Céu

4 Parte IV


Notas iniciais
Demorou um bocado para essa postagem porque, bem... Semana do Saco cheio né?

Boa Leitura!

Além de preferir ficar em casa ao invés de ir para algum lugar, Sky não fumava, não bebia e nem usava drogas. Acho que os pais do dia de hoje deveriam ter como objetivo ter filhos antissociais, porque os antissociais podem até ser deslocados, mas nunca vão se meter em confusão na vida.

Antes de começar a namorar Skyler, eu fumava e estava fazendo de tudo para parar, consegui quando vi as muitas vezes que os pulmões dela davam uma de Troll Face. Nunca fui de beber muito e nunca usei drogas, então também sou um exemplo né?

– Josh? O que você está fazendo? – Sky abriu a porta e me viu sentado nos degraus da varanda do chalé. Nem eu mesmo sabia o que, diabos, estava fazendo ali.

– Sei lá.

Ela se sentou ao meu lado e eu passei meu braço pelo seu ombro.

– Você é idiota e estranho. – Ela comentou

– Mas pelo menos eu sou bonito. – Sorri

– A vida é feita de ilusão...

– Eu vou te bater Sky!

– Tenta.

Eu ia dar um tapa de leve na cabeça dela, mas Sky me dirigiu um olhar de “toca que eu te mato” então desisti de bater nela. Começamos a observar a rua, quer dizer, ela começou a observar a rua enquanto eu observava o como Sky é pálida. Em um quarto escuro ou dentro de casa ela parecia apenas ser branca, mas quando o sol tocava sua pele ela virava uma boneca de neve.

– Você é branca. – Falei

– Sério véi? Eu achava que era afrodescendente! Se você não falasse eu nunca ia perceber que sou branca! – O sarcasmo de Skyler era extremamente irritante

– Você é realmente muito irritante.

– E linda. Nunca se esqueça do “linda”.

Revirei os olhos, ultimamente (dês que começou a frequentar o psicólogo) Skyler estava tendo mais autoconfiança e isso é ótimo. O problema é que eu sei que ela fala esse “eu sou linda” de zoeira, ainda espero o dia que ela fale isso de verdade.

– Agora, sério Josh, o que você está fazendo aqui? Achei que hoje você ia sair com o Simon, Jake e Liam para treinarem... A temporada dos jogos escolares da cidade já está por vir, você precisa treinar.

– Na verdade nós acordamos mais cedo e treinamos na madrugada e hoje de manhã... É sábado, achamos melhor gastar a tarde para nos divertir. – Bloqueei a luz do sol que vinha para o meu rosto com a mão. Não era normal o sol aparecer tão fortemente como naquele sábado, mas eu não reclamava. Gostava do sol e seu calor – E como vão as coisas com a Starley? Vocês ainda querem matar uma à outra?

Ela suspirou e se levantou, gesticulou com a cabeça para que eu entrasse no chalé e foi isso que fiz. Do lado de fora não era possível de ouvir os gritos, mas quando se entrava no chalé os gritos de Starley eram bem... altos.

– SKYLER! ME TIRA DESSE ARMÁRIO A-GO-RA! EU VOU TE MATAR SUA VAGABUNDA!

Sky sorriu e me mostrou uma chave que eu nem havia reparado que estava em sua mão, dei graças mentalmente por ser filho único.

– Você realmente trancou sua irmã no armário? Por quê? – Observei a chave prateada em sua mão, os gritos de Starley eram tão irritantes que eu queria mais do que nunca ajudá-la a sair daquele maldito armário.

– Eu estava vendo Harry Potter e a Pedra Filosofal porque eu estava com saudades de você, aí a Starley entrou no porão e começou a ser... Starley. Então tirei a ideia do filme e tranquei-a em um armário que tem ao lado da escada. Acho que seria melhor se esse armário fosse embaixo da escada... Vou pedir para minha mãe colocar um armário embaixo da escada. Vai ser foda.

Suspirei. Os gritos de Starley estavam severamente irritantes e por isso arranquei a chave da mão de Starley e fui em direção ao armário. Minha namorada tentou de tudo – de chantagem emocional até ameaça – para que eu não abrisse aquele armário, mas eu a ignorei. Tudo para que aqueles gritos cessassem.

Quando eu abri a porta fui surpreendido por uma Starley de lingerie vermelha pulando encima de mim e roçando os lábios nos meus. Caí para trás com a garota encima e empurrei-a o mais fraco que pude para que ela saísse, mas ela não queria me largar! Estava me segurando pela nunca e tentava me beijar mais do que tudo, enquanto eu empurrava a cabeça dela para longe, tentei não machucá-la.

Olhei para trás, Skyler estava com uma expressão que eu sabia o que significava: morte.

