C.D.T. - O homem que vive nas sombras
14 Capítulo 14 - Uma noite memorável
A música de Sortudo envolveu as pessoas de uma maneira difícil de entender. Era como se aquele som crescente e harmonioso estivesse aflorando os melhores sentimentos que habitavam nos corações dos indivíduos. O ânimo dos presentes elevava-se junto com as notas alegres da melodia e como resultado disso, dali a pouco todos estavam sorrindo.
Dançando e divertindo as pessoas, o bardo movia-se com agilidade por entre as mesas do estabelecimento. Já Arthur foi direto ao encontro dos companheiros.
— Olá, bons amigos! Conforme foi prometido, cá estamos uma vez mais!
Ele sentou-se entre Akio e Ishida, que o cumprimentaram com animação. Selena estava tão feliz quanto os dois, porém recusou-se a demonstrar. Em tom de brincadeira, a moça reclamou do atraso dele e deu-lhe apenas um sorriso discreto.
Seguiu-se então uma calorosa conversa sobre a competição daquele dia. Os quatro debateram principalmente sobre suas respectivas lutas, sobre os inimigos que poderiam enfrentar na fase seguinte e também sobre os apostadores.
Sortudo tocou duas músicas enquanto esse debate acontecia. Depois disso, juntou-se ao demais e foi igualmente bem recebido pelos mesmos.
Bill aproximou-se do quinteto pouco tempo depois, carregando três canecas de cerveja em cada mão. Com um largo sorriso no rosto, entregou bebida para os convidados.
— Fico feliz que estejam todos vivos! Cada um de vocês superou grandes desafios para estar aqui, por isso nós devemos celebrar! Gostaria de dedicar um brinde a vocês: meus convidados de honra!
Eles brindaram todos juntos e beberam com grande satisfação. Ishida, Akio e Sortudo acharam aquele gosto um pouco forte, mas não ao ponto de ser incômodo. Arthur e Selena não tinham problema algum com isso e apreciaram bastante a cerveja.
— Agora, se me derem licença, tenho que servir os outros clientes – falou Bill – está tudo em ordem por aqui?
Foi Arthur quem deu a resposta.
— Tudo na mais perfeita ordem, Bill! Ainda mais agora que você nos trouxe esta deliciosa bebida.
O taberneiro gargalhou.
— Posso te garantir que esta é a melhor cerveja de Grandall! – E assim se despediu.
A conversa fluiu tranquila durante os vinte minutos seguintes. Longe do medo e dos perigos da batalha, as memórias da competição provocavam apenas gargalhadas. Bill visitava a mesa deles em intervalos regulares para reabastecer os copos com mais bebida e o clima permanecia ameno. Em dado momento, Sofia apareceu. Ela carregava um belo porco assado em uma bandeja prateada com frutas e vegetais em volta.
Se a bebida era deliciosa, não existiam adjetivos para descrever o sabor da comida. Sofia era sem dúvida uma excelente cozinheira. Ela sorriu quando observou a expressão de deleite dos convidados ao saborear a refeição.
— É a minha especialidade – falou a ruiva – espero que esteja do agrado de vocês.
Imediatamente os cinco amigos começaram a elogiar o talento culinário da moça de todas as maneiras possíveis. Ela se alegrou com os elogios e queria saber cada detalhe das narrativas que eles tinham para contar, porém naquele momento isso seria impossível. Havia pouco tempo e muito trabalho a fazer.
— Bom apetite para vocês! Desculpem-me se tenho que sair tão depressa, mais tarde poderemos conversar. Até lá!
As três horas seguintes foram gastas com comida, bebida, risadas e eventuais brigas, pois Selena e Arthur não conseguiam ficar muito tempo sem implicar um com o outro. Não era como se os dois se odiassem. Na verdade, era quase como se um estivesse apenas tentando chamar a atenção do outro.
