Quando eu digo às pessoas que minha vida é um lixo, eu sempre digo a verdade. Não que minha vida seja um total desastre e cheia de marés de azar, quando digo que ela é um lixo eu literalmente quero dizer isto. Vivo num depósito de sucata que por ironia tem vista da praia, a ironia é que é a praia mais horrível que eu já vi, sempre mergulhada na imundice. A última ironia é que toda esta imundice vem do depósito onde eu vivo.

-Droga, que dia é hoje?! – Eu me vi perdido em pensamentos desde o minuto que acordei. O que geralmente acontece todos os dias.

-12 de fevereiro, ano 2105. Quinta-feira senhor Daniel. – Meu smartphone, Gill, como eu calorosamente gosto de chama-lo, acabou de me lembrar do quão eu poderia estar atrasado para a entrega de cobre semanal.

Eu olhei para o céu acinzentado, quando eu era criança podia dizer exatamente que horas eram no momento, mas são anos diferentes estes. Eu me pergunto se haverá chuva tóxica hoje, o céu anda muito mais cinza que o comum desde ontem.

-Que horas são?

-10 horas e 7 minutos da manhã. – Atrasado por 7 minutos, não existe nada pior do que se estar atrasado e por tão pouco.

-Gill, ligue para o Bach.

-Fixo ou móvel?

-Fixo, aquele cara nunca sai de casa.

Eu corri de minha varanda até o térreo da casa onde estava meu caminhão prateado e polido a me esperar, carregado com antecedência. O numero de Bach, meu melhor amigo e chefe, tocava e tocava. O que era bastante estranho, pois o telefone fixo ficava ao lado de sua mesa de trabalhos na oficina e ele nunca parava de trabalhar.

-Secretaria eletrônica, deixe seu recado após o sinal. – O pequeno “beeep” tocou e eu estava pronto para começar mais uma desculpa esfarrapada.

-Bach, foi mal mesmo, sei que tá tudo atrasado, mas chego em menos de meia-hora. Fim de Ligação.

-Ligação finalizada. – Ao desligar entrei no caminhão e comecei por ajeitar meu banco e em seguida meus espelhos, não entendia o por que de fazer isso toda noite e começo do dia, como se alguém sempre fosse lá para mexer. Mas era apenas meu corpo e mente pregando peças em mim.

Meu cabelo estava mais branco do que o normal, eu precisava pinta-lo novamente, algo que herdei de minha mãe, cabelos brancos prematuros. Eu me lembrava dela quando eu era muito jovem, quando eu tinha 6 e ela tinha 28 anos já os pintava mensalmente de um tom castanho que sentava perfeitamente com o rosto dela. Seus olhos cor de mel, algo que também foi me dado de herança, para minha sorte, realçavam aquele tom castanho que ela tinha. Eu daria tudo para poder saber o nome da maldita tinta, pois eu não ficava apenas ridículo pintando o cabelo de preto, como também ficava mais velho e com uma aparência bruta, como tinha meu pai.

Parti de meu lar cheio de lixo e dirigi pelas ruas que pareciam feitas de puro ferro. Eu via os protótipos dos novos robôs humanoides, bots é o apelido mais popular, limpando as calçadas e fazendo compras de mercado por seus donos e os mais bonitos deles faziam propagandas em outdoors e na frente das lojas caras, cantando em japonês e dançando de maneira fofinha. Alguns possuíam uma tecnologia que meu bom amigo Bach construía com muita frequência para muitas empresas: A pele sintética, que se regenerava através da memória que o robô tinha de si mesmo.

O sinal vermelho surgiu antes que eu pudesse sair da área comercial daquela rua, o que é horrível, pois em breve os bots de propaganda iriam se aproximar aos montes de minha janela.

-Senhor, gostaria de experimentar nosso pacote de filmes de lançamento completo por um mês e tudinho de graça? Só preciso do numero do seu celular.

