Círculo de Fogo
25 Capítulo 24
Notas iniciais
Capítulo 24
Era uma noite quente do mês de Junho. O bando da ceifadora estava se organizando para o grande confronto, arrumando equipamentos, armas e suprimentos. Kisuke Urahara os estava ajudando, o que, realmente, facilitava bastante, visto que o loiro possuía muitos contatos.
Eles já estavam prontos para traçar uma estratégia. Só estavam esperando Rukia voltar. Conheciam-na bem para saber que ela escolheria seu irmão antes de qualquer coisa. Mesmo sabendo que faltava apenas alguns dias para que a decisão de Rukia fosse concretizada, a semana parecia se arrastar de tão lenta que passava.
Depois de um dia exaustivo — cheio de treinamentos —, grande parte deles foram se divertir em algum canto. Com exceção de Nelliel, que preferia sempre ficar em casa descansando enquanto lia algo. Antes de sair, Kaien perguntara se ela gostaria de ir com ele.
— Você tem certeza? — insistiu, quando ouviu uma recusa educada. — Você quase não sai. Deveria se divertir um pouco mais!
Os dois estavam no discreto estábulo. Nelliel estava alimentando um dos cavalos quando Kaien chegou. Ela gostava muito de animais e por isso não se importava de passar a maior parte do tempo com eles — tarefa que, ocasionalmente, dividia com Kaien.
Quando abriu a boca para dar outra resposta negativa, viu Grimmjow passar sem camisa e sentar em uma das enormes rochas que davam visão para uma maravilhosa paisagem noturna. Não pôde evitar que um suspiro escapasse de seus lábios. Kaien olhou na mesma direção que Nell e depois voltou a fitá-la com uma expressão desgostosa.
— E então? Você vai vir ou não? — sibilou em um tom rude, lembrando-a que ainda estava ali e esperava uma resposta.
— Não. Vou ficar — respondeu sem olhá-lo nos olhos.
— Ficará tudo bem? — voltou a perguntar, realmente preocupado enquanto seu olhar alternava entre Nelliel e Grimmjow.
— Sim. Por quê? — resmungou, tentando disfarçar sua pequena distração com o outro homem.
O rapaz se limitou a revirar os olhos. Ela realmente achava que ele não tinha percebido sua paixão por Grimmjow? Tsc. Estúpida!
— Okay, estou indo. Se cuida! — disse, pegando um dos cavalos e saindo em seguida.
Nelliel ficou parada ali, sem saber o que fazer. Estava sozinha em casa com Grimmjow pela primeira vez desde muito tempo. Aquela não seria a chance perfeita? Era. Afinal, Ulquiorra tinha razão. Se ela o queria, teria que lutar por ele ao invés de esperar que as coisas simplesmente acontecessem do nada.
Apesar de estar determinada a fazer sua relação com Grimmjow mudar, avançar, não fazia ideia do que fazer ou falar. Era totalmente inexperiente com o sexo masculino, sequer havia dado uns beijos mais desprovidos-de-vergonha com alguém. Apertou os lábios, confusa.
Chegou a conclusão que deveria apenas ser sincera. Isso bastaria... Certo? Saiu do estábulo em passos leves, indo na direção de Grimmjow. Observou cada detalhe do torso nu e masculino enquanto se aproximava.
Os músculos fortes de suas costas estavam tensos, enquanto seus braços tonificados descansavam ao lado de seu corpo esguio. O vento noturno batia levemente em seus cabelos azuis, deixando-o irresistível.
Mordeu o lábio inferior com mais força que o necessário, totalmente nervosa. Atreveu-se a se aproximar um pouco mais e quando ia dar mais um passo, ouviu Grimmjow dizer:
— Você realmente nunca sai?
— Por que vocês ficam me dizendo isso? — murmurou, fechando a cara.
— Porque é verdade — disse, sem se virar para olhá-la.
