Caçada
2 Gelo no carvalho
O bom da biblioteca? Ninguém ia lá, exceto eu e mais meia dúzia.
Entenda, uma das coisas que eu mais gosto – ou melhor, a única coisa que eu gosto – no orfanato eram os livros. Tantos e tantos que me deixavam tonta.
Claro, eu limpava eles. Pra falar a verdade, a biblioteca estava limpa por minha causa. E os livros estavam meio gastos por minha causa também.
June me deu as coisas necessárias para limpar os livros e comecei pela prateleira onde estava os livros que eu ainda não lera. Peguei o primeiro livro, não me senti tão atraída por ele. Quando terminei de limpar sua capa, continuei. Segundo, não era tão interessante. O terceiro, parecia um tanto quanto entediante. Eu estava prestes a desistir e ir para minha prateleira preferida quando encontrei um livro.
- Mitologia... – murmurei comigo mesma. Nunca pensei em ler livros desse tipo, mas era interessante as figuras e as historias contidas ali. Pra falar a verdade, as fotos pareciam tão reais que assustavam.
Uma das imagens em questão me era um tanto quanto familiar.
A moça desenhada ali, por um momento, parecia-se tanto comigo. Mas era mais velha. Tinha um jeito mais... Mais atraente e assustador.
-Despina.- disse, lendo o nome embaixo da figura.
Engraçado como nunca havia ouvido o nome dela. E realmente me deu uma pena sobre sua historia. Coitada... Irmã de Perséfone, filha de Poseidon e Demeter. Foi deixada de lado e depois adotada por Anitos. Não se relacionava com os mortais. E era um ser maligno.
Mas naquela imagem, ela não me parecia tão maligna assim.
- Despina foi temida por muitos. – disse uma voz atrás de mim.
Virei-me em tempo de ver June, me olhando com desprezo.
Abaixei a cabeça.
- Você deveria estar limpando os livros, não lendo-os. – disse June com uma raiva na voz.
- Sinto muito. É que chamou-me a atenção. – murmurei.
- Vá para fora. Você já limpou muitos livros hoje.
Acenei uma vez mais a cabeça e sai em disparada, sem nem sequer olhar para trás.
Sentei-me no galho mais alto do carvalho velho que ficava de frente para o orfanato.
Observei a tudo e a todos. Era o único lugar onde eu me sentia aceita, no alto, sem qualquer um poder perceber que eu estava ali os observando.
- É uma bela vista, aqui de cima. – falou uma voz feminina que mais parecia uma geada.
Olhei para o lado e quase cai do galho.
- Q-q-quem é você? – perguntei, tentando me afastar.
Ela era tão branca quanto eu. Os cabelos louros prateados eram dois tons mais claros que os meus. E os olhos... Suas íris brilhavam um tom maléfico lindo, junto com o azul cristalino. Usava negro do pescoço ao punho, o que a deixava mais branca.
Um sorriso nos lábios rosados.
- Ah, sou uma velha amiga. Na verdade, vim lhe avisar que muito está por vir, minha querida. – disse ela, em um tom doce.
Enruguei a testa.
- Querida? – perguntei, sem entender.
Ouvi um farfalhar e ela estava ao meu lado, acariciando meus cabelos em um tom maternal. Por um momento, me senti tão estranhamente feliz, mas depois senti medo. Agarrei o tronco da arvore com força.
- O que você quer de mim? – perguntei.
Ela revirou os olhos.
- Penélope, você faz muitas perguntas, minha filha. – resmungou.
Ergui as sobrancelhas.
- Como sabe meu nome?
Mas ela não me respondeu.
Simplesmente pulou de onde estava. Dei um berro e olhei para baixo, mas ela havia sumido.
Tirei as mãos do tronco e olhei assustada para o gelo que havia formado ali.
Ou estava muito frio ali, ou... É, acho que estou ficando meio louca.
Notas finais
Acho que dá pra ir pra frente.
Espero que gostem.
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