Círculo de Fogo
9 Capítulo 08
Notas iniciais
Capítulo 08
Paperweight — Joshua Radin feat Scheyler Fisk
Rukia
188
Diferente dos dias anteriores, não dormi preguiçosamente. Para dizer a verdade, não sei se os poucos minutos que consegui pregar os olhos poderiam ser chamados de “dormir”.
Quando cheguei em casa na noite anterior, esperava que houvesse uma guilhotina pronta para decepar minha cabeça depois de tirar a roupa e sujar os pensamentos hipocritamente puros de uma jovem dama. Ou pelo menos alguns gritos enfurecidos, seguidos de ameaças bem simplórias para alguém como eu.
Mas não foi nada disso que encontrei.
A única coisa que me esperava era o silêncio.
Um estranho silêncio.
Entrei desconfiada, pronta para um ataque surpresa, mas nada aconteceu. Continuei a andar e me deparei com algo um tanto... Inesperado. Pelo menos para alguém que esteja “tomando conta” de uma malévola criminosa como eu: Ichigo Kurosaki dormindo como um anjo no sofá.
Achei razoável vestir alguma roupa antes, por incrível que pareça, eu estava com frio e não estava a fim de encarar uma gripe. Ficaria muito triste de morrer dessa forma, o que ainda é comum de se acontecer.
Puff.
Estremeci e dessa vez não foi de frio. Assim que me vesti, voltei para a sala e sentei no sofá a frente dele.
Era a primeira vez em dias que consegui realmente visualizar o rosto do xerife sem aquela carranca que ele está tão habituado a fazer. Observei-o com cuidado, tentando absorver cada detalhe daquele momento.
Os cabelos rebeldes e incrivelmente laranjas. Eram tão macios, sedosos — e eu sabia disso, porque na hora do beijo, meus dedos percorreram todo aquele cabelo — e o pensamento daquela mulher, chamada Orihime, passando seus dedos entre eles me deu uma certa repulsa.
Tentei ignorar esse pensamento e continuei a minha atenta análise.
Eu já o achava suficientemente atraente antes, mas naquele momento pude ver o quão realmente Ichigo era belo. As expressões fortes e marcantes, como se fosse esculpido por Deus, o nariz perfeitamente afilado, as maçãs do rosto coradas e altas, os lábios cheios de um tom levemente rosado.
Tudo altamente atrativo.
Suspirei.
Fiquei me perguntando o que eu estava fazendo ali o observando, um homem o qual eu nunca teria. Porque minha exótica beleza — assim por dizer — não era o suficiente, nada seria o suficiente. Jamais poderia tirar dele algo além de tesão e pena. E quando me peguei pensando nisso, fiquei pensando na razão de estar fazendo uma coisa dessas.
Afinal, ele não era o único homem bonito da face da terra. Tinha Grimmjow, Renji, Ulquiorra, vários outros que eu poderia ter, chega a ser engraçado o fato de eu possuir praticamente um harém.
E eu não preguei o olho pensando do por que desse pensamento ter surgido tão de repente. Fiquei imaginando o que passa na mente do xerife quando ele me vê nua ou quando conversamos sobre algo sem importância.
Talvez nada, talvez tudo.
Eu nunca saberia.
Mas fiquei ali, a madrugada inteira parada na frente do Ichigo, que uma vez ou outra se remexia no sofá e murmurava algo que eu não conseguia compreender. Enquanto especulava o que passava em sua mente.
Quando amanheceu, sai de perto e me ocupei com algo. Fui para cozinha preparar algo, pois estava faminta. Não demorou mais que alguns minutos para que Ichigo acordasse. Mantive-me em silêncio e virada de costas, ouvindo apenas o barulho dos seus pés se arrastando no piso.
Terminei de fritar os ovos e me virei para colocá-los no prato em cima da bancada. Ichigo estava ali, mas não me assustei como das outras vezes, estava me acostumando ao seu jeito sorrateiro. Só de olhar vi que tinha algo estranho.
Estava encrencada.
— Precisamos conversar — decretou sem dar chances de escapatória.
