C.D.T. - O homem que vive nas sombras

12 Capítulo 12 - As cinco normas


Preocupada como estava, Selena iniciou uma corrida em direção ao leito de Ishida naquele mesmo instante. Ela foi seguida pelos amigos, porém eles decidiram permanecer a alguns passos de distância, somente observando, com a intenção de não causar nenhuma perturbação ao adolescente que ainda se recuperava.

À medida em que recobrava a consciência, Ishida balbuciou as seguintes palavras.

— Selena... É você? Quer dizer que eu não morri?

— Não – Respondeu a moça – Mas bem que você tentou.

Ishida olhou para a mulher e esboçou um leve sorriso, mas logo abaixou o olhar. Sentia-se envergonhado.

— Parece que eu levei uma surra, não é? O meu queixo está latejando e eu acho que quebrei pelo menos duas costelas.

— Não se preocupe... Você vai ficar bem.

A fim de confortá-lo, Selena colocou a mão direita sobre sua cabeça e acariciou os seus cabelos. Um profundo silêncio se instaurou durante alguns segundos, mas ele foi logo quebrado pela trêmula voz do rapaz.

— Peço desculpas... Você estava certa o tempo inteiro... Eu ainda não estou pronto.

— De fato não está – Disse ela – mas isso não é nada que o tempo não resolva. Você é jovem... Apenas isso.

— Obrigado pelas palavras. Fico feliz que se importe comigo a ponto de mentir só para fazer com que eu me sinta melhor.

— Não estou mentindo. Você lutou bem.

Ishida gargalhou.

— Se isso é lutar bem, eu não sei o que é lutar mal. Vamos apenas encarar os fatos. Eu sou fraco.

— Isso não é verdade!

Ishida não respondeu. Enquanto permanecia em silêncio, fechou novamente os olhos e levantou devagar o braço para afastar a mão de Selena, que ainda estava a acariciar os seus cabelos. A moça então percebeu que o que estava realmente ferido não era o corpo do adolescente... Era o seu orgulho.

— Apenas me deixe em paz, certo?

Depois de refletir um pouco, ela pensou em se retirar. Porém, antes que fizesse isso, recordou algo muito importante. Voltou-se novamente para o amigo e pronunciou um nome que os dois conheciam muito bem. Um nome quase lendário que imediatamente despertou a atenção do garoto.

— Brock Punho de Ferro.

Erguendo-se com dificuldade, Ishida ficou sentado na cama.

— O que você acabou de falar, Selena?

— Brock Punho de Ferro. Eu conversei com ele ao final da sua luta. Ele pediu que eu te desse um recado.

— Isso só pode ser brincadeira!

— Ele falou... Diga a Ishida que eu retiro o que disse. Ele não é fraco.

— Retirar o que disse? Não entendo... Quer dizer que Brock viu minha luta?

— Nossa... Você é burro mesmo, hein! – Falou sorrindo – Brock foi o seu oponente.

— Espere aí... – Arregalando os olhos, Ishida se deu conta da verdade — Quer dizer que aquele cara...

— Sim.

— O bigodudo?

— Sim.

— Selena, não pode ser! Pelos céus, isso não pode ser verdade... O que eu fiz? Eu chamei Brock Punho de Ferro de mamute?

A negra gargalhou ao lembrar disso.

— Parece que sim! Mas não se preocupe com isso, Ishida... É irrelevante. Preste atenção naquilo que realmente importa: Brock Punho de Ferro disse que você não é fraco. Você pretende questioná-lo?

Sem conseguir acreditar naquilo, o rapaz permaneceu quieto.

— Foi o que pensei.

Selena sabia que aquilo tinha melhorado muito o ânimo de Ishida, por isso virou-se para sair. Quando estava prestes a ir embora, no entanto, o garoto segurou o seu braço.

— Espere! Eu também tenho um recado para te entregar, esqueceu? Uma mensagem de Toshi. Foi por esse motivo que vim.

A mulher parou.

— Sim, eu me lembro. Gostaria de me contar agora?

— Claro. Nosso mestre... Ele diz que é chegada a hora de concluir seu treinamento.

Atordoada com a notícia, Selena parou de respirar por um segundo.

— Como assim? Eu treino desde os meus cinco anos de idade! Vinte anos de minha vida foram dedicados ao estudo do Rygouka-santon... Toshi disse que o meu treinamento estava completo! Disse que não tinha mais nada a me ensinar!

