Círculo de Fogo
22 Capítulo 21
Notas iniciais
Capítulo 21
Something Inside — Jonathan Rhys Meyers
167
Era uma noite especialmente fria. E coberta de pensamentos de todos os tipos. Naquele instante, Ichigo observava Rukia dormir calmamente ao seu lado. Ela parecia tão plena e feliz e isso o confortou tanto. E agora que ele entendia seus sentimentos, Rukia parecia mais bela do que nunca. Aos seus olhos, ela parecia perfeita.
Os olhos dela pareciam mais felinos e sedutores do que nunca, sua pele macia, seu corpo pequeno e quente. Porém, de todas essas coisas, a que ele mais adorava era o modo como seus lábios se curvavam quando ela sorria de modo irônico e suas sobrancelhas se arqueavam de forma perfeita.
Ele sorriu e se aconchegou ao lado dela, sentindo o cheiro bom da morena. Ichigo sabia que tinha que resolver muitas coisas. Ele era um homem bom e honesto e tinha plena consciência de que tinha que resolver as coisas com Orihime, não podia se casar com ela estando apaixonado por Rukia. Esperava que ela não demorasse tanto para aparecer para visitá-lo. Seria sincero com ela e rezava para que ela compreendesse de bom grado.
Seria fácil se essa fosse sua única preocupação.
O que tinha tirado o seu sono era o fato que Rukia seria executada.
O que ele poderia fazer para impedir tal fato? Duvidava que simplesmente fugir iria ajudar em algo e, além disso, ainda tinha dois problemas: Rukia fugiria com ele? Não sabia. E ele não queria se tornar um fugitivo.
Suspirou.
O melhor era dormir para descansar um pouco. Ele acabaria pensando em algo. Só teria que ser rápido.
I&R
— Centro do Arizona —
Era um dia especialmente movimentado para aquela época do mês. Por algum motivo, a maioria dos comerciantes decidiram fazer algo parecido com uma queima de estoque e, por conta disso, o povo estava doido. Orihime acabou fazendo o mesmo e decidiu vender todos os seus modelos antigos por um preço menor.
— Volte sempre — ela desejou para a cliente que tinha acabado de levar dois vestidos dos mais caros. — Ai, que cansaço! E olha o que o dia mal começou...
A ruiva sentou na sua mesa e voltou a costurar a barra de um vestido que tinha começado na noite anterior. Ela cantarolava distraidamente quando o sino acima da porta tocou, indicando que alguém havia entrado. Orihime levantou o olhar para a entrada enquanto começava a murmurar um cumprimento.
— Seja bem... Você! — gritou, levantando-se bruscamente da mesa.
— Eu? — o rapaz murmurou apontando para si mesmo enquanto um sorriso começava escapar de seus lábios.
— Sim! Você! — acusou de forma ameaçadora. — O que está fazendo aqui?
— É assim que você recebe um cliente? — Ulquiorra perguntou com as sobrancelhas arqueadas perfeitamente.
— Você não é meu cliente, senhor — sibilou, apertando os lábios com força. — A menos que queria comprar alguns vestidos bem, bem femininos.
E assim ele deixou um sorriso escapar.
— Você me pegou! — rendeu-se, levantando as mãos de forma dramática. — Como você descobriu?
“Seus olhos”, ela pensou e corou quase imediatamente ao se dar conta do que tinha pensado. Por isso, acabou dizendo:
— Não é como se tivesse muitos homens com o mesmo tipo físico que o seu.
— Hum... Então você andou reparando nisso, senhorita Orihime? — provocou-a, esperando que ela corasse.
Só que ela não o fez. Ele viu seus olhos mudando juntamente com sua expressão. Inoue o fitou de forma desafiadora, seus orbes cinzentos o fuzilando enquanto ela empinava o nariz de forma arrogante.
E lá estava: Orihime mudada de água para o vinho.
— Como se eu tivesse escolhido ser beijada e agarrada à força por um completo estranho pervertido e sem moral! — sibilou, olhando-o com raiva. — O que você está fazendo aqui?
— Bem... — começou, rondando a única mesa que o separava dela. — O que você faria se um fugitivo te encurralasse... Agora?
— Que maldição de pergunta é essa? — indagou sem se importar com o linguajar impróprio para uma dama. Vendo que ele ficara em silêncio, deu um passo para trás sentindo um arrepio percorrer toda sua espinha.
— Uma pergunta comum... — murmurou enquanto um sorriso malicioso brincava em seus lábios. — O que você faria? — perguntou novamente, atravessando o resto do espaço que os separava.
Orihime colocou a mão em seu peito para que não se aproximasse mais.
— Provavelmente daria uma bela surra no desgraçado — respondeu entre dentes, já sentindo a adrenalina tomar conta de todas as suas veias. — E não ouse se aproximar mais!
