C.D.T. - O homem que vive nas sombras
15 Capítulo 15 - O céu pode esperar
Notas iniciais
Naquela noite as estrelas brilhavam como milhares de pequenos diamantes. A lua cheia chamava atenção, tal qual uma alva rainha, iluminando o céu escuro com sua pálida luz platinada. Algumas nuvens podiam ser vistas percorrendo timidamente a infinita extensão do firmamento. O vento gelado vindo do norte passava veloz pela Aldeia Cinza.
Era tarde, muito tarde.
O dia anterior tinha sido cansativo, e não apenas para as pessoas que participaram do campeonato. Aquela época do ano costumava ser agitada, por isso os trabalhadores nativos também se encontravam exaustos.
Naturalmente, todos precisavam descansar.
Selena e Ishida chegaram a conversar um pouco sobre o corte na perna de Akio. Eles estavam muito preocupados, porém o sono venceu a ambos e agora os dois dormiam profundamente. A única música que Sortudo produzia era a de sua calma respiração. Na cama ao lado, Arthur sonhava com as lutas que ainda estavam por vir. Bill roncava alto ao lado de sua esposa. Sofia era a única pessoa no mundo capaz de dormir tão perto daquele barulho insuportável.
Apenas um par de olhos permanecia aberto em toda aldeia... eram olhos prateados.
Akio observou a escuridão através da janela e sentiu uma estranha identificação com aquele cenário. Não foi difícil entender o motivo: as trevas que o cercavam eram parecidas com as trevas que ele carregava dentro de si.
O ferimento em sua perna ainda incomodava. Agora ele tinha certeza de que não era um humano comum. Não sabia dizer, entretanto, se ainda podia chamar a si mesmo de ser humano. As poucas respostas que tinha não faziam o menor sentido e dezenas de outras perguntas continuavam em aberto. Tudo girava em torno de uma questão principal.
– Quem sou eu?
Seria impossível descobrir naquele instante. De qualquer forma, Akio não tinha certeza se estava realmente preparado para saber a verdade. Decidiu então que o melhor a fazer era desistir de tais reflexões, por isso voltou a deitar-se em sua cama e fechou os olhos para dormir. Quando fez isso, a exaustão física superou a inquietude mental. Pouco tempo depois, ele já estava sonhando.
Os sonhos são eventos realmente curiosos. Eles são igualmente capazes de revelar os desejos mais íntimos e os medos mais profundos de qualquer ser consciente. É possível mentir para os outros, mas não para si mesmo. Os sonhos são prova disso, pois mostram eventos cuja existência até então era ignorada. Lembranças suprimidas. Recordações enterradas nos cantos mais obscuros da mente.
Muitas vezes tais memórias provocam apenas desconforto. Muitas vezes tais memórias são apenas ignoradas. Mas existem outras vezes... outras poucas... raras vezes, em que tais memórias estão impregnadas com um significado tão profundo, tão autêntico, que podem mudar uma vida para sempre. São as chamadas revelações.
Naquela noite, enquanto dormia, Akio teve uma revelação.
Até o presente momento, suas memórias mais recentes apareciam aos recortes. Imagens aleatórias. Vozes desconhecidas. Sentimentos angustiantes e ao mesmo tempo inexplicáveis. De maneira lenta e dolorosa, ele lembrou as poucas coisas que já sabia. Primeiro as mais novas, depois as mais antigas.
Encontre o homem que vive nas sombras.
Ele pensou ter ouvido isso ao acordar na taberna de Bill, na manhã da competição.
Caminho da verdade, eis aqui a sua arma.
Quando Bill lhe tinha dito a frase “parece que você bateu a cabeça bem forte, filho”, isso o fez recordar da existência da espada mágica.
Akio era seu nome, se é isso que quer saber.
O guerreiro recebeu essa mensagem logo após Sofia indagar como ele se chamava.
Como se fossem ecos distantes, as palavras desapareciam. No fim de tudo, restou só a primeira lembrança. Não um som, mas sim uma imagem. Tão vívida, tão real, que Akio não teve dúvidas: a visão fazia parte de um passado verdadeiro.
Era neve caindo do céu.
Usando roupas rasgadas e imundas, Akio estava deitado. Ele sentia suas costas queimarem por causa do contato quase direto de sua pele com o tapete de neve que cobria o chão. Os cristais de gelo continuavam caindo sobre seu corpo de modo lento e constante.
Um deles atingiu direto seu olho esquerdo, provocando enorme desconforto. O homem procurou algum meio de se proteger, por isso instintivamente contraiu os músculos do braço. Quando fez isso, um objeto estranho que ele pensou nunca ter visto antes apareceu na frente do seu rosto. Era uma coisa branca que tinha um formato quase circular, com cinco projeções retas e finas e uma outra reta e muito grossa.