Akio não desejava que aquela reunião chegasse ao fim, pois ele sempre carregava consigo uma estranha sensação de melancolia e um forte sentimento de vazio, algo que provavelmente era causado pelas lacunas em sua memória. Quando estava na companhia dos amigos, entretanto, permitia-se sorrir. Sentia que no final das contas, não estava tão sozinho. Por breves instantes, achou que nada poderia arruinar aquela noite tão agradável.
Obviamente, ele estava errado.
Pois o tempo foi passando. A escuridão da noite lá fora se tornava cada vez mais densa. A taberna, mais silenciosa. Pouco a pouco, alguns clientes voltavam para as suas casas e outros tantos subiam as escadas para ocupar um dos quartos disponíveis para os viajantes. Quando o relógio bateu meia noite não havia mais ninguém além deles no salão.
Bill e Sofia estavam terminando de organizar as coisas e preparavam-se para fechar a taberna, porém foram surpreendidos por um visitante inesperado.
Era Victor, o grande guerreiro que vencera a sétima luta.
Ele esperou na soleira da porta enquanto sua jovem irmã adentrou no recinto para falar com os cinco clientes. Ela olhava fixamente para Akio.
— Nós estivemos procurando você.
O grupo se entreolhou. Akio discretamente segurou o punho de sua katana. Arthur provavelmente se levantaria com as armas em punho para exigir explicações, mas Ishida colocou suas mãos sobre as dele e impediu que ele fizesse isso.
— O que vocês querem? – indagou Akio com um tom de voz calmo.
Seguiu-se um curto período de silêncio que pareceu durar uma eternidade. O vento gelado entrava pela porta enquanto o gigante negro continuava esperando de maneira paciente do lado de fora. A garota estava hesitante.
— Queremos a sua ajuda.
Ninguém esperava uma resposta como aquela. Seria difícil acreditar que a menina falava a verdade, porém o tom suplicante de sua voz não deixava dúvidas quanto a sua honestidade. Akio decidiu que valia a pena escutá-la.
— E como eu poderia ajudar?
— Sua espada. O que você disse sobre ela na arena... é verdade?
— Como assim?
— Você disse que ela pode cortar qualquer coisa que não seja viva.
Akio pensou um pouco.
— Não lembro se usei exatamente essas palavras, mas acredito que são verdadeiras.
O rosto da garota se iluminou.
— Por favor, corte o bracelete do meu irmão!
Akio não entendeu o sentido daquela frase.
— O que foi que você disse?
— O bracelete de metal não é uma arma. É uma espécie de algema, entende? E nós não temos a chave. Na verdade, o meu irmão esteve preso em...
— Pu Jao, o purgatório de aço. – completou Sortudo – Sim, nós sabemos.
A garota olhou para o músico por um longo período de tempo. Ficou a se perguntar como ele sabia aquilo até lembrar que as costas do seu irmão tinham sido expostas no fim da luta. Ela tremeu quando pensou nas cicatrizes de queimadura que formavam o símbolo da odiosa prisão.
— Se você sabe o que é Pu Jao, também deve saber que o meu irmão não merece ficar carregando uma bola de ferro por aí eternamente!
— Em verdade, suspeito que não. Porém não posso ter certeza, não é? Como saber se ele é digno de confiança?
A garota parecia não saber como responder a pergunta do bardo. Foi quando Bill aproximou-se do grupo e interviu em favor dela.
— Qual é o seu nome, criança?
— Diana. E eu não sou uma criança.
— Muito bem. Diana, conte sua história. Você não parece ser uma pessoa ruim. E diga ao seu irmão que ele pode entrar, está frio lá fora.
— Bill – falou Sofia – eu não sei se isso é uma boa ideia.
— Sofia, você não precisa ser tão cautelosa! Da mesma forma que nós ajudamos Akio, devemos também ajudar este homem.
Depois de pensar um pouco, a ruiva concordou. A menina negra chamou Victor para dentro do salão e ele ficou sentado no piso. Pouco depois ela encontrou uma cadeira para si mesma e lentamente começou sua narrativa.
— Foi a muito, muito tempo.
