Caça às Bruxas

2 Nunca irrite uma bruxa


Notas iniciais
Olá, perdoem-me a demora

Minha mãe estava em chamas.

Foi a primeira frase que me veio à cabeça.

– Ned... – murmurou Alysha.

Ela agarrou-me pelo braço e tentou me tirar dali, mas eu fitei-meus olhos da expressão da minha mãe.

Seu cabelo ruivo já havia desaparecido, seu rosto expressava horror, ela gritava enquanto queimava. Aos poucos, sua pele ia desaparecendo, o fogo ia aumentando. Minha mãe já estava morta àquela altura. O cheiro da fumaça me enlouquecia, acompanhada pelo cheiro de carne queimada. As pessoas gritando “Queimem a bruxa” e eu estava pasmo, não conseguia me mover. A rainha sorria, satisfeita.

– IDIOTA – Alysha deu-me um soco no rosto, me trazendo de volta à realidade.

Ela também estava assustada, afinal era praticamente parte da família e todos sabiam disso.

E todos sabiam que aquela era minha a mãe, então os próximos seríamos nós. Eu, meu pai e Alysha seríamos lançados à fogueira e queimados, acusados de traição.

Só nos restava correr, e foi o que fizemos. Conseguimos chegar à padaria a salvo, arrumamos nossas coisas e guardamos suprimentos, mas meu pai não se movia. Ele estava parado em frente às suas coisas, mas nem sequer tocava-as.

– PAI! – chacoalhei-o em desespero.

– Vão, eu serei um estorvo, só os atrasarei... Não possuo mais motivos para viver, com minha esposa morta e minha família sendo caçada... – ele estava com uma expressão desconfortável –. Elizabeth está morta, quero ir para o mesmo lugar que ela...

– Você é louco? Quer ficar e morrer? Quer ser torturado como tantos outros ou, sei lá, ser jogado na fogueira?

– Ned! – ele agarrou-me pelos ombros – Vá para o interior da floresta, e não importa o que aconteça, meu filho, jamais volte para a aldeia!

Era a decisão dele morrer. Assim que me soltou, guardas arrombaram a porta e ele gritou:

– Vão!

E aquelas foram as últimas palavras do meu pai para mim...

Alysha jogou o capuz para o lado e partimos em disparada em direção ao jardim. Saltamos a cerca que dividia o jardim da minha casa e a floresta encantada e adentramos no local.

A floresta encantada era imensa e verde. Não dava para ver o solo já que as raízes das arvores cobriam tudo. Era tudo coberto por uma espessa camada de verde, uma mistura de musgo e plantas parasitas. As árvores eram tão altas e tão grandes que de dentro da floresta era quase impossível enxergar o céu. Apenas animais pequenos podiam ser percebidos, dentro dos arbustos e dentro no oco das árvores. Tudo na floresta parecia encantado e era até possível também perceber alguns pontos brilhosos em certas direções.

Fadas...

O vento sussurrava. Quanto mais corríamos, mas nos sentíamos perdidos.

– É a rainha Mabb, ela sabe que estamos no reino dela – disse Alysha.

Por mais tolo que eu fosse, eu sabia bem quem era a rainha das fadas. De acordo com alguns escritores, ela forçava pessoas a sonharem com seus desejos mais profundos.

Talvez se nós não causássemos nenhum dano, ela não tentaria nos matar.

Tentei ignorar essa possibilidade e tentei focar no caminho, eu e Alysha não tínhamos um plano, estávamos por conta própria, mas uma coisa era certa: Eu definitivamente me vingaria.

***

Não demorou muito até ficarmos completamente desgastados. Nossos músculos doíam e nos sentíamos desorientados. Alysha sentia uma visível dificuldade em respirar e eu respirava pesadamente.

– Talvez devêssemos parar e descansar – sugeriu a pequena fada.

– À esta altura, estamos sendo caçados em cada canto de Meridialnrg e a rainha já deve ter posto uma recompensa sobre nossas cabeças – falei sem pensar.

