Caçada

1 Capítulo Único


– É ridículo — Ele acendeu o cigarro Marlboro e ajeitou os óculos Aviador — Fazer vigia com a viatura?

Marcos riu de leve.

– Quanto a isso eu concordo Roberto. Afinal, quem seria capaz de notar uma puta caminhonete preta escrito "Polícia Federal" nas laterais?

Os dois já cozinhavam vivos dentro da viatura havia duas horas, mesmo sob a sombra da árvore. Beto havia acendido o terceiro cigarro, impaciente com as normas da corporação. Tudo indicava que dentro em pouco acenderia o quarto.

Quando se alistou para o Serviço Militar em 2003, Beto Trevisan, um metro e oitenta, e setenta e seis quilos, não conseguiria imaginar o que se passaria nesses dez anos.

Serviu os dois anos obrigatórios e decidiu permanecer por mais três. Estudando na AMAN, chegou ao posto de Sargento. Convocado para operações de paz em alguns países da África e América Central, ganhou destaque e medalhas por bravuras e honra ao mérito.

No intervalo entre uma e outra operação, recebeu convite para participar do processo de seleção da Polícia Federal de São Paulo, e aceitou.

Agora, dez anos, cinco centímetros e dez quilos de massa muscular depois, o glamouroso mundo de um PF era sentar no banco de couro falso da S10 preta, e aproveitar a sauna dos 38ºC da cidade do interior do estado.

Marcos e Beto eram parceiros desde de que este havia entrado na corporação. Uma era o oposto do outro. Beto era alto e atlético, Marcos baixo e atarracado, porém uma tora em questão de força e inteligente como um vira latas.

Estavam parados em uma avenida movimentada da cidade. Do lado esquerdo, a Rodoviária, e a frente o CIRETRAN, orgão do DETRAN que emite documentos para veículos. E era isso que eles investigavam naquela tarde ensolarada de terça-feira. Haviam recebido de fontes seguras, que um dos funcionários estava emitindo documentos falsos com papéis verdadeiros. O sonho de verão de qualquer ladrãozinho de carros.

Beto apagou o cigarro e passou a mão pelo cabelo, que caía escuro até o ombro. Decidira deixá-lo crescer há pouco mais de um ano, quando a regra de permanecer com os cabelos cortados na corporação perdeu a vigência. Rendeu-lhe apelidos.

– Vontade de mijar cara. — Disse Marcos apertando a barriga como se de alguma forma, pudesse segurar a própria bexiga.

– Vai na rodoviária, eu faço o "trabalho pesado" aqui. — Respondeu sorrindo.

– Se acontecer alguma coisa, me chama no rádio — Disse Marcos saindo da viatura e andando todo apertado.

Beto aumentou o ar condicionado e fechou os vidros escuros, sentindo quase que de imediato o ar gelado que saía dos dutos no painel.

Encostou no banco, se ajeitando de modo que ficasse menos desconfortável. Amaldiçoava aqueles bancos de couro no calor, que deixavam um rastro de suor pela camiseta preta simples da Polícia.

Tirou os óculos escuros e coçou o cavanhaque malfeito vagarosamente. Olhou para a esquerda, e viu perto do semáforo fechado o carro mais bonito que já vira na vida. Um Range Rover Evoque branco, com aros de no mínimo vinte polegadas.

Assoviou pegando o rádio:

– Cara que carro maneiro! — Falou para Marcos.

– Qual? — Respondeu a voz do outro lado.

– Um Evoque, coisa de patrão. Outro nível.

Marcos sabia que seu parceiro era entendedor de carros, e assoviava pra qualquer modelo importado, como se fosse uma mulher bonita.

– Continua economizando, um dia você chega lá — Debochou Marcos.

– Ah sim claro, com nosso salário consigo comprar um desses em quatro ou cinco anos. Sem comer.

A voz do outro lado riu uma risada larga e sumiu.

– Marcos? Marcos? Alô? Porcaria de rádio, acabou a bateria.

Não era a primeira vez que esquecia de levar a bateria reserva do Nextel. Já fora advertido na última operação por este motivo. Jogou o rádio no banco traseiro e bufou.

Acompanhou com os olhos o Evoque branco, namorando o veículo á distância. Percebeu que ele se dirigia ao CIRETRAN, e decidiu abrir os vidros.

Tirou os óculos escuros e guardou no porta luvas, debruçou-se na janela da pickup e apenas observou.

O homem que saiu do grande carro era tão grande quanto seu veículo. Vestia uma camiseta branca apertada escrito, ora vejam só, "Fuck The Police".

Beto teve que sorrir.

O grande homem saiu e olhou para os lados, como se estivesse procurando alguém, e encontrou. Um homem careca, de aparentemente quarenta anos que vestia roupa social amassada entregava-lhe um pequeno pacote de papel pardo. O gigante mais uma vez olhou para os lados, como se estivesse procurando alguém. Suspeito.

Enfiou a mão no bolso da calça e tirou o que parecia um maço de notas presa a um elástico. Muito suspeito.

