CINZAS E BRUMAS

57 BALANÇA E ENERGIA


Na capital de Kidma, Lórien está na ala curativa olhando para o horizonte pela grande janela, ansioso pelo desfecho do plano de resgate de John. Neste momento, a Rainha List entra no recinto com passos silenciosos e diz:


​— Honestamente, eu pensei que você iria com eles.


​Sem desviar o olhar do céu, o príncipe responde:


​— Então você já sabia...


​List confirma:


​— Logicamente. Além de ser a Rainha, também fui abençoada pelo Tok após o falecimento do seu pai. Ter a habilidade de ler o fluxo dos outros e saber absolutamente tudo o que se passa nestes corredores não é algo tão bom quanto todos imaginam.


​Lórien se vira para a mãe e, com um olhar firme, diz:


​— Eu não me arrependo de nada. Se quiser considerar o meu pedido a John Dickson como envolvimento direto na guerra, pode me prender ou me exilar...


​A matriarca olha nos olhos do filho e acessa o fluxo de energia dele. Em um tom de profundo cansaço, ela inclina a cabeça e fala:


​— Por que complica tanto as coisas para nós, Lórien? Sabe como é doloroso para uma mãe fazer tal coisa com o próprio filho? Você, Keldrin e Aran sempre foram o motivo dos meus sorrisos. Como posso colocar na balança a vida do nosso povo como rainha e a minha felicidade como mãe?


​Com um nó na garganta, o príncipe tenta falar, tomado pelo pesar:


​— Mãe, eu...


​List o interrompe suavemente:


​— Aquela draco... Eu não consigo ler o fluxo dela, mas aprendi muitas coisas com o seu pai, e a partir disso, eu posso concluir...


​A rainha volta o olhar penetrante para Lórien e decreta:


​— A Princesa de Mahuma não estava mentindo.


​O elfo, totalmente surpreso, exclama:


​— Vo-você acredita nela?!


​Com a voz levemente vacilante, revelando a fenda em sua armadura de monarca, List diz:


​— Minha mente, como rainha desta nação, grita a todo instante para não confiar nos dracos. Mas eu senti em meu coração a sinceridade absoluta nas palavras dela. Entende a minha posição, meu filho?


​Após a confissão, a rainha muda bruscamente de tom. Com a voz voltando a carregar a certeza e a seriedade de uma comandante militar, ela chama:


​— Lórien.


​O príncipe escuta com atenção. Com uma frieza cortante, ela continua:


​— O cavaleiro de Tyron e aquele mago... não serão capazes de derrotar Ron.


​O elfo responde, com o suor frio escorrendo pelo rosto tenso:


​— Eu... entendo a força absurda de um dos generais de Mahuma, mas o Senhor Dickson é um monstro de forte! E Sike também!


​Com um peso devastador nas palavras, a rainha conclui:


​— Meu filho... Você mandou aqueles dois para a morte.


​Longe dali, em Zelena, a feroz batalha continua.


​Em meio a uma chuva de raios negros destrutivos, John desvia sofridamente dos ataques relâmpagos de Ron. Em um salto poderoso que estremece o chão, o draco forma dois relâmpagos das trevas, um em cada mão. Emanando uma energia densa e insana, ele grita para o cavaleiro:


​— VAMOS, HUMANO! NÃO VÁ CAIR AGORA SÓ PORQUE EU TE APERTEI UM POUCO!!!


​O general dispara os relâmpagos com brutalidade. Em um movimento sobre-humano, o cavaleiro bloqueia o ataque frontal com o fio da Rezarti, mas o impacto explosivo da magia o arremessa para trás, fazendo-o colidir e destroçar várias rochas pelo caminho.


​Sem tempo para sentir a dor no corpo escoriado, Dickson se levanta de solavanco para bloquear o próximo relâmpago negro, mas... ele não vê o raio à sua frente. Em um segundo de silêncio congelante, Ron sussurra atrás dele com sadismo:


​— Te peguei...


​John olha de relance por cima do ombro. O segundo relâmpago percorreu a lateral como uma serpente e está a milímetros de sua nuca. Não há tempo para qualquer reação física. Só resta a John aceitar o golpe letal.


​Porém, no último instante absoluto, um gigantesco pilar de fogo vulcânico irrompe da terra, explodindo entre o raio negro e o cavaleiro, salvando-o por uma fração de microssegundo.


​O impacto é absorvido pelas chamas. O general estala a língua e fala com extremo desdém:


​— Tsc, esse verme mago tá realmente me incomodando.


​Sike, ao longe, encontra-se de joelhos no topo da barreira de gelo. Com o rosto encharcado de suor e visivelmente esgotado por queimar sua mana em reações tão rápidas, ele ofega:


​— Huff... Huff... Aí... Quanto tempo mais eu vou ter que ficar te salvando, John?!


​O cavaleiro grita, espanando a fumaça de sua armadura:


​— Continua assim! Tá indo muito bem!


​Sike retruca, com as veias pulsando de raiva e estresse na testa:


​— Ora, seu...!


​Do outro lado da espessa muralha de gelo, Mirabel corre desesperadamente pelos escombros para ajudar os moradores sobreviventes. Ela grita a plenos pulmões:


​— Todos que podem me ouvir, por favor, saiam de onde estão e corram para a floresta! Rápido!


​Um dos moradores, escondido sob a soleira de uma porta destruída, aponta o dedo e grita com ódio:


​— Você... Você é a mulher que aquele draco monstro estava esperando?! Você é a culpada por tudo isso! Está tentando nos enganar para nos matar?!


​Com extrema urgência, ela tenta explicar:


​— Não! Por favor, não é isso! Vocês precisam sair imediatamente para que possam ter tempo de escapar do raio da batalha!


​Outros moradores começam a sair das ruínas, manifestando-se com hostilidade e fechando o cerco contra a princesa:


​— Eu ouvi que aquele maluco tava esperando uma princesa draco!


— Isso com certeza é uma armadilha!


— Se sairmos de nossas casas, para onde nós vamos?!


— Essa mulher quer nos machucar!


​Em puro desespero, a princesa tenta contornar o pânico cego deles:


​— Não! Escutem, vocês precisam sair antes que...


​Um aldeão agarra uma pedra do chão e grita com rancor puro:


​— Morra, draco maligna!


​Em um relance de visão, Mirabel avista uma faca de cozinha atirada ao chão de terra — a mesma lâmina usada pelo jovem garoto que foi morto covardemente por Ron há algumas horas.


​Sem hesitar, a princesa se abaixa, agarra a arma com força e a crava violentamente em seu próprio ombro esquerdo. A lâmina rasga a carne. O sangue jorra, manchando suas vestes, e ela berra com uma dor alucinante e uma autoridade rasgada:


​— ME ESCUTEM!!!


​Todos os aldeões recuam em choque. Agora sem qualquer reação diante da cena brutal, eles encaram e finalmente escutam a princesa draco que há poucos segundos tanto desprezavam.