CINZAS E BRUMAS

12 ESCOLHA E AMARGOR


A noite caiu sobre Drake, e a cerimônia começou com o fervor habitual. O exército do reino desfilou pelas ruas de pedra, suas armaduras reluzindo sob a luz de tochas, até chegar ao palanque real. Loas e aplausos ecoavam, celebrando a força que definia aquela nação.


Quando o silêncio finalmente se fez, o Rei Mahuma III levantou-se diante de seu povo e de seus soldados.


— Povo de Mahuma! Hoje nos reunimos para celebrar, mas também para lembrar por que nunca caímos. Seja em guerras, seja pela aridez de nossas terras ou por qualquer outro motivo que faria as demais raças se curvarem. Nós não somos as demais raças. Somos o povo de Drake! E aqui está o maior exemplo de nossa força. Mesmo tão jovem, a Princesa Charlotte será posta no mais alto cargo militar! Isso é poder! Isso é Drake!


O povo em êxtase gritou e aplaudiu. Charlotte, no entanto, procurava com os olhos sua irmã nos assentos reservados à nobreza. Não a encontrando, sua expressão endureceu, mas ela forçou um sorriso quando o rei se aproximou com a insígnia de comando.


— Princesa Charlotte. Eu, Mahuma III, a nomeio aqui Comandante Suprema do Exército de Drake.


Enquanto as palmas explodiam, uma carruagem de ferro atravessou a multidão, freando bruscamente diante do palanque e silenciando a festa. O General Ron desceu primeiro, sua figura imponente cortando o ar de celebração.


— Alteza, perdoe minha petulância em interromper esta nomeação — disse ele, sua voz grave projetada para todos ouvirem.


O rei, surpreso, encarou seu general com frieza.


— O que significa isso, General Ron?


— Senhor, devido à gravidade da situação, não pude esperar. Encontramos quem traiu nossa nação.


As palavras despertaram o interesse imediato do rei.


— Ora, General Ron... quem seria? Como prometi, eu mesmo lhe darei a pena capital.


Ron lutou para esconder um sorriso vitorioso.


— Senhor, é pela identidade do traidor que tive que trazê-lo com urgência... Desçam a prisioneira!


A porta da carruagem se abriu. Com um guarda segurando-a firmemente, Mirabel desceu, algemada. O choque varreu a multidão, e Charlotte deu um passo à frente, incrédula.


O rei gritou, sua voz tremendo de fúria contida:


— Como ousa, Ron?!


— Senhor, eu sei o que parece, mas trouxe a prova cabal do que digo.


Então, Lifiz foi arrastado da carruagem, também algemado, seus olhos élficos varrendo a multidão hostil. Ron proclamou:


— Eis aqui um elfo, inimigo de nosso povo. E durante todo este tempo, ele foi cuidado, alimentado e escondido pela Princesa Mirabel dentro de nossa própria capital. Com sua tecnologia profana, ele espionava e transmitia os planos do exército real para Vilini.


Mirabel, atordoada, olhou para Lifiz, que apenas murmurou para ela:


— Me desculpe, Princesa...


Ron continuou, implacável:


— E para não restarem dúvidas, eis o que a princesa carregava quando foi detida!


Ele ergueu o pingente com a pedra de Aetherium, que brilhava com uma luz azul pulsante na noite escura. Voltando-se para o rei, Ron deu o golpe final:


— Meu Rei, sei que é sua filha. Mas como o senhor mesmo nos ensinou... a lei de Drake é absoluta, não é mesmo?


O rei cerrou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. Seu olhar tornou-se rocha.


— Tem razão, General... A lei é absoluta.


Elevando a voz para que todos ouvissem o veredito, o rei sentenciou:


— Princesa Mirabel, pelos crimes de alta traição e de abrigar um inimigo de guerra, eu, Mahuma III, a sentencio à pena capital.


Ele ergueu a mão, preparando-se para desferir o ataque letal que era sua marca registrada. Mirabel fechou os olhos chorosos, aguardando o fim pelas mãos do juiz que antes chamava de pai.


O silêncio era absoluto.


Em um movimento rápido, Charlotte saltou na frente do rei e caiu de joelhos, bloqueando o caminho de seu pai.


— Meu Rei! Sei que meu mérito ainda é pouco, mas por favor, poupe a vida da princesa! Eu, como sua Comandante Suprema, lhe imploro!


O rei parou o ataque, seu olhar firme fixo na filha ajoelhada.


— Muito bem, Comandante. Como disse, você ainda precisa provar seu mérito como líder. Portanto, esta é sua chance. Execute o elfo, e eu pouparei Mirabel.


Charlotte não tinha alternativa. Com o coração pesado, ela se levantou e desceu as escadas do palanque, desembainhando sua espada.


— Charlotte, não! É um engano! Por favor! — gritou Mirabel, desesperada.


A comandante olhou friamente para a irmã, matando qualquer esperança em seus olhos.


— Cale a boca, Bel... Ou melhor, traidora.


Mirabel olhou para Lifiz pela última vez. Mesmo diante da morte, o elfo sorriu serenamente.


— Não se preocupe, Princesa. Eu voltarei à minha terra... voltarei para Kidma através do fluxo...


Com um golpe poderoso e limpo, a espada de Charlotte desceu, decapitando Lifiz.


O sangue espirrou, manchando o rosto de ambas as irmãs — uma com a feição pétrea e fria do dever cumprido, a outra banhada em lágrimas e horror.


Após o ato, Charlotte se afastou do corpo e caminhou em direção a Ron. Sua sede de sangue pelo general era quase palpável. Ron, sem qualquer traço de medo, sustentou o olhar dela com um sorriso sádico.


— Isso foi lindo e respeitável... Comandante.


O clima de alegria da festa havia evaporado, substituído por pesadas brumas de medo e amargura que cobriram a capital.