa parte. Depois ele voltou a ficar animado, quando falou sobre o time de futebol da sala, das belas garotas da escola, de suas travessuras do ano passado, etc. No final, ele disse que aquela sala era praticamente a mesma do nono ano, com pouquíssimas mudanças. Ah, e sobre o nome, acontece que uma geração distante da família do Natsuno era de origem japonesa, por isso o "Natsuno" e o "Kogori". Era coincidência, pois eu passava pela mesma situação. "Kido" também era um sobrenome japonês e, felizmente, meus pais deixaram meu nome brasileiro mesmo – ou sul-americano, eu não sabia dizer.
Quando chegou a minha vez de falar, contei pouco sobre a minha vida. Disse apenas que sentia falta da minha antiga cidade e dos meus amigos de infância. Natsuno ficou surpreso quando eu lhe disse que uma vez coloquei a minha mão no fogo sem querer e ela não queimou. E ele disse que o choque elétrico não o afetava tanto.
— Parece que somos estranhos – ele riu, e eu assenti.
Chegou a hora do intervalo e lanchamos. Era incrível o número de alunos que lanchavam no refeitório, um lugar enorme repleto de mesas retangulares com capacidade para oito pessoas cada. Segundo Natsuno, nas primeiras semanas todas as salas desciam juntas. Não por muito tempo, porém, visto que os intervalos seriam divididos conforme as três séries do Ensino Médio. E embora houvesse muita gente ali, eu ainda me sentia infeliz, mesmo Natsuno tendo deixado de ficar com seus amigos – que eram muitos, por sinal – para meio que me acompanhar.
Nós nos sentamos em uma mesa no canto esquerdo do refeitório, ao lado oposto da escada que descemos. Havia alguns roqueiros sentados também, todos muito sérios e estranhos.
Percebi que nessa escola havia de tudo.
— Cara, você tá tenso – Natsuno me encarou. Na verdade, eu estava observando uma senhora feia andando no meio dos alunos como se fosse algum tipo de fiscal: era gorda, tinha cabelos curtos em rabo de cavalo, usava óculos enormes com lentes de fundo de garrafa — que "diminuíam" seus olhos negros — e tinha uma feição horrível. Eu me assustei só de vê-la. E a sua roupa piorava tudo: ela usava uma camisa branca de mangas curtas e uma gravata vermelha por cima. Tranquilo, não fosse o fato de sua camisa por dentro da calça estar expondo suas banhas. Ela tinha um relógio no braço esquerdo e segurava um bloco de notas com a mão direita, na qual havia uma caneta por dentro do arame que prendia as folhas. E seus sapatos... bom, digamos que eram dos mais baratos possíveis.
— Essa é a Abigail — informou Natsuno, seguindo o meu olhar; Abigail vagava pelo refeitório de um lado a outro, advertindo um grupo de alunos aqui e ali. – É a inspetora da escola há mais de vinte anos. — Não pude deixar de me surpreender. — É também uma velha muito rabugenta que pega no pé de quem ela não gosta.
Mesmo sendo uma piada, Natsuno parecia angustiado, como se fosse uma das tais vítimas.
— E quem são aqueles? – decidi perguntar, apontando para a causa de eu ter visto Abigail sem querer; os três grandalhões do campus.
— Idiotas – foi a resposta de Natsuno. – Três valentões que pensam que mandam na escola. Recebem os calouros da forma que acham certo, mas não passam de otários. Idiota é quem cai na deles. – Natsuno riu, voltando a comer o seu lanche.
Recebem calouros da forma que acham certo, pensei. Por algum motivo, não gostei muito de ouvir aquilo.
Eles estavam próximos à fila da cantina aparentemente amedrontando alguns nerds. No momento em que eu me levantei – pois uma coisa que odeio é injustiça –, Natsuno segurou o meu braço.
— É melhor não se meter com eles, maninho – disse, em tom de aviso. – Eles são três, e você é só um.
Eu fiquei tentado a puxar o meu braço e ir até eles, mas pensei na minha mãe – e na vergonha que ela sempre passava quando era solicitada a comparecer à escola por minha culpa. Além do mais, era apenas o meu primeiro dia de aula. Eu precisava me conter.