Quando menos esperava, Sky simplesmente chutou a cara de Starley para cima e a garota bateu a cabeça com tudo na quina da porta do armário (que continuava aberta). Levantei-me e olhei para Skyler, ela estava respirando pesadamente e com muita raiva enquanto Starley estava cobrindo o rosto com as duas mãos e girava no chão gemendo de dor.

Fiquei na dúvida. Quem eu ajudaria primeiro?

Minha namorada asmática que estava tão estressada e respirava de forma tão ruim que poderia ter uma crise ali mesmo?

Ou a irmã da minha namorada que estava com sangue escapando entre os dedos que lhe cobria o rosto?

A sorte foi que não precisei decidir, Nanette entrou na casa com sacolas de supermercado no segundo seguinte e foi direto para Starley. Peguei Sky pela mão e a levei até o seu quarto esterilizado, onde havia alguns broncodilatadores. Ela usou o broncodilatador que chamava de Fred (também tinha o Heitor, o Robert, o Jackson, o Timothy... todos homens) e respirou fundo em seguida.

– Está tudo bem?

– Está sim, o Fred realmente é o melhor broncodilatador do mundo... Né Fred? – Ela esfregou Fred na bochecha como se ela fosse um bichinho de pelúcia fofo

Não demorou segundos para que Nanette gritasse por Skyler no andar de baixo, desci com ela. Starley estava com o nariz arrebitado vermelho e inchado, tinha um curativo por cima. Nanette olhava para Skyler com raiva, muita raiva.

– Poderia me explicar? – Foi apenas isso que ela disse

– Prendi Starley no armário por um tempinho porque ela tinha ido ao porão só para me chatear, aí o Josh apareceu aqui e como ele não estava suportando os gritos, pegou a chave de mim e abriu a porta do armário. Foi então que essa miserável vagaba e depravada pulou encima dele e o beijou. Eu fiquei com raiva e chutei a cara dela. Fim da historinha.

– MAS O QUE... STARLEY ANDREA LOGAN, COMO VOCÊ SE ATREVE A FAZER ISSO COM SUA IRMÃ NOVAMENTE? – De repente era como se o fato de Skyler ter prendido a irmã no porão, e chutado a cara da mesma, não valesse nada.

Skyler me puxou pela mão e nós fomos até o porão, acho que ela já estava acostumada a ouvir Starley levando bronca e por isso nem quis ouvir o que Nanette tinha para dizer daquela vez.

O treino de futebol parou de ser duas vezes por semana e começou a ser todos os dias úteis depois das aulas. Eu odiei isso porque, sinceramente, odeio futebol. Comecei a jogar porque me disseram que eu tinha talento e acho que quando você tem talento em alguma coisa, não deve desperdiçá-lo (mesmo quando essa coisa em questão for um dos ódios de sua vida).

Foi em um dia de quarta-feira que as líderes de torcida da CHS foram assistir ao treino e adivinhem só... Sophia é uma delas. Ela não é a capitã e tampouco a melhor, mas sabe dar umas piruetas e é considerada “bonita” entre as meninas da escola, essas duas coisas são essenciais para que você vire líder de torcida.

– JOSH! LINDO! AMOR! UHU! – As meninas gritaram em coro quando eu fiz um touchdown

Admito que é de envaidecer quando essas garotas lindas gritam pelo meu nome e me fazem elogios, mas eu não conseguia parar de pensar o como seria muito mais legal e especial se Skyler estivesse entre elas. Suspirei e tirei meu capacete. Fui andando até o treinador Jones e aleguei que não estava bem, ele deixou que eu me ausentasse pelo resto do treino.

É muito legal ser o único jogador dentro do vestiário porque você fica se sentindo um rico sabe? Como se seu banheiro fosse gigantesco e ai de quem entrasse naquele lugar. Depois de um famoso banho frio, fui dirigindo para casa. Skyler tinha sido proibida de me levar para o chalé por uma semana como castigo por ter chutado a cara de Starley, seria uma semana longa...

Já em casa fui surpreendido por minha mãe, que estava com um olhar triste (coisa que não faz parte do DNA de nossa família). Geralmente quando ela estava triste meu pai a reconfortava, mas isso que era o mais estranho... Meu pai não estava em casa. Ao dar uma rápida olhadela na sala de estar percebi que todos os porta-retratos que ele aparecia estavam sem foto. Olhei para minha mãe, lágrimas começaram a correr pelas suas bochechas.

– O que aconteceu? – Perguntei

– A ex-mulher do treinador Jones, Nadine, ligou... Ela está grávida do seu pai.

Meu estômago revirou, meu pai havia traído minha mãe... com a ex-mulher do meu treinador! Eu já ouvira falar de como o relacionamento de Nadine e Jones terminara, ela havia o traído com um professor substituto há anos. Eu nem estava no ensino médio ainda.