Pouco depois ele se deu conta de que o objeto estranho era sua mão. As projeções finas eram seus dedos e a grossa era o antebraço. Virando o rosto para a direita e para a esquerda, sentiu os músculos do pescoço. Era tudo muito novo e estranho. Quase como se aquele corpo não fosse dele.
Fazendo grande esforço, colocou-se de pé. Todas as articulações estalaram e resistiram, tal qual um velho, enferrujado artefato mecânico que passou anos abandonado.
Ao redor, isolamento total. Somente gelo e neve, a mais pura desolação. O homem misterioso não tinha ideia de onde estava ou mesmo de quem era, mas também não fazia perguntas. Ele não conseguia raciocinar, não conseguia unir palavras em sua mente para formar nem mesmo uma simples frase. Seu cérebro tinha retornado a um estado primitivo completamente desprovido de pensamentos complexos.
Ele tinha só um desejo. Um instinto. Caminhar.
O andarilho solitário caminhou por longo período. Por uma duração que não dá para medir em minutos ou horas, anos ou séculos. De maneira semelhante, a distância também não podia ser definida por metros ou quilômetros. Akio não caminhou através do tempo e do espaço... Ele caminhou através do espírito e da mente.
Ele estava a procura de algo que nem mesmo sabia o que era. Precisava de alguma coisa que colocasse um fim no vazio que sentia dentro de si. O andarilho buscava um sentido, um significado para o que passou a chamar de vida. Depois de muito caminhar, ele recobrou o controle total do seu corpo e da sua mente. Agora, sabia o que desejava: respostas para suas perguntas.
Determinado, seguia em frente. Mesmo quando tudo parecia inútil, ele encontrava vontade em seu coração. Se o corpo pedia descanso, tirava forças de sua alma indomável. Mas a jornada não tinha fim e infelizmente o mesmo não podia ser dito de sua energia. Houve um momento derradeiro em que o pobre homem não mais aguentou. Ele fraquejou. Mais uma vez caído, tão cansado que estava quase morto, soltou uma grave exclamação.
— Por que está brincando comigo, Deus?
A resposta foi uma risada. Não era uma risada alta, humilhante ou muito alegre. Na verdade era discreta, contida e sem malícia alguma. Aquele som era emitido por um ser ancestral de grande sabedoria que apenas via graça na ignorância do pobre andarilho.
— Deus está muito longe daqui.
A voz vinha de todos os lugares e de lugar nenhum. Foi como ouvir o vento falar.
— Quem é você? – perguntou o homem perdido enquanto se levantava.
— Creio que a pergunta correta seria... quem é você?
— Eu sou... não sei. Você pode me dizer?
— Eu posso fazer muitas coisas... pois muitas coisas eu sei.
— Por favor, me diga!
Houve um silêncio longo e profundo. O viajante sabia que não estava apenas diante de uma voz misteriosa. Ele reconhecia que lidava com poderes muito maiores do que podia sequer imaginar.
— Pensas tu que a resposta lhe trará um grande alívio. Em verdade, isso ocorrerá. Mas antes sofrerás dores inimagináveis. Agonias que poucos mortais poderiam suportar.
O homem pensou a respeito. Acreditava nas previsões do ser enigmático, porém não poderia continuar existindo com o vazio esmagador que tinha dentro de seu coração.
— Eu quero... eu preciso saber!
— Se assim o queres... venha até mim.
— Até... você? Onde posso... te encontrar?
Novo período de silêncio. Alguns segundos depois da pergunta, a neve parou de cair. Até então havia uma espessa névoa de cristais de gelo cobrindo a visão dos arredores, mas quando ela parou, foi possível enxergar uma grande montanha a cerca de quinhentos metros de distância. Uma chamativa luz azul brilhava no pico mais alto.
— Encontre a mim. Encontre a si mesmo.
O corpo do andarilho encontrava-se cansado e machucado, mas seu ânimo ficou renovado. Saber que a jornada estava perto do fim lhe deu forças para prosseguir, então ele seguiu determinado até a montanha de picos gelados.
Jamais houve em toda a história uma escalada tão árdua como aquela. Cada um dos obstáculos era superado só com muita dificuldade. As mãos de Akio sangravam cada vez mais a medida que as feridas eram abertas pelas rochas ásperas que eram os únicos apoios disponíveis. Os músculos ardiam como se fossem tocados por fogo. A respiração tornava-se pesada por causa do ar rarefeito.