— Claro que precisamos. — Não era minha intenção ser irônica, mas parecia que a ironia sempre se adequava perfeitamente a tudo que eu queria dizer. — Sobre o quê? — Ele arqueou uma das sobrancelhas para mim. Okay, fingir inocência não funcionaria. — Okay. Você disse que era proibido andar pelada dentro de casa, nunca falou que era proibido do lado de fora! — tentei me defender.
Ouvi-o suspirar e depois respirar fundo, o sub-xerife fechou os olhos, como se estivesse pensando em algo. Fiquei parada, apenas esperando e um súbito nervosismo me atingiu.
— Tudo bem Rukia.
E foi nesse momento que eu percebi que não tinha nada bem. Aguardei em silêncio, esperando o que tinha motivado aquele tom. Realmente estava ficando ansiosa, tão ansiosa que meus dedos estavam crispados.
Aqueles poucos segundos de silêncio pareceram uma eternidade.
— O que foi? — perguntei depois de um tempo.
— É que... Bem... — hesitou. — Eu acho melhor voltarmos a um relacionamento formal. E até seria o mais ideal. — Suas palavras ficaram voando em volta da minha cabeça, enquanto meu cérebro tentava inutilmente absorvê-las, a procura do significado real daquilo.
— Como? — perguntei em um tom seco.
— Devemos parar de nos relacionar como se fossemos amigos, Rukia. Isso não vai nos levar a nada.
Fitei-o por longos minutos sem dizer nada.
— Então vai me negar até suas palavras? — Ele ficou em silêncio. — É por causa daquela mulher? — perguntei sem emoção.
— Por parte... — E deixou a frase no ar.
— E a outra, é pelo quê?
Ichigo ficou olhando para mim como se tivesse que escolher as palavras com cuidado, abriu e fechou a boca várias vezes para no fim não dizer absolutamente nada.
— Já sei. Você não quer se aproximar de mim por causa da atração que sente e para não acabar cedendo e trepar comigo — Fui extremamente rude com as minhas palavras — e depois ficar se sentindo sujo, não é isso? Porque seria horrível se deitar com a jovem dama depois disso! — Meu tom de voz ficou irritado.
Sim. Eu estava puta da vida!
— Não é nada disso! — gritou com a face vermelha em fúria. — Cale a maldita boca! Não coloque Orihime no meio da conversa. Você fala como se soubesse de tudo e não sabe é de nada!
Minha raiva veio tão rápida quanto a dele.
— Não sei de nada? Você que não sabe de nada, moleque! Não consegue nem identificar o que sente e vem dizer pra mim que não sei de nada? — explodi também, segurando o cabo da frigideira com força tentando me conter.
— Exatamente! Posso até não saber o que realmente sinto, mas ao menos não fico me deitando com cada mulher da cidade para tentar descobrir! Deve ser isso o que você faz, já que é especialista!
— Oh! Me perdoe por ser uma puta ao invés da jovem dama virgem de merda que você tanto preza! Me perdoe por não ser perfeita e como você disse, ser boa em me deitar com todos os homens de cada cidade que eu passo! — A minha intenção era que minha voz saísse irônica, mas ao invés disso, saiu cheia de mágoa. A mesma mágoa que um dia já senti pelos meus pais. A fim de conter isso, continuei: — Afinal, eu não tenho sentimentos além do tesão, não é mesmo? Sou uma safada sem sentimentos!
— Você nunca vai entender! — gritou enquanto passava a mão pelos cabelos, parecendo que ia arrancá-los a qualquer instante. — Você não sabe a dor de perder alguém! Não sabe! Sabe por quê? Porque você é a assassina que tira a vida de pessoas preciosas para outras pessoas!
Paralisei com aquelas palavras. Fiquei o olhando nos olhos até dizer:
— Você tem razão — concordei sem desviar os olhos dos dele. — Não há como alguém como eu saber como é perder alguém, sendo que eu não tive pessoas preciosas. Você tem razão. Eu jamais vou entender. — Não falei gritando.