— Toshi disse que mentiu. Falou que você precisava provar o seu valor no mundo real... Do lado de fora dos muros do templo. Ele pediu que eu te contasse que ele soube de suas últimas duas vitórias neste campeonato. Nosso mestre está muito satisfeito e está quase convencido de que vale a pena te revelar os segredos mais profundos de nossa arte.

Selena estava confusa, não sabia o que pensar. Toshi tinha praticamente expulsado ela do templo. A perspectiva de voltar a treinar com seu mestre a deixava muito animada, mas ela se conteve. Sua voz felizmente não demonstrou o turbilhão de sentimentos conflitantes que aflingiam a sua alma.

— Quase convencido? Eu ainda não disse que quero voltar, mas... Apenas supondo que eu aceite... O que ele quer que eu faça?

— Ele quer que voçê vença o campeonato pela terceira vez consecutiva.

— Isso quer dizer que...

— Sim. Você terá que derrotar Brock.

Aquele desafio não assustou a lutadora, porém ela não podia deixar de sentir uma sutil sensação de frio na barriga. Brock Punho de Ferro era praticamente uma lenda. Um dos maiores artistas marciais de todo o continente. Derrotá-lo seria um tremendo desafio.

— Eu vou fazer isso – Disse Selena, com determinação – Não por Toshi, mas por você. Ninguém machuca um amigo meu e fica impune!

Dizendo isso, ela se despediu. Ishida voltou a se deitar e Selena foi ter com seus amigos. Sortudo tinha conseguido escutar a conversa inteira. Akio e Bill estavam apenas um pouco curiosos. Arthur, por outro lado, não conseguia disfarçar sua comum ansiedade.

— Ele está bem? O que falou? Parece que alguma coisa a deixou bastante pensativa!

Selena abriu a boca para explicar os acontecimentos, porém isso não foi possível. Naquele mesmo instante, Yuri Ziberman convocou os lutadores do oitavo e último grupo. Propositalmente, a mulher utilizou-se daquele pretexto para ignorar a pergunta de Arthur.

— Desculpe, Normandut – Disse sorrindo – eu preciso me apressar.

— Se alguma coisa está te incomodando, você deveria dizer o que é.

Refletindo um pouco, a mulher julgou que não havia necessidade de contar a história inteira naquela hora. Talvez isso pudesse ser feito em um outro momento, pois agora ela tinha outras preocupações mais urgentes. Deu sua curta resposta enquanto dirigia-se para a arena.

— Eu vou vencer este campeonato, entendeu? E ninguém vai ficar no meu caminho.

— Só por cima do meu cadáver! – Falou Arthur, gargalhando - Eu serei o campeão!

— Realmente acha que tem a força para me desafiar? Apenas observe, Normandut.

Selena retribuiu o sorriso e se foi. Subiu na arena e lá aguardou junto aos demais participantes. Em poucos instantes a batalha começaria.

— Arthur? – Era Ishida quem chamava. Rapidamente, o quarteto se aproximou dele.

— Espero que tenha aproveitado o cochilo, nobre amigo – falou o duelista em tom de brincadeira – como você provavelmente já sabe, Selena vai lutar agora. Fico feliz que esteja acordado para ver.

— Por quanto tempo eu dormi?

— Cerca de uma hora – Respondeu Sortudo.

— Espero que não esteja desapontado, Arthur. Você confiou em mim desde o inicio.

— Desapontado? Não diga tolices, Ishida! Aquela luta foi sublime! Magnífica! Sua determinação cativou todo o público aqui presente! Sei que tens um grande futuro à sua frente. Esta derrota não manchou sua dignidade. Muito pelo contrário, apenas a aumentou.

— Muito obrigado, Arthur. Suas palavras possuem um grande valor para mim.

— Disponha. Agora me diga, por favor... Qual foi o assunto da conversa que você teve com Selena?

Ishida pensou um pouco. Passados alguns segundos, deu a resposta mais honesta que conseguiu imaginar.

— Bem... É complicado.

De fato, aquela situação não era nem um pouco simples. Enquanto observava a aproximação de seus oponentes, Selena repetia a mesma coisa para si. De repente, a sua situação tinha se tornado muito complicada.