Nelliel se sentou ao seu lado, a uma distância razoavelmente curta comparado ao de costume. Juntou os joelhos ao busto, os abraçando em um gesto infantil. Ficou com os olhos fixos na paisagem, ouvindo um ou dois uivos de alguns coiotes, o silêncio reinando entre os dois. E para surpresa da moça, foi Grimmjow que o quebrou.
— Você quer dizer alguma coisa?
— Por que a pergunta? — disse, aflita. Ainda não estava pronta para dizer. Ainda não...
— Parece tensa — simplesmente respondeu, voltando seus olhos azuis pela primeira vez para ela desde que aquela conversa começara.
— Bem... — hesitou. — Na verdade, eu gostaria de falar algo, mas não sei se vou conseguir — terminou, o encarando de volta.
— Apenas fale logo! — resmungou, com seu habitual tom impaciente.
— Eu...
— Se for o que estou pensando, não diga — interrompeu.
— E como diabos eu vou saber o que você está pensando? — indagou igualmente impaciente, levantando-se de maneira atroz em seguida. — Não há como eu saber! E se for o mesmo que estou pensando, por que não deveria dizer? É errado?
Grimmjow se levantou, ficando de frente para ela.
— Vai dizer que está apaixonada por mim, não é? — foi direto ao ponto e viu sua pergunta ser respondida quando o rosto de Nelliel se preencheu de vermelho. — É exatamente isso que você iria dizer.
— Era! — afirmou, tomando coragem. — E qual é o maldito problema com isso? Eu estou fazendo algo de errado?!
— O problema não é exatamente esse! — sibilou, tentando se manter calmo. — Não é errado. O problema é que...
— Qual é a maldição do problema? Apenas fale logo! — berrou, visivelmente irritada.
— O problema é que você é gostosa, é atraente e eu te levaria para cama quantas vezes eu quisesse — declarou, e Nelliel se encolheu chocada com a revelação repentina. — Só que você está apaixonada! E vai querer mais do que eu posso te dar. Não sou um cara carinhoso e muito menos romântico e sei que você quer tudo isso! — deu uma pausa e respirou fundo antes de continuar: — Eu não sou o cara certo para isso.
— Por que raios eu me apaixonei por você? Praticamente crescemos juntos e sei que você é um cafajeste safado, sem vergonha e que não presta! — grunhiu, fuzilando-o com o olhar. — E você tem toda a razão! Eu iria querer mais do que trepar! E você não pode e nem conseguiria me dar mais do que isso! Eu só posso ter problemas! — declarou, dando meia volta seguindo com passos pesados para a casa.
Com o ego ferido, Grimmjow marchou atrás dela.
— O que você quer dizer com “e nem conseguiria”? — resmungou, pegando-a pelo braço e a fazendo se voltar para si.
— Que maldição! Por que está tão bravo? Você mesmo acabou de dizer “eu não sou o cara certo” — disse, imitando-o. Seus olhos queimando de raiva por aquela situação. — Apenas me deixe! Esqueça essa merda e finja que isso não aconteceu!
Ela tentou puxar o braço de volta, com raiva. Estava se sentindo tão estúpida. Como ela tinha acreditado que aquilo poderia dar certo? Ambos tinham razão, Grimmjow estava longe de ser um bom cara para se apaixonar e como Nelliel crescera juntamente com ele, sabia exatamente o tipo de homem que ele era, um cafajeste de primeira. E lá estava ela, em uma situação constrangedora. E mesmo colocando toda a sua força, ele não a soltava.
— Me solta seu filho da puta! Está me machucando!
— É? — sibilou, os olhos sedentos. O ego ferido. E vendo Nelliel daquela forma, percebeu que ela nunca esteve tão atraente, tão selvagem. — E vou machucar ainda mais.
— O que você vai...
