Círculo de Fogo
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Capítulo 12
“Como pode ser, gostar de alguém e esse tal alguém, não ser seu?”
182
Ichigo olhou para Rukia meio desconfiado. Captou um sorriso diferente vindo da morena e sentiu-se excluído de algo. “O que aqueles dois estavam fazendo ali?” O ruivo pensava. Afinal, o governador Yamamoto era uma pessoa muito importante e de grande influência, não o conhecia pessoalmente, mas falavam que ele era uma figura que intimidava apenas com sua presença, pois apesar de sua idade, era alto e musculoso. Uma vez o xerife Kuchiki comentou que ele era um homem digno de muito respeito. Havia também o xerife Zaraki, que assim como o governador, Ichigo não conhecia pessoalmente, mas já ouvira falar dele por muitas vezes, diziam que era um xerife assustador que fazia os criminosos tremerem diante de si com o olhar e ele lembrava a um pirata por causa do tapa-olho que — estranhamente — usava e ninguém sabia o por que. O xerife Kuchiki o classificara como “repugnante e desnecessariamente violento”, e pelo tom que usara, deu para perceber que havia algo errado.
E justamente pelos dois serem famosos, Ichigo não conseguia ver um motivo para que eles estivessem indo quase no fim do Arizona. Era certo que Rukia era uma criminosa muito conhecida, mas o suficiente para estarem ali? Muito esquisito.
Depois notaram um terceiro cavalo que vinha mais atrás em uma distância razoável. Ichigo apertou os olhos para tentar visualizar quem era sem sucesso. Rukia não precisou se esforçar para saber quem era, conheceria aquele cabelo loiro em qualquer lugar. Os dois ficaram em silêncio esperando os “convidados” chegarem. Não demorou mais que alguns segundos para alcançarem a escada. Kira segurou a rédea dos três cavalos e os guiou na direção do rio para que pudessem descansar.
— Governador Yamamoto, Xerife Zaraki. — Ichigo cumprimentou fazendo um aceno de leve com a cabeça.
— Olá sub-xerife Ichigo Kurosaki. — O governador cumprimentou de volta da mesma maneira e voltou a falar — Desculpe-nos pela visita repentina, — Rukia arqueou a sobrancelha ligeiramente e o xerife Zaraki segurou uma gargalhada — mas temos assuntos a tratar com a prisioneira. — Declarou de maneira séria.
— Certo senhor. — O Kurosaki respondeu mecanicamente ainda achando aquela aparição esquisita demais — Devo algemá-la para sua segurança? — Nesse momento Zaraki soltou sua típica risada de trovão.
— O que é isso garoto? — Quando ouviu a palavra “garoto”, o ruivo franziu as sobrancelhas em uma expressão claramente indignada — Até parece que essa nanica iria conseguir me derrubar.
Ichigo limitou-se a ficar em silêncio e assentir. Lembrava nitidamente de como subestimá-la tinha sido um erro. Kira já tinha voltado e estava parado ao lado do governador em silêncio. O ruivo abriu caminho para que eles passassem. Rukia seguiu para o quarto com eles em seu encalço e assim que o governador e o xerife entraram, Kira fechou a porta e ficou “de guarda” na frente dela.
Tinha recebido ordens de não deixar que o sub-xerife Kurosaki se aproximasse dali e que ouvisse qualquer coisa. O sub-xerife percebeu imediatamente que seria excluído daquela reunião de velhos amigos, pensou com sarcasmo. Respirou fundo e sentou no sofá tentando voltar a sua leitura, sentindo o olhar observador de Kira sobre si.
Assim que entraram no quarto, Rukia jogou-se na cama preguiçosamente, Kenpachi sentou em uma cadeira de balanço no canto do quarto e o governador manteve-se de pé próximo a porta.
— Eu sei que você está em boa forma para sua idade velho, mas não adianta ficar em pé porque não vai crescer mais. — O moreno falou com o típico sorriso de escárnio e o senhor estalou a língua ignorando-o e Rukia abriu um sorriso desdenhoso.
— O que houve de tão grave para que o grande governador Yamamoto descesse do pedestal e viesse até esse inferno? — Rukia indagou com a voz pesada de sarcasmo colocando os braços atrás da cabeça em uma posição mais confortável.
— Não use esse tom comigo mocinha. — Advertiu estreitando os olhos perigosamente e ela revirou os olhos — Parece bem confortável para a sua condição atual. — Comentou brevemente fugindo um pouco do assunto principal.
— Não é um hotel cinco estrelas, mas é habitável. — Respondeu indiferente — Só quero saber do porquê de me darem uma sentença de duzentos dias.
— Ah, não reclame coelhinha. — Kenpachi se manifestou puxando uma moeda do bolso e a girando entre os dedos — Achei que você se divertiria sobre a guarda do tão frio xerife Kuchiki e do falado sub-xerife Kurosaki.
Rukia ficou em silêncio apenas observando o quão estranho era aquela situação. Por mais que estivesse familiarizada com os dois, pressentia que algo não estava bem.
