Caçada
18 Memorias da Caçadora.
Notas iniciais
Enfim...
- Por que você acha que deve ser ao Noroeste, Penny? – perguntou Sebastian, pela milésima vez. Dei um longo suspiro.
- Já disse, é onde a Tiara e o Coração apontam. – resmunguei pela milésima vez, ficando irritada já.
Thalia havia mudado de lugar com Sebastian, já que ele dirigia melhor de dia e Thalia precisava dormir um pouco. Na verdade, na noite passada, Sebastian tinha sido o único que conseguira dormir. Eu e as meninas, tínhamos visto vários monstros nos perseguindo de longe, sem realmente aproximarmos. Bruna tinha dito alguma coisa de que eles estavam esperando pelo momento certo. Eu não tinha entendido o que aquilo queria dizer, até que Sebastian disse que, quanto mais nos aproximarmos do Noroeste, iria ter tantos monstros como no Oeste. Só então que me resolveram falar que estávamos indo diretamente para onde o Mundo Inferior, ou seja, Hollywood.
- Pense direito, Penélope. Deveríamos ir a algum lugar que tenha neve. – disse ele.
Dei um longo suspiro.
- Não. Se fosse assim, nem deveríamos ir para o Oeste também. Não... Parece que Noroeste é o melhor lugar a irmos e tentarmos descobrir alguma coisa.
- E por que você tem tanta convicção disso?
Eu o fitei por um longo momento, tentando perceber se ele era mesmo um idiota ou estava se fazendo de um. Peguei minha Tiara e a coloquei em minha mão. Ela estava mais gelada que o normal, mas nem consegui sentir aquilo direito.
- O que você vê? – perguntei, olhando-o com atenção.
- Sua Tiara de Subtenente. – respondeu ele.
- Não é isso. Para onde a Tiara está apontando?
- E isso importa?
Eu o olhei furiosa e depois voltei a atenção para a Tiara. Só agora eu havia percebido que ela tinha uma ponta que ficava rodopiando, como uma bússola, mas ela não apontava para norte-sul. A pequena ponta estava apontando diretamente para Noroeste, como a da constelação. Eu não havia percebido isso antes até ontem a noite, que a Tiara começara a me incomodar e vi aquilo. Por mais que eu apontasse para o outro lado, a ponta rodopiava até voltar a Noroeste.
- O que você acha que queria dizer a parte da humanidade ficar desesperada? – perguntou Sebastian depois de um tempo.
- Não sei. – respondi, vestindo a Tiara novamente e olhando para o espelho retrovisor.
- Será que tem a ver com o seu sonho?
- Talvez.
Ficamos calados novamente por um longo tempo, até que percebi um movimento vindo ao meu lado. Apertei um pouco os olhos e vi uma grande massa negra.
- O que...? – perguntei, tentando ver melhor. Naquele mesmo momento, Bruna se levantou de um salto e deu um berro. Aquilo só podia significar uma coisa, mas eu tinha uma pequena esperança de que eu estivesse errada...
- Monstros. – disse Bruna, olhando para o mesmo lugar em que eu olhava.
Que ótimo.
- Que tipo de monstro? – perguntou Thalia, segurando os pulsos de Bruna, que se sacudia sem parar.
- Não sei. A mente dele grita alguma coisa em uma voz de leão e...- um rugido veio diretamente da garganta de Bruna. Era meio infernal, mas com toda certeza, era de um Leão.
Thalia entendeu aquilo no mesmo momento em que eu havia conseguido visualizar melhor.
- O Leão da Nemeia.
Ao ouvir eu e Thalia dizermos ao mesmo tempo, Sebastian pisou fundo do acelerador do carro, o que vez com que eu fosse lançada com tudo para o vidro e batesse a cabeça. Dei um grunhido mas fiquei de pé. A forma se aproximava mais e mais, apesar de estarmos a 150 por hora.
- Não adianta. – choramingou Bruna, apertando a cabeça e puxando os próprios cabelos.
- O que isso quer dizer? – perguntou ele, sem tirar o pé do acelerador.
- Ele quer sangue. Foi o que prometeram para ele. E ele... Ele... Argh!
Coloquei minhas mãos por cima das de Sebastian no volante e o fitei.
- Pare o carro. – disse em uma voz calma.
- Você está louca?
- É o único modo. Ele vai nos pegar de um jeito ou de outro.
Pareceu que ele me entendeu e, aos poucos, o carro diminuiu a velocidade até parar. As pressas, pulei do carro enquanto pegava as flechas e me aprontava, certa de que iria fracassar. A pele do animal era tão forte quanto aço. O máximo que eu poderia fazer com as flechas seria irrita-lo. E ele vinha em uma velocidade incrivelmente rápida.
- Caçadoras, preparem-se. – ordenou Thalia. Não vi quando Sebastian estava ao meu lado, só o ouvi se aproximando.
- Acha que conseguimos? – perguntou ele.
Não respondi. Estava a beira das lagrimas do desespero. Eu estava com medo, não pelo fato do Leão, mas porque pequenos flashs viam em minha mente. Coisas que eu nunca havia visto antes e que nunca tinham me acontecido. Mas mesmo assim...
A pele do animal está em seus ombros e eu dou um suspiro, absorvendo a beleza dele e de como ele era forte e corajoso...
“Tu realmentes estrangulara a besta?” pergunto ainda fascinada.
“Com minhas próprias mãos” respondeu ele, sorrindo. Dei um longo sorriso também, mas pelo motivo de estar com ele.
Pisquei os olhos e sai do pequeno flash. O leão estava mais perto agora. Bruna deu outro berro, mas parecia estar muito longe o som...