Horas, dias, meses, anos. Mais uma vez, nada disso importava. O homem seguiu escalando até os níveis mais altos da montanha, até que percebeu as pontas dos seus dedos ficando pretas. Era gangrena: seu corpo estava morrendo. Diante de tal perigo, existia apenas uma coisa a fazer: uma única alternativa óbvia e lógica.
Continuar.
Ele escalou até chegar no limite de sua determinação. E quando chegou neste limiar, o ultrapassou. Foi assim que o andarilho finalmente alcançou o seu objetivo final.
Já no topo da montanha, observou o dono daquela voz outrora misteriosa. Era um homem magro e alto, com longos cabelos brancos e uma barba lisa igualmente comprida que tinha a mesma cor. Ele usava uma túnica azul, simples, porém bonita, e tinha um par de olhos dourados que até então jamais tinham sido contemplados por um simples mortal.
— És tão digno quanto acreditei — enquanto falava de maneira calma e acolhedora, o velho ser se aproximou. Ficou em frente ao andarilho e o ajudou a se levantar – Erga-se, campeão.
O toque da poderosa entidade teve efeitos curativos imediatos. O viajante voltou ao seu estado pleno de saúde, suas feridas foram cicatrizadas e o ânimo retornou. Agora a extenuante jornada era apenas uma lembrança.
— Do que você... me chamou?
— Campeão, nobre guerreiro. És um campeão de Draganthur.
O andarilho desejava saber o motivo daquele título, porém uma pergunta ainda mais urgente surgiu.
— O que é Draganthur?
— Draganthur é a terra dos homens. Um lugar enfraquecido. Dividido. Ameaçado.
— Ameaçado?
— Precisamente.
— Ameaçado pelo que?
— Isso tu terás que descobrir por si mesmo.
Aquela resposta não agradou o andarilho, mas ele não teve coragem de questionar o ser místico. Percebendo que jamais arrancaria alguma resposta que o outro não estivesse disposto a dar, preferiu mudar de assunto.
— Quem é você?
Por alguns instantes, os profundos olhos dourados deixaram de encarar o jovem mortal. Perdendo-se no horizonte, aquele olhar sábio parecia procurar a melhor resposta.
— Muitos nomes tenho eu. Verdadeiro nenhum é. Alguns me chamam de vento. Outros me chamam de neve. Sou o guardião do tempo presente. O segundo de minha linhagem. Eu sou o Avatar da Sabedoria.
O andarilho estava atordoado. Cada uma das frases que tinha ouvido podia causar dezenas de perguntas. O que mais o surpreendeu foi a ideia de que poderiam existir outros seres como o que estava diante dele.
— Segundo... de sua linhagem?
— Sete somos nós: os avatares guardiões. Fomos criados para proteger a Terra.
— Proteger do que?
— Isso tu terás que descobrir por si mesmo.
Sem perceber, o forasteiro tinha praticamente repetido uma pergunta. Como resultado, recebeu a mesma resposta. Era evidente que o Avatar não estava disposto a revelar tudo que sabia.
— Quem sou eu?
— A última esperança de Draganthur.
— Eu perguntei quem sou eu.
— Um guerreiro. Um campeão.
Akio perdeu a paciência. Já não sofria com as recentes dores físicas e espirituais, mas ainda lembrava perfeitamente das inúmeras provações a que teve de se submeter para chegar aonde estava. Ele precisava de respostas concretas e sentia que não iria obtê-las sem mais esforço.
— Você está respondendo errado!
O semblante da criatura anciã ficou ligeiramente mais sério. Em seus olhos podia-se notar um leve toque de severidade. Não existia nenhuma menção de raiva, porém o forasteiro ficou intimidado.
— Estás fazendo as perguntas erradas.
Acalmando-se, o homem se obrigou a pensar com calma. Só então ele entendeu.
— Quem... quem eu fui?
Um leve sorriso surgiu nos cantos da boca do avatar.
— Akio era seu nome, se é isso que quer saber.
Akio. Assim que ouviu essa palavra, o andarilho solitário sentiu seu coração ficar mais leve e sua alma, menos negra. Ele tinha um nome. Uma identidade. Agora ele existia. Não se atreveu a perguntar mais nada sobre seu passado, pois sabia qual seria a resposta apenas olhando para o guardião: ele teria que descobrir sozinho.
— Você é poderoso. Muito poderoso.
— Precisamente.
— Por que precisa de mim?
Seria impossível ter certeza, mas Akio teve a impressão de que o olhar do guardião ficou levemente triste. Quase confirmando isso, flocos de neve voltaram a cair do céu naquele momento. Era um cenário melancólico e belo.
— Ser poderoso não é o bastante. Um Avatar protegendo o mundo é como um raio iluminando a noite: uma explosão repentina de luz que aparece e some logo em seguida. Por mais poderoso que um raio seja, ele não será capaz de aniquilar as sombras. Nem mesmo uma tempestade de raios poderia fazê-lo... As sombras logo retornam.