— E o que você vai fazer se eu não obedecer? — desafiou, segurando suavemente a mão dela que estava em seu peito.
— Eu vou bater em você.
— Você não deveria me avisar — alertou. — Assim eu vou estar preparado e não vai acertar um golpe sequer.
— Você duvida, senhor? — sibilou igualmente desafiadora.
— Certamente — respondeu com as sobrancelhas arqueadas —, minha senhora.
— Está pronto para se arrepender de tais palavras, senhor? — murmurou quase como um flerte.
— Creio que não.
Com a mão livre, Orihime cerrou o punho e avançou contra ele sem nenhum esforço. Pronto para aquilo, Ulquiorra segurou a mão dela soltando um sorriso vitorioso. Aproveitando-se do ego totalmente inflado do homem, a ruiva chutou com força a canela dele, que recuou um tanto surpreso para, depois, receber um tapa na cara bem forte. Tão forte que ele jurava que a marca da mão dela estaria em sua face pálida.
— Parece que ganhei, senhor — falou sem conseguir conter o sorriso vitorioso. — Agora vá embora! Que eu saiba, não temos nenhum negócio.
— Me surpreendeu. Admito que não estava preparado para essa. Você é mais esperta do que eu imaginei.
— Está me insultando no meu espaço, desgraçado? — perguntou retoricamente, já muito nervosa — Vá embora agora ou baterei em você novamente, maldito! — mandou com a face em chamas.
Orihime Inoue nunca imaginou que existiria alguém que pudesse irritá-la tanto como aquele homem. Céus! Como ele era prepotente e irritante! Só de olhar para a cara dele ela ficava com raiva. Mentira! Com raiva era pouco! Com ódio! Tinha algo que a fazia querer bater nele até o ponto que... Argh!
Ela o encarou, carrancuda.
— Você realmente não sabe quem eu sou, não é?
— Não sei e não me importo, senhor — respondeu com as mãos na cintura.
— Eu irei te dizer mulher. Eu sou Ulquiorra...
— Eu sei o seu nome. Você já me disse isso — interrompeu, revirando os olhos em seguida.
— Eu faço parte do bando da ceifadora — anunciou.
A face de Orihime se contorceu de surpresa. Meu Deus! Ela não tinha ligado os fatos! Está certo que sabia que um dos integrantes se chamava Ulquiorra, mas nunca tinha visto um retrato dele. E como ia imaginar que aquele Ulquiorra era esse que estava na sua frente?
— Parece que dessa vez eu ganhei, não é mesmo? — comentou, deliciado pela expressão da ruiva.
— O que você realmente quer de mim, senhor? — perguntou depois de se recuperar do choque da nova informação.
— Finalmente chegamos ao ponto que eu queria, minha senhora.
I&R
Já estava anoitecendo quando Ulquiorra voltou para a casa em que o bando estava escondido. Ele estava muito satisfeito com o que tinha conseguido. Tirando o tapa que tinha recebido, com muita força por sinal, porque estava ardendo até agora. Ele suspirou e limpou os pés antes de entrar.
Ulquiorra sentou em uma das cadeiras próximo à mesa. Ficou ali, apenas refletindo e descansando. Afinal, tinha saído cedo e fez o possível para que ninguém o reconhecesse. Suspirou mais uma vez, recordando-se das últimas palavras de Orihime.
“Deixe-me pensar um pouco sobre isso. Volte amanhã que te darei a reposta.”
— Ah, você chegou, Ulquiorra.
— Nell — murmurou, olhando na direção dela.
— Você conseguiu? — indagou, sentando na cadeira do outro lado.
— Claro. Quem você acha que eu sou? — murmurou em um tom convencido.
— Prefiro quando você é indiferente — apontou, olhando-o com uma pitada de irritação. — Você é irritante quando age desse modo. Muito irritante pra falar a verdade.
Ele apenas revirou os olhos e ignorou o que ela tinha dito.
— Só você que está aqui? — perguntou, e logo continuou quando a viu assentir: — Você deveria sair mais. Até o Kaien saí. Você é a única que sempre acaba ficando em casa sozinha.
— Eu prefiro ficar em casa. Não gosto de multidão — respondeu, desviando o olhar.
— Falácia? — ele perguntou retoricamente com as sobrancelhas arqueadas.
Ela assentiu encabulada.
— Você sabe que eu não ligo pra isso. Eu fico aqui porque eu quero, não sinta pena de mim por isso.
— E você deveria parar de mentir para si mesma — disse, olhando nos olhos dela. — A pior coisa que você pode fazer é isso. Se você não for lutar pelo que você realmente quer, então invista em outra coisa.
— Não sei do que está falando, Ulquiorra! — insistiu, sem querer ceder.