Disse o primeiro bot ao chegar, tinha o rosto redondo de uma garotinha, mas o corpo uma mulher de seus 20 anos. Olhos grandes e azuis eram o que mais os caracterizavam. O segundo bot apareceu querendo que eu visitasse o novo restaurante virtual que havia inaugurado na praça logo na esquina, restaurantes virtuais eram locais onde sua mente supria a necessidade exagerada de comer, eles colocavam uma ilusão em forma de vídeo que era passada e repassada de maneira bem rápida através de uns óculos de experiência virtual, é claro que a fome verdadeira vai eventualmente aparecer. Isso na verdade contribuiu muito para os países pobres também, pois a divisão igualitária de comida se tornou mais fácil, mesmo que a chuva ácida seja um enorme problema para plantações independentes. Esses idiotas vendem frutas e legumes que receberam contato com a chuva ácida e quem morre no final são os consumidores. Eu sei de uma técnica que aprendi com o depósito e que sempre funciona, pegue um pedaço da fruta ou legume que você comprou e jogue no chão, se nenhuma formiga se aproximar ou se ela se aproximar e recuar sem voltar com mais formigas, NÃO COMA.

-Vão embora, por favor, não vou comprar nem visitar nada e falem isso pros amigos de vocês que vão chegando.

Os rostos sorridentes e de beleza plástica não se afastaram até o sinal abrir. O movimento nas vias está praticamente vazio, as pessoas viajaram para a capital para o Carnaval, mas eu não poderia nunca atravessar o sinal vermelho mesmo que estando bem à frente e praticamente nenhum carro passando na outra via, pois as vias são imanizadas eletricamente e detectam quando o sinal está verde vermelho ou amarelo, sabem quando você está dirigindo mais do que a velocidade denominada ou menos, elas podem através destes sensores parar, acelerar e desacelerar o seu veículo sem que você perceba de imediato.

Em 10 minutos cheguei á fábrica de Bach, mas algo estava estranho, pois muitos outros entregadores estavam do lado de fora da fábrica apenas observando o portão. Eu estacionei o caminhão e coloquei sua tomada em uma tomada pública para carros que estava vaga.

-...Ei pessoal, por que todo mundo tá do lado de fora? Cadê o Bach?

Eles olharam para mim de cima para baixo, nenhum deles realmente ia com a minha cara, mesmo eu nunca tendo feito nada para eles, mas todos que trabalham comigo me veem como uma espécie de “Olhos e Ouvidos do Faraó”.

-Sei lá Dan, os portões estão trancados e ele não atende ao telefone. – Disse Greta, a única pessoa que não me olha mal além do Bach, ela entrega alumínio e passa vez em outra no meu depósito para pegar um pouco.

Se eu não preciso de alumínio não nego ele para quem precisa.

-Alguém já chamou por ele ou procurou algum recado na porta dos fundos ou nas janelas?

-Já, nada disso adiantou. — Meu sangue congelou.

Aquilo já havia acontecido uma vez. Agarrei uma barra de metal que estava solta no chão, provavelmente que caiu do carregamento de um dos outros, corri até uma das janelas com ela e a arremessei no vidro. Um dos entregadores rapidamente me empurrou contra a parede, segurando minha camisa da Guns N’ Roses com suas mãos. Se eu não estivesse usado minha jaqueta jeans, provavelmente teria me cortado com um pedaço de vidro que ainda estava pendurado pela película da janela.

-Ei seu desgraçado, vai meter todos aqui na cadeia por invasão?

-Você tem 10 segundos para soltar a minha camisa, Gill faça a contagem.

-10, 9, 8...

Aquela camisa era do meu avô, era a camisa favorita dele, eu nunca ouvi falar daquela banda, mas se o meu avô que foi praticamente a minha figura paterna gostava dela, então só podia arrasar.

-Ou o que?

-Vou arrancar seus dedos fora...

-7, 6, 5, 4...

-Você só fala!

-... com os meus dentes.

-Gente, vamos parar com isso! – Greta tentava nos separar, mas os punhos serrados do idiota em minha camisa continuavam pressionando meu pescoço cada vez mais para cima.

-3, 2, 1. Contagem Encerrada.