Olho para o garoto que me lembra tanto ELE... Ainda mais com o fato dele ter acabado de matar o Leão.
“O que eu faço com isso?” perguntou ele. Tive vontade de responder para ele se estrangular com isso, tamanha era minha raiva daquela pele. Ao em vez disso, respondi simplesmente.
“Pegue para tu. É teu troféu por teres conseguido matar a besta” murmurei, virando-lhe o rosto.
Pisquei, atormentada demais. O que tudo aquilo queria dizer a mim? Ouvi outro berro e, logo mais, a temperatura quente do bafo do leão bem perto de mim. Olhei em volta, todas atacavam ele em uma chuva tamanha de flechas, mas eu sentia que não era o bastante...
- Penny, cuidado!- gritou Sebastian. Mas não consegui sair do lugar. O leão estava mais perto e mais perto e...
A Tiara começou a ficar mais gelada que o normal novamente. Senti como se alguma coisa estivesse me protegendo. Alguma coisa que começava do alto de minha cabeça até os dedos de meus pés. Nevava onde eu estava. A tiara me protegia, como era seu trabalho fazer.
Tirei o pingente de meu pescoço e o ativei, sentindo o poder da foice em minhas mãos. O Leão estava tentando atacar a mim, mas por algum motivo, suas garras não ultrapassava minha proteção. O fitei com um ódio antigo, como se aquele animal fosse a razão de todos os meus males.
- Ah, finalmente tu viestes, besta idiota. – exclamei, dando um passo a frente.
- Penélope...- gritou Sebastian e Thalia ao mesmo tempo. Não me importei com eles.
- És tu o símbolo deles. Morreu muitas vezes nas mãos daqueles brutamontes. Agora deves morrer em minhas mãos, tamanho é o ódio que sinto por ti. – sussurrei. Parte de mim sentia que era loucura estar falando com um Leão que ia me fatiar em segundos, mas a outra parte estava satisfeita com isso.
Ataquei-o com a foice, mas ela ficou por poucos segundos em seu pelo e só resultou em um pouco de congelamento. Ouvi Nevasca uivar.
- Fique onde estás, Nevasca. – gritei, sem olhar para sobre o ombro, já que estava ocupada demais com o Leão.
Ele rugia e atacava, enquanto eu praguejava e tentava ataca-lo com a foice, mas não deu nenhum resultado. Dei um pulo para trás e senti braços em volta de meu corpo.
- É impossível tentar derrota-lo, Penny!- gritou Sebastian em meu ouvido. Como se ele se importasse.
- Não! Seu idiota. Eu irei derrota-lo, irei vestir a sua pele, tal como os outros dois. Não tente me impedir! Sei que queres a pele do animal, para ser tão forte e temido como aqueles imbecis!- gritei para ele, me soltando de seu aperto e voltando em direção ao Leão, furiosa.
- Se ele conseguiu matar-te estrangulando-o, posso matar-te então com minha foice. – gritei, atacando-o. Não sei bem como consegui, mas dei um grande golpe em sua cabeça, tal modo que ele caiu ao chão, meio desacordado.
- Penny... – chamou Sebastian, mas não liguei para ele. Eu precisava matar aquele bicho, precisava de sua pele...
Vi uma das suas garras e a usei em meu auxilio, sabendo que não podia corta-la, de fato. Para minha incrível sorte, ele havia caído com o pescoço perto da pata, eu só precisava chegar mais perto. Quando consegui, tentei levantar aquela pata enorme mas, vendo que eu não conseguiria erguê-la, subi em suas costas e ataquei-o novamente, fazendo sua cabeça ir para frente mais um pouco. Pulei das costas do animal e vi que a unha dele agora estava só alguns centímetros de perfurar sua garganta.
Empurrei com força sua pata e vi quando um corte profundo formou nele, jorrando muito sangue que, para minha sorte, não ultrapassou minha barreira invisível. Empurrei-a mais um pouco, fazendo um grande corte profundo. Parei quando ouvi Bruna gritar novamente. Aquilo havia me tirado de meu transe.
- Bruna? – perguntei, meio fraca, me virando e vendo que ela havia acabado de cair nos braços de Thalia.
- O que...?
- O ultimo rugido dele em sua mente eu... eu ouvi...
- Ultimo rugido? – perguntei, sem entender.
Virei meu corpo quando ouvi um barulho grotesco e, logo mais, percebi que o Leão havia sumido, deixando apenas sua pele para trás. Sebastian se aproximou da pele.
- É sua. – disse ele, me entregando.
-Minha? – perguntei, balançando a cabeça.
- É um troféu, por você ter derrotado ele. – respondeu Thalia.
Peguei a pele em minhas mãos e novamente outro flash.
“Vá embora” grita minha irmã mais velha. Estou chorando e perdida. Como ele pode fazer aquilo comigo? Não havia dito que me amava?
“Será exilada e nunca mais poderá pisar aqui!” berrou minha outra irmã, enquanto eu era atirada para longe do Jardim. O meu lar. O lugar onde eu havia sido feliz. Ah e meu pai que era bom antigamente... Minha infância... Tudo era tão bom, não entendo o porque ele teve que estragar tudo. Malditos sejam os homens.
E outro.
Talvez este não seja como o outro, de certo modo. Ele veste a pele, mas suas atitudes são diferentes. Não me parece que ele vá enganar aquela que tanto procura. Mas mesmo assim, ele me lembra... Ah, como posso continuar a me recordar daquele idiota?
- Você está bem, Penny? – pergunta Jessica, me fitando. Concordo com a cabeça e visto a pele, que logo se transforma em uma jaqueta.
Não queria comentar com ninguém sobre memorias que eram e não eram minhas.
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