Caça às Bruxas
1 Não existem bruxas boazinhas
Notas iniciais
A melhor forma de se começar uma história assim seria com o Era uma vez...
E é assim que ela irá começar
Era uma vez, uma pequena ilha no meio do mediterrâneo, conhecida por poucos, habitada por muitos. Mesmo que não sejam todos necessariamente seres humanos.
Esta ilha maravilhosa era habitada por criaturas fantásticas. Desde majestosos unicórnios à terríveis e impetuosas fadas do absinto. Em meio de tantos seres sobrenaturais, havia uma pequena vila nomeada Meridialnrg. Construída por pequenas criaturas da Escócia denominadas Pech, já que era impossível acreditar que meros humanos possam ter construído uma aldeia tão magnifica. Próxima ao centro da cidade morava um padeiro que havia se casado com uma Undina. Belíssimas, mas desprezíveis, estes espíritos aquáticos possuem lindas vozes. Imortais, mas não possuem uma alma. Para obter uma, devem se casar com um humano e ter pelo menos um filho, mas a partir deste momento, deixam de ser importais e passam a envelhecer como uma mulher normal. Caso seu marido for infiel, ela o amaldiçoará, fazendo com que ele jamais durma. Se adormecer, não será capaz de respirar e morrerá sufocado. Também bastante conhecidas como sereias.
Eu sou o produto da união de minha mãe Undina e meu caro padeiro, conhecido por seus pães de açúcar incríveis e sua generosidade capaz de transformá-lo no único homem da vila que não possui nenhum inimigo. É até aceitável.
Meus pais insistem em me levar ao curandeiro, pois acreditam que eu estou enlouquecendo, já que descobri que não sou completamente humano recentemente. Na verdade, eu já suspeitava afinal um ser humano normal não consegue fazer amizade tão facilmente com unicórnios.
Os unicórnios de Meridialnrg não são como os retratados em contos de fada desta época. Eles têm medo dos humanos, que cortam seus chifres para vender aos boticários para a fabricação de remédios para vários tipos de doença. Mas acalme-se, a caça de unicórnios selvagens diretamente da floresta encantada é terminantemente proibida e punível com a morte. Os unicórnios são criados no jardim da rainha e somente os machos são abatidos e vendidos, depois de certa idade, para preservarmos e não perdermos os únicos capazes de curar os doentes.
***
Eu havia acabado de acordar com o barulho de panelas caindo vindo da cozinha. Meu pai é um velho desastrado que vive derrubando as coisas. Levantei-me para ver se ele precisava de ajuda. O cheiro doce do chocolate havia invadido a casa, atraindo brownies e tirando-as do sério.
Brownies são espíritos bondosos que nos ajudam nas tarefas de casa. Elas são tímidas e só trabalham à noite, quando todos estão dormindo. Trabalham em troca de presentes e comida, mas irão embora caso seus presentes forem chamados de pagamento, ou forem vistas ou se falarem sobre elas. São pequenas como ratos e somente se deixam ser vistas por outros seres fantásticos, como eu e minha mãe.
Atualmente ela está numa viagem em busca do tesouro do Fogo-Fátuo que recentemente vêm desviando muitos mercadores para seus pântanos. Nós pretendemos por um fim nisso, já que nossas mercadorias não estão chegando ao porto por conta dessas criaturinhas travessas e irritantes.
– Pai, você está deixando as brownies irritadas, bagunçando tudo desse jeito – comentei ainda sonolento.
Ele rapidamente parou o que estava fazendo, mas deixando cair um pequeno vaso com algumas flores vermelhas, o que dava um toque delicado à nossa cozinha grande e rústica, bem iluminada e limpinha.
Soltei um breve riso e me ofereci para ajudá-lo.
Ele tirou uma fornalha de biscoitos com gotas de chocolate do forno, peguei uns três e os deixei próximos a um buraco na parede, como presente para as pequenas babás de ratos.
Olhei para a mesa e percebi que alguns dos pães doces de meu pai haviam sumido. Atrás da geladeira, um tilintar tocava sem parar.
– Sua tirana... Saia daí!
Alysha saiu de trás do móvel, em seu tamanho pós-transformação. Fada que pode tornar-se do tamanho de um broto de rosa para fazer suas travessuras, como por exemplo, roubar docinhos.