Queria abraçar minha mãe, mas ela simplesmente limpou as lágrimas e continuou com um olhar triste, mas sério.

– Faça macarrão instantâneo para seu jantar Josh. Não estou me sentindo muito bem, vou dormir um pouco. – Ela foi em direção às escadas – E, ah, seu pai vai te buscar para passar o domingo com ele todas as semanas enquanto eu não consigo sua guarda completa no divórcio.

Fiquei boquiaberto.

Jantei sem a menor fome o macarrão instantâneo e depois fui para meu quarto. Comecei a socar meu saco de pancadas com muita força, vi que as veias dos meus braços dilatavam a cada golpe. Quando parei de golpear o saco, meu cabelo já pingava por causa do suor. Peguei o meu celular e liguei para Skyler, ela atendeu no segundo toque.

– Quem incomoda? – Aparentava não estar com um humor muito diferente do meu

– Meu pai engravidou a ex-mulher do meu treinador.

– Minha mãe tirou Starley do castigo porque acha que já foi castigo o suficiente eu ter quebrado o nariz dela.

– Você quebrou o nariz dela?

– Aparentemente sim, ao menos foi isso que o médico falou. Você quebrou o nariz do David?

– Ainda não, mas quero muito.

– Só que querer não é poder né? O que David faria se você quebrasse o nariz dele?

– Do jeito que ele é acho que me processaria por agressão física. Ele é um marica.

– Todos os homens são meio maricas Josh, da mesma forma que todas as mulheres são meio machos quando lhes vêm a calhar.

– Foi ótimo conversar com você.

– Com você também. Beijos. Tchau.

E desligou sem que eu pudesse respondê-la. Acho que minha namorada realmente não entendia muito o conceito de “ligar para desabafar”.

Surpreendi-me quando vi Starley aparece na minha aula de Sociologia. Que caralho aquela criatura estava fazendo na minha escola?

O professor a apresentou como uma nova aluna e Sophia olhou para mim no exato momento, como se dissesse “essa é sua namorada? Nossa que roupa de puta”. Eu revirei os olhos. Starley sentou-se perto de Sophia e eu vi as duas trocando risadinhas e tendo altos-papos no meio da aula. Minha vida escolar dali em diante seria um inferno, disso eu tinha certeza.

No almoço minhas certezas só ficaram maiores quando Sophia, Eleanor e Starley sentaram-se na mesma mesa. De cinco em cinco minutos elas olhavam para mim e soltavam risinhos. Fiquei ao ponto de explodir de raiva quando Emma gritou para as três:

– O que estão olhando idiotas?!

Elas pararam de olhar e ficavam só dando risinhos entre si.

Quando Starley apareceu no chalé e não começou a frequentar alguma escola, eu achei que ela fosse igual a Star – uma pessoa já formada. Realmente fiquei decepcionado ao descobrir que meu pensamento estava errado.

Liguei para Sky no fim das aulas.

– Quem incomoda?

– O que sua irmã está fazendo na minha escola?

– Ela foi para a escola?

– Foi.

– Nossa, ela é uma vagabunda mesmo. Dês que ela chegou está matriculada na CHS e falou que nunca mais ia pisar o pé em uma escola até o momento que descobriu que você estudava aí. Va-di-a. – Ela falou com uma voz calma inacreditável

Continuamos a conversar enquanto eu dirigia para casa, por todo momento Skyler falava que ia desligar pois tinha medo que eu batesse o carro ou sei lá. Acho que ela estava vendo filmes demais. Quando cheguei em casa minha mãe estava encerando o chão com uma voracidade muito escrota.

O piso de minha casa é de madeira e eu conseguia ver o meu reflexo na madeira de tanto que o chão estava encerado. Ela mandou que eu tirasse meus tênis para não sujar o chão e eu os tirei. Meias e chão encerado não são uma boa combinação, por isso foi só eu triscar meu pé naquele maldito chão que eu deslizei e bati com tudo a cabeça no chão. Por que essa porcaria de chão tem uma atração tão grande pela minha cabeça?

– Joshua! Você não sabe que não pode andar com meia em chão encerado? Nem parece ter dezoito anos! – Cadê a mãe carinhosa que eu tinha até a semana passada?

– Ok... Desculpa mãe.

Ela não disse mais nada, apenas continuou a encerrar o chão. Subi para o meu quarto e comecei fazer as lições de casa. Realmente aquele curso de Literatura me ajudou demais, nem acredito que as lições que eu levava duas horas para fazer, agora, gasto meia hora ou uma... É incrível.