Eu era só um bebezinho quando tudo aconteceu. Minha mãe me contou a história. Ela vivia com meu pai e meus cinco irmãos na 11° Divisão da Nação Rubra do Leste. Era uma aldeia pequena, parecida com essa. Só que lá havia menos comércios e muito mais plantações. Minha família, assim como a maior parte dos moradores, era de agricultores.
A vida era calma, mas não boa. Na Nação Rubra a economia funciona de maneira diferente, sabe? Aqui vocês podem comprar e vender livremente seus produtos. Lá não. Lá, tudo que você produzir tem que ser entregue ao governo, e o governo distribui para as pessoas. Em teoria, não existe miséria. Na prática, todo mundo é miserável. Em teoria, tudo é de todos. Na prática, tudo é do governo. É claro que as pessoas não ficam felizes com isso. Algumas aldeias se rebelam, outras só aguentam.
— Deixa eu adivinhar. – falou Selena – Vocês se rebelaram.
— Sim, foi o que aconteceu. Meu pai era o líder da revolta, foi ele quem inspirou as pessoas a lutarem contra o Imperador Vermelho! O povo se armou com enxadas, foices e tudo mais que pudesse ser usado como arma e expulsou os regentes locais, parando de pagar impostos.
— Seu pai foi um homem corajoso. Às vezes a coragem tem um preço alto demais.
— É verdade, Sofia. Poucas semanas depois, chegou um destacamento do Exército Vermelho. Eles atacaram de noite, quando nós estávamos desprevenidos. Incendiaram algumas casas, mataram muitas pessoas e prenderam outras mais. A matança só parou quando eles encontraram o líder: meu pai.
Os invasores reuniram todo mundo na praça da aldeia para ver meu pai sendo enforcado. As pessoas queriam lutar, mas ninguém conseguia. Estavam com muito medo.
Quando meu pai estava prestes a ser assassinado, Victor avançou da multidão. Ele segurava uma enxada em cada mão e as usava para destruir os soldados inimigos! Aquele ato foi o estímulo que os moradores precisavam para se juntarem à batalha, e foi isso que eles fizeram. Segundos depois, o cenário era de guerra.
— Vocês venceram? – perguntou Arthur.
— Não, nós perdemos. Victor lutou com bravura e derrotou muitos adversários, só que os outros aldeões não eram fortes como ele. A maioria foi simplesmente massacrada.
Victor viu os irmãos morrerem e também muitos amigos. Isso mexeu com a mente dele. Depois de muita luta, foi finalmente imobilizado. O comandante chegou bem perto, olhou dentro dos seus olhos e perguntou:
Porque você se importa tanto com este homem?
Victor disse que o homem era pai dele. Sorrindo, o comandante fez outra pergunta.
Você estaria disposto a ser enforcado no lugar do seu pai?
Victor nem pensou. Gritou que sim, que estava disposto.
Então o nosso pai foi enforcado diante dos seus olhos e o comandante gargalhou enquanto dava a ordem final.
Esse é o destino dos rebeldes imundos que se posionam contra o Rei de Todos: a morte! Mas não é o seu destino, rapaz. Para ti, a morte seria somente um alívio. Assim sendo... você vai viver. Vai para um lugar onde poderá arrepender-se dos seus pecados para sempre: Pu Jao, o purgatório de aço!
E então ele foi preso. Mas não ficou lá para sempre como o comandante desejava.
Victor passou dois anos dividindo uma cela com três colegas. Durante o dia inteiro eles trabalhavam nas minas de carvão. Quando a noite caía, voltavam para a prisão escura.
— Ele fugiu depois dos dois anos? – era Ishida quem perguntava.
— Não. É impossível fugir de Pu Jao. A prisão é feita de ferro-negro, um material que é inquebrável.
— Nesse caso, o que aconteceu depois?
— Foi nas minas de carvão. Essa bola de ferro-negro que Victor usa no braço é uma algema destinada aos trabalhadores, entende? Ela serve para limitar os movimentos dos prisioneiros e assim tornar uma fuga impossível. Existem vários tamanhos, e a usada por Victor é a maior de todas.
