CORA & OS CAÇA-MONSTROS
2 Capítulo 2 - O Plano De Cora
Depois de muito adular Zenon e fazer promessas que não poderia cumprir, ele se viu com duas pedras de bom tamanho nas mãos. Correu para a toca, como chamava a Praça Julio Prestes, no centro de São Paulo, onde a concentração de usuários de drogas em farrapos e traficantes era tão grande àquela hora da noite, que qualquer um que estivesse sóbrio e passasse por ali, pensaria estar dentro de um filme de zumbis. Mas ao invés de carne humana, se alimentavam de narcóticos de toda a espécie.
Fumou a primeira pedra e viu uma aglomeração em torno de algo ou alguém. Será que estavam distribuindo alguma coisa de graça? Não era raro ver voluntários chegando com comida em marmitas ou panelões de sopa para alimentar os viciados. Ou ainda, tentando arrebanhá-los para um período de desintoxicação em alguma clínica. Como todos esses produtos não faziam muito sucesso por ali, pois até os pratos de comida eram trocados por um cigarro de maconha que fosse, e ele também pensou em ouvir um grito de socorro vindo do centro do círculo fechado pelos esfarrapados, levantou-se batendo as cinzas do cachimbo no tronco de uma árvore, e aproximou-se. Abriu passagem, empurrando a turba de lado sob protestos e se deparou com uma moça bem vestida sendo apalpada por dois homens mais assanhados.
— O que tá acontecendo aqui? – Perguntou Yuri, na tentativa de chamar a atenção dos homens que pareciam completamente alucinados com a visão do seio da garota, com apenas o soutien a cobri-los.
— Não é da sua conta, eu achei primeiro, então ela é minha – Sentenciou o mais forte, um homem com uma barba a la Bin Laden e com um bíceps amolecido que já tivera melhores dias. Os seus braços eram cobertos de tatuagem e o seu rosto estava cheio de feridas que apareciam depois de um tempo consumindo tóxicos.
— Se não era, agora é sim da minha conta. Largue o braço da moça – Ordenou, enchendo a voz de autoridade e trincando os dentes, preparando-se para atacá-lo se necessário.
A garota que até então gritava, calou-se e olhou para o rapaz que tentava livrá-la do pior, puxando um pouco a blusa na tentativa de se cobrir.
— Quem é você pra me dar ordens, seu moleque? – Retrucou o homem dos braços gelatinosos, largando o cotovelo da moça que segurava com força, e se dirigindo para Yuri.
— Sou o bastante pra saber que moleque aqui é você. Deixe a moça ir embora.
A turba se deliciava com a possibilidade de ver uma briga de rua acontecer. E foi o que houve. Mas para frustração de todos durou bem pouco. Yuri voou pra cima dele agarrando-o firme pelos ombros da jaqueta de lona imunda, girou o corpo enfiando uma das pernas na virilha do homem, levantando-o mais de um metro, e jogando-o em seguida com estardalhaço no meio do asfalto. Aplicara um Uchi Mata, fazendo jus a sua faixa preta. Enquanto o tatuado se estrebuchava, ele foi de encontro a garota.
— Você está bem?
— Sim, obrigado. Tenho que ir embora.
— O que você fazia por aqui a essa hora? Não sabe que é perigoso?
— Eu me distraí caçando pokemons.
— Caçando o que?
— Monstrinhos. Ainda bem que não levaram o meu celular – Disse, apalpando o bolso de trás da calça jeans.
— Pra onde você vai?
— Pra estação da Luz pegar o metrô.
— Eu te levo até lá. Como funciona esse negócio de caçar pokemons? – Perguntou, mais pra puxar assunto do que propriamente por interesse no negócio. – A propósito o meu nome é Yuri.
— O meu é Gabriela – Respondeu, achando que ele ia dar o rosto para beijar, o que não aconteceu.
— Eu estou sujo. Melhor assim – Explicou-se, vendo-a tirar o celular do bolso e mostrá-lo com a câmera funcionando.
— Veja.
— Só vejo a câmera ligada e mais nada – Afirmou quando o aparelho vibrou de repente.
Estavam quase na interseção da Rua Mauá com a José Paulino, em frente ao Parque da Luz, que aquela hora estava fechado, quando Yuri se assustou com a visão de um Eevee, um monstrinho marrom, orelhudo e com um rabo de pônei, trepado numa alecrim-das-campinas, uma árvore que formava com outras da mesma espécie um corredor na entrada do parque, quase em frente a Estação da Luz.
