Círculo de Fogo
21 Capítulo 20
Notas iniciais
Capítulo 20
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Silêncio. E mais nada.
O clima que se instalou no ambiente era tenso. Rukia soltou um suspiro desanimado enquanto sua preocupação ― a respeito do que Ichigo pensaria sobre ela depois de saber sobre seu passado ― crescia ainda mais. Ichigo não sabia como reagir, o que falar... Céus! Olha o que ela tinha passado! Agora ele estava se sentindo um lixo.
— Talvez eu deva sair por um momento — disse ela, já descendo do banco e indo na direção da porta sem dizer mais nenhuma palavra.
Ichigo não teve coragem de dizer mais nada. Pedir para que ela ficasse. As palavras simplesmente sumiram. Tudo que ele queria era proteger aquela garotinha que um dia fora Rukia — ou Lúccia? Queria abraçá-la e apertá-la fortemente entre seus braços e sussurrar um “vai ficar tudo bem, eu estou aqui”. Só que era tarde demais para isso. Aquela garotinha não existia mais.
E naquele momento ele estava mais arrependido do que nunca. Ele tinha a julgado tantas e tantas vezes sem saber a verdade sobre ela, apenas sabendo o que as pessoas falavam. E Rukia tinha sofrido tanto e ele tinha apenas piorado isso! E para piorar ela iria morrer.
A mulher que ele amava iria morrer!
E então, depois de tanto tempo, Ichigo chorou.
I&R
Rukia estava sentada em uma pedra próxima ao rio que corria atrás da casa. Ela olhava para aquele lugar se lembrando das coisas que Thomas a tinha forçado fazer. Jamais imaginaria que colocaria os pés novamente naquele lugar. E, por ironia do destino, lá estava ela novamente.
E mais ironia do que isso, era o fato da melhor e da pior coisa que aconteceram na vida dela, terem acontecido no mesmo lugar.
Rukia se deitou na areia e olhando para o céu azul de meio-dia, refletiu:
— Será que foi a coisa certa a fazer, pai? — murmurou, sentindo uma dor desconfortável no peito. — Eu sinto tanto a sua falta. Falta da mamãe — suspirou mais uma vez antes de continuar: — Por que é tão complicado amar? Quando eu observava vocês não parecia ser tão difícil... Era tanto carinho, tanta paixão.
Ela fechou os olhos e de repente as imagens vieram: Yoruichi, Grimmjow, Renji, Ulquiorra, Nell, Kaien e até mesmo o estúpido do Urahara. Todas as lembranças, os momentos que todos eles proporcionaram a ela, a forma que todos eles fizeram-na continuar acreditando.
Amava-os. De todo seu coração.
E estava sentindo falta de todos. Isso a fez pensar que amar não era complicado, amar Ichigo era complicado.
— Aqui não é o meu lugar. Eu não deveria estar aqui — sussurrou para si, sentindo as lágrimas querendo descer. Fungou impedido que as lágrimas caíssem e mordeu os lábios com mais força que o necessário. — Preciso ir embora. Hoje.
De repente, o sol que batia no rosto da morena foi barrado. Ela abriu os olhos e deu de cara com Ichigo que estava de pé próximo a ela. Rukia se sentou quase imediatamente, mirando os olhos de Ichigo que estavam mais profundos do que nunca e vermelhos. Ele tinha...?
— Ichigo... — levantou-se na hora com o intuito de consolá-lo. Levantou a mão na direção dele para tocá-lo no rosto, mas foi surpreendida quando ele segurou sua mão e em seguida a puxou para si. — O quê...
— Me desculpe. Não. Me perdoe Rukia. Eu não sei o que dizer — o ruivo murmurou baixinho, apertando-a tão forte entre seus braços que a levantava do chão. — Eu queria estar lá por você. Ter te ajudado e...
— Está tudo bem agora. Não tem porque se desculpar — sussurrou, sentindo a fragrância salgada que Ichigo exalava.