Voltar para o Templo de Jade nas Montanhas Azuis e encontrar novamente seu antigo mestre não eram decisões fáceis de se tomar, porém não era aquilo que a deixava realmente inquieta. O que de fato a incomodava era o conteúdo da mensagem em si. As palavras ditas por Ishida ainda ecoavam em sua mente.. É chegada a hora de completar seu treinamento.

Aquilo não fazia o menor sentido, pois seu treinamento já estava completo! Toshi havia declarado isso em mais de uma ocasião.

No Templo de Jade, o estudo do Rygouka-santon é dividido em três aspectos: o físico, o espiritual e o mental. É possível que um aluno seja extremamente talentoso em uma das três áreas e ao mesmo tempo mostre-se completamente incompetente nas demais, por isso o treinamento costumava durar décadas a fio. Selena era considerada um prodígio pelos demais por completar o treino em apenas vinte anos.

Mas Toshi agora declarava que o seu progresso na realidade não tinha chegado ao fim. Se era esse o caso, o que poderia estar faltando? Selena já não era uma lutadora completa? A fim de encontrar aquilo que faltava, ela repassou mentalmente as diferentes fases do treinamento.

O primeiro estágio era o físico. Nesta fase, a principal preocupação do mestre era condicionar o corpo dos alunos. Isso era feito através de exercícios extenuantes ao longo de duas seções de exercício por dia – uma logo ao acordar e a outra antes de dormir — cada uma com três horas de duração. Havia dezenas de flexões, abdominais e agachamentos. Quilômetros de corrida. Infindáveis repetições de golpes e simulações de lutas. E isso para citar somente a parte fácil.

O segundo estágio era o espiritual. Tratava-se de uma continuação do treinamento físico — com praticamente a mesma quantidade de exercícios – só que era introduzida uma rotina de reflexão e meditação. Além disso, os estudantes eram levados a lugares que não conheciam — inóspitos e assustadores — para vivenciar situações de medo e insegurança. O objetivo do mestre era ensinar os seus discípulos a dominar seus sentimentos.

Por fim, havia o nível mais elevado, o mental. De maneira curiosa, ele não era um estágio como os outros. Era uma meta que todos conheciam desde o princípio. O objetivo final que poucos alcançavam.

Pois desde o primeiro dia de treinamento, os discípulos eram apresentados ao que podemos chamar de filosofia do Rygouka-santon. Esse modo de pensar e agir era baseado em cinco regras que todo praticante deveria seguir à risca. Não apenas durante as lutas, mas em cada segundo de suas vidas. Afinal, o artista marcial e o ser humano são um só, não podem ser separados.

Depois de décadas de treino, o mestre avaliava que estudantes haviam realmente compreendido o verdadeiro significado das cinco regras. Estes, e apenas estes, ganhariam o título de zentai no sentoki, ou lutador completo.

Se Selena era uma lutadora completa em corpo, espírito e mente... O que faltaria?

Yuri Ziberman anunciou que a luta começaria em apenas um minuto. Despertada de suas reflexões, a negra percebeu que todos os inimigos já estavam na arena. Olhando com atenção, ela notou que emanavam uma série de sentimentos negativos. Ganância. Sadismo. Prazer em matar. Ela constatou que os guerreiros do seu grupo eram quase tão doentes quanto Harry, o açougueiro, embora fossem muito mais fracos.

Selena estava cansada de jogos. Precisaria somente vencer esta última edição do campeonato para acumular a quantia em dinheiro que era necessária para concretizar seus planos. Ela desejava iniciar uma viagem rumo á sua terra natal: o deserto de Humarim. Até o início daquele dia, era a única escolha que tinha.

Lembrou-se da primeira vez que havia participado do campeonato... De como na época — pela primeira vez em anos – ela sentiu medo e insegurança ao enfrentar homens como eles. Eram assassinos, sem dúvida. Mercenários na melhor das hipóteses. Diferente dela, estavam competindo pelos motivos mais egoístas e vis. Aquele pensamento a fez sorrir, pois achou a situação irônica. Era incrível como as coisas se repetiam.

Pouco antes de soar o gongo, recordou a primeira regra do estilo Rygouka-santon.

O combate não é uma arte. Não é um esporte. Não é uma escolha. É simplesmente questão de sobrevivência.