Não sei que diabos Alysha é, mas é filha de uma Ariel, uma fada do vento desastrada em terra e rápida como mil pégasos em céu aberto, e um Fossegrim, um espírito aquático que já foi responsável por várias mortes de mulheres e crianças, mas também por mais da metade da população da ilha saber tocar violino de forma tão perfeita. Alysha é normalmente vista com um vestido de flores e galhos de videira. Seu cabelo louro é tão claro que é facilmente confundível com o branco da neve, preso num coque com algumas mechas escapando da fita vermelha e caindo-lhe sobre o rosto com leves ondulações e suas orelhas pontiagudas, como as de elfos, dando-a um charme delicado.
– Não me chame assim, culpe seu pai por fazer pães tão bons! – disse ela, voltado ao seu tamanho normal (um pouco mais baixa que eu), ainda limpando o açúcar dos lábios pouco carnudos.
Meu pai deu um pequeno sorriso, lisonjeado, e levando os pãezinhos prontos para uma pequena vitrine em frente à casa.
– Você tem que parar de causar tanto prejuízo, Alysha. Deuses, você é pior que os goblins da floresta.
Tentei ignorá-la ao máximo, já que pode-se facilmente perder a paciência dando ouvidos a uma fada travessa, já que seu principal objetivo é nos enlouquecer.
No fundo de casa havia um pequeno jardim com algumas ameixeiras e um pequeno lago. As ameixeiras foram minha ideia, já que eu sempre quis ver Fadas Açucaradas no fim do verão.
Enchi uma tina d’água, encostei a pequena porta de madeira que ligava a cozinha ao jardim e me banhei, tentando ignorar a possibilidade de Alysha estar espiando.
Meridialnrg é uma vila bastante curiosa. Aliás, toda ilha é. Uma ilha que possui uma pequena vila razoavelmente próxima à costa e todo o resto uma vasta floresta inexplorada. Apesar de possuir várias bruxas e elfos na floresta, bruxaria e feitiçaria são restritamente proibidas. Não mantemos qualquer relação ou contato com os seres mágicos. A rainha está organizando uma expedição para destruir a floresta e todos os seres que nela habitam, mas criaturas como goblins e fogo-fátuo estão tentando pará-la, azucrinando os moradores. Já foram relatados vários “acidentes” neste ano. Todos, obviamente, foram “culpa” dos seres. Eu particularmente não acredito que todos são maus, só que os bons são mais tímidos e poucos sabem de sua existência.
Se a rainha descobrisse da existência de Alysha, ou que minha mãe é uma sereia ou que brownies limpam a padaria mais prestigiosa da vila, certamente nossas cabeças estariam enfeitando os portões do castelo. Qualquer ser ou humano ligado a qualquer tipo de criatura é imediatamente executado.
Isso passou pela minha cabeça enquanto eu admirava as árvores em volta do grande lago. Algumas abelhas estavam pousando na macieira, ao lado do arbusto com uma pequena caixa de alfinetes que eu uso para caçar Mamur’s. São pequeninas, mas trabalham duro e bem nas tarefas domésticas. Às vezes eu viajo bastante em meus pensamentos, porém fui interrompido por Alysha que batia desesperadamente na porta.
Ela nunca fazia isso, a menos que fosse sério.
Vesti-me depressa e abri a porta. Ela estava ofegante.
– Uma bruxa – parou para respirar – está sendo levada para a praça no centro da cidade.
Ou seja, um ser místico foi pego e agora a rainha vai executá-lo na frente de todo mundo e tentar nos fazer acreditar que eles são o problema.
Peguei uma capa e cobri as asas de Alysha e juntos corremos até o centro onde uma multidão se acumulava em torno de um pequeno palco que sustentava uma fogueira enorme. Nos esprememos em meio e tentamos ver quem era o azarado que iria ser queimado hoje.
– Irmãos! – gritou a rainha da varanda de sua torre no palácio – Esta mulher, nomeada Elizabeth Sum, acusada de bruxaria e tentativa de assassinato de nossos comerciantes, além de conspirar contra o reino e defender a “honra” das desprezíveis criaturas da floresta, será queimada para servir de exemplo a qualquer outro traidor escondido – e ela continuou tagarelando por um tempo.
Elizabeth Sum... 99% de certeza de que já ouvi este nome antes.
Quando um dos guardas da rainha acendeu a fogueira e eu vi a bruxa queimar, caiu a ficha.
Minha mãe estava em chamas.
Notas finais
Correções são bem-vindas :v
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