C a r o l i n a
1 O alvorecer perfeito.
O alvorecer iniciou-se demasiadamente belo. A luz dourada do Sol banhava majestosamente as copas das árvores, os altos das colinas e montanhas; os pássaros cantavam amigavelmente, e com aquelas pequenas beldades da natureza, o dia tornou-se perfeito...
Carolina achara o dia tão perfeito, que não havia motivos para ir de carro até o colégio. Queria apreciar a vista, olhar os arredores, sentir o vento bater em seu rosto. Perto das sete horas da manhã, a jovem despediu-se de seu pai com um abraço apertado e em sua mãe depositou um beijo na bochecha.
O dia estava caloroso, então Carolina retirou o seu cardigã, afinal não combinava com sua saia azul marinha da farda escolar. Perto de sua casa, a jovem olhou-se num espelho de uma loja de cosméticos. Não era lá uma das mais belas mulheres, mas tinha sua beleza. Seu cabelo castanho era acima dos ombros, seus olhos eram azuis como de sua mãe; tinha a pele extremamente branca apesar das diversas vezes que esteve na praia em suas férias escolares; não era tão alta, mas o calçado a deixava passar de um metro e cinquenta e quatro.
No reflexo do espelho, Carolina observou um homem a olhando, ficou sem jeito e se retirou da loja em passos largos. Vez ou outra olhava para trás por cima do ombro, e o homem estava a seguir. Seu coração acelerou, ela deveria pedir para ele parar de segui-la? Ou ele coincidentemente estava pegando o mesmo caminho que ela? A jovem olhou novamente para trás e ele não estava mais lá. Ela parou no meio da calçada e observou, olhou para todos os lados e ele havia desaparecido.
Seu coração tornou a bater normalmente; soltou um suspiro de alivio e continuou seu caminho. Faltavam apenas duas ruas para chegar até o seu colégio, estava demasiadamente animada para encontrar suas amigas e contar sobre o fim de semana na casa de campo de seus avós. Carolina virou a esquerda em um beco, ele estava quieto e vazio, como sempre. Seu pai costumava a levar por esse caminho até o colégio, era mais rápido e mais fácil. Enquanto caminhava silenciosamente, Carolina ouvirá um baque surdo, pulou no mesmo instante e seu coração quase saiu pela boca. Virou para trás, mas não virá ninguém; quando olhou para o chão, viu um pequeno gatinho, aparentemente ele havia derrubado as caixas. O gato seguiu até a garota e ficou passando dentre suas pernas para que a mesma fizesse carinho nele.
— Quase me matou de susto, gatinho! — Ela disse, sorrindo. Olhou para o relógio em seu pulso e faltavam poucos minutos para o portão se fechar. — Preciso ir.
A jovem sorriu e parou de amansar o gatinho, quando se virou, deparou-se com o mesmo cara de antes. A jovem tomou um demasiado susto e deu um pulo para trás.
— Posso ajudar? — Ela indagou.
— Você é muito bonita. — O homem disse. Carolina não conseguia ver seu rosto, pois o capuz não deixava.
— Muito obrigada, mas eu preciso ir, estou atrasada para o colégio.
Quando Carolina começou a andar, o homem entrou em seu caminho. Seu coração batia demasiadamente rápido, estava com um tremendo medo. Deveria ela ter ido até o colégio com seu pai? Se não tivesse brincado com aquele gatinho já teria chegado ao colégio.
— Me deixe ir, por favor. — Ela disse com voz de choro, mas o homem não cedeu. — Por favor, moço, deixe-me ir.
Carolina implorou, mas o homem sequer a ouvia. Ficava a observando de baixo a cima, como se a jovem fosse à deusa da beleza Afrodite. Carolina fez menção de seguir seu caminho novamente, mas o homem lhe apontou uma faca.
— Calada. — Ele aproximou a faca perto de seu pescoço. — Quero que fique bem quietinha, se gritar você morre!
Lagrimas começaram a rolar no rosto de Carolina. O que ele faria com ela? Queria assalta-la? Mas ela não tinha nada de valor consigo além do relógio de ouro que fora de seus antepassados.
— Você quer dinheiro? — Ela perguntou. — Olha, eu não tenho dinheiro, mas se você quiser eu posso ir até minha casa e...
— Eu já mandei você ficar calada! — Ele gritou e Carolina deu um pulo. — Jogue a mochila no chão. — Carolina obedeceu e jogou sua bolsa escolar no chão. — Agora se deite! — A jovem não entendeu o comando, mas viu que ele aproximava a faca de sua garganta e logo se deitou no chão. Era duro, frio e sujo. Carolina chorava por demais. O homem impiedoso ajoelhou-se, abriu o zíper de sua calça e a retirou. Carolina sabia do que se tratava.
— Se gritar, você morre!
{...}
Passava-se das oito horas da noite, a televisão estava ligada no jornal local. Jonathan e Meredith estavam desesperados a procura da filha Carolina. Ligaram para o colégio, que os informou que a jovem sequer entrara no colégio. Ligaram para os parentes, mas nada da garota.
— Não a vi. — Novamente a mesma resposta, mas de uma amiga diferente de sua filha. — Desculpe senhor Mendes. Se eu tiver notícias eu lhe informo.
— Muito obrigado. — O homem respondeu.
Estava desesperadíssimo. Ele deveria ter levado Carolina até o colégio; mas era um dia tão belo que deixou que a filha fosse andando. Ela estaria no shopping com algum namorado? Se ela estivesse viva, prometera não brigar com ela. O homem ouviu batidas a porta e correu para atende-la. Deparou-se com dois policiais; um deles estava totalmente perturbado, e sequer conseguia olhar para o rosto de Jonathan.
— Nós encontramos sua filha. — O policial informou.
— Ela está bem? — Jonathan abriu um sorriso.
— Sinto muito, senhor. — O outro policial se pronunciou.
Jonathan sentiu lágrimas escorrerem em seu rosto. Seu coração apertou-se. Era culpa dele... Somente sua culpa. Não havia levado a filha para o colégio, não deveria ter cedido.
— Como? — Meredith se aproximou. Em seu rosto não havia expressão alguma, mas sua fala estava rouca, a pergunta saíra como um sussurro.
— Um corte na garganta e... Havia sinais de abuso sexual.
Meredith chorou. Jonathan chorou. Jamais veriam a bela Carolina novamente. Nunca mais ouviriam sua voz, nunca mais a veriam dançar ballet ou tocar piano.
{...}
O alvorecer iniciou-se demasiadamente belo. A luz dourada do Sol banhava majestosamente as copas das árvores, os altos das colinas e montanhas; os pássaros cantavam amigavelmente, e com aquelas pequenas beldades da natureza, o dia tornou-se perfeito...
Carolina não estava lá para apreciar o dia perfeito, mas Jéssica estava. Queria apreciar a vista, olhar os arredores, sentir o vento bater em seu rosto. Perto das sete horas da manhã, a mulher despediu-se de seu marido com um beijo carinhoso nos lábios e um abraço apertado em seu filho de apenas dois anos.
E o final todos nós sabemos.
Notas finais
Sempre que rola caso de abuso sexual, eu vejo gentinha comentando "se estivesse em casa não teria acontecido isso", "se estivesse usando roupa comportada não teria acontecido isso", "se não fosse oferecida não teria acontecido isso".
Usei como base uma história verídica de que uma menina de aproximadamente 15/16 anos foi estuprada enquanto ia para a escola. Agora me diga, o que estava errado nesta história? A garota se ofereceu? A garota estava com vestimentas inadequadas? Não deveria ir para o colégio?
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