“E ninguém melhor que o xerife para julgar isso, não é mesmo? Vamos fazer como você quer. Não misturar a carne com os vermes. Mas saiba que eu acreditei que fosse um homem de palavra, mas me enganei. Até Grimmjow que é um merda como eu, sabe o que são promessas.”
Observei-o cerrando os punhos, claramente ofendido pela minha insultante comparação com um criminoso como Grimmjow, que não estava muito longe de mim, pra não dizer que era pior.
— E se você acha que ficarei deprimida pela sua rejeição, deixo claro que está enganado. Você não é o único homem gostoso do mundo — finalizei e respirei, dei uma longa olhada nele e depois vi que ainda estava segurando a frigideira com os ovos recém-fritos. — Perdi a fome. Fique com os malditos ovos. — E atirei a frigideira com os ovos nele com força, e não sai antes de falar em alto e bom tom: — Bom apetite sub-xerife Ichigo Kurosaki.
Por fim me retirei e fui para o “meu” quarto.
Assim que entrei, fiz questão de bater a porta com força — como uma criança — e em seguida deslizei para o chão onde eu fiquei sentada por horas sem me mexer.
Passei as mãos pelo rosto secando o suor que havia se formado e que estava me incomodando. E foi nesse momento, que pela primeira vez em toda a minha vida, me arrependi de ter aceitado um desafio. Porque senti como se fosse um desafio que jamais iria conseguia vencer.
E eu fiquei me perguntando do porquê de ter ficado tão magoada. Ele não era a primeira pessoa a me chamar de prostituta ou puta — e provavelmente não seria a última —, mas ainda assim... Eu não iria negar, é claro.
Porém, minha mágoa em questão de horas foi transformando-se em ódio, raiva e ressentimento. Ele não era ninguém para me julgar! Não sabia exatamente nada sobre mim. E eu sabia o que era perder alguém, afinal, eu tinha perdido as únicas pessoas que me amavam de verdade há muitos anos.
Quem ele achava que era para pensar que era o único que tinha sofrido?!
Puta que pariu.
Depois de muito tempo sentada, minha bunda estava dormente, por isso tive que esperar mais alguns minutos até conseguir levantar e ficar em pé. Limpei o pó da minha calça de couro marrom e alisei minha blusa para tirar as marcas do amassado.
Sai do quarto sem me importar em encontrar o imbecil do Ichigo e fui direto para a dispensa, pegar cigarros e uma garrafa de vinho barato que eu tinha visto por lá alguns dias atrás.
Assim que peguei os dois, tratei de acender o cigarro e abrir o maldito vinho. Sai da maldita casa e fui andando para o rio nos fundos, enquanto tragava o cigarro e dava longos goles no vinho, sentei em uma pedra e fiquei a observar o céu — que estava bem estrelado.
Uma vez ou outra cantava alguma música. Só faltava o meu bando para tudo ficar perfeito. Estava sentindo muita falta deles, a presença dos meus únicos amigos era algo com qual eu já tinha me acostumado.
O vinho acabou tão rápido e não foi o suficiente para me deixar bêbada e tirar as vozes da minha cabeça — infelizmente. Acendi outro cigarro e me deitei na areia que estava um tanto úmida.
— Vô, o que o senhor faria no meu lugar? — perguntei para o céu e fiquei aguardando um sinal ou um meteoro, sei lá, qualquer coisa. — Sou uma merda de neta, não é? Deve estar decepcionado comigo — sussurrei as últimas palavras com desgosto.
Esvaziei meus pensamentos e fiquei em silêncio por um tempo... Sorri para a noite.
— Seria uma neta pior ainda se eu simplesmente desistisse das coisas por conta de uma discussão com um idiota. Obrigada vô, eu amo você. Mas você sabe disso. Espero que as vozes não continuem. Eu detesto ter que ouvi-las.
Virei para ficar de barriga para baixo, nesse momento olhei de relance na direção daquela casa idiota que eu odiei e sempre vou odiar e percebi uma sombra na janela.
Tsc.
Aquele imbecil me vigiando para ver se não fugi depois daquela briga. Bem que deveria fugir mesmo.
Porém, eu sou Rukia. A pior criminosa dos Estados Unidos da América.
E Rukia nunca desiste.
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