Miamoto Bainha Sem Espada, o samurai renegado que criou o Rygouka-santon, conhecia muito bem o sofrimento que as batalhas sempre causam. Ele sabia que as lutas só devem acontecer quando não existir outra alternativa, por isso a regra fundamental do seu estilo afirma que os praticantes nunca devem encarar o combate como algo belo ou desejável. Apesar da adrenalina e da sensação de poder que sorrateiramente se aproxima dos lutadores poderosos, o verdadeiro zentai no sentoki fica longe das armadilhas do ego.

Baseando-se neste princípio, Selena não atacou. Assim que o combate se iniciou, ela aguardou atentamente até que um guerreiro ruivo com duas espadas avançou em sua direção. Só então – com o objetivo de defender-se – a lutadora reagiu. Esquivou-se do primeiro golpe, recuou para evitar o segundo e abaixou-se para escapar do terceiro. As lâminas gêmeas do ruivo eram velozes, mas não tanto quanto Selena.

Novos golpes foram desferidos em sua direção, porém nenhum atingiu seu alvo. O espadachim começou a ficar nervoso e passou a atacar de maneira cada vez mais descuidada, o que inevitavelmente criou inúmeras brechas em sua guarda.

Selena não tardou em tirar proveito disso, pois no instante em que o homem tentou perfurar seu coração com uma estocada reta, ela conseguiu segurar o seu braço e puxou ele para perto de si com enorme força. Já sem equilíbrio algum, o ruivo avançou aos tropeços em sua direção. A lutadora então desferiu uma joelhada certeira em suas costelas e logo depois uma cotovelada vertical de cima para baixo que amassou o nariz do sujeito.

Ele largou uma espada e se afastou, urrando de dor. A mão direita — que cobria o rosto — tentava impedir o fluxo de sangue que saía com intensidade das duas narinas. Já a esquerda estava agora balançando a espada que lhe sobrara freneticamente, golpeando em todas as direções já que ele não conseguia mais ver com clareza.

Selena tentou aproximar-se dele para aplicar um chute que o derrubaria da arena, porém foi muito lenta. Antes mesmo que pudesse encontrar uma abertura em meio ao frenético movimento da espada, um guerreiro gigante sem camisa portando um martelo de cabo longo apareceu entre os dois e bateu com força no peito do ruivo, que assim saiu do campo de batalha.

O gigante – que tinha pele escura e era careca – voltou então sua atenção para a mulher. Correu em sua direção e quase esmagou-lhe a cabeça com um potente giro da arma, mas Selena conseguiu se abaixar a tempo.

Esquivar-se do grande martelo era – de certa forma – mais arriscado do que evitar os ataques das duas espadas. Por uma questão de lógica, as lâminas eram mais velozes, no entanto o martelo era muito mais perigoso, pois com ele tornava-se incrivelmente fácil quebrar os ossos do oponente até que virassem pó. Um acerto no braço ou na perna iria inutilizar totalmente o membro atingido. Não havia margem para erros.

Para enfrentar aquele enorme oponente, Selena precisava urgentemente de alguma arma. Foi assim que lhe ocorreu a segunda regra do Rygouka-santon.

Quem sempre está desarmado... Nunca está desarmado.

Mestre Toshi certa vez contou uma história aos seus discípulos e Selena era uma das ouvintes. Isso aconteceu quando ela tinha cerca de dez anos.

Séculos atrás, Bainha Sem Espada estava escondido na casa de um camponês que morava em Doroma. O camponês fazia parte do grupo de pessoas que estava se rebelando contra a Nação Rubra, mas ele não conseguia acreditar na revolução. Como um pequeno amontoado de humildes camponeses poderia enfrentar um exército de samurais se eles nem mesmo possuíam armas? Foi quando Miamoto, sem nem ao menos interromper sua meditação, respondeu.

Desarmado é apenas um estado de espírito. Quando uma pessoa luta por justiça, tudo pode ser sua arma. Seus braços, suas pernas, seus dentes. O chão aonde pisa, as pedras e galhos que encontra ao léu. Até mesmo o clima, meu amigo, pode ser sua arma.

Dizem que as palavras de Miamoto foram confirmadas depois de alguns dias. Um destacamento de quinhentos soldados do Exército Vermelho tentou atacar a aldeia em que ele estava, porém essa aldeia se encontrava cercada pelas Montanhas Azuis. Valendo-se da vantagem geográfica, os camponeses montaram uma série de armadilhas que matou muitos dos inimigos pelo caminho. A defesa foi vitoriosa.