Nós não somos a solução. Vocês, humanos, são a solução. A alvorada radiante, o nascer de um novo dia.
Um longo período de silêncio se seguiu. Akio só falou depois de alguns segundos.
— Por que eu?
O Avatar voltou a sorrir. A ignorância dos mortais era de fato adorável.
— Os humanos são como flocos de neve. A composição dos flocos é a mesma, todos possuem uma natureza semelhante. Apesar disso, cada um tem uma forma geométrica única. Cada floco é especial. Iguais, porém diferentes, assim também são os homens. Nunca duvide do seu potencial. Nunca duvide do potencial daqueles que o cercam. Seu caminho não será solitário... Supondo que aceite segui-lo.
— O que eu devo fazer?
O avatar demorou tanto tempo para responder que Akio pensou ter dito algo ruim.
— Você deve decidir.
O espírito não disse coisa alguma, porém dirigiu seu olhar para a direita. Existia um enorme penhasco a poucos metros de distância, e Akio se dirigiu para lá. Do lugar indicado, era possível observar uma vista tão maravilhosa que nem mesmo o mais sublime artista poderia sequer sonhar com algo semelhante.
— Contemple, mortal, a ponte entre dois reinos. Nós estamos entre o céu e a terra. Daqui, podes ir para onde quiser.
Extasiado, o andarilho observou o que havia acima dele e também o que existia abaixo. E não apenas viu, mas também sentiu. Ele soube que no céu límpido e infinito sobre seu corpo havia a paz que tanto desejava. O esquecimento de todas as amarguras, o alívio de todas as dores. No reino do céu, ele poderia descansar. E como estava cansado!
Na terra, havia uma grande complexidade de forças se enfrentando, um frágil equilíbrio entre os opostos. Quente e frio. Masculino e feminino. Seco e molhado. E no centro de tudo isso... a luz contra as trevas.
A terra parecia ser um lugar imprevisível demais, arriscado demais. Lá estavam as grandes recompensas e igualmente as grandes tragédias. Mais importante ainda: lá estavam as respostas que Akio ainda desejava ardentemente. Ele lembrou do sentimento que teve quando descobriu seu verdadeiro nome. Queria sentir a mesma coisa novamente. Precisava conhecer a sua história. Assim que se deu conta disso... sua escolha ficou clara.
— Avatar da sabedoria... eu escolho o reino da terra. Sinto que esqueci algo muito importante naquele lugar.
— Se assim o queres, assim será. Irei te dar uma missão pelo bem da própria terra.
— Aceitarei o que quer que seja.
— Encontre o homem que vive nas sombras... Ele será seu mais valioso aliado. Encontre a raposa de olhos vermelhos... Ela será sua mais perigosa inimiga. Um grande mal dorme no abismo, não permita que ele desperte.
— Conforme escuto, assim farei.
Dizendo isso, Akio ajoelhou-se perante o honrado espírito. A criatura de olhos dourados também se abaixou e retirou um objeto de dentro de suas vestes. Era uma katana de cor branca ricamente adornada com detalhes prateados.
— O caminho que deves trilhar é repleto de tristezas, sofrimento e angústia. Mais do que forte, precisarás ser resistente. Mais do que violento, precisarás ser gentil. A trilha que deves seguir é árdua e impiedosa, porém seu coração não pode se endurecer. Tu não deves trilhar o caminho do orgulho. Tu não deves trilhar o caminho do ódio. Tu deves trilhar o caminho da piedade. Tu deves trilhar o caminho da verdade.
O avatar falou todas essas coisas enquanto olhava para a espada. Segurou a mão de Akio e fez ele segurar o cabo da katana.
— Caminho da verdade, eis aqui a sua arma.
Akio levantou-se e caminhou em direção ao desfiladeiro. Soube que escolhera da maneira correta, pois sentia duas coisas impossíveis de ignorar quando olhava para a terra. O primeiro sentimento era um amor inexplicável por aquele reino. O segundo era um ardente desejo por respostas a respeito do seu próprio passado. Olhou uma última vez para o reino do céu, sorriu de leve e disse para si mesmo: o céu pode esperar.
Jogou-se do penhasco. A queda livre fez seu coração entrar em pânico, por isso, gritando, ele despertou de seu sono inquieto. No mundo real, já estava de manhã. Todos os seus amigos subiram ao seu quarto – preocupados e ansiosos – para investigar a origem daquele grito assustador. Envergonhado, Akio explicou-se como pôde.
— Pessoal? Me perdoem, por favor. É que eu tive... tive um sonho muito estranho.
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