— Veja, ele está bem ali em cima daquela árvores – Mostrou com o dedo, enquanto não tirava os olhos da tela do aparelho. – Já tenho um desses, mas preciso de outros da mesma espécie pra fazê-lo evoluir.
Mesmo não entendendo nada, Yuri ficou encantado com o bichinho se movendo no topo da árvore como um macaquinho.
— E agora, como você faz pra pegá-lo?
— Jogo uma pokebola nele. Mas estamos muito longe. Têm que ser de mais perto. E eu preciso muito dele – Suplicou juntando as mãos com o celular no meio delas, olhando para ele como se ele tivesse a chave do portão do parque.
— Não pode ser amanhã com o parque aberto?
— Amanhã ele não vai estar mais aí. Talvez ele até fuja se não nos aproximarmos com cuidado.
— Dali de cima do muro não daria certo?
— Não. Ainda tá muito longe. Eu teria que entrar, talvez subir na árvore e capturá-lo.
— Santo Deus! – Suspirou coçando a cabeça, mas achando aquilo divertido. Afinal fazia tempo que não andava em companhia feminina tão bonita, já que as viciadas anoréxicas que viviam atrás dele não contava.
— Se você me ensinar, eu vou lá e pego o bicho. Se você confiar em me dar o seu celular para isso.
— Claro que eu confio, mas mesmo que te dissesse como, você ainda não teria a habilidade para arremessar a bola.
Yuri olhou as mãos tremendo, sabendo que o efeito da pedra estava passando e concluiu que realmente não teria condições de fazer o movimento preciso no celular nem que ele fosse do tamanho de uma tevê de setenta polegadas.
Olhou ao redor e viu que com o avançar da hora o movimento em frente a estação rareava, já que caminhar pela cracolândia à noite era para os desajuizados ou toxicômanos. Lembrou que um parceiro de cachimbo havia dito que existia uma passagem na cerca de ferro do parque pela Rua Prates. Segurou as mãos de Gabriela e a levou para o local, onde se certificou que a passagem aberta ainda existia. Espremeram-se pelo meio da grade e logo estavam longe das vistas dos poucos transeuntes que transitavam na calçada. Evitando os locais iluminados, foram pela margem do coreto e desviaram do chafariz para alcançar o corredor de alecrim-das-campinas. A garota manteve o olhar atento a tela do seu aparelho para se certificar que Eevee ainda estava lá.
— Ali – Disse ela apontando para o início do corredor próximo ao portão principal.
Com um cuidado enorme, andavam pé ante pé, o que fez Yuri achar um pouco ridículo, afinal não se tratava de um bicho real. Mas jogo é jogo e deviam seguir as regras. Quando chegaram embaixo da árvore, ela moveu a câmera do celular na direção de Eevee, e com agilidade disparou uma pokebola, acertando o monstrinho de primeira, encontrando-se agora cativo no seu aparelho. Com a alegria emoldurando o seu rosto, ela tascou um beijo na boca de Yuri, que ficou surpreso e envergonhado por estar sem tomar banho há mais vinte e quatro horas, quando fora ver suas irmãs.
Sob a luz da lua, ele pode ver o quanto ela era bonita. Tinha os cabelos curtos à escovinha com uma franja lhe caindo na testa. Os olhos eram agateados e de um azul profundo. O que mais lhe chamava atenção era a boca carnuda. Não era gorda nem magra e era pelo menos dez centímetros mais baixa que ele. Trajava uma blusinha de manga curtas, de abotoar no meio, e calça jeans detonada de furos e rasgos.
Saíram do parque pelo mesmo local, e ele levou-a até a entrada da estação.
— Eu trabalho aqui na Zé Paulino. Sou vendedora numa boutique. Saí do expediente pra caçar e perdi a hora e o senso de direção também. Terei mais cuidado da próxima vez.
— Mas se você não fosse descuidada não teríamos nos conhecido.
— Isso lá é verdade – Concordou sem se importar com os mulambos que ele vestia ou se ele parecia um morador de rua viciado em craque e que não possuía o melhor dos perfumes.
— Moro com uma amiga perto do metrô Santa Cecília. É uma caminhada de quinze minutos daqui, mas tenho que dar uma volta de metrô para evitar a cracolândia.