Inspirada por essa história, Selena tentou observar o que estava acontecendo em volta dela. Lembrou-se da espada que o ruivo tinha deixado cair no chão, mas viu que ela estava longe demais. Passou a olhar com mais atenção e percebeu que logo atrás dela havia uma das crateras que a bola de ferro de Victor tinha criado no chão da arena. Em volta da cratera, várias pedras soltas.

Imediatamente, pegou uma das maiores e arremessou na direção do gigante. Com uma pontaria exepcional, acertou seu olho esquerdo. Selena recuou mais alguns passos e esperou para ver se o seu plano iria funcionar.

Conforme esperava, o portador do martelo ficou absolutamente enfurecido e cego de raiva. Ele correu em direção à mulher sem observar o chão com cuidado e por esse motivo tropeçou na cratera que Selena tinha atravessado. No final das contas, até mesmo o buraco foi usado como arma para tirar o equilíbrio do homem.

Aproveitando a vantagem, Selena abaixou-se para apanhar outra pedra – redonda e quase do tamanho de seu punho – e saltou para golpear com ela a têmpora do careca, derrubando-o. Sangue vermelho escorreu de sua cabeça, mas ele iria viver.

Aquele triunfo foi digno e surpreendente, por isso o público foi ao delírio. Não havia, entretanto, tempo algum para comemorar. Pois tão logo Selena levantou, ofegante, uma flecha atingiu seu ombro esquerdo de raspão. Olhando para trás, a lutadora viu quem era responsável por aquilo: um arqueiro de olhos puxados e cabelos pretos, longos e lisos.

— Parece que as coisas sempre podem piorar, não é mesmo? – Falou para si própria.

Primeiro as duas espadas do ruivo. Depois o martelo de haste longa do careca. E agora, havia um arco. Daquela distância, não havia como neutralizar o arco... Era de fato uma arma muito poderosa que Selena começava a temer.

Mas a despeito disso, ela conseguiu manter-se tranquila o suficiente para lembrar a terceira regra do estilo Rygouka-santon.

Não tema a espada. Tema a mão que empunha a espada.

Como a lutadora bem sabia, o Rygouka-santon foi criado para que os camponeses de Doroma pudessem defender-se das tropas do Exército Vermelho. Como não possuíam armas, era necessário treinar não apenas chutes e socos, mas principalmente o espírito. A emoção. Miamoto disse que eles não deveriam se preocupar com as armas dos seus inimigos, pois elas por si só não ofereciam perigo algum. Eles deveriam temer e respeitar os homens que estão manejando as armas, pois uma espada cega nas mãos de um mestre é muito mais perigosa do que uma arma de qualidade ímpar se manejada por uma criança.

Existia mesmo um ditado que Mestre Toshi adorava repetir: a arma mais perigosa do mundo é qualquer coisa que eu tenha em mãos.

Lembrando-se disso, Selena olhou para a pedra que ainda estava segurando e fez aquilo que julgou ser sua única alternativa: enquanto o arqueiro preparava-se para atirar pela segunda vez, ela arremessou a rocha.

O veloz projétil foi precisamente de encontro aos dedos do homem que segurava o arco. Gritando por causa da dor, sua mão tremeu e a flecha foi disparada em uma direção absolutamente errada, indo fincar-se junto a um muro.

Selena sabia que não tinha muito tempo, por isso decidiu usar seu golpe mais forte. Ela correu com toda a velocidade que tinha e saltou para frente, em direção ao agressor. Esticou a perna e atingiu em cheio seu alvo com o poderoso hiko dageki, ou chute voador.

Um detalhe interessante que ela não conseguiu deixar de lembrar foi que Ishida também usou esse golpe em dado momento de sua luta. Foi ela quem havia lhe ensinado.

Pela primeira vez desde o início do combate, ela conseguiu descansar por mais de dez segundos. Aproveitou a pequena pausa para olhar ao seu redor e viu que – além dos três homens derrotados por ela – havia um morto, dois envolvidos em uma luta – um tinha duas facas e o outro uma machadinha – e outra pessoa apenas parada, tremendo de medo.

A pessoa que tremia era um loiro de pele clara que portava uma lança comum e barata. Duas flechas estavam cravadas em seu braço. Ao que parecia era apenas um jovem ganancioso que se julgava mais forte do que realmente era. Selena nem podia imaginar como ele estava arrependido de competir.