No curso eu aprendi a ler. Quer dizer... Reaprendi a ler! Quando você lê com uma visão mais científica acaba entendendo melhor a questão, mas não podemos perder nossa visão de poeta, senão, não conseguiremos ler algumas coisas que podem ter essa visão mais poética.

Esse lance de “visão para leitura” é a coisa mais estranha de se entender, mas extremamente interessante também.

– “Brasília…Uma prisão ao ar livre”. – Aquela era uma frase de uma escritora brasileira, Clarice Lispector. Na aula de Literatura estávamos começando a estudar sobre os grandes escritores brasileiros, conheci as frases da Clarice por conselho de Sky (que é uma amante de escritores antigos).

Depois de pesquisar um pouco sobre o Brasil (país pelo qual eu não sabia de nada) descobri que Brasília era a capital do país, não entendi a frase da Clarice. Como assim a capital do Brasil era uma prisão ao ar livre? Nada mais pesquisei, apenas copiei a frase e colei no meu trabalho, imprimi e coloquei dentro do meu caderno para que não amassasse.

Nunca me interessei muito pelo Brasil porque é um país que não ouvimos falar muito. Estudei sobre ele em Geografia uma vez e essa foi a época que eu me ferrei em Geografia completamente. Acabei pegando um certo “trauma” do país, mas nada tão sério.

Meu celular tocou quando eu finalizava a lição de Matemática, era Simon.

– Ei cara. Tudo de boa? – Perguntei

– Para falar a verdade não... O que você sabe sobre William Shakespeare? – Ele parecia desesperado

– Honestamente, apenas uma ou duas frases que a Skyler cita de vez enquanto. Ela manja dos poemas e citações.

– Então pede para ela, pelo amor de Deus, me passar alguma coisa de William Shakespeare senão eu não vou conseguir fazer esse trabalho de Filosofia!

– Cara, a Skyler não é Google.

– Só que o Google junto com a internet daqui de casa foi-se embora! Minha mãe cancelou o plano de internet porque a Judith briga demais com a Jessica para conseguir tempo no computador.

– É, suas irmãs são osso duro mesmo...

– Fazer o que? A diferença de idade delas é muito pequena. Quando irmãos tem uma diferença de idade pequena é mais provável que eles briguem mais. Eu não brigo com nenhuma das duas porque sou seis anos mais velho que uma e oito anos mais velho que outra. É a vida cara.

– Sei como é isso. Skyler e Starley brigam como se não houvesse amanhã...

– Sério? Nem sabia que elas eram irmãs... Quando a Starley apareceu na minha aula de História eu achei que ela era tipo uma sósia de Skyler, só que com o nariz obviamente ferido.

– Aí que está. Starley está com esse nariz quebrado porque a Skyler chutou a cara dela.

– Caramba! Skyler é violenta né? Elas devem ter um ano de diferença, mas depois melhora...

– Elas têm cinco minutos de diferença, são gêmeas.

– Aí que as coisas estão ferradas mesmo...

– Por quê?

– Gêmeos são sucessivos a mais brigas do que irmãos comuns porque eles querem se diferenciar sabe? Fazer alguma diferença, alguma coisa que pode destacar uma da outra. Irmãos gêmeos são sempre comparados uns com os outros, é triste. Tipo, a Skyler é mais certinha né? Já está formada na escola, lê muito, tem um namorado e tal... E o que a Starley é? Ela é nada comparada Skyler, deveras fato. Deve agir como uma Sophia da vida só para chamar atenção mesmo, pensa nisso cara.

Conversamos mais um pouco e eu peguei algumas frases de Shakespeare para ele na internet. Ainda bem que esse ano eu escolhi estudar Literatura no lugar de Filosofia, principalmente porque Filosofia ficou um pé no saco quando eu entrei no ensino médio.

O Domingo foi meio que uma tortura pura.

Em primeiro lugar, foi o primeiro dia que eu poderia ver Skyler e não pudemos passá-lo juntos por causa do meu pai. Acabamos indo, eu e Skyler, para o novo apartamento dele. Enquanto eu dirigia, Sky cantava bem baixinho uma música de rock pop que tocava na rádio. Já ouvira cantar outras vezes, era mágico. A voz dela perdia aquele tom de “eu odeio o mundo e nem se atreva a tocar em mim” quando cantava.

Meu pai nos recebeu de bom grado, mas não me abraçou nem abraçou Skyler... Quer dizer, ele tentou abraçar Skyler, mas ela deu uma cotovelada nele. Ele já deveria saber que ela não gosta que a abrace, só deixa que as pessoas da sua lista de amor a abrace (eu, Nanette e minha mãe.).

Nadine era uma mulher alta, muito magra (nem parecia estar grávida) com cabelos castanhos e olhos cinzas.