Os três pareceram deixar os dois garotos em paz, e de repente me encararam, olhos extremamente afiados e ameaçadores.
Senti um nó no estômago.
E, mais uma vez, a sineta soou, dando fim ao intervalo. A multidão de alunos voltando para suas salas fez tanta bagunça que os valentões sumiram novamente do meu campo de visão.
Suspirei.
E as coisas se acalmaram a partir daí, certo?
Quem dera.
***
Tudo estava normal até a quinta aula, quando eu já quase não estava conseguindo me segurar. Precisava ir ao banheiro, e permanecer na sala da forma que eu estava certamente não era uma boa ideia. E no momento em que fiz menção de me levantar e ir falar com o professor, Natsuno levantou-se à minha frente e foi primeiro, falando algo com ele e depois saindo da sala. Eu até esperaria, não fosse a dificuldade enorme que eu tinha em me segurar.
Decidi me levantar também. Dirigi-me à mesa do professor e pedi:
— Professor, hã... eu posso ir ao banheiro?
— Espere o seu colega voltar – ele disse, sem sequer me olhar. Aquele era o quarto dia de aula naquela escola (o motivo eu não sabia, já que estávamos no final de abril. Geralmente, as aulas começavam no início de fevereiro, portanto aquela escola estava atrasada), então nenhum dos professores haviam passado algum dever ou exercício ainda, apenas se apresentado ou explicado como seria sua matéria. Aquele, em especial, sequer havia se apresentado. Disse apenas que se chamava Leonardo Souza e que era professor de Química. Nada mais. Sua cabeça raspada, eu confesso, lembrava uma bola de basquete, mas tentei não reparar enquanto pedia para ir ao banheiro.
— Por favor – eu insisti, falando o mais baixo possível para nenhum dos outros alunos ouvir; alguns ainda me encaravam com desdém. – Ou eu vou ao banheiro, ou eu mijo aqui mesmo, na sala de aula.
Ele dirigiu à mim um olhar obscuro, olhos negros que me analisaram com uma curiosidade nova. Senti um frio na espinha, uma tentação de correr tomando conta de mim. Então a dor na bexiga me lembrou do porquê de eu estar ali e consegui voltar ao foco.
— Professor...
— Vai logo, mas volta rápido – ele disse com rispidez. A passos apressados, eu saí da sala e pisei no corredor.
E parei.
Onde ficava o banheiro?
Até pensei em voltar à sala e perguntar, mas só de olhar para a porta perdi toda a minha coragem. Felizmente, duas garotas emergiam da biblioteca que havia naquele mesmo corredor, portanto corri até elas, tentando disfarçar o desespero que me dominava.
— Oi, é... poderiam me dizer aonde fica o banheiro?
Elas me olharam com indiferença e uma delas parecia estar me analisando, olhos claros que não pareciam nadinha amigáveis e que estavam me deixando desconfortável. Ela tinha algumas sardas pelo rosto e usava uma touca rosa por cima de cabelos alaranjados. Pensei que ela puxaria uma faca para me atacar, mas apenas disse:
— E você, quem é?
— Diogo – respondi, já não conseguindo suportar. – Por favor. Banheiro.
Ela parecia estar olhando para uma barata nojenta. Sua amiga, por outro lado, só observava a cena. Parecia tão confusa quanto à mim. O que aquela garota estava fazendo?
— Segundo andar, ao lado da sala de vídeo – ela respondeu, por fim.
— Obrigado – falei já correndo, deixando as duas para trás. Dobrei à esquerda e à esquerda de novo, no fim daquele segundo corredor. Havia o corredor que levava ao pátio principal – o mesmo que eu estava quando Sofia me encontrou -, mas eu passei por ele e subi o lance de escada que levava ao andar de cima. Saí de frente para a sala 24, e não fosse pelo número, talvez eu pensaria que voltara ao corredor do primeiro andar, visto que ambos eram idênticos. Olhei para os lados me perguntando para onde deveria seguir.