Aquela cena fez ela lembrar da quarta regra do Rygouka-santon.

Bater para não quebrar. Quebrar para não cortar. Cortar para não matar. Matar para não morrer.

Essa regra fala sobre o controle da força, pois o verdadeiro zentai no sentoki sabe que a violência é um recurso que nunca deve ser usado de maneira gratuita ou excessiva. A primeira alternativa deve ser sempre o diálogo. Se a conversa não funciona, os golpes devem ser aplicados sempre com a menor intensidade possível para que ferimentos sejam evitados. Adicionalmente, a única situação que justifica um assassinato é o risco de morte.

Pensando nisso, Selena posicionou-se atrás do loiro. Aproximou-se sem ser notada e antes que ele pudesse reagir de qualquer maneira, ela o segurou pelas roupas e utilizou-se de um golpe de projeção para arremessá-lo para fora da competição. Em verdade, ele iria se ferir na queda. Mas preservaria sua vida, e isso era mais importante.

Infelizmente, os outros competidores não tinham o mesmo senso de piedade que a negra possuía. Quando virou-se para encarar os últimos dois participantes, ela viu um deles retirando sua faca do pescoço do outro, que caiu morto.

Com a respiração pesada, Selena e o portador das facas ficaram se encarando. O silêncio imperou durante alguns segundos, mas foi quebrado depois de instantes pela fala do homem vestido em preto. Sua voz era sinistra e baixa, parecia ser pouco mais do que um sussurro.

— O que? O que você disse?

— Eu? Eu... Não disse nada – Respondeu Selena, sem entender.

— Não falei com você, sua estúpida! – A ira nos olhos do homem era mais do que evidente. Mesmo assim, ele depois voltou a ficar calmo, falando de maneira paternal e carinhosa com a sua faca azul – O que disse, Kimi? Ah, sim... Você ainda está com sede!

Dizendo isso, correu na direção de Selena. Ele não era um guerreiro como outro qualquer. Tinha técnica. Sutileza. Provavelmente já tinha matado dezenas de pessoas antes. Atacava com maestria e precisão, mas Selena era muito mais ágil devido aos anos de treinamento. Se esquivou da maior parte dos cortes — sendo atingida superficialmente apenas duas vezes – e conseguiu retribuir os danos com os seus punhos na mesma medida.

Pela segunda vez, a negra usou o campo de batalha como sua arma mais valiosa. Conduziu propositalmente o seu inimigo em direção a uma das crateras, fazendo ele tropeçar e perder o equilíbrio. Aproveitando-se disso, ela conseguiu agarrar um dos seus punhos e arrancou uma das facas de sua mão com uma técnica de desarmamento.

O grito que o homem soltou foi algo inacreditavelmente assustador. Foi um urro grave e gutural que lembrava mais uma besta sendo ferida do que um homem. Ele disse:

— Devolva minha Kimi! Devolva para mim! Kimi!

Curiosamente, o homem não atacou. Comportava-se como um pai se comportaria se sua filha estivesse sendo feita de refém, nas mãos de um bandido. Exprimia um olhar atento e preocupado que quase despertou a piedade de Selena.

Aquela inusitada situação fez ela recordar-se da quinta regra do Rygouka-santon.

Compreender o inimigo é dominar o inimigo.

Ela sorriu para o assassino e gritou as seguintes palavras:

— Você quer sua Kimi de volta? Vá pegar!

E arremessou a faca do homem para fora do ginásio. Como não é surpreendente, ele saiu correndo atrás dela e assim foi desclassificado por sair da arena. Selena vencera.

A plateia saudou a vencedora com gritos, aplausos e ovações. Ela não tinha se dado conta disso, mas vencer o campeonato duas vezes seguidas a deixou muito famosa. Ziberman se aproximou aplaudindo.

— Selena! Que prazer reencontrá-la! Suponho que deseje continuar na competição! — Depois da resposta positiva por parte da mulher, Yuri voltou a falar — Se é esse o caso, declaro finda a primeira etapa de nossa amável competição. Os vencedores são: Harry, Sortudo, Roderick, Arthur, Brock, Akio, Victor e Selena! A segunda etapa ocorrerá precisamente daqui a dois dias! Muito obrigado a todos e até lá!