– Oi queridos, eu sou Nadine...

– Não ligo. Não gosto de você e espero que você queime no Tártaro. – Skyler declarou e cerrou os olhos para Nadine, a lista negra de Sky tinha ganhado mais uma pessoa. Tártaro? Sabia que Percy Jackson e Os Olimpianos ainda ia fazer ela falar alguma coisa estranha, mas o único culpado sou eu, que dei a ela o primeiro livro da série.

Meu pai engoliu em seco aquela resposta, acho que ele nunca vira Skyler como uma pessoa tão “respondona”, mas ela é... E como é. Fomos encaminhados para a sala de estar onde (para não dividir o sofá com nenhum daqueles traidores) eu me sentei na poltrona e Skyler sentou no meu colo, encostando as costas no meu peitoral. Ela tirou o iPhone do bolso e começou a jogar Candy Crush.

– E... como vai o namoro de vocês? – Meu pai perguntou para cortar o silêncio

– Sem gravidez ou traições. – Falei enquanto abraçava a cintura de Sky e pousava meu queixo em seu ombro

– Que... que bom para vocês. – Nadine deu um sorriso falso

– Por favor, não me venha com esses sorrisos falsos e essa cara de bunda. Sem querer ofender, quer dizer... Querendo ofender sim, eu gostava do David e você conseguiu fazer com que eu o odiasse. Em que mundo uma pessoa que pensa se envolve com um homem casado? Por acaso você é deficiente ou é só idiota mesmo? Faça-me o favor. – Skyler nem tirou os olhos da tela do Candy Crush

Adivinha só? Nadine nos expulsou do apartamento e meu pai nada disse. A verdade é uma coisa que poucos aguentam mesmo.

No caminho de volta eu fiquei extremamente chateado ao ver uma leve rachadura no meu para-brisa novo. Sério, depois de ser jogado no antigo, admito que fiquei cheio de frescura com esse novo. Não queria que nada acontecesse com ele.

– Você acha que eu peguei pesado com aqueles dois? – Sky finalmente tirou os olhos do iPhone

– Não. Pegou até leve demais. Se eu tivesse essa sua habilidade de fazer com que as pessoas chorem, eu teria a usado até não poder mais com aqueles dois. – Apertei mais forte o volante

– Sei lá Josh... Ela está grávida sabe? Mulheres grávidas sempre devem ser tratadas como rainhas por causa do feto em seu útero. – Ela olhou para a própria barriga coberta pelo tecido da regata, eu freei o carro com muita voracidade e tive a sorte de não ter ninguém atrás de mim.

Olhei para ela, para a barriga, para ela, para a barriga e ela cerrou os olhos. Achei que ela fosse dar um tapa em mim ou sei lá o que.

– Não estou grávida seu bastardo, agora vamos logo para a sua casa que eu quero assistir o novo episódio de Supernatural. – Ela fincou as unhas na minha coxa e eu voltei a dirigir.

Por que ela tinha que ter unhas grandes? Pessoas com unhas grandes não deveriam ser violentas!

Ao chegar em minha casa Skyler já foi correndo para o meu quarto ver seu seriado. Eu suspirei e andei até o andar de cima, minha mãe estava em seu quarto vendo um talk-show ridículo.

– Ah! Você voltou... Já? Não faz nem meia hora que você saiu...

– Mãe, eu levei a Skyler...

– Ok. Não precisa mais explicar nada... Quem vou enganar? Preciso saber o que ela disse!

Comecei a rir baixo e me sentei ao lado de minha mãe narrando tudo o que Skyler tinha falado, minha mãe riu da mesma forma que ria há uma semana.

Fui para o meu quarto e Sky estava jogada encima de minha cama e olhava para a TV como se sua vida dependesse disso. Fiquei com vontade de brincar um pouco, ela iria ficar irritada, mas seria muito engraçado (para mim).

Aproximei aos poucos dela e antes que ela notasse pulei encima da mesma gritando “ATAQUE SURPRESA” e ela soltou um grito agudo. Comecei a fazer uma coisa que Sky ama/odeia que é quando eu respiro em seu pescoço. Sky começou a rir como se não houvesse amanhã enquanto me dava chutes, socos, tapas, mordidas e unhadas para que eu parasse de fazê-la rir e deixasse que ela visse Supernatural.

Parei de fazê-la rir quando girei para o lado e nós dois caímos no chão, com ela encima de mim. Achei que Skyler iria me bater com vontade, mas na verdade riu muito enquanto escondia o rosto no meu pescoço.

– Você é um bobo! – Ela me deu um selinho que conseguiu virar um beijo longo

– Sky?

– O que?

– Fazer amor no chão é uma coisa estranha?

Fomos para a cama.