Eu agarrei alguns de seus dedos com meus dentes e os mordi com força até sentir gosto de sangue, quando seus braços abaixaram enquanto ele gritava o empurrei para trás e ele caiu sentado no chão, o idiota tinha uma enorme barriga de cerveja e seu hálito já tinha me provado que ele não conseguiria se levantar facilmente. Eu corri para a janela e me lancei por ela, eu sentia cheiro de comida queimada no salão de entregas, esse cheiro vinha da casa de Bach, que ficava no segundo andar, eu corri até lá pela escada em caracol, a oficina estava uma bagunça.

-Gill, faça uma nota extra na sua agenda.

-Sim senhor.

-“Visitar o Bach 3 vezes na semana para checar se ele não morreu”.

-Para quais dias?

-Segunda, quarta e sexta.

-Nova nota criada.

Ao me aproximar da sala de construção vi a mesa de trabalho do Bach, o telefone estava lá encima como de costume e muitas embalagens de doces e salgados envoltos dela como folhas que caem de uma árvore. Bach não era gordinho, ele era incrivelmente magricela e bem barbado, cada pacote de doce era a única refeição que ele comia no dia, claro que no dia que ele não estava comigo, porque eu o arrastava para um bom e velho almoço em minha casa, e claro, se eu tivesse carisma o suficiente chamaria Greta.

Reparei no fogão que estava aceso, seja lá o que Bach tentou cozinhar havia virado carvão puro. Eu me aproximei e o desliguei.

- Eu não o vejo em lugar nenhum...

O barulho do alarme da fábrica também dificultava minha audição, se ele estivesse me chamando de longe eu provavelmente não escutaria.

-Dan...? – Vinha de perto.

Era a voz dele. Olhei envolta até perceber por uma porta entreaberta dois pés jogados no chão. Corri até eles e me deparei com Bach e o ninho de passarinho que eram seus cabelos, quase que escondendo seu rosto por completo junto da barba. Ele estava de bruços no chão do banheiro e segurando um pacote de biscoitos em sua mão esquerda.

Existem momentos na vida que você não sabe exatamente como agir, você quer poder fazer tudo ao mesmo tempo e acaba se enrolando, era meu único amigo jogado no chão e ele estava ficando desacordado. Mas já passamos por uma situação como aquela, ele era epiléptico e às vezes se esquecia de tomar seus remédios, mas não era necessário ir para o hospital, ele podia tomar a dose da emergência, que era injetada diretamente na veia.

-Bach! – Eu me aproximei de sua cabeça e o inclinei, pois ainda havia um pouco de espuma saindo de sua boca. – Calma cara, vai ficar tudo bem.

Eu o deixei sentado, com as costas apoiadas no box do banheiro, fui correndo para o freezer onde ele guarda as doses de emergência. Pelo visto ele está sempre preparado, pois havia doses de sobra. Eu retirei uma das doses de sua embalagem e injetei no braço de Bach, ele reclamou um pouco da dor, mas o que eu posso fazer se não a quase carne nenhuma em seu braço para ajudar?

-Desligue o alarme.

-Senha: 19, 30, 22.

O alarme era tanto desligado quanto acionado por voz, mas mesmo que ele o tivesse desligado a polícia estaria naquele local em alguns minutos, Bach precisaria estar um pouco mais acordado para confirmar a situação.

-Não estamos mais no colegial, Bach. Não vou dar conta de te vigiar todo tempo... você precisa comer e tomar seus remédios, ou o fantasma da sua mãe vai tentar me matar enquanto eu tiro o sabão dos meus olhos no banho!

-Não preciso de ninguém me vigiando...

-A sua barba que não vê uma lâmina a mais de 60 anos, os seus empregados folgando lá fora, a sua mesa cheia de sujeira e o seu chão cheio de baba espumosa podem até concordar com você. Mas eu não.

Retirei a seringa e a lancei para longe, eu observava os pequenos detalhes da recuperação de meu pobre amigo, seus músculos que estava tremendo começaram a relaxar e ele logo estava completamente apagado.