CINZAS E BRUMAS
14 AMIGO E PRODÍGIO
Após o silêncio atordoado que se seguiu à contenda na taverna, a velha elfa finalmente recuperou a voz. Ela encarou o estranho encapuzado, tentando processar a facilidade com que ele havia destroçado o aço imperial.
— Mas... quem raios é você? — perguntou ela, a voz ainda trêmula.
— Ninguém, minha senhora — respondeu John, a voz seca. — Mas acredito que ainda me deve uma dívida vitalícia de cerveja, não?
A elfa bufou, recuperando sua rispidez habitual.
— Aquilo foi dito no calor do momento! Eu não sobrevivo distribuindo bebida de graça.
John esboçou o que poderia ser um meio sorriso sob o capuz.
— Fique calma. Para ajudá-la, vou trocar as canecas por apenas uma informação. — Ele firmou o tom, e a autoridade em sua voz fez a elfa se empertigar. — Onde está o Sike?
A surpresa no rosto da velha foi imediata.
— O quê? Não faço ideia de quem ou do que seja isso.
— Por favor, senhora — insistiu John, inclinando-se levemente. — Não sou um inimigo. Preciso ver Sike o mais depressa possível.
A elfa olhou para os soldados caídos no chão e depois para o homem à sua frente. Soltou um suspiro de derrota.
— Está bem... Siga para o leste, para além do distrito dos mercadores. Há uma praça depois das tendas de especiarias. Espere lá. Vou mandar avisá-lo para encontrá-lo após o entardecer.
John inclinou a cabeça em um gesto de agradecimento silencioso e deu as costas para sair.
— Ei! — gritou a elfa enquanto ele atravessava a porta. — Volte aqui e tire esses lixos da minha taverna antes de ir!
O entardecer passou, tingindo o céu de Zadarmo com tons de violeta e cinza. John estava no local marcado, encostado em uma pilastra de pedra. A praça estava deserta, um silêncio antinatural para uma cidade que nunca dormia.
De repente, o ar pareceu estalar. John sentiu um gosto metálico na boca e franziu o nariz, cobrindo-o com a mão.
— Ah... eu odeio isso. Esse cheiro forte de magia.
Uma voz vinda das sombras respondeu, carregada de um sarcasmo familiar:
— Você sempre foi todo esquisito, não é, John? Só que agora é um esquisito procurado pelo Império. Sabia que eu poderia ganhar uma fortuna entregando sua cabeça para Luces?
John soltou uma risada curta, sem humor.
— Eu gostaria de vê-lo tentar, Sike.
O homem saiu das sombras, revelando-se. Ele estalou os dedos e uma pequena chama dançou sobre sua palma, iluminando um rosto jovem e astuto, marcado por uma inteligência inquieta.
— Não me tente, John. Sabe que eu detesto desperdiçar meu talento.
Os dois se encararam por um segundo, a tensão do reencontro pesando no ar, antes de ambos dispararem insultos simultâneos:
— Seu fraco — disse John.
— Seu burro — retrucou Sike.
O gelo quebrou e ambos riram, um som que parecia deslocado naquele cenário de guerra iminente.
— Sim... — disse Sike, guardando a chama. — Ninguém mais seria louco o suficiente para querer virar cinzas pelas minhas mãos a não ser o lendário John Dickson.
— Nem se você devorasse todos os livros da biblioteca imperial seria capaz disso — retrucou John. — Mesmo sendo o tal do "prodígio".
O clima de brincadeira, porém, evaporou rapidamente quando John olhou nos olhos do amigo. Sua voz agora carregava o peso de uma montanha.
— É bom te ver, Sike.
Sike paralisou. O tom de John era um sinal de alerta.
— O quê? Para você dizer algo assim, deve ter acontecido uma catástrofe de classe cinco.
Ele viu a angústia profunda estampada no rosto do guerreiro, as linhas de dor que nem o capuz ou a barba podiam esconder.
— John... o que aconteceu?
John fez a pergunta que o torturava desde que as cinzas de Nádej esfriaram, sem qualquer esperança real de ouvir a resposta que desejava:
— Sike... a sua magia... você pode reviver os mortos?
Sike baixou o olhar. Ele já suspeitava do que veria nos olhos de John.
— A mana é capaz de muitas coisas, John. Até onde eu sei, e até onde os registros dos antigos alcançam... essa não é uma delas. A vida é um fluxo que não permite retorno.
John não se surpreendeu. Apenas desviou o olhar para o horizonte escuro, como se estivesse ouvindo o que já sabia, mas precisasse da confirmação de um mestre.
— Entendo. Eu só... precisava ouvir de alguém que realmente entende disso.
Ele se virou para o mago, e desta vez não havia melancolia, apenas uma determinação sombria que Sike nunca tinha visto antes.
— Enfim, tenho um pedido para você.
Sike inclinou a cabeça, curioso e apreensivo.
— Me empreste sua magia — concluiu John, a voz gélida. — Me ajude a destruir o Império.
O silêncio que se seguiu não era mais de amizade, mas de um chamado ao dever.
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