— Exatamente onde você foi parar hoje.
Ela fez o sinal da cruz sem saber se estava ofendendo ele por viver ali e começou a caminhar estação adentro, olhando uma única vez para trás antes de descer uma escada, levantando a mão para fazer um último aceno. Yuri não sabia nada dela. Também não sabia se o que tinha acontecido faria eles se encontrarem outra vez. Quem sabe outro monstrinho aparecesse por ali e ela precisasse dele.
— Melhor assim – Ele pensou alto, sabendo que não tinha nenhuma chance com uma garota como aquela enquanto não quisesse sair daquela vida. E naquele momento ele não tinha forças. Tirou o cachimbo do bolso, pôs a pedra remanescente dentro, e acendeu o isqueiro, começando a caminhar para o seu inferno particular, enquanto pensava com amargura em Samira. Ele não dera chance alguma para ela terminar aquela relação com dignidade.
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Ele abriu a porta do depósito onde sua mãe guardava as coisas sem uso da casa, e abriu um saco plástico. As roupas que tinha separado para doar ainda estavam lá e em boas condições. Separou as calças que lhe ficaram apertadas e algumas camisas polo que poderia cair melhor no corpo do amigo, já que tinha que levar em consideração a perda de peso dele. Evitaria levar muitas peças de uma só vez para ele não cair na tentação de trocá-las por drogas. Teria que ser assim, até ele achar uma maneira convincente de tentar fazê-lo mudar de vida.
No meio das tralhas velhas, ele viu uma pasta de plástico transparente contendo alguns papéis que estavam com o brasão do hospital onde Cora fazia seus exames regularmente. Abriu-a, e pegou os papéis que estavam datados mais recente. A contagem de plaquetas estava muito abaixo do normal. Os remédios não estavam surtindo efeito. A única saída para a sua irmã seria o transplante. Todos os seus colegas foram testados, exceto Yuri, bem como todos os amigos dos seus pais. No banco de medula não fora encontrado nenhuma compatível. A campanha que faziam na internet não estava dando resultado. Pensou seriamente em fazer uma promessa. Seus pais eram agnósticos, assim como ele, mas a situação pedia medidas extremas. Depois de separar as roupas e guardá-las dentro da mochila, entrou na internet. Descobriu que Santa Rita de Cássia era a padroeira das causas impossíveis, e que a sua igreja ficava no Pari, próximo a Marginal Tietê. Nunca tinha se aventurado de carro por aquelas bandas, mas como estavam sob os cuidados de Astrid, até os seus pais voltarem dos Estados Unidos, onde estavam a trabalho até o início da semana, pegaria o carango emprestado.
Cora estava em boas mãos, já que a funcionária era uma enfermeira decana com mais experiência que muito médico, além do que tratava de Cora desde que ela nascera, e quando os patrões viajavam ela sempre trazia sua filha Abigail para dar uma mãozinha, e que seguira os passos profissionais da mãe, sendo recém-formada. Uma loura curvilínea de vinte e dois anos e olhos verdes com quem Peterson brincou muito de médico quando tinham respectivamente sete e doze anos. O único porém era que a menina nunca queria ser a paciente. Se gostavam como irmãos e ele sempre a procurava proteger dos gaviões que porventura a cercavam com segundas intenções.
Como ainda era cedo, e ele sabia que devido a ressaca dos efeitos da droga, Yuri acordava perto do meio dia. Resolveu seguir para a igreja primeiro. Tomou um banho demorado, vestiu um avental médico, calçou as luvas e pôs a máscara cirúrgica, seguindo para o quarto da irmã a fim de se despedir. Ele cumpria esse ritual todos os dias pelos menos duas vezes. Tudo isso apenas para fazer um carinho em Cora. Dar-lhe um beijo que fosse.
Entrou no quarto quando ela estava terminando de tomar um coquetel de remédios.
— Pensei que não ia aparecer hoje! – Ralhou, colocando o último comprimido na boca e tomando um gole de água. Em seguida, Astrid se retirou dando um bom dia ao rapaz.
— Você acha mesmo que eu ia perder a chance de torrar um pouco a sua paciência, hein? – Retrucou, abrindo a bolha, entrando e tornando a fechá-la. Deu um longo beijo nas bochechas alvas, com a máscara atrapalhando o ato de carinho, e viu como ela estava mais disposta naquela manhã.