Foi interrompida pelos lábios ásperos de Grimmjow, que pressionavam os seus com tanta força, que os sentiu dormentes. Resistiu no começo, tentando afastá-lo sem sucesso algum, pois ele não moveu um músculo sequer. Quando a língua masculina forçou entrada em sua boca, soltou um gemido de protesto e se certificou de enfiar as unhas com força nos braços fortes dele para ver se ele a soltava. Mas ao invés disso, Grimmjow a apertou com mais força e a segurou pela nuca.
E ela não conseguiu mais resistir. Deixou-se ser beijada como nunca fora em toda a sua vida. De uma forma nenhum pouco delicada, mas selvagem, os lábios dele cobrindo os seus sem nenhum pudor, quase com luxúria. Os dedos dele enterrados em seu cabelo enquanto sua língua procurava pela dela, sedenta.
Nelliel estava tão desnorteada. Não sabia como reagir ou o que fazer. Tentou acompanhar seu ritmo frenético e pôde senti-lo sorrir entre seus lábios. Sentiu-o subir a mão por debaixo de sua blusa, apalpando a carne de sua barriga esbelta.
Ele continuou seu caminho e quando ia tocar seu seio, ela finalmente se deu conta do que estava acontecendo.
Empurrou-o com toda sua força e puxou todo o ar que conseguiu. Estava ofegante e seu coração batia com força. Sabia que seu rosto estava em chamas, sentia-o muito quente. Ele cambaleou para trás e soltou um sorriso convencido.
— O que foi Nelliel? Não era isso que você queria?
— Não, seu estúpido! — gritou, envergonhada e um pouco magoada. Porque mesmo que o beijo tivesse sido bom, ela se sentiu usada — Não é porque estou apaixonada por alguém como você, que isso te faz ter o direito de me agarrar! Eu não sou um objeto que você pode simplesmente pegar e usar quando tiver vontade! — disse, apertando as mãos com força. — Eu não sou uma substituta!
Antes de correr para o estábulo, Nelliel teve a chance de ver a expressão surpresa de Grimmjow. Ela pegou o cavalo e foi para o lugar mais distante que conseguiu. Estava tão atordoada! E, ainda assim... Ainda assim não pôde evitar que um sorriso surgisse em seus lábios inchados pelo recente beijo.
Porque, por mais que Grimmjow fosse um cafajeste, ainda o amava.
I&R
— Centro do Arizona —
Não passava das seis da manhã quando Byakuya acordou. Era um hábito que ele adquirira com o tempo. Levantou da cama de casal e se espreguiçou com vontade. Olhou para fora da janela e viu que o sol ainda não tinha começado a nascer.
Dirigiu-se ao lavabo e se lavou o rosto rapidamente. Ainda era cedo para ir trabalhar, mas ele gostava de chegar cedo, porque ali era o lugar em que poderia ficar em paz. Ele não tinha problemas com lembranças, tanto que ainda morava na mesma casa que seus pais haviam sido assassinados.
No caminho de volta para o quarto, olhou para a mancha de sangue no assoalho que permanecia intacta apesar do tempo. Como sempre, simplesmente a ignorou e entrou no quarto. Começou com o ritual de sempre, vestindo cada peça de roupa tranquilamente, depois penteou os cabelos longos e o prendeu como normalmente fazia.
Enquanto descia as escadas para tomar o desjejum, podia ouvir claramente os passos apressados dos empregados da casa, indo de um lado para outro. Parou ao pé da escada e observou como a casa estava barulhenta. Soltou um suspiro resignado e foi para a mesa, onde um banquete o esperava. Os serviçais se dispersaram silenciosamente, conheciam bem seu patrão.
Enquanto comia, sua mente trabalhava em uma forma de colocar seus planos em prática. Há um mês e meio sua mente não descansava. Há um mês e meio o sorriso que Rukia lhe dera não saia de sua mente. Foram tantos anos sem ver Rukia pessoalmente e quando a viu, demorou para a ficha cair que era realmente ela.