Dez horas da noite o iPhone de Sky começou a tocar e me acordou, ela ainda dormia do meu lado quando eu atendi a chamada.

– SKYLER AUREA LOGAN! TE QUERO AQUI EM CASA EM DEZ MINUTOS SENÃO...

– Ah, oi Nanette. A Skyler está dormindo aqui, ficou muito cansada do dia. Eu a levo amanhã para o chalé quando estiver indo para a escola.

– Cansada? Amber me ligou e falou que vocês dois só ficaram meia hora no apartamento do David... O que vocês dois fizeram depois para que ela ficasse tão cansad...

– Tchau Nanette! Até amanhã! – Desliguei a ligação antes de ouvir alguma resposta ou repreção

Suspirei, aquela foi por pouco. Coloquei o iPhone de volta no criado-mudo e me virei de volta para Skyler, que estava de costas para mim. Puxei-a para mim e ela começou a usar meu peitoral nu como travesseiro. Fechei os olhos e aos poucos peguei no sono de novo.

Novamente fui acordado por um toque, só que o toque doentio do meu despertador. Não é humano acordar com aquele barulho infernal, mas acho que é a única forma de me acordar. Peguei minha calça de moletom no chão e a coloquei, antes de ir em direção ao banheiro olhei para Skyler... Voltei para o lado da cama e a cobri melhor, não queria que minha mãe sonhasse que nada tivesse acontecido senão ela nunca mais deixaria Sky pisar no meu quarto.

Quando voltei para o quarto (já arrumado para a escola) Skyler estava terminando de colocar a lingerie, para ser mais exato, fechando o sutiã. Fechei a porta do quarto para minha mãe não ver nada e andei até Skyler, abracei-a por trás e sorri para nossa imagem refletida no espelho de corpo inteiro que tinha no meu quarto. Vi ela sorrir de volta pelo espelho e beijei sua bochecha.

Ela pegou a calça jeans no chão e a regata, vestiu-se rapidamente e quando faltava colocar apenas os coturnos minha mãe invadiu o quarto.

– Vocês usaram camisinha? – Isso é o tipo de coisa que uma mãe pergunta para o filho bem ao lado da namorada?

– Sim, mãe! Agora dá licença?! – Sim, expulsei minha mãe do meu quarto.

Sky riu bastante da minha cara e quando terminou de colocar os coturnos. Ela me deu um selinho e falou que me esperaria no andar de baixo, peguei minha mochila e a segui.

Depois de deixar Skyler no chalé, tive que dar carona para a vagab... Starley. Ela conversou o percurso inteiro e aquela sessão de tortura estava me matando. Praticamente enxotei-a do meu carro quando cheguei no estacionamento do campus. Ela foi direto para o lado de Eleanor e Sophia, que estavam falando com os caras da equipe de basquete.

– Cara, o que você estava fazendo com essa criatura? – Jane perguntou, olhando diretamente para Starley.

Andamos até a aula de Matemática (a única aula que tínhamos juntos) conversando sobre tudo, menos sobre Starley. Meus amigos sabem que eu tenho repulsa a aquela sósia mal feita pelo o que ela fez com minha namorada.

No almoço eu liguei para Skyler e conversamos sobre nada. Sim, falamos sobre a ideia do “nada”, do significado da palavra, do que é o “nada”. Na maioria das vezes que eu ligava para ela, falávamos sobre algo estranho porque somos um casal meio estranho. Afinal, que graça teria ser um casal normal? Nós dois odiamos o padrão da normalidade que as pessoas têm porque ambos fomos normais antes de (começarmos a namorar) algumas coisas acontecerem. Sabemos o como é muito mais divertido ser um pouco estranho.

– Joshua! Joshua! – Aquela era a voz de Eleanor... Olhei para trás e a vi vindo em minha direção, sozinha. Acho que foi a primeira vez na minha vida que vi Sophia longe de Eleanor.

– Ah, oi Eleanor.

– Joshua é verdade o que a Starley falou?

– Como eu posso saber se algo é ou não verdade se você nem ao menos me diz do que se trata antes? – Ergui uma sobrancelha

– Você e a Starley estão namorando? Ela falou com todos que você deu carona ontem para ela porque os dois passaram o final de semana juntos na sua casa fazendo...