No início ele não conseguia nem mesmo caminhar alguns passos com a bola, porém foi se adaptando. Sua força que já era grande ficou ainda maior, até que um dia ele encontrou energia o bastante para lutar. Cinco guardas foram mortos antes que ele fosse trancafiado na solitária.
— Solitária? – Akio não entendeu aquela expressão.
— É uma cela única em toda Pu Jao. Ela é negra, suja e minúscula, sem janelas e com apenas uma pequena abertura por onde a comida é entregue.
— E quanto tempo ele passou nesse lugar?
Akio esperou a resposta por um tempo considerável. Contar a história estava se tornando algo cada vez mais difícil para a menina.
— Oito anos.
Oito anos em completa escuridão. Dois mil novecentos e vinte dias sem qualquer contato com outro ser humano. Setenta mil e oitenta horas sem ter certeza se é dia ou se é noite. Sinceramente, eu acho impressionante que ele ainda consiga falar qualquer coisa. A mente de Victor já estava debilitada por causa dos traumas que tinha vivido. Depois disso, ficou arruinada.
— Ele é forte. – concluiu Sortudo – Vocês são fortes.
— Obrigada. – um tímido sorriso apareceu nos lábios da garota, mas desapareceu na mesma velocidade. Ela então continuou – Depois de oito anos de isolamento, o portão da cela finalmente foi aberto. Era chegada a hora da batalha das serpentes.
Ishida interrompeu a fala de Diana.
– É impressão minha ou eu sou o único que não entendeu o que isso quer dizer?
— Eu expliquei para os outros na arena quando você ainda estava desmaiado. – esclareceu Sortudo – A batalha das serpentes é a única maneira de sair de Pu Jao. A cada dez anos, os prisioneiros tem o direito de lutar entre si para decidir quem será libertado...
Diana estreitou os olhos ao encarar o músico. Ao que parecia, algo que ele tinha dito a ofendeu profundamente. Ela respondeu um pouco exaltada.
— Direito? Você chama isso de direito? Não é um direito! É uma obrigação! Você tem noção de quantas pessoas se rebelam todos os anos contra a tirania da Nação Rubra? Pu Jao recebe muito mais prisioneiros do que pode comportar, por isso a cada dez anos os detentos são obrigados a matarem uns aos outros!
— Por favor, me perdoe! Eu não conhecia a história completa, ainda bem que você esclareceu. Acredite em mim, eu falei isso por pura ignorância, não por maldade.
A garota se acalmou.
— Certo. Me perdoe também, acho que reagi um pouco mal. Agora, continuando...
Não preciso e não quero descrever o que aconteceu a partir daí. Victor usou a bola de metal que estava presa em seu braço durante todo esse tempo como arma e fez o que precisava fazer. Ele sobreviveu.
A lei ordena que o prisioneiro seja liberto, e de fato foi o que aconteceu. Porém os guardas recusaram-se a retirar a sua algema. Ao invés disso, queimaram as costas dele a fim marcá-lo para sempre como um traidor e o expulsaram com a bola de ferro ainda fixa em seu braço. Não deram comida. Não deram água. Deram apenas uma carta.
— Uma carta? – perguntou Sofia.
— Sim, uma carta. Não me perguntem como, mas Victor ainda lembrava o caminho de volta para casa. Ele chegou na nossa aldeia e foi reconhecido pela minha mãe. Entregou a carta para ela, e ela entregou para mim. Haviam somente duas coisas escritas.
A primeira era: vá até o 12° Distrito. Na Cidade da Ametista, procure pela oficina de Mestre Chang. Apenas ele possui a chave que pode soltar a sua algema, e está disposto a vende-la pela pechincha de mil moedas de ouro.
A segunda parte era mais curta, tratava-se apenas de um lembrete. Ele dizia...
— Você... – Era Victor quem interrompia, manifestando-se pela primeira vez – Você pode... sair... de Pu Jao... mas Pu Jao... nunca sai... de você.
Discretas lágrimas escorriam pelos olhos do grande homem. Sua irmã o abraçou de maneira carinhosa.