— Foi esse idiota, quem mais seria? De qualquer modo, estamos aqui justamente por isso. — A morena fixou seu olhar em Yamamoto esperando — Como você sabe, a época das eleições estão próximas e você sabe que é o tempo em que os recursos ficam mais escassos. — Rukia já sabia onde ele queria chegar.
— Não me enrole velho, já conheço esse discurso, apenas pule essa etapa em que eu terei que roubar um banco e matar outros políticos corruptos e alguns malfeitores. — Desdenhou com um olhar tedioso — Vá direto ao ponto.
— Como sempre impaciente digno de uma coelha. — Zaraki comentou.
— Iremos diminuir os dias que terá que ficar aqui. — O governador anunciou com o tom sério — Ainda demorará algumas semanas, porque ainda precisamos forjar sua cela para o transporte especial.
— Certo. E para quantos dias será diminuída? — Perguntou receosa.
— Não temos nada confirmado, mas tentaremos reduzir para o menor tempo possível. — Zaraki anunciou parecendo entediado — Afinal, o que seria os Estados Unidos da América sem a ceifadora? — Murmurou com um sorriso no mínimo suspeito.
— Sei... — A morena sibilou ainda desconfiada — E só vieram aqui para me dizer isso? — O velho bufou e revirou os olhos.
— Ele estava preocupado. — Kenpachi declarou e recebeu um olhar furioso do governador Yamamoto — O que foi? Estou mentindo? — Tendo o silêncio como resposta, continuou — Tava achando que iriam te espancar, apesar de eu ter garantido que isso n ao aconteceria a partir do momento que estivesse sobre os “cuidados” de Byakuya. — O moreno lhe lançou um olhar sugestivo que foi entendido pela morena. Afinal, ele era um dos que sabia de um pequeno detalhe sobre sua vida.
— Que fofo da sua parte vovô.* — Murmurou em um tom irônico — Como pode ver, estou em um ótimo estado. Porém, ficaria muito melhor se tivesse alguém para lavar minha roupa, porque porra, eu vou morrer daqui a uns cento e oitenta dias! — Exclamou atuando dramaticamente fazendo os dois homens rirem.
— Certo, vejo que está bem. Seu humor continua negro. E tudo bem, arrumarei uma lavadeira para salvar suas delicadas e mortais mãos.
Rukia sorriu ligeiramente.
— Por isso que eu gosto de você.
Poucos minutos depois, os dois foram embora junto com um Kira impaciente. Ichigo ficou em silêncio os observando partir de longe. Com uma única pergunta na cabeça:
O que diabos eles vieram fazer aqui?
O ruivo virou-se dando de cara com a morena. Sem conseguir conter toda sua curiosamente, perguntou.
— O que eles vieram fazer aqui? — Os olhos castanhos fixos nos azuis sem desviar por nenhum segundo, atentos as reações dela. Mas tudo que Rukia esboçou, foi um sorriso de canto.
— Nada tão interessante. — Respondeu desconversando e indo na direção da cozinha para pegar a caixa de fósforos e fumar um pouco.
— Sei... Tem algo muito errado nessa história. — Murmurou para si desconfiado — O que será que ela está escondendo?
181
Ainda era cedo quando Rukia acordou. Não sabia ao certo do porquê ter acordado naquele horário, apenas tinha acordado. Olhou para o amontoado de roupas próximo a cadeira no canto do quarto e torceu os lábios de irritação.
— Definitivamente, não vou lavar isso. — Resmungou com os braços cruzados — Espero que o velho realmente mande uma lavadeira.
Ignorando as roupas, foi na direção da estante e observou cada livro com cuidado, porém, um especial chamou-lhe a atenção. Pegou-o com cuidado e certo receio, passou os dedos levemente pela capa e retirou a poeira impregnada no livro, voltou a passar os dedos pela capa e desenhou com os dedos o nome escrito em brilhante dourado. Segurou-o com cuidado e apertou entre as mãos pequenas.
— Certo. Acho que não será tão ruim assim. — Sussurrou para si mesma e saiu do quarto. Sentou-se no último degrau da escada.
Minutos depois, Ichigo acordou. Sempre acordava cedo, tinha essa mania desde jovem e não seria algo que mudaria. Espreguiçou-se e levantou. Vestiu sua camisa e foi par ao lavabo onde lavou o rosto e limpou a boca, depois foi na cozinha e pegou uma maçã que mordeu com vontade. No caminho para a sala, estancou.
Viu Rukia sentava na escada lendo. O que tinha acontecido para ela estar de pé àquela hora? E lendo? Porque Rukia era uma maldita preguiçosa! Foi até ela com seus passos silenciosos e quando estava próximo, disse.
— O que aconteceu para estar de pé essa hora? — Perguntou com uma pontada de ironia — Caiu da cama?
— Não sei. — Respondeu sem olhá-lo — Só acordei. E duvido muito que teria acordado mesmo que tivesse caído. — Dessa vez, olhou o ruivo por cima do ombro.
— Quem diria... O que está lendo? — Tentou espiar por cima do ombro, mas não conseguiu ver direito.