– NÃO OUSE A FALAR! E ISSO NÃO É VERDADE! – Dei meia volta e fui para minha aula de Inglês

Sky estava com um notebook no colo quando eu entrei no porão. Achei estranho porque ela nunca usava a internet para nada (se é que ela estava usando a internet) e isso sempre foi uma coisa escrota dela. Ela já me declarara várias vezes que não era uma pessoa que gostava de informações rápidas e precisas, gostava de comprar um livro para pegar um pouco de informação, depois outro para pegar mais um pouco de informação e assim por diante. Skyler é o tipo de pessoa que deveria ter nascido em 1950, não gosta nem um pouco de algumas coisas novas. Acho que ela é meio Bruno Mars, mesmo com um MONTE de novos recursos para videoclipes mais modernos ele prefere coisas mais “antiquadas” para os clipes. Por isso o Bruno acaba tendo videoclipes mais especiais em minha opinião, porque ele valoriza as coisas do passado e não as trata como se não merecem seu devido valor.

– Ei Sky. O que está fazendo? – Perguntei me sentando ao seu lado no chão (sim, ela estava sentada atrás do sofá-cama).

– Estou procurando filhotes de cachorro. – Ela disse com um tom sério

– Ah! Você quer um filhote? Pra quê?

– Conselho do meu psicólogo. Aparentemente os bichos, principalmente os cachorros, ajudam na habilidade de socialização dos antissociais. Sem contar que cachorros são antidepressivos naturais, ao menos é isso que diz esse artigo.

Olhei para a tela do notebook. Ela estava em um blog que dava conselhos para os depressivos, achei legal da parte dela essa procura pela melhora. Aquilo estava evoluindo para uma coisa melhor.

No dia que completamos seis meses de namoro, foi meu aniversário de 19 anos e também o último mês que eu estudaria em uma escola na VIDA. Para ser mais específico, meu aniversário é dia 24 de abril.

Como presente eu havia pedido (lê-se: Implorado de joelhos, quase chorando) que de presente Sky fosse comigo na inauguração de uma loja de Milk Shakes, a Shake Life. Ela acabou cedendo um pouco mais rápido (em dois dias) e eu fiquei muito feliz. Quando cheguei ao chalé ela estava com calças jeans, sua blusa cropped que usou na primeira vez que eu a vi (aquela escrita I Hate the Perfect) e All Stars de cano alto pretos. De maquiagem só o lápis, rímel e delineador (pretos) com um leve gloss nos lábios.

– Nossa, olá Taylor. – Falei quando ela entrou no carro

– E aí Daniel? – Ela retrucou – Como vai lá em Hogwarts?

– Eu não sou o Harry Potter...

– Mas você o interpretou então vai ter que aturar uma vida inteira das pessoas te chamando de Harry. – Ela deu um beijo na minha bochecha e eu comecei a dirigir.

O Shake Life era um lugar bem colorido e não tinha tantas pessoas (ninguém confia muito no clima da cidade então prefere não se arriscar em beber milk shake em um dia que pode ficar frio), acho que aquilo era o poço de felicidade para Sky. Quando fomos escolher os pedidos, ficamos indecisos.

– Josh, fala um número aleatório. – Sky disse de repente, estávamos sentados em uma mesa tentando decidir que sabor nós pegaríamos.

– Pra quê? – Perguntei sem nem tirar os olhos do menu

– Fala logo.

– Tá bom... Sete.

– Ok. Vinte e dois. – Ela olhou para a garçonete – MOÇA! Trás o número sete para ele e o número vinte e dois para mim, por favor!

Eu esbugalhei meus olhos e logo os dirigi para o menu, a procura de qual era o sabor que Skyler teria pedido para mim, mas ela foi mais rápida e tirou o menu de minhas mãos antes que eu pudesse ver o sabor do número sete.

– Non. Non. A graça dessa brincadeira é a surpresa. – E sorriu. Apesar de seu sorriso meigo eu queria esganá-la.

Demorou um pouco, mas os shakes chegaram. Para minha surpresa e infelicidade eu tinha pedido um milk shake de abóbora, o de Sky era de abacate (PS: Ela odeia abacate e eu também). Ficamos muito tempo encarando os shakes até que ela me encorajou a tomar o meu, tomando o dela. Eu juro que achava que ela is cuspir tudo na minha cara, mas ela não fez isso – apenas fez uma cara de nojo que só Deus para perdoar. Bebi o meu também, supernojento. Deveria haver uma lei que proibisse esses sabores estranhos porque daqui a pouco vai ter milk shake sabor gato (ao menos é assim que eu penso depois de ter que tomar um milk shake de abóbora).

Saímos daquele lugar, zonzos por causa do gosto horrível na nossa boca... Que belo presente de aniversário.

Quando cheguei em casa vi que tinha uma carta para mim encima da bancada da cozinha, era da Einstein University – EU... A melhor universidade da cidade, eu tinha me inscrito para cursar odontologia e... foi garantido a minha entrada! Dei graças ao futebol americano porque se não fosse por ele, acho que nem teria conseguido alguma vaga (o time de futebol da EU é um lixo).

Liguei para Sky e falei muito apressadamente o que tinha acontecido, ela não entendeu de início, mas depois me deu parabéns e falou que estava muito orgulhosa de mim.