Corri para à esquerda, dobrando o corredor e passando pelas salas 26 e 27 à direita, até encontrar a porta que levava à tal sala de vídeo; os banheiros estavam ao lado. Entrei no masculino, evidentemente.
Cabines à direita e pias à esquerda, um enorme espelho acima delas. Não perdi tempo e entrei na cabine mais perto, usando o banheiro e me aliviando profundamente.
— ...eu tô falando pra você – dizia alguém, muito baixo, na cabine ao meu lado. – Ele tem mechas castanhas e tem o sobrenome Kido.
Franzi o cenho, ficando atento à conversa. Quando a voz voltou a falar – provavelmente respondendo a alguém pelo telefone –, notei de quem era, e lembrei que ele também estava no banheiro: o Natsuno.
— Não, ele não tem anel – ele disse, me deixando sem entender. – Ah, sei lá! Talvez seja a minha chance de deixar de ser um aprendiz. Sim, está. Ele está aqui.
Um momento de pânico percorreu pelo meu corpo, imaginando se Natsuno havia me descoberto tão rápido. Não bastava aqueles grandalhões, agora ele atrás de mim. Afinal, com quem ele estava conversando?
— É, caiu na minha sala. Ele está lá agora. – Suspirei em alívio. Ele não havia me descoberto. – Eu não sei, pai, mas tem vampiros por aqui. E parecem estar atrás dele.
Esse cara deve estar delirando, eu concluí. Ou ensaiando para alguma peça escolar. Decidi que precisava voltar para a sala primeiro do que ele, para não ser descoberto. Mas quando saí da cabine e fechei a porta, meu sangue gelou quando me deparei com uma muralha. Uma muralha de cara fechada.
Ele direcionou o punho em minha direção e acertou a porta atrás de mim em cheio, seu braço musculoso esticado ao meu lado enquanto ele me encarava profundamente nos olhos.
— Eu vou dar só um aviso: não entre no meu caminho.
Era um dos valentões que estavam me encarando, o de cabelos castanhos. Observando melhor, ele tinha uma cicatriz branca que riscava seu olho esquerdo – um corte fundo que subia da maçã de seu rosto até acima da sobrancelha. Sua expressão era a de um cara que já estivera em inúmeras brigas antes, e que nada o assustava mais, nem mesmo um magrelo como eu.
Mas eu não ia deixar as coisas daquele jeito; sabia me defender muito bem, e ainda melhor revidar à opressões. Quando pensei em fazer algo – protestar, atacar, qualquer coisa que me livrasse dele -, a porta da cabine ao lado se abriu e Natsuno arregalou os olhos, olhando para nós dois com cara de espanto.
— O que é que tá havendo aqui? – perguntou, seu olhar alternando-se entre mim e o grandalhão. – Acho que aqui não é lugar para um... romance escondido.
Eu o encarei instantaneamente, arqueando uma sobrancelha.
Trincando os dentes e me lançando um último olhar assassino, o grandalhão recuou o braço e disse, dando às costas:
— O recado está dado. Espero que você seja inteligente e faça o que mandei.
Quando ele abriu a porta para sair, eu ainda disse:
— Eu não sou um fantoche que obedece a otários como você.
Ele parou, e até pensei que voltaria para tentar me matar. Em vez disso, o valentão apenas riu em deboche, deu de ombros e foi embora.
Natsuno e eu ficamos sozinhos naquele banheiro, eu ainda um pouco surpreso pela aparição daquele cara. Como sabia que eu estava ali, era impossível saber.
— Ei, Dio – ele disse, utilizando o apelido que apenas a minha mãe utilizava. – Parece que esses caras estão mesmo atrás de você. – Então me lembrei da conversa do Natsuno com o pai no telefone, ele mencionando sobre vampiros atrás de mim. Eu estreitei meus olhos sobre ele, o deixando sem jeito. – O que foi?
— Eu ouvi a sua conversa no telefone – eu disse, agora sério. – Com quem você estava falando? E por que mencionou o meu sobrenome?