— Você vai rir. — Declarou antes de estender o livro para ele mostrando a capa.
O olhar dele foi para o livro, para ela, para o livro e para ele novamente. Mas ele não riu, apenas estava surpreso.
— Por que está lendo a Bíblia? — Deu outra mordida na maçã.
Rukia olhou para ele, pensando se deveria respondê-lo ou não. Ficou o encarando por alguns segundos, mas por fim, apenas soltou um de seus sorrisos perversos e respondeu:
— Tentando salvar minha alma — O ruivo a fitou incrédulo sem perceber uma pequena quantidade de ironia contida naquelas palavras.
— Você não parece ser do tipo que acredita em Deus. — Foi tudo que conseguiu dizer depois de se recuperar.
— “Não julgueis para que não sejais julgados” — A morena proferiu com o olhar preso ao dele — Mateus, capítulo sete, versículo um. — Ele sorriu e ela devolveu — Tem muitas coisas que não aparento ser.
— De fato. — Ichigo concordou — “Do que há em abundância no coração, disso fala a boca.” Mateus, capítulo doze, versículo trinta e quatro.
Rukia arqueou uma das sobrancelhas começando a se divertir com aquilo.
— “O desejo dos justos é somente o bem, mas a esperança dos ímpios é a ira.” Provérbios, capítulo onze, versículo vinte e três.
— “Os lábios do justo sabem o que agrada, mas a boca dos ímpios anda cheia de perversidade.” Provérbios, capítulo dez, versículo trinta e dois. — A morena sorriu por causa da indireta bem direta e preparou-se para “responder”, mas Ichigo acrescentou — “Não declines nem para a direita nem para a esquerda: retira o teu pé do mal.” Provérbios, capítulo quatro, versículo vinte e sete.
Ela ficou em silêncio por um momento. Um tanto desconcertada, havia sido pega de surpresa. Sorriu e escolheu as próximas palavras cuidadosamente.
— “O amor não se porta inconvenientemente, não busca seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal.” 1 Coríntios, capítulo treze, versículo cinco — Por que diabos ela estava falando de amor? A morena pensou semicerrando os olhos.
— “O amor é paciente, é benigno. O amor não inveja, não se vangloria, não se ensoberbece.” 1 Coríntios, capítulo treze, versículo quatro.
— Okay. Eu me rendo. — Rukia disse levantando as mãos — Se não iremos ficar aqui o dia todo.
— Certo. — Murmurou com um sorriso — Sabe muito sobre a Bíblia.
— Claro, fui catequizada... — Declarou como se fosse a coisa mais óbvio do mundo — É tão inacreditável assim?
— Bem... É difícil pensar nisso. Então, realmente acredita em Deus?
— Claro. E diferente de muitos, eu o amo apesar de tudo. Ele não foi muito justo comigo, de fato, mas Ele me deu a possibilidade de continuar seguindo, me deu forças e pessoas que me ajudaram a seguir em frente. — Deu uma pausa — E acho que é o suficiente.
Ichigo ficou em silêncio tentando absorver aquelas palavras. Porque esse era o tipo de coisa que jamais esperava ouvir dela. Um clima denso pairou entre os dois, um silêncio que parecia não poder ser quebrado. Certamente aquela experiência não poderia ser chamada de inútil, afinal, ele estava aprendendo coisas que não poderia ter aprendido sozinho.
— Posso fazer uma pergunta? — O sub-xerife disse quebrando o silêncio.
— Desde quando você tem que pedir permissão para fazer perguntas? — Ela perguntou com a sobrancelha arqueada e ele franziu o cenho levemente — Perguntar pode, mas não garanto que irei responder.
— Você realmente é o tipo de pessoa que as pessoas dizem que você é? — Outra mordida na maçã e a jogou fora.
— Bem... — A morena pareceu pensar. Levou o indicador aos lábios e piscou várias vezes antes de responder — Esse não é o tipo de coisa que eu possa te responder. Porque cada pessoa tem uma visão diferente de mim. E para cada forma que me vêem, sou diferente. Isso ajuda?
— Compreendo. — Murmurou satisfeito por ela ter respondido algo.
— O que você acha? — Rukia perguntou de repente.
— Não vou te responder isso. — Declarou fechando a cara fazendo-a rir.
— Tudo bem. Quando estiver disposto a me dizer, estarei te ouvindo. — Falou enquanto se levantava e tirava a poeira da calça e começou a subir os degraus da escada. Parou quando o seu rosto ficou na mesma altura que o dele.
Ele corou e se odiou por isso. Ela sorriu debochada e disse.
— Porém xerife, você ficará me devendo uma pergunta e uma resposta. — Levou o dedo indicador a frente do rosto dele e o balançou negativamente — E não negue, porque eu disse uma coisa sobre mim e você não me disse nada sobre você. — Dito isso, saiu deixando-o sozinho.
— É Ichigo. Parece que não tem escapatória. — Murmurou deixando que um pequeno sorriso brotasse em seus lábios.
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