Durante anos se perguntou do por que ela ir embora e nunca mais retornar ou, ao menos, dar notícias. Tudo que restou de Lúccia — agora Rukia por um motivo que ele desconhecia —, fora uma carta e lembranças de um tempo distante que na verdade nem parecia que tinha ocorrido. Por muito tempo acreditou que ela estaria em algum lugar, sofrendo sozinha e abandonada.
Até os cartazes começarem a aparecer. Os cartazes com o rosto de sua irmã. Byakuya não conseguia compreender as atitudes de Rukia. Por que ela estava fazendo aquilo? E aquelas palavras da carta? Eram palavras vazias? Por que diabos ela estava sendo tão má?
Nada e ninguém faria Byakuya pensar diferente. Tudo que estava sendo mostrado era que Rukia tinha se tornado uma criminosa perigosa.
Ele fora criado pelo padre Ryūken desde que seus pais morreram. Todos os parentes mais próximos moravam na Europa e o pequeno Kuchiki se recusou a partir do continente americano. O padre o criou como se fosse seu próprio filho. Recebia uma educação rígida e, por isso, estava sempre se esforçando. Com o tempo, Byakuya se tornou uma criança solitária, ele afastara de si todas as pessoas, porque odiava os ver o encarando com pena.
E mesmo Ichigo sendo seu amigo mais próximo, ele ainda era distante.
O Kuchiki nunca odiou sua irmã, até o momento em que ela começou a ser acusada de assassinar pessoas inocentes. Mesmo que o padre tenha falado por muito tempo que Rukia seria incapaz de tirar a vida de um inocente, o rapaz fora incapaz de acreditar nisso. E achava tão estranho como o padre se referia a sua irmã.
Como se soubesse de um segredo. Algo que ele não sabia.
Foi tirado de seus devaneios quando se deu conta que tinha acabado de tomar a xícara de café. Levantou-se da mesa e, sem dizer uma palavra para a serviçal que o esperava na porta com seu chapéu e arma, foi para a delegacia. Enquanto cavalgava pelas ruas ainda vazias, não pôde evitar que sua mente resgatasse a memória de Rukia depois que a reencontrou.
“— Você cresceu irmão — ela murmurou quando levantou os olhos para ele.”
Como ele poderia esquecer aquela expressão tão genuína? Não apenas os lábios sorriam, seus olhos azuis também.
Durante o tempo que ela estava em confinamento, desatou a procurar respostas por aquele estranho comportamento do governador ao hesitar em executar a ceifadora. Não gostava daquele homem e nem de seu xerife, o tal de Kenpachi. Os dois eram estranhos demais.
Byakuya desconfiava que os dois e mais alguns xerifes e políticos estavam ligados a um grave caso de corrupção. Ainda não tinha certeza, mas arrumaria um jeito de ter e de provar. Tinha até cogitado a hipótese de Rukia estar no meio, mas ainda não tinha conseguido ligá-la a nada.
Sua mente trabalhava depressa, mas, ainda assim, não notou quando acabou indo parar na modesta igreja do Arizona. Já fazia um tempo que não ia ali... Desceu do cavalo e o deixou preso. Quando empurrou a porta, viu que Ryūken estava sentado na primeira fileira. Não era uma surpresa que ele já estivesse acordado, afinal, o hábito de acordar cedo foi pego justamente dele.
— Sabia que viria, jovem Byakuya — declarou com sua voz grave e séria, ainda sem olhar para a porta. — Você se esqueceu desse velho lugar.
O Kuchiki andou até ele em silêncio, não ousando dizer nada. Há muito parara de acreditar em Deus. Parou de frente para o padre e observou como seu cabelo estava mais grisalho e suas feições mais cansadas. Antes que ele dissesse qualquer coisa, o senhor disse:
— O Senhor o trouxe até aqui. Você procura uma resposta, meu filho — afirmou com convicção. Byakuya continuou em silêncio, mesmo que estivesse surpreso com aquela afirmação. — E esta é muito simples: Não deixe sua irmã morrer.
Fale com o autor