— Hora de dormir mocinha! – Ordenou ele fazendo-a deitar-se na cama, puxando o cobertor para cobri-la.
— Peter, eu passei a noite toda lendo sobre o Pokemon Go, o negócio é muito bom! – Disse excitada, mas mudando logo o estado de espírito. – Pena que eu não possa jogar. Não tenho muita chance de caçar monstrinhos presa aqui – Olhou ao redor do seu quarto fazendo um muchocho.
Ele começara a ler sobre o assunto na noite anterior, e se não deu pra aprender tudo, pegou o espírito da coisa.
— Quem sabe eu não possa caçar pra você? – Perguntou, ainda sem entender muito bem o mecanismo.
— Só seria emocionante se eu pudesse ver você fazer isso ao vivo.
— Mas isso é fácil. Eu tenho tudo no meu quarto pra fazer uma transmissão streaming pela web direto pra você, onde quer que eu esteja.
— E você faria isso sozinho?
— Acho que eu poderia contar com a ajuda da Samira.
— E o Yuri?
— Está passando por uma fase difícil. Já te disse que ele está se drogando e foi morar na rua. O pai dele o expulsou de casa.
— Homem ruim aquele pai.
— É verdade, mas precisamos muito ajudar o Yuri. Ele tá devendo uma nota preta ao traficante de quem ele compra os bagulhos.
— Eu tenho dinheiro guardado na poupança. Nunca gastei um centavo desde que papai começou a depositar, e isso foi quando eu nasci.
— Mas ele precisa merecer. Não esqueça que se pagarmos o que ele deve, assim sem mais nem menos, ele voltará a dever novamente.
— Você têm razão meu irmão. E se colocássemos ele pra caçar pokemons com vocês? Era uma maneira de fazê-lo distrair a cabeça.
— Isso mesmo maninha, desviar a atenção dele do crack! Enquanto eu e a Samira estivermos do lado dele, faremos uma vigília cerrada para que ele não consuma nenhuma droga, a não ser chocolate. É uma chance que você está dando pra ele. Uma chance dele viver!
Os dois abraçaram-se com os olhos brilhando. Peterson afagou os cabelos compridos de um louro pálido, puxando a sua cabeça para junto do seu peito. Ficaram perdidos em pensamentos por um minuto inteiro até Monarca começar a guinchar.
— Acho que é ciúmes! – Afirmou ele, dando um beijo na testa de Cora e se afastando, prometendo pensar a respeito da proposta. Antes de fechar a porta ainda disse.
— Vou vê-lo hoje, e quando você acordar eu já terei uma resposta.
Cora demorou pra pegar no sono, e quando o fez, se imaginava dirigindo um conversível numa estrada que cortava o maior dos desertos, trajando um macacão cáqui e munida de quatro celulares, cada um apontando para um ponto cardeal, caçando pokemons.
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Aquele barulho era o mais irritante de todos. Ela preferia uma britadeira funcionando no pé da sua janela, mas não queria ouvir o ruído de um avião passando por cima da sua casa, mesmo que ele estivesse a trinta mil pés de altura. Por outro lado, de alguma maneira estranha ela só conseguia lembrar vagamente do rosto dos seus pais quando isso acontecia. Talvez fosse um estímulo esquisito que o seu cérebro necessitava para lhe trazer o contorno das faces do Doutor Edgar e de Tâmara. Sua avó lhe contava que eles se conheceram por acaso. O seu pai, um neurocirurgião respeitado no país, era casado com uma mulher oito anos mais velha que ele. Fora uma paixão de infância que se confirmou com o casamento de ambos. Os anos se passaram e a relação esfriou. Então ele, numa tentativa de reavivar o matrimônio, sugeriu que Gerusa fizesse um curso de dança do ventre. Logo na primeira aula, o nervo ciático da mulher travou e ela teve que ser socorrida de ambulância, sendo levada para o hospital.
A fim de saber como estava a sua aluna, e de devolver-lhe as roupas de dança que ela esquecera durante a confusão que se seguiu, Tâmara, uma jovem professora de língua árabe que dava aulas de dança do ventre para poder completar o orçamento, ligou para o telefone dela, e Edgar atendeu. Marcaram na escola, e logo depois que se viram, foi amor a primeira vista. O pai de Samira pediu o divórcio e se casou com Tâmara.
