Caçada
5 Mudada.
Notas iniciais
Estava cansada das pessoas que eu nem conheço saberem meu nome. Mas, por incrível que pareça, não senti isso pela garota a minha frente.
Quando as garotas lá fora a chamaram de Lady Artemis, estava à espera de uma mulher com, pelo menos, 40 anos. Porem ali na minha frente estava uma garota de uns 16 anos, no máximo. Ela era tão branca quanto eu – o que era raro, pode acreditar- e o cabelo vermelho lhe dava um destaque e tanto, devo dizer. Seus olhos me fitavam com sinceridade e imensa curiosidade, como se pudesse ver quem eu era – e realmente conseguia ver, presumo.
- Penélope, por que não se senta e me diga o que aconteceu antes de minhas caçadoras e eu chegarmos? – perguntou ela, mas sabia que no seu tom de voz, aquilo mais parecia uma ordem.
Sentei-me e a fitei por uns poucos segundos, vendo como ela era flamejante, de uma maneira fria... era difícil explicar.
- Hã... Claro, acho que posso lhe contar. – murmurei baixinho. Tinha um certo medo pela garota a minha frente, com olhos sabidos que pareciam ter visto de tudo e um pouco mais.
Comecei a lhe contar a historia, deixando de lado a mulher branca que havia aparecido pra mim e me declarado filha da neve, ou alguma coisa parecida. Os olhos de Lady Artemis ficavam cada vez mais e mais brilhantes enquanto eu contava a historia. Quando finalmente terminei, ela deu um enorme suspiro.
- Então você é ignorante a esse assunto, Summers? – perguntou ela. Só que sua pergunta não parecia uma pergunta, era mais uma afirmação.
- Ignorante? – perguntei, erguendo uma sobrancelha.
Outro suspiro.
- Presumo, minha cara, que você não saiba sobre os semideuses. Embora você seja uma. Vejo isso em sua aura. – disse ela levemente.
Eu ainda não entendia porcaria nenhuma.
Mordeu os lábios por um momento e se levantou, ficando de frente para mim.
- Você é diferente das outras pessoas, Penelope. Eu não deveria contar para você, mas como vejo que você não tem nem pai nem mãe que conheça, acho que isso cabe a mim.
“Até mesmo você sabe que é diferente. Coisas estranhas acontece com você. Coisas que não sabe explicar e que sempre leva a culpa, mesmo quando não era sua intenção.
“Você não consegue ficar com os outros, e se sente sempre animada quando está parada por muito tempo. Hiperatividade.
“Você é uma Semideusa. Seu sangue é divino, ou melhor, meio divino. Seu pai ou mãe deus com toda certeza foi alguém muito forte, isso explica um bocado o porque sua aura é tão forte quanto a de Silenie.
“Entende o que quero dizer?”
Olhei-a sem ainda compreender qualquer coisa que ela dissesse. Mas no fundo, bem no fundo, eu sabia que era verdade. Eu não era Penny, a garota branca que sempre sentia frio no calor, que era culpada por tudo e que achava ironia seu sobrenome ter a ver com o Verão.
Não. Eu era Penélope Summers, A Gelada. Diferente de qualquer outra pessoa que eu havia conhecido. Eu não conseguia ficar parada. E sentia que era um pouco poderosa, ainda mais quando nevava e principalmente quando eu me sentia ameaçada e conseguia me livrar do que quer que acontecesse comigo ou que me ataca-se. Eu sabia que poderia me proteger, embora fosse tão frágil quanto uma taça de cristal.
Meus olhos brilharam diante da garota ruiva.
- Entendo, my lady. – sussurrei, abaixando minha cabeça para ela, em forma de respeito. Um respeito maior do que o que sentia por June.
Era difícil, mas eu acreditava em deuses, desde o começo. Mas era teimosa demais para aceitar isso.
Ártemis sorriu.
- Gosto de ver o como você tem potencial. Gostaria de se juntar a caçada?
Sua pergunta me pegou de surpresa. Eu não sabia o que era uma Caçada. E tinha medo de portar qualquer arma para matar qualquer bicho indefeso.
Ela percebeu meu medo e segurou uma de minhas mãos.
- Não machucamos ninguém de verdade. Apenas criaturas que são perigosas demais, tais como a Senhorita June. Minhas caçadoras são poderosas e imortais, se não cair em batalha ou quebrar o voto. Seremos todas unidas, como somos há milênios. Você pode se juntar a nós se quiser. Mas há outra opção.
Eu a observei, tentando absorver suas palavras. Opção? Que outra opção? Mas eu não queria essa outra opção. Sentia que era a que a mulher havia dito para mim. E eu não queria ter que seguir uma regra dela, mais uma vez.
- Eu quero se juntar A Caçada. – falei firme, olhando para os olhos da garota.
Um sorriso de triunfo.
- Erga sua mão e repita comigo. – ordenou ela.
Ergui minha mão direita, como se fosse dar um voto para as Bandeirantes – se bem que era exatamente isso que eu estava fazendo.
- Eu me comprometo com a deusa Ártemis. – disse ela.
- Eu me comprometo com a deusa Ártemis.
- Dou as costas para a companhia dos homens.
- Dou as costas para a companhia dos homens.
- Aceito a virgindade eterna.
- Aceito a virgindade eterna.
- E me junto a Caça.
- E me junto a Caça.
Os olhos de Ártemis brilharam de satisfação.
- Eu aceito. – sussurrou ela.
A sensação depois do voto para a Caçada? Foi incrivelmente interessante e inovador.
Senti quando a atmosfera a minha volta mudou. Mas só eu pude senti-la. Senti até mesmo meus medos me escapando, deixando de ser tão apavoradores assim.
O bicho papão? Ah, eu poderia espanta-lo com um sorriso zombeiro e dizer que ele era um simples ratinho de nada.
June? Ela era nada. Só um monstro maligno que eu poria para o Tártaro, só com um grito de Guerra e com qualquer espada que estivesse em minhas mãos.
O mundo a minha volta deixou de ser maléfico e agitado. Passou a ser sereno.
Até mesmo o gosto de ferro que sempre estava presente em minha língua passou a ter sabor de morangos. A temperatura não me importava mais, embora eu ainda tivesse um leve friozinho. O cheiro de medo passou a ter cheiro de frutas doces e deliciosas.
Eu havia mudado.
Havia me tornado, Penélope Summers, a Gelada Caçadora de Ártemis. E as garotas a minha volta seriam minhas irmãs. A ruiva a minha frente, eu morreria por ela, tamanha era minha lealdade.
E os homens? Não eram importantes.
Ao menos não agora.
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