Aquilo o deixou sem palavras, e mais do que nunca percebi que Natsuno estava me escondendo alguma coisa. Ele olhou para a porta, como se ela lhe despertasse alguma curiosidade importante, e disse:
— Olha, é melhor a gente voltar pra sala. Dois garotos indo ao banheiro juntos acho que não pega muito bem, ainda mais se demorarem.
Com aquilo eu tive que concordar, embora soubesse que Natsuno apenas estava fugindo da minha pergunta.
— Vai indo – eu disse. – Vou lavar o rosto.
Ele fez que sim e saiu. Lavei o meu rosto e levantei meus olhos para o espelho, ainda estranhando o fato de aquele valentão ter aparecido de repente e do Natsuno falar com o pai sobre mim, e dizer que “vampiros” estavam me perseguindo. Principalmente por ter mencionado as “pontas das mechas castanhas”.
Bom, eu vou explicar melhor: meu cabelo, assim como o do resto da família do meu pai, era preto e tinha as pontas de todas as mechas castanhas. Aquilo era meio estranho, pois uma vez cortei a parte marrom com uma tesoura e, no dia seguinte, a ponta estava castanha novamente. Todos os meus tios e primos tinham cabelos daquele jeito, até o meu pai, com os seus trinta e oito anos. Ele tinha alguns fios brancos também, o que fazia seu cabelo ter três cores. Meus tios também eram velhos, e todos tinham as mesmas características. Aliás, fazia tempo que eu não os via. A última vez em que eu os havia encontrado tinha sido quando viajei aos Estados Unidos com os meus pais, uns dez anos atrás. Depois, só por fotos. Outros parentes eu havia visto só por fotos também, inclusive o meu falecido avô. E conclusão: todos tinham os cabelos da mesma forma.
Por que Natsuno mencionara essa característica para o pai, era um grande mistério. E a única coisa que eu conseguia pensar era que ele estava me confundindo com algum criminoso. Pois seu pai era um policial, segundo ele.
Aquilo estava me incomodando.
***
Dali em diante, o nosso relacionamento ficou desconfortável. Eu porque ainda não entendia o motivo do telefonema de Natsuno, e Natsuno porque sabia que eu havia ouvido a conversa, mesmo que só uma parte. A única coisa que conseguia me distrair era o jeito encantador da Sofia, que conversava com suas amigas e sorria de forma graciosa, me deixando nas nuvens. Por mais que eu tentava evitar, meu olhar sempre voltava-se à ela, e meu coração acelerou quando ela acabou notando, e me encarou com alguma ironia. Depois dali, eu me senti praticamente imobilizado e sequer tive coragem de olhá-la novamente, minhas bochechas queimando como se estivessem pegando fogo.
E a sineta soou novamente: hora de voltar para casa.
Eu me despedi do Natsuno e, quando disse tchau à Sofia, no campus, ela ironizou o meu jeito — eu estava completamente envergonhado! Ainda assim me tratou com simpatia.
E lá se foi o meu primeiro dia de aula que, definitivamente, não foi o que eu esperava. Percebi que o colégio Martins era cercado por gente estranha.
***
Em casa, a primeira coisa que fiz foi acessar o meu Facebook – já que o meu pai nunca deixou eu ter um celular –, e conversei com alguns dos meus amigos da outra cidade, aqueles que eu considerava como irmãos. Caio me perguntou quando eu voltaria para Belém, algo que eu sequer sabia dizer. Havíamos nos mudado de repente e nem o motivo eu sabia. O meu maior medo era de ficar na cidade para sempre, sendo obrigado a me esquecer de tudo o que eu tinha em Belém – porque Belém era muito longe de Honorário, que ficava no sul do Estado de São Paulo.
O bairro onde eu morava – João Almirante – era um bairro até que animado, com crianças brincando na rua e pouco tráfego de carros. As casas eram, na sua maioria, sobrados com um piso superior, sem tanto luxo ou tanta miséria. Alguns dos vizinhos varriam suas calçadas quando voltei da escola, e poucos me cumprimentaram. Em Belém as coisas eram bem diferentes. Primeiro que os vizinhos varriam suas casas cedo, e não depois das meio-dia. E ninguém passava por você sem te cumprimentar. Talvez essa fosse a grande diferença entre uma cidade grande e uma pequena.