Quando criou coragem para levantar da cama no seu primeiro dia de férias, ainda espreguiçando-se na cama, escutou o que achou ser um grito. Rapidamente trocou o pijama por um conjunto de moletom e correu pro quarto da avó, temendo que ela tivesse caído ou coisa parecida. Mas Dona Jandira já estava na cozinha preparando o almoço. Pelo saco de sangue que ela abria para jogar em cima do frango, o prato seria galinha ao molho pardo. Com ânsia de vômito, Samira correu pro banheiro. Sua avó insistia em fazê-la comer comida da roça, que dizia ser mais saudável, já que a garota era alérgica a frutos do mar e raramente entrava algum pescado na sua casa para que Samira não ficasse deprimida, pois amava camarão.
Como estava de barriga vazia, não conseguiu colocar nada para fora do estômago. Escovou os dentes, e quando entrou no chuveiro ouviu novamente o mesmo grito, agora acompanhado de outro. Vinha da rua que passava nos fundos da sua casa, que ficava no Jardim Europa, bairro proeminente da capital paulista e a poucos metros da casa de Peterson, e da ex-casa de Yuri. Enxugou-se e vestiu novamente o moletom ainda intrigada. Saiu pelos fundos e contornou a piscina, seguindo pelo gramado até a área de lazer onde ficava a churrasqueira, o forno de pizza e um salão de festas. Havia um portão pequeno que dava para a rua detrás, mas ela tinha esquecido de pegar a chave. Arrastou uma mesa do salão de festas até próximo ao muro e colocou mais uma cadeira por cima. Trepou-se ali com cuidado para visualizar a rua. Quando esticou o pescoço, quase ao mesmo tempo, um rapaz e uma moça chegavam na mesma altura do muro e quase bateram as cabeças com Samira, não fosse um grito coletivo, desta vez de susto. Só não caíram todos porque seguraram-se nas mãos uns dos outros, equilibrando-se como podiam. Quando sentiram-se seguros, ficaram olhando-se entre eles por uns instantes antes do rapaz abrir a boca.
— Têm um Meowth bem aí do seu lado, ali no gramado – Disse baixinho com o dedo indicando a direção – Olhe devagar para não assustá-lo – Completou.
— Isso é alguma palhaçada? – Samira berrou sem nenhuma cerimônia, observando que os dois não desgrudavam os olhos do celular.
— Ele tá indo embora! – Replicou a moça olhando o pequeno felino se mover – Nós precisamos dele pra chegar no nível 5. A taxa de captura é de trinta e três porcento e já perdemos duas pokebolas.
Samira parecia estar ouvindo outra língua vinda daqueles dois adolescentes, que deveriam ser uns três ou quatro anos mais jovem que ela.
— Vocês fugiram de algum hospício? – Voltou a perguntar, dessa vez mais baixo.
— Não. Acho que você ainda não conhece o Pokemon Go – Afirmou o jovem, quase perdendo o equilíbrio.
— Melhor vocês descerem daí e me explicar essa maluquice. Vou buscar a chave do portão. Onde vocês moram?
— Aqui perto, na Rua Suécia. Somos irmãos.
Julgando que não eram qualquer um, observando como falavam, como estavam vestidos e o modelo dos celulares, Samira avisou a avó que tinha convidados. Logo chegou uma jarra de suco de laranja e biscoitos amanteigados, enquanto os irmãos explicavam a ela o funcionamento básico do jogo, quando o celular de ambos tornou a vibrar.
— Ele voltou! – Disse a menina num fiapo de voz, maravilhada com a possibilidade de capturar o pequeno felino.
— Onde está? – Questionou Samira, olhando ao redor como se pudesse ver a criatura a olho nu.
O rapaz mostrou Meowth no visor. Estava descansando na margem oposta da piscina.
Os irmãos levantaram da mesa onde estavam e foram caminhando lentamente para a borda, apontando o celular para a criatura. Quando chegaram na beira da piscina, já a ponto de disparar suas pokebolas, Barão e Gilda, o casal de dogue alemão de Dona Jandira chega correndo e latindo onde estavam, numa algazarra tamanha que assustou os caçadores, fazendo-os cair com roupa, celular e tudo o mais na piscina, para deleite de Samira que gargalhava até lhe faltar o fôlego, com os cães pulando atrás de si, e curiosos com aqueles dois estranhos que davam mergulhos sucessivos na água em desespero, na tentativa de recuperar as máquinas que caçavam monstrinhos.
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