– Ned – ela se levantou –, estamos cansados, perdidos e nem sequer temos um plano – Alysha fez cara feia e ficou vermelha como um pimentão –. Por hora, precisamos nos instalar em algum lugar e nos preparar para o pior – ela me olhou assustada – Porque as coisas vão piorar.

– Não estamos longe o suficiente da aldeia – protestei. – Eles podem nos achar com facilidade.

Alysha suspirou e se jogou próxima a uma árvore. Se recusou a levantar e me pediu água. Percebi que ela tinha razão quanto a nos acomodarmos para descansar quando minhas pernas começaram a tremer, e tremer muito.

– Eu posso voar até a superfície para ficarmos menos perdidos – disse ela. Assenti com a cabeça e abri minha mochila e de lá tirei um cantil de couro que foi-me presenteado pela minha mãe.

Que nem sequer terá um funeral digno.

Acabei me sentando ao lado de Alysha. Minha cabeça não parava, eu estava com raiva e com medo. Minha mãe não fez nada à rainha e foi morta pelo simples fato de querer ajudar. Aquilo não era justo!

– Eu não acredito... – resmunguei. – O que vamos fazer, Alysha? – perguntei sem esperar uma boa resposta.

– Eu não sei... – ela suava e seu coque estava quase desfeito, mas eu pude perceber um brilho em seus olhos quando ela arregalou os olhos e encarou um arbusto – Sh... Olha aquilo...!

Obedeci e encarei o mesmo arbusto. A princípio, não notei nada diferente, mas logo, as folhas se balançaram para o lado contra o vento. Mabb estava ali em algum lugar e aquele era o sinal.

– Mabb nos encontrou – rosnou Alysha. Tivemos a sensação de que a floresta estava se fechando ao nosso redor e nos sentimos sufocados.

– Acha que ela vai nos matar agora? – perguntei.

– Não – Alysha olhou em volta –, ela vai brincar conosco antes.

E praticamente no mesmo segundo, ouvimos um crack. Alysha se virou atenta para a direção do barulho e remexeu-se rápido.

– Tem alguém vindo – ela se levantou –, esconda-se rápido! – e Alysha se encolheu para o tamanho de um botão de rosa e voou até o topo da árvore.

Acabei me desesperando e pedi ajuda. Alysha me estendeu as mãos e me ajudou a subir até uma altura que nos fornecia uma vista favorável sem sermos percebidos. Nos acomodamos num galho e esperamos até um sinal de vida.

Era uma senhora. Uma velhinha que carregava consigo uma cesta que cheirava a doces e usava um capuz que cobria-lhe a cabeça. Ela cantarolava uma canção de ninar enquanto se agachava e colhia algumas ervas e cogumelos. A princípio aparentava ser uma boa velhinha que estava colhendo ingredientes para fazer algum tipo de guisado, só que plantas não pareciam ser os únicos ingredientes.

– Sinto o cheiro de magia – sussurrou Alysha –. Ela come humanos. – eu a encarei.

– SOCORRO! – ouvimos um grito vindo do interior da floresta. A velhinha também escutou, mas ela continuava cantarolando feliz.

– Duas criancinhas foram passear na floresta da bruxa má. Curiosas, elas pediram para entrar e faminta, a bruxa as permitiu – ela continuava cantarolando enquanto colhia alguns cogumelos – Oh, pobres criancinhas, não olhem dentro do caldeirão. Oh pobres criancinhas, vocês ficarão deliciosas com algumas maçãs na boca. Eu posso ouvi-las gritar, mas vocês estarão mortas até o sol de pôr.

Eu olhei para Alysha e ela me olhou de volta. Ela movimentou os lábios devagar, para que eu pudesse lê-los. Era algo do tipo “Vamos segui-la”. Concordei, afinal não tínhamos outra opção. Aquela velha maluca queria comer algumas crianças e não podíamos permitir.

– Korrigan – sussurrou Alysha. – Se quisermos sair vivos, temos que partir antes do anoitecer.

Não questionei, até porque a enciclopédia de criaturas mágicas é a Alysha e não eu.

