CINZAS E BRUMAS
36 CULPA E FALSEAMENTO
Na arena, o clima é destoante. À sua volta, todos vibram, mas só os dois combatentes sentem o que aquela luta significa. Alguns podem dizer que é algum tipo de formalidade da tribo, mas os mais experientes sabem que qualquer deslize de ambos significaria a derrota. Então, o anunciante do combate diz:
— Neste combate, a regra é clara! Não é permitido nenhum tipo de veneno ou magia! Será uma demonstração de força, velocidade e habilidade! Quando eu der o sinal, os combatentes estão liberados para começar!
Então todos se calam, tudo fica quieto. John se põe em postura de luta, enquanto Rokar cruza os braços com um sorriso no rosto. O anunciante então fala:
— Que o combate...
Nesse momento, ainda com os braços cruzados, Rokar levanta um dedo. John, por sua vez, fica confuso com o gesto. O anunciante conclui:
— COMECE!
A palavra mal tinha saído da boca do apresentador e John olha para a frente, mas não vê ninguém. Confuso e agitado, ele olha para os lados, quando uma voz vem de trás dele:
— Você me perdeu, John Dickson?
Era Rokar, que, em alta velocidade, desfere um poderoso chute em John, fazendo-o atravessar a arena e colidir brutalmente com uma das paredes. O choque é ensurdecedor. O cavaleiro se levanta rapidamente, fazendo parecer que o ataque não foi tão eficaz. Mas não para John. O braço que usou para defender o ataque ainda sentia um formigamento intenso. Ele dá uma risada de canto de boca e fala:
— Uau! Realmente faz um tempo que não sinto algo assim.
Rapidamente, Rokar se aproxima novamente, gritando:
— Vamos, humano! Você está me ofendendo se não se mexer!
John então vai ao seu encontro com o punho levantado, carregando um ataque devastador. Quando ambos entram no raio de alcance um do outro, Rokar some novamente da visão de John. O cavaleiro rapidamente olha para trás, mas não vê sinal do oponente. Até que percebe uma sombra densa se formando aos seus pés. John olha para cima, e Rokar desce com o punho a poucos centímetros de seu rosto.
Em menos de uma fração de segundo, John cruza os braços à frente para se defender. O impacto chega. O estrondo do golpe é colossal. John se mantém firme, mas o peso esmagador do ataque do homem-fera faz o solo rachar e ceder, afundando o cavaleiro na terra. Então, Rokar finaliza o movimento e recua um pouco. Poeira e pedras são o que se levanta da arena. Rokar começa a se irritar e diz:
— Ei! Humano! Você vai ficar mesmo só na defesa?! Pare com isso e me mostre como você fez aquele Troll Gigante chorar!
Em meio à poeira, John se levanta do buraco no qual o homem-fera o havia afundado. Pela primeira vez desde a época em que chegou a Nádej, John havia começado a suar em combate. Seus braços tremiam por conta dos ataques avassaladores de Rokar. E então ele pensa:
Droga, que velocidade absurda é essa?! Sike tinha razão, a força e a noção de combate dele também são de outro nível! Preciso me concentrar se quiser acompanhar seu ritmo e acertá-lo!
John então bate seus próprios braços contra o chão, gerando um baque surdo. Todos se surpreendem. Então ele se levanta e diz:
— Ótimo, eles pararam de tremer. Agora dá para continuar!
Após a fala, o cavaleiro avança em alta velocidade contra Rokar, que não se preocupa. Pelo contrário. Ele planta os pés na arena e grita:
— Venha, Dickson! Quero que me golpeie com tudo o que tem!
John, com os olhos em chamas, chega à frente do leão e, com um soco pesado, golpeia sua barriga, fazendo os pés de Rokar, que estavam cravados no solo, arrastarem-se para trás, rasgando a terra. Então John começa uma sequência devastadora de ataques. Cada impacto era carregado de uma fúria atípica do cavaleiro. A cada soco, John soltava gritos descontrolados. Todos na plateia se espantam. Sike, chocado com a reação do amigo, diz:
— O quê? O que está fazendo, John?! Esse não é você!
Vivian, assustada, apenas sente uma tristeza profunda no peito ao ver o descontrole do guerreiro.
Na cabeça de John, as questões ecoavam furiosamente:
Por que eu não consigo acompanhar a velocidade dele?! Como eu posso querer enfrentar o Império sendo esse o meu nível?! Se eu não derrotá-lo, como posso sequer pedir ajuda ao Sike para se juntar a mim?! Como vou protegê-lo se for preciso?! Não posso deixar isso acontecer! Preciso derrotar o Rokar se quiser ter a chance de matar Luces! Preciso vingar todos de Nádej! Preciso vingar a Tessia!
Após isso, John cessa a saraivada de golpes. Ofegante, ele pula para trás, abrindo distância do leão. O cenário da arena havia mudado completamente. A força dos socos de John desfigurou o chão ao redor deles. Rokar, ainda de pé e inabalável, enche o peito e ruge:
— SEU IDIOTA!
John, arfando, fica confuso. O homem-fera continua:
— Seus ataques podem ter sido poderosos, mas foram todos falsos! Seus punhos carregam culpa e estão cheios de receio! Seus olhos gritam dúvidas! Você acha que, do jeito que está, é capaz de me enfrentar, humano?! Você não consegue nem vencer os próprios fantasmas!
John grita:
— Cale a boca, leão! O que você sabe sobre mim?!
Rokar retruca com fúria:
— Eu não o conheço, John Dickson, mas entendo de lutas! E vejo que você também! Mas, neste momento, você é apenas um grande idiota que está se culpando por alguma coisa! E isso está estragando a minha luta! Se quer ter pena de si mesmo, este não é o lugar!
John soca o solo com uma força extrema, fazendo a pedra rachar, e grita:
— EU SEI!... Eu sei.
Após a cena, na plateia, algo começa a brilhar dentro da roupa de Sike. É o brasão de Kidma. O cristal de Aetherium está pulsando de luz.
E então, com a cabeça baixa, John escuta uma voz dolorosamente familiar à sua frente:
— Você tá só o pó, hein, grandão.
John ergue a cabeça e não vê mais Rokar. Mas sim uma figura improvável. Ele vê, bem diante de si, Tessia. E ela sorri:
— Então... espero que você não esteja aí no chão tentando dormir, John.
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