— Depois de alguns meses, minha mãe faleceu de doença. Mas ela morreu feliz, pois viveu tempo o suficiente para ver o filho de novo. Quando isso aconteceu, eu decidi que precisava ajudar Victor a retomar sua liberdade, então partimos em busca das mil moedas de ouro. Em nossas viagens até agora, juntamos seiscentas.
— Quer dizer que se vencerem esta edição do campeonato, vão conseguir as mil. – falou Bill.
— Sim! Só que Victor não quer lutar, nem eu quero que ele se arrisque! Nós temos que conseguir a chave, afinal é impossível cortar ferro-negro! A menos... a menos que a sua espada seja realmente uma arma mágica com poder de cortar qualquer coisa não-viva!
Todos olharam para Akio, esperando sua resposta.
— Eu... estou disposto a tentar.
— Por favor! – insistiu Diana.
— Certo, porém não podemos fazer isso aqui. Melhor ir para o lado de fora, não é?
Concordando, os demais puseram-se de pé. Em poucos instantes, já encontravam-se todos na fria e escura rua de terra, iluminada apenas pela pálida luz da lua e das estrelas.
Diana pediu para Victor levantar o bracelete e segurou seu outro braço para tentar acalmá-lo. Akio assumiu posição de batalha bem em frente ao gigante.
Começou a desembainhar sua espada, porém isso não trouxe boas consequências. A mente débil do homem negro interpretou aquilo como um sinal de agressão, por isso ele colocou-se em frente a sua irmã – para afastá-la do “perigo” – e segurou com firmeza sua corrente de ferro-negro, preparando-se para contra-atacar.
— Victor, não!
O comando da garota fez o guerreiro congelar. Ele continuava inqueto enquanto vigiava a espada de Akio, porém não iria atacar enquanto não houvesse outro movimento.
— Se eu puxar minha espada novamente, teremos que lutar um contra o outro. Isso não pode acontecer. Não aqui. É muito perigoso.
— O que faremos então? – a moça perguntou com uma voz desolada.
— Ele confia em você, certo? – a menina confirmou – se é assim, corte você mesma.
— Eu? Mas será que a espada funciona comigo também? Não quero machucar meu irmão!
Aquela pergunta fazia sentido. Akio nunca se perguntara se os poderes especias de sua katana continuavam funcionando com outra pessoa a empunhando.
O dilema poderia ter se estendido por um longo período, isso só não aconteceu por que Arthur ofereceu uma solução.
— Entregue a espada para Diana, Akio. Eu vou estender a palma da minha mão e ela deve tentar me cortar. Se o sangue escorrer, saberemos a resposta.
Com relutância, Akio obedeceu. Ele permitiu que a garota desembainhasse a sua espada, pois temia que Victor reagisse com agressão se ele mesmo fizesse isso. Diana segurou o punho da katana com as duas mãos. Seus joelhos estavam dobrados um pouco para dentro e as costas, curvadas. Ela nunca tinha segurado uma arma na vida.
— É pesada, né?
Acenando positivamente com a cabeça, Akio riu. Arthur estendeu a palma da mão.
— Lembre-se, jovem dama: passe a lâmina devagar. Não sabemos se corta ou não.
Ela confirmou. Lentamente, abaixou a espada e deixou que ela tocasse a pele de Arthur. Com cuidado semelhante, deslizou a arma na superfície viva, esperando pelo pior.
Felizmente, suas expectativas estavam erradas. Não houve sangue algum. Como último teste, Ishida esticou um pequeno pedaço de pano e pediu que ela golpeasse. Dessa vez, o tecido foi fatiado tão logo a espada o atingiu. Diana soltou uma exclamação.
— É impressionante! Onde você comprou essa coisa?
Akio pensou um pouco antes de responder.
— Eu não comprei, ela me foi dada. Por favor, não pergunte quem deu. É difícil demais explicar.
Apesar de achar a resposta estranha e insatisfatória, a menina não questionou. Ela pediu para Victor erguer o bracelete novamente – coisa que ele fez – e golpeou a pulseira de ferro-negro. Foi um golpe fraco que causou apenas um arranhão, mas esse resultado foi suficiente para alegrar o coração da garota.