Continuamos pendurados na árvore até que a velhinha decidiu que já tinha plantas demais. Ela sussurrou algo que mais se parecia com um “Pronto” e adentrou mais ainda na floresta. Cuidadosamente, eu desci do galho e pousei em terra firme. Alysha desceu logo depois e tentamos ao máximo não sermos percebidos enquanto seguíamos a velha psicopata.

O que, à proposito, foi uma péssima ideia, deveríamos ter deixados ela comer seu jantar em paz.

Ela morava numa cabaninha bastante escondida por conta dos galhos e das árvores que lá a cercavam. Os pássaros e as fadas cantarolavam felizes enquanto brincavam no riacho estreito que passava por ali. Aparentava ser um lugar feliz. Aparentava. Assim que começamos a pensar que talvez estivéssemos seriamente enganados, ouvimos outro grito. A velha senhora entrou e fechou a porta, enquanto eu e Alysha tentamos espiar pela janela.

Era sinistro. Parentava ser um lugar aconchegante, com móveis de madeira, uma mesa grande, algumas velas apagadas e um caldeirão que expelia um cheiro surpreendentemente convidativo. Provavelmente teríamos ido embora se acima da lareira não tivesse vários potes de conserva que guardavam partes de corpos, como língua, olhos, dedos e até orelhas. A velha se esticou e jogou algumas ervas no caldeirão e logo depois, abriu um dos potes de conserva e mergulhou um dedo. O caldeirão gritou.

Mas não foi o único. Do outro lado da pequena salinha havia uma gaiola que aprisionava duas crianças: um menino e uma menina. Eles choravam e gritavam por socorro, mas suas vozes não chegavam à ajuda.

– Quietos, inquilinos! – silenciou a bruxa. Logo, ela abriu a porta da gaiola e cuidadosamente tirou a menina. Ela esperneava e se debatia, mas aparentemente era inútil.

– Hansel! – ela chamou pelo garoto.

Ambos choravam e eu e Alysha nos abaixávamos mais e mais atrás da janelinha de vidro.

– Meu amor, calma... – gemia a velha – Não precisa chorar tanto. É só me dizerem aonde está o ninho...

Certo. Que ninho? foi algo que eu perguntei a Alysha antes de sequer deixa-la processar a informação. Porém, ela aparentava estar ainda mais perdida que eu. Bom, se uma velha canibal está atrás de um ninho e para isso, tenha que torturar crianças, eu tinha certeza de que o que quer que estivesse no ninho não seria apenas mais um ingrediente para o seu suculento cozido de gente.

– E-eu não sei, eu juro...

– Men-ti-ro-sa – sibilou e estapeou a garota.

– Gretel! – esperneou o garoto da jaula – Solte-a! Eu sei aonde está o ninho!

– Sabe...? – A velha se animou e soltou Gretel – Aonde está? Vamos! Diga! – ela chutou Gretel para o lado e correu em direção à jaula de Hansel.

– Eu digo! Se você me soltar...

Aquilo não causou o efeito esperado. Bom, descobrimos isso assim que Korrigan disse “Ah, temos um espertinho negociante aqui...”.

– Você quer o ovo, não quer? – disse Hansel com certa dificuldade.

– Vamos fazer o seguinte: Você me conta aonde fica o ninho e eu vos matarei rapidamente.

– Nada feito!

Admirei a coragem do garoto, mas ele não deveria ter aceitado. Korrigan rosnou e levantou Gretel pelo cabelo e começou a sufocá-la. Hansel gritou, implorou para a velha feiticeira deixar sua irmã em paz. Eu tentei me levantar, mas Alysha me segurou. Disse que teríamos três mortos ao invés de dois. Bom... Eu entendi o que ela quis dizer: Hansel e Gretel não escapariam vivos da cabana.

Os gritos ensurdecedores de Hansel eram mais altos que o barulho que o caldeirão emitia, que ficava mais e mais alto à medida que a morte se aproximava da alma de Gretel. Aos poucos, o corpo frágil ia perdendo a cor e, consequentemente, a vida. Korrigan sorriu satisfeita e jogou o cadáver no caldeirão, que foi devorado por uma onda de fumaça vermelha,

– E então... Você ainda quer negociar comigo, meu jovem guia?

Notas finais
Claro que comentários são sempre bem vindos
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.