— Não. Eu devo e preciso me desculpar — insistiu, afundando o rosto entre os cabelos negros dela. — Eu te julguei tantas vezes de maneira errada e estou tão arrependido por isso. Então me perdoe, por favor.
Silêncio. Silêncio o suficiente para que ele notasse que Rukia estava chorando. E aquilo o fez se quebrar por dentro.
— Não chore, estou com você agora — disse suavemente, apertando-a ainda mais entre seus braços, tentando confortá-la.
Naquele instante, Rukia sentiu tudo aquilo que mais queria esquecer voltando. Toda a sua fragilidade exposta daquela forma e aquelas lágrimas tão carregadas de um fardo que não podia mais segurar sozinha. E ela se sentiu tão quebrada, como quando tinha treze anos. Só que dessa vez, alguém estava lá por ela.
E ela se deixou ser confortada.
Quando ela se acalmou, Ichigo desfez seu aperto em volta dela e a afastou um pouco. Rukia olhou para cima e encontrou o sorriso mais lindo que já vira. O ruivo enxugou o último resquício das lágrimas em seus olhos azuis e a beijou de forma suave.
— Está tudo bem agora. Vamos voltar pra lá, a sua comida está ótima — murmurou pertinho dela e, de repente, jogou-a por cima dos ombros, fazendo com que ela se assustasse e depois saiu correndo.
— Meu Deus! Me ponha no chão Ichigo! — exclamou no meio de uma gargalhada gostosa que apagava todo o clima anterior.
— Não vou te soltar até chegarmos. Estamos quase lá — continuou correndo com um sorriso. — E você é muito leve, quem olha nem pensa que você come como um dragão.
— Quem é o indelicado agora? — gritou sarcasticamente dando um murro no meio das costas dele.
— Ai! — resmungou. — Você é forte para o seu tamanho. Mas eu não estou mentindo sobre você comer como um bicho faminto. Estou? — alfinetou.
— Não — rendeu-se rapidamente sem discutir.
— Nossa. Tão fácil assim? Que raro!
— Cale a boca e corra mais rápido. Estou com fome — sibilou, fingindo estar emburrada.
— Okay madame. Já estamos chegando — respondeu.
“Eu realmente o amo. Amo-o muito. Mas o que eu sinto é impossível de ser concretizado. Eu devo ir embora antes que isso me machuque... Mais”, Rukia pensou, sentindo-se um pouco triste por causa disso.
— Pronto. Está entregue.
— Obrigada sub-xerife — alfinetou com seu tom sarcástico e riu divertida quando o viu apertar os olhos. — Vamos entrar antes que a comida esfrie — chamou passando por ele, mas não sem antes dar um belo tapa no traseiro do mesmo. — Vamos!
E o ruivo não pode evitar que um sorriso de satisfação surgisse em seus lábios. Sua Rukia tinha voltado. E, novamente, naquele momento, sua única preocupação era o que faria para mantê-la viva.
I&R
Depois de terem aproveitado o delicioso almoço feito por Rukia, os dois estavam deitados no meio do chão da sala. Ela estava deitada em um dos braços de Ichigo um tanto sonolenta. Ambos aproveitando o silêncio e curtindo a preguiça depois da refeição.
— Sabe, Rukia, eu me lembrei de uma coisa... — puxou o assunto com cordialidade.
— Do quê? — perguntou, abrindo os olhos e ficando interessada no assunto.
— Por mais estranho que isso vá parecer, antigamente eu brincava com o Byakuya. Quando meu pai ia trabalhar e me levava... É estranho lembrar disso... Ele era tão diferente de agora.
— É... — sussurrou, sentindo-se nostálgica.
— Mas não foi exatamente isso que eu lembrei...
“— Eu não estou entendendo o que você está falando. Acho que você está mentindo!