Almocei e subi de novo, sem tanto ânimo para fazer alguma coisa. Minha mãe até sugeriu que eu passeasse por um parque que ficava a alguns quarteirões da nossa casa, no entanto eu só queria voltar para Belém e nada mais. Será que era pedir demais?
Tentei assistir a alguns animes, mas não consegui. Até mesmo liguei a TV, na qual passava um programa bom de comédia. Pena que eu estava impaciente. Só me restava fazer uma coisa para acalmar os nervos: treinar.
Passei pela sala – onde a minha mãe assistia à sua novela –, pela cozinha e abri a porta dos fundos, revelando a estranha floresta que estendia-se pelo sul da cidade. Não havia nada que a separasse da minha casa a não ser o gramado e a lavanderia – um espaço de uns vinte metros.
Treinei alguns golpes.
Soquei o ar com força, dando chutes em seguida. Recuei, treinando a minha defesa rápida com os antebraços, depois pulei em uma voadora giratória.
Não tinha graça treinar sem o meu tio Michael.
Voltei para o meu quarto e me joguei na cama novamente, desanimado. Fiquei o restante do dia deitado, com os pensamentos à toa.
Um tédio.
Anoiteceu.
Tomei um banho quente e desci apenas para jantar, depois escovei os dentes e voltei ao meu quarto. Uma coisa que eu odiava era dormir cedo, mas não tinha mais nada a fazer mesmo...
Até que tentei dormir, porém sem sucesso. Alguma coisa me perturbava, eu só não sabia o que era. Talvez a conversa do Natsuno no banheiro, ou o “recado” daquele valentão do olho riscado... De fato, o meu primeiro dia de aula foi um tanto estranho. Isso sem mencionar a mudança de cor que notei nas íris do Natsuno, quando o vi pela primeira vez. Haviam ficado amareladas, se eu não estivesse enganado.
Devo estar imaginando coisas, pensei.
Por fim, quando menos me dei conta, adormeci.
***
E acordei no meio da noite, sentando-me em um impulso e com o coração acelerado. De alguma forma, a minha respiração agitada soava muito forte ao meu ouvido, minha cabeça latejando. O quarto estava escuro, uma brisa gelada entrando pela janela aberta.
Janela que dava visão à floresta.
Não que eu pudesse ver alguma coisa adiante dela; muito pelo contrário: só havia escuridão. E o meu corpo se arrepiou por completo quando distingui uma sombra – e se aproximando!
Pestanejei algumas vezes para ter certeza, e não queria ter feito isso – a sombra aproximava-se rapidamente! Parecia estar voando, disforme e provocando uma sensação ruim, maligna. Dois pontinhos vermelhos brilhavam, e demorou um tempo para eu perceber que eram os seus olhos! Mais uma vez e sem sucesso, tentei me mexer; eu estava paralisado. Suava enquanto o pânico estabelecia-se sobre o meu peito, a louca vontade de ir embora ansiando dentro de mim. Agarrei o cobertor da minha cama com força na intensão de me cobrir, talvez assim ela não me visse, e nem mesmo os meus braços me obedeciam. Meu coração batia em meu peito feito uma metralhadora, e quando eu estava trêmulo o bastante a ponto de ter uma convulsão – a sombra a poucos metros, prestes a invadir o meu quarto pela janela e me engolir com aqueles olhos avermelhados –, eu acordei.
Estava sentado na cama, novamente no meu quarto, mas dessa vez aliviado por saber que aquilo fora apenas um sonho e que eu já estava acordado. A janela estava aberta e a friagem me atingia, portanto eu me levantei para fechá-la. Relutante, dei uma última olhada para a orla da floresta lá embaixo – e notei um arbusto se mexendo, fazendo todos os cabelos do meu corpo se eriçarem.
Impressão minha, pensei, tentando me acalmar, e fechei a janela. Voltei para a minha cama e voltei a dormir, dessa vez tranquilamente.
Ou quase.
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