CINZAS E BRUMAS

43 VARIANTE E PLANEJAMENTO


​John e Sike chegam ao campo de batalha esburacado, posicionando-se estrategicamente para conter a ameaça. John toma a frente de Telyon, com a guarda erguida, e diz:


​— Então, eu não sei exatamente o que está acontecendo aqui. Mas, pelo que o meu amigo ali me contou, você tá mexendo com o cara que viemos encontrar. Acho que você já sabe como isso acaba, não é?


​Telyon, mesmo com o corpo ferido e o braço mutilado sangrando abundantemente, demonstra fria indiferença diante de John e diz:


​— Saia do meu caminho, humano. Isso não é um joguinho para os imperiais corruptos se divertirem.


​John retruca com sarcasmo:


​— Olha, alguém que também não gosta do Império. Quase não vejo isso hoje em dia. Bom, nesse ponto nós concordamos! E é por isso que preciso da ajuda daquele cara que você está tentando matar! Então você tem duas opções: você some daqui e não enche mais o saco, ou...


​John assume a base sólida do Estilo Gladka e, com um pisão brutal, racha o solo sob seus pés. A pedra cede com um estrondo. Ele conclui:


​— ...fica por aqui mesmo, mas um pouco mais embaixo da terra!


​Telyon, com uma expressão de repulsa e indignação, fala:


​— Humpf! Ridículo!


​Nesse momento, o elfo dá um passo à frente a fim de encarar John. Mas seus movimentos congelam na mesma hora. A expressão em seu rosto muda completamente. Gotas de suor frio tornam-se cada vez mais visíveis em sua face. Telyon, que até então não se importava com nenhuma palavra do cavaleiro, passa a encará-lo com terror, como se observasse algo que não deveria estar ali — uma anomalia na própria realidade. Com a voz rouca e pesada, ele murmura:


​— Isso... não está correto! O que é isso?! Algum tipo de teste?!


​John, completamente confuso sobre a que o elfo se refere, fala:


​— Ae! Não adianta se fingir de louco agora não!


​Telyon, em profundo tormento, continua:


​— Você! Como você...?! Isso muda tudo!


​A espessa esfera de gelo que sela Lórien começa a estalar violentamente. Sike grita para o cavaleiro:


​— Ei, seu idiota! Acaba logo com isso aí ou todo mundo vai morrer!


​John então dispara em altíssima velocidade na direção de Telyon. Ele concentra todo o peso do corpo no punho, desferindo um ataque carregado para finalizá-lo. Porém, o golpe não encontra resistência. O soco transpassa o corpo do inimigo, que se deforma instantaneamente como uma névoa sombria. O cavaleiro recua alguns passos e diz, espantado:


​— O quê? Isso é parecido com a habilidade do Cloud! Quem é você, elfo?!


​Telyon começa a ser sugado por uma espécie de portal escuro e distorcido, e indaga:


​— Me chamo Telyon, humano! Qual é o seu nome?!


​John, puxando o velho costume dos cavaleiros que se apresentam ao duelar, responde:


​— Meu nome é John Dickson, elfo!


​Telyon conclui:


​— John Dickson! Não vou me esquecer! Você com certeza ainda me verá, humano!


​Após isso, Telyon desaparece completamente no portal, que se fecha em um estalo seco.


​Nesse exato momento, Sike não suporta mais conter a energia cataclísmica vinda do Lonnai infundido de Lórien e abaixa os braços. A contenção de gelo explode em milhares de fragmentos afiados. O príncipe agora está livre, ainda em sua forma instável e letal. Sike grita:


​— Ei! Lórien! Sou eu, Sike! Acorda aí, orelhudo!


​Lórien apenas observa o campo destruído e não encontra seu alvo original. Sem a presença do inimigo, o azul profundo do Lonnai de Lórien se desfaz de suas veias. Ele cai no chão, completamente desacordado ao lado da Princesa Mirabel. Sike corre em direção a eles para prestar socorro e grita:


​— John! Vem dar uma mão aqui!


​John ainda está processando o ocorrido e pensa:


​Quem era aquele cara?! Ele não sabia o meu nome, mas parecia me conhecer de alguma forma...


​Sike grita ao fundo, acordando o cavaleiro de seus pensamentos:


​— John! Ajuda aqui!


​Ele então corre em direção ao mago.


​Após algum tempo, Lórien acorda ofegante e em desespero. Ele vê Sike à sua frente e diz:


​— Si-Sike?! Como... o que aconteceu?!


​Sike cruza os braços e fala para o amigo:


​— Bom, eu é que tenho que te perguntar, não é? Você ficou maluco e tivemos que te botar pra dormir!


​Lórien põe a mão na cabeça, atordoado, e diz de forma confusa:


​— Eu... estava lutando com alguém... E eu usei meu Lonnai com a infusão!


​Nesse momento, o príncipe se lembra de tudo e arregala os olhos, desesperado:


​— Sike! A mulher que estava comigo! Onde ela está?!


​Sike tenta acalmar o general dizendo:


​— Opa, calma aí! Ela está viva. Nós tiramos vocês daquela cratera e trouxemos para cá por segurança. Meu amigo está tratando os ferimentos dela ali na tenda que montamos.


​Lórien respira aliviado, encostando a cabeça para trás:


​— Ahh... ainda bem...


​De repente, o príncipe começa a tossir e cuspir sangue grosso. Sike se preocupa imediatamente e faz menção de ajudar, mas o elfo ergue a mão dizendo:


​— Não precisa se preocupar, meu amigo. Eu sabia que não sairia ileso depois de usar aquela forma...


​Sike responde:


​— Caramba, é a segunda vez que te encontro todo ferrado!


​O príncipe dá uma risada fraca e dolorosa:


​— Hahaha, não é? Acho que esse é meu castigo por ser orgulhoso demais.


​Nesse momento, a lona da tenda se abre. John sai e se junta aos dois. Sike então faz as honras:


​— Aí está! Lórien, quero lhe apresentar um velho amigo meu. Esse é John Dickson!


​Lórien pisca, confuso, e tenta sorrir:


​— John... Dickson? Hahaha, que engraçado. Você tem o mesmo nome do ex-Mestre Cavaleiro de Rôga?


​Sike coça a nuca, sem jeito, e diz:


​— É... então... como posso te explicar?


​Após um combate dificílimo, o grupo repousa em meio à floresta para recuperar as forças, enquanto esclarecimentos aguardam para serem feitos.