— Eu não estou mentindo, Ichigo! Eu estou falando sério! Eu tenho uma irmã e ela é muito bonita! — insistiu com um ar autoritário.
— Só acredito vendo! — Ichigo exclamou com uma expressão de quem realmente não acreditava em uma palavra de Byakuya.
— Então eu vou te mostrar. Vem comigo! — chamou, levantando-se e logo sendo seguido pelo ruivo.
Byakuya abriu a porta devagar e espiou para ver se sua mãe estava por perto. Quando viu que ninguém estava ali, entrou e fez um sinal para que o amigo fizesse o mesmo. Os dois foram de fininho na direção da escada e subiram discretamente. O Kuchiki levou Ichigo até a porta do quarto de Rukia que estava entreaberta.
— Olhe lá! — Byakuya sussurrou, enfiando a cara para dentro do quarto.
— Como ela é bonita! — Ichigo sussurrou de volta, fazendo o mesmo que o amigo.
— Não é? Agora acredita em mim?
— Sim. Mas por que ela fica aí? — perguntou com curiosidade, observando a garota que lia alguma coisa que parecia ser a Bíblia.
— Eu não sei. A mamãe disse que ela precisa ficar trancada porque é um demônio, mas eu não acho isso — comentou vendo a irmã sorrir com alguma coisa. — E eu a amo muito!
— É como um anjo — murmurou encantado.”
Rukia se apoiou no braço e encarou Ichigo que fez o mesmo.
— Não acredito! — exclamou, estupefata. — Você já me espiou com meu irmão?
— Colocado dessa maneira fica esquisito. Não foi bem assim, sabe? — retrucou um tanto constrangido.
— Você está vermelho! — acusou bem-humorada. — O que fez você se lembrar disso? — indagou, curiosa.
— Na verdade, a pergunta certa seria o porquê de eu ter esquecido. É impossível alguém esquecer teus olhos uma vez que já os viu, mas de algum modo, consegui — ele ficou surpreso ao perceber que tais palavras tinham saído em voz alta.
Rukia o olhou igualmente surpresa. Talvez, aquilo fosse a coisa mais bonita que Ichigo dissera para ela e, talvez, iria ser o máximo que conseguiria. Então ela sorriu.
— Você é um doce — murmurou com a voz pesada de sentimentos que era incapaz de confessar.
— Eu sei — respondeu com um sorriso convencido.
— Convencido! — sibilou, meneando a cabeça de modo negativo.
— E você gosta — resmungou de volta sem deixar de sorrir.
— Humph! — bufou, voltando a deitar nos braços de Ichigo que oferecia o conforto de um lar.
I&R
— Algum lugar do Arizona —
— O que você disse? — Nelliel gritou, levantando bruscamente da mesa e batendo as mãos na mesma.
— Fale mais baixo! — advertiu Yoruichi.
— Ninguém pode nos ouvir mesmo — respondeu, dando de ombros. — estamos no meio do nada! — disse, fazendo questão de enfatizar o “nada”.
Yoruichi revirou os olhos e se limitou a ficar em silêncio.
— Eu acho que deveríamos focar no assunto — Ulquiorra pronunciou com seu habitual tom indiferente. — Continue, Shinji — terminou, desviando o olhar para Grimmjow e Kaien que estava estranhamente quietos.
— Como eu estava dizendo, Yamamoto vai pôr em prática seu plano mais cedo do que o esperado. Ele vai matar Byakuya para pôr um dos seus, porque sabe que se for do modo honesto, Byakuya vai ganhar, não importa a circunstância.
— Mas ele não pode fazer isso! — Kaien exclamou exaltado, cerrando os punhos. — Ele prometeu para Rukia que não o machucaria se ela fizesse as coisas do jeito dele! Ele não pode fazer isso! — explodiu.
— Acalme-se, Kaien. Espera um pouco... — Yoruichi pediu, caminhando de um lado para outro e só parou quando Shinji voltou a falar.