— Do Grimmjow é claro, sua fingida. Nunca vi alguém tão lerda como você! — disse já ficando irritado.
— Ei! — protestou.
— Que tristeza. Pelo amor de Deus, Nelliel! Olha só pra você. É jovem e bonita, muito bonita na verdade, e poderia seduzi-lo quando e como quisesse e ainda assim não o faz! E pior que isso, você não trepa com ninguém já que nunca sai daqui! — exclamou e em seguida ficou estupefato ao ver o rosto de Nell completamente vermelho. Absurdamente vermelho. — Meu Deus! Você é virgem!
— Cala a boca! — ela gritou completamente constrangida. — Não fale sobre isso com ninguém!
— Nelliel é virgem! Nelliel é virgem! — ele berrou, divertindo-se totalmente com aquilo.
— Ulqui estúpido! Idiota! — gritou, pulando por cima da mesa e agarrando o pescoço do rapaz e começou a balançá-lo com violência enquanto o mesmo se engasgava com o próprio riso.
— Ah! Eu não consigo parar de rir! — falou no meio das gargalhadas.
— Eu vou matar você! — gritou com a face em chamas de vergonha.
Ela o balançou tanto que os dois caíram no chão com tudo. O baque foi um pouco doloroso, mas não o suficiente para parar aquela situação. Nessa altura, Nell já estava em cima de Ulquiorra tentando estrangulá-lo, enquanto ele não conseguia respirar direito de tanto rir e por ela estar apertando seu pescoço.
— Mais que merda vocês estão fazendo? — Yoruichi perguntou em voz alta com uma expressão hilária.
— Ora, ora. Olhem isso, que diferente.
Ulquiorra e Nell pararam de se enroscar no chão e olharam para a porta o mesmo tempo.
— Urahara? — disseram em uníssono.
— Quanto tempo.
— O que está acontecendo aqui? — Renji apareceu de repente, podre de bêbado. — Nell e Ulquiorra se pegando no meio da sala? E Yoruichi e... — ele se aproximou exageradamente de Urahara parecendo não estar acreditando que era ele. — O trapaceiro do Urahara? Ham? Nossa! Eu devo estar muito bêbado mesmo.
E começou a rir sozinho no meio da sala. Os outros olharam para ele sem entender nada.
— Você precisa de ajuda, Renji — a morena decretou, vendo Renji se dobrar de tanto rir. — Você fumou alguma coisa?
— Yoruichi, por que você está verde? E Urahara, por que você está brilhando? — indagou berrando e com uma expressão totalmente incrédula. — Eu estou derretendo! E eu ainda não entendi porque a Nell está montada no Ulquiorra.
— Cara, ele está muito chapado. Acho que ele tomou absinto de novo — Nell murmurou, saindo de cima do amigo.
— É. Alguém vai ter que jogar um balde de água gelada nele e colocar ele para dormir — Ulquiorra disse, levantando do chão e tirando o pó da calça.
Todos olharam para Nell.
— Não olhem para mim. Eu definitivamente não vou fazer isso! — negou, balançando as mãos freneticamente.
E, exatamente nessa hora, Kaien chegou.
— Kaien... — Nell começou com um sorriso malicioso.
— Oh Deus, estou ferrado!
I&R
166
Ela estava ali parada já fazia um tempo. Tempo suficiente para o sol quente começar a fazer sua pele arder. Orihime sabia que já deveria ter seguido para a casa de confinamento faz tempo, mas ainda não tinha tomado coragem para isso. Cada vez que pensava que estava pronta, seus olhos começavam a lacrimejar.
A ruiva se lembrou das últimas palavras de Ulquiorra depois de ter aceitado entregar uma carta para Rukia.
“Quando você for lá, vai ter que estar preparada para o fim do seu relacionamento com o sub-xerife. Será o fim.”
Orihime engoliu o choro e respirou fundo, deu um passo na direção da casa e hesitou por um instante antes de continuar caminhando. A cada passo que dava, algo que Ulquiorra tinha dito voltava em sua mente.
“Você não sabe, mas o futuro do país está em suas mãos.”
Ela tremeu antes de dar o próximo passo.
“Eu vou estar aqui para curar seu coração partido, minha senhora... — murmurara enquanto se aproximava.
Ela estava tão abalada que não o afastou, apenas olhou para cima encarando os profundos olhos verdes. Ulquiorra sorriu e roubou o segundo beijo dela.”
A ruiva tocou os lábios levemente e soltou um suspiro resignado. Bastardo aproveitador!
Seus pensamentos foram interrompidos quando ela se deu conta que já estava de frente para a casa e, em seguida, pela voz de Rukia.
— Orihime?
Seria agora ou nunca.
Fale com o autor