Dormi tranquilo naquela noite (depois de quase ser esmagado pela felicidade de minha mãe) afinal eu tinha meu futuro garantido.

– Nossa, Einstein University? Virou nerd é? – Jake perguntou, estávamos de frente à escola antes do início das aulas.

– Demais não? – Não consegui esconder minha alegria – Só de pensar que jogar futebol americano esses anos todos finalmente valeram para alguma coisa a não ser definir o corpo... Que alívio!

Jake riu da minha animação. Apesar de ser meu melhor amigo ele não era parecido comigo. Eu estudava (apesar de não parecer) e Jake dormia nas provas e depois fazia a recuperação contragosto. Acho que ele nunca se preocupou com a escola realmente, o seu futuro sempre foi escrito pelas mãos de seus pais que eram donos de muitas boutiques pela cidade. Ele seria rico para sempre se continuasse com o trabalho de seus pais, disso tenho certeza.

Não sou rico, mas também não sou pobre. Minha mãe é professora da Carmichael Elementary School (onde Nanette é a nova diretora) e meu pai... bem, meu pai é contador. Acho que nunca fomos pobres porque minha família sempre foi muito chata em relação a dinheiro (lê-se: Tudo um bando de mãos de vaca).

Fui conferir as minhas notas, eu havia passado em tudo e estava muitíssimo satisfeito comigo mesmo. Liguei para Sky, ela estava com a voz muito rouca e quando eu contei que havia passado ela não ficou tão animada.

– Algum problema Sky? Sua voz está estranha...

– Eu estou gripada, acho que vou morrer. – Ela exagerou

– Nossa, exagerada... Daqui a pouco eu passo aí então para te ver.

– Não, não, não... Fiquei sabendo por intermédio da Starley que hoje vai ter uma festa de aniversário ou sei lá na boate King. Se você vier para cá não vai sair rápido o suficiente para chegar à boate. – Ela bocejou

Comecei uma declaração de como eu não estava nem aí para a boate e que preferia milhões de vezes ficar com ela do que ir para um lugar onde era possível que colocassem alguma coisa na minha bebida e que no outro dia eu acordasse na Argentina. Ela só riu, me mandou calar a boca e pediu para que eu não bebesse muito (trauma por causa do pai).

Ela desligou primeiro e eu pensei um pouco... Cara, eu ando parecendo o Edward Cullen. Imagino que se houvesse um filme sobre meu namoro, as menininhas já estariam “Aaah, como o Josh é perfeito! Ele faz de tudo pela Sky! Como eu queria um Josh para mim!”. Não sei por que hoje os homens não tratam bem suas namoradas, na real, eu acho que se a Sky não fosse meio variada eu não a trataria tão bem como trato.

As meninas de hoje parecem não quererem ser bem tratadas, por exemplo: Starley. Ela se esfrega em todo mundo e quando entra no Facebook só compartilha coisa de “O Homem Perfeito é aquele que abre a porta para sua amada”, em que mundo uma menina assim vaie encontrar esse tipo de homem? Bem, na Terra eu garanto que não é...

Já de noite eu me arrumava para a boate e ficava pensando “Por que, diabos, eu estou indo para uma boate?”. Para beber? Posso beber em casa. Para pegar alguém? Tenho namorada e não pretendo chifrá-la. Para comemorar a formatura com meus amigos? HÁ-HÁ, meus amigos sabem o como eu preferia, sei lá, ver um filme em grupo a ir em uma balada.

Baguncei meu cabelo olhando para o espelho da sala de estar, dei tchau para minha mãe e peguei minhas chaves. O caminho para a King passava de frente ao chalé e eu parei no meio-fio, precisava ver minha namorada. Nanette abriu a porta e falou que Skyler estava no quarto esterilizado. Fui até lá e quando abri a porta ela estava dormindo.

Andei até ela, deitada entre o emaranhar de cobertas, e toquei sua testa. Ela estava pegando fogo e suava frio. Suspirei, eu ia ficar com ela aquela noite, não importava o que ela falasse no dia seguinte. Estava prestes a me deitar quando vi que ela tinha deixado um papel dobrado com meu nome escrito. Peguei esse papel e o abri, era uma mensagenzinha para mim.

Querido Josh,

Se você se atrever a não ir nessa festa (que eu sei que você provavelmente não foi porque só queria dar uma “passadinha” para me ver) eu arranco os seus futuros filhos.

Beijos,

Sky

Guardei o papel no bolso da jaqueta e saí dali. Uma coisa que aprendi em seis meses de namoro com Skyler Aurea Logan? As ameaças dessa aí nunca são falsas.

Notas finais
Obrigada por ler.