— Eu falei para ela mais ou menos sobre isso e ela foi totalmente indiferente — anunciou sem o habitual bom humor. — Mas eu sei que foi porque ela acha que eu não sei que eles são irmãos. Imagino como ela reagiria se eu tivesse contado que Yamamoto me mandou matá-lo.
— Esse velho é um desgraçado! — vociferou Renji, que tinha permanecido em silêncio até aquele momento. — Ele está aproveitando que Rukia está presa naquela maldita casa para fazer essa sujeira. Se ela soubesse que isso irá acontecer antes dela sair do confinamento, tenho certeza que já estaria aqui faz tempo.
— Esperem. Tem algo faltando nessa história — Ulquiorra disse. — É certeza que ele vai tentar matar o Byakuya, porque vai ser “fácil” sem a Rukia por perto e não é como se fossemos interferir nisso de forma direta.
Todos ficaram em silêncio acompanhando o raciocínio de Ulquiorra.
— E ele ia precisar de um bode expiatório, que no caso seria Shinji, se as coisas tivessem ido como o planejado. Só que ele ainda não sabe dessa parte — Nelliel continuou.
— E então Rukia provavelmente tentaria matar Shinji... Só que a Rukia jamais acreditaria que Shinji teria coragem de matar Byakuya, mesmo que ele não soubesse o segredo, o que não é o caso — Kaien murmurou de forma pensativa. — E logo ela descobriria que foi Yamamoto que o assassinou e é óbvio que ela o caçaria até os confins do inferno!
— Mas quando isso acontecesse a conspiração já teria acontecido e...
— Ele se livraria de todos nós em um único golpe! — Yoruichi terminou o pensamento de Renji.
— Repugnante — Ulquiorra murmurou, demonstrando algo maior que indiferença.
Shinji se mantinha em silêncio observando como tudo aquilo se desenvolvia. Havia coisas que permaneciam confusas e, por mais que ele pensasse no assunto, não vinha nada à sua mente. O loiro fitou Grimmjow que, estranhamente, não tinha dito uma palavra sequer e parecia pensativo — o que era totalmente anormal vindo dele.
— Nós temos que avisar Rukia! — Nell apontou.
— Sim. Temos que arrumar um jeito de chegar à casa de confinamento sem que o sub-xerife nos note. Afinal, não queremos chamar atenção — Renji disse.
Nell olhou para Kaien que balançou a cabeça de forma negativa, como se dissesse “cale a boca, não fale nada sobre aquilo”.
— Acho que temos que trazê-la primeiro antes de falar sobre isso — a morena de olhos felinos opinou.
— Ela não virá — Shinji decretou. — Ela não virá se apenas pedirem...
— Eu sei que ela leva desafios a sério, mas se todos pedirmos ela voltará — insistiu Yoruichi.
— Não. Ela não virá sem um motivo mais forte do que saudade. Porque vai ser isso que ela vai achar. Ela está apaixonada!
E todos se calaram totalmente surpresos. Até mesmo Grimmjow o encarou de forma estupefata.
— Eu vi isso em seus olhos. E ele também está — o loiro terminou sem saber se tinha feito o certo.
— Tsc — Grimmjow levantou do chão e foi na direção da porta.
— Onde você está indo? — Nell perguntou sem conseguir esconder sua aflição.
— Vou buscar a Rukia, lógico. Agora — respondeu de costas para ela.
“Eu sou apaixonada por você Grimmjow”, ele se lembrou das palavras dela, tão fortes em sua mente, tão claras, tão doces e tão... Distantes. E isso o incomodou.
— Isso vai chamar muita atenção e não queremos isso — Ulquiorra alertou tranquilamente. — Acalme-se, Grimmjow. Eu tenho uma ideia melhor. Muito melhor
“Sabia que nos encontraríamos mais cedo do que imaginava, doce Orihime”, pensou com um sorriso que não passou despercebido por ninguém.
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