— Não acredito, funciona mesmo! Eu consegui arranhar ferro-negro!
Akio sorriu. Parecia que tudo ia dar certo.
— Tente bater com mais força dessa vez.
Diana compreendeu. Ela pediu mais uma vez para Victor erguer seu bracelete e percebeu que dessa vez ele obedeceu com uma relutância maior. O gigante não entendia o porquê daquela agressão.
A lâmina zuniu e foi de encontro ao ferro-negro. Dessa vez o impacto provocou uma marca um pouco mais sólida, porém sem abalar a estrutura metálica. Houve um progresso muito sensível em relação ao golpe anterior. Victor se incomodou com aquilo.
— Tente erguer a espada um pouco mais acima da cabeça e usar a força do corpo inteiro quando deixar ela cair.
Diana prestou muita atenção nas orientações que Akio oferecia. Tentaria esforçar-se mais da próxima vez.
Victor só ergueu seu braço depois que a garota ordenou duas vezes. A paciência do grande guerreiro estava quase chegando ao fim.
Novo choque de metal contra metal. Seguindo os conselhos do dono da espada, Diana conseguiu um resultado muito melhor do que o último. Agora finalmente havia um sulco visível no bracelete, algo que podia ser chamado de corte. Mesmo assim, continuava preso de maneira segura.
Victor manifestou sua crescente indignação com um som estranho, algo parecido com a reclamação de uma criança que não fala muito bem. Balbuciou algumas palavras em seguida.
— Para. Bater. Victor.
A moça começava a ficar apreensiva. Sabia que tinha apenas mais uma chance. Prometeu para si mesma que não falharia dessa vez.
— Só mais um pouco, mano!
— Para. Bater. Victor.
— Vamos tirar esse peso daí! Lenvanta o braço, mano! Só mais uma vez!
De modo mais desconfiado do que nunca, o colosso ergueu seu braço. A garota se concentrou, respirou fundo, ergueu a espada e golpeou com toda a força que tinha em seu corpo pouco atlético.
Dessa vez a espada penetrou mais fundo na algema, porém o acessório era grosso demais. O golpe tinha sido muito fraco, por isso a lâmina ficou presa na estrutura de ferro-negro. Victor se assustou, soltou um berro e arrancou a arma de lá.
— Para! Bater! Victor!
Ele segurou a lâmina com as mãos nuas e não se feriu por causa diso. Arremessou a espada em uma diagonal para baixo – na direção do chão – de modo que ela pousou perto da perna esquerda de Akio. A arma mágina tocou na superfície da pele do seu dono.
E o cortou.
Somente Selena e Ishida perceberam o ocorrido. Os demais estavam distraídos demais com a repentina ameaça que Victor representava. O bracelete estava um pouco danificado, porém eles falharam em tirá-lo do lugar.
— Para! Bater! Victor! Para! Bater! Victor!
Agora o grande homem estava verdadeiramente irritado, mas não tinha a intenção de atacar. Ele encarou a sua irmã com ira no olhar, porém isso não a abalou mais do que o triste sentimento da derrota. Ela teve chance de salvar seu irmão e jogou fora. Não tinha sido forte o bastante. Jogou-se na direção dele e – chorando copiosamente – se desculpou. Mesmo sem entender o motivo daquilo, Victor abraçou de volta. E assim permaneceram.
Minutos depois, Diana resolveu ir embora com seu irmão. Ela agradeceu várias vezes a chance que lhe foi oferecia e obteve a promessa de que se qualquer um deles lutasse contra Victor na fase seguinte, tentariam remover o bracelete sem machucá-lo. Ela se despediu e tomou seu rumo, os outros voltaram para dentro. Selena e Ishida logo atrás.
— Selena – indagou o garoto – você viu o corte em Akio? Como explicar tal coisa?
— Só há uma explicação para isso, é claro. – concluiu por fim – Akio não está vivo.
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