Virou em direção ao carro e abriu a porta. Antes de entrar no carro, olhou mais uma vez em volta, e se deparou com o olhar de Beto para ele. Parou de repente e entrou no carro rapidamente. Definitivamente suspeito.

Marcos entrou no carro satisfeito por ter esvaziado a bexiga. Olhou para o parceiro que estava sério.

– Que houve?

– Olha o sujeito do Evoque. — Apontou Beto.

Marcos olhou para o homem.

– O que tem?

– Vamos atrás dele.

– O que? Pra que? — Disse o baixinho.

– Ele é muito suspeito — Respondeu já dando a partida na S10.

– Beto, a gente tem que ficar de olho nos papéis do Detran lembra?

– A gente volta rápido — Prometeu.

Avançou vagarosamente atrás do Range Rover, que seguia a avenida do Banhado, cartão postal da cidade. Mais um semáforo fechado.

O importado parou, e o S10 encostou do lado esquerdo. Beto baixou os vidros do carro, e fez o que ele chamava de "dar uma de louco".

– Boa tarde! — Falou para o motorista — Está tudo bem?

O motorista não deu atenção. Segurava firme o volante e suava, olhando para frente.

Desta vez foi Marcos quem tentou:

– Ei, estamos falando com...

Foi tudo muito rápido. Beto apenas ouviu os pneus do Evoque cantando e saindo em disparada pela avenida. Incrédulo, olhou para o parceiro.

– Ele está fugindo? — Perguntou retóricamente.

– Parece que está tentando – Concluiu Marcos com risinhos.

Pisou fundo na S10. Passou voando na Avenida São José, desviando dos carros e levantando fumaça dos pneus. O utilitário branco costurava entre os carros, buzinando e gritando seu motor contra todos.

Marcos havia sacado a arma e aberto a janela.

– O que tá fazendo doidão? — Perguntou Beto, sem tirar os olhos do carro em fuga.

– Ora, vou atirar nos pneus. — Respondeu o outro, como se fosse óbvio.

– No meio de todo mundo? Você é o fodido do James Bond? Guarda essa porra e liga a sirene!

Marcos devolveu a pistola ao coldre, e acendeu o giroflex. Automaticamente, os carros em frente desviavam-se para os acostamentos, facilitando a passagem da viatura.

O Evoque fez uma cura fechada á esquerda, tentando despistá-los sem êxito. A essa altura do campeonato, Beto queria pegá-lo de qualquer jeito. Fez a curva derrapando e assustando os pedestres na calçada. O grande carro branco entrou em outra avenida, desta vez rumando em direção á zona leste da cidade, ainda desviando e buzinando como louco.

– QAP central? — Disse Marcos segurando o rádio da viatura — Na escuta?

Durante alguns segundos o rádio ficou em silêncio, que logo em seguida foi interrompido pelo estalido e chiado da transmissão.

– QAP. Qual a situação? — Devolveu a voz de mulher no rádio.

– Aqui é Tango Charlie Zero Um. Situação de perseguição à suspeito. QSL?

– QSL. Qual é o QTH de vocês? Diga a localização.

– Estamos na João Guilhermino, sentido zona leste. Precisamos de um bloqueio na altura do viaduto sentido Rodoviária Nova.

– Entendido TC01, providenciando.

Marcos recolocou o rádio no gancho, segurando no apoio de mão da viatura nas manobras fechadas do parceiro.

– Marcos, eu duvido que o bloqueio esteja lá quando chegarmos, estamos a quase 110 por hora!

– Confio em você parceiro, vamos pegar ele antes de chegar lá — Concluiu com um sorriso.

Dito isso, Beto reduziu a marcha, fazendo a viatura dar um pulo para frente. Já estava a menos de cinco metros do suspeito, e a quase cem metros do viaduto em questão. Conseguiu emparelhar a viatura com o carro branco, e começou a gritar:

– Para o carro seu desgraçado!

Em troca, o motorista mostrou o dedo médio, olhou pra frente e abriu um largo sorriso. O Evoque entrou na faixa exclusiva de ônibus, e iniciou a descida ao viaduto. Após concluída a descida, Beto entendeu o motivo do sorriso do suspeito. Uma leve trombada com o carro muito maior do que a S10, fez Beto perder o controle do veículo. Atingiu com a roda esquerda a parede divisória do viaduto e decolou. Literalmente.

Mal teve tempo de pensar enquanto a viatura voava por cima da mureta, em direção aos carros da contra mão. Pousou de bico, o que fez com que ele e seu parceiro batessem os rostos no para brisas fortemente. Meio tonto, tentou acordar Marcos, sem sucesso.

Apenas recobrou totalmente a visão, quando escutou a buzina alta que vinha em sua direção: um ônibus azul que não conseguiria frear antes do impacto. Ele apenas fechou os olhos, enquanto sentia o baque da batida forte jogá-los para fora do viaduto em uma queda de dez metros, rumo a uma vala de esgoto. E tudo escureceu.

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