Céu
1 Parte I - Início
Notas iniciais
Aos dezoito anos de idade eu ainda não sabia o que fazer de minha vida, o ano letivo estava para começar e a pressão do universo contra mim era muito grande. VÁ TRABALHAR, VÁ PARA UMA FACULDADE, VÁ FAZER ALGO DE PRODUTIVO EM SUA VIDA.
Carmichael High School (minha escola) é um lugar que todos os adolescentes do mundo deveriam estudar apenas uma vez na vida pelo simples fato de ser uma escola pública impressionantemente bonita e organizada.
Quando faltava um mês para o início do ano letivo eu decidi fazer um curso grátis que CHS proporcionava aos seus alunos e as pessoas de fora durante as férias. Vez ou outra tinha uma palestra ou um curso rápido que me interessava, no dia em questão, o curso que eu pretendia ir era o de Literatura. Nunca gostei de ler e nem nada, mas sempre achei que as pessoas que gostavam de ler eram mais lindas do que o resto do mundo e eu queria ser uma dessas pessoas, nem que tivessem que enfiar um livro na minha goela até que eu tenha decorado todas as suas letras.
Na sala do curso tinha uns dez alunos, nosso professor era o Sr. Schneider, um ruivo alemão que tinha um sorriso sarcástico pendendo em seu rosto.
– Olá para todos! – Ele se apresentou – Fico honrado em saber que dez pessoas se interessaram em fazer um curso que a nova sociedade considera “chato”, “sem graça” ou, como vocês dizem, “um porre”.
Nossa, que cara estranho. Pensei
Dez minutos de discurso sobre o como a adolescência dos dias de hoje está estúpida e prolixa, alguém bateu na porta. Sr. Schneider suspirou e foi em direção à porta com muita raiva por ter sido interrompido. Ele falou alguma coisa com a(s) pessoa(s) que estava(m) lá fora, segundos depois uma moça de meia-idade entrou, fechando a porta atrás de si.
Ela era bonita com olhos verdes e cabelos loiros acima de seus ombros, ela sorriu para a turma de alunos com um olhar triste, parecia cansada.
– Oi. – Disse timidamente – Meu nome é Nanette e trouxe minha filha para o curso... É sempre difícil falar desse assunto – Nanette reparou que os alunos (incluindo eu) olharam para a porta no mesmo instante – Bem, ela está lá fora... só a espera que eu comunique a vocês a situação. – Ela suspirou lentamente e direcionou um olhar incrivelmente triste para todos – Minha filha tem alguns problemas e está tendo muita dificuldade de entrosamento com pessoas de sua idade, por isso sugeri esse curso para ela e queria pedir que todos fossem o mais delicados o possível com ela, mesmo quando a mesma se torna insuportável.
– O que ela tem? – Perguntou uma moça que eu nunca vira na minha vida, sentada a algumas carteiras da minha – Se você nos falasse seria muito mais fácil para entendermos a situação que está nos colocando.
– Ela... Ela... – Balbuciou Nanette – Ela é... insuportável por causa de alguns problemas pessoais que teve nos últimos anos.Olha, por favor, só sejam pacientes. É só isso que peço.
Nanette saiu da sala e no segundo seguinte uma forma bem mais nova da mesma entrou. A filha tinha um olhar meio mortal, os olhos verdes perseguiam como se quisessem matar todos aos poucos. Os cabelos loiros caíam em fios lisos pelas costas até sua cintura, a franja longa caía encima dos olhos, mas ela não se irritava. Ela se vestia de uma forma deprimente com calça jeans preta e colada, uma blusa cropped preta e larga que caía em um dos ombros (nela estava escrito com letras brancas: I Hate the Perfect), seus pés eram tomados por botas pretas que me lembraram All Stars de cano longo. Eu dirigi meus olhos para a barriga completamente lisa daquela menina, o que mais me chamou a atenção foi o piercing prata em seu umbigo. Olhei para o resto dela, as unhas longas estavam com esmalte preto descascado, os olhos eram tomados por sombra preta e rímel (o que eu achei consideravelmente estranho, por causa dos olhos negros), percebi que ela tinha uma argola prata no lábio inferior e quase nenhuma espinha tomava conta de seu rosto. Me lembrei da Taylor Momsen na hora, ela parecia uma rockstar.
– Olá querida. – Schneider falou com voz mansa e baixa – Como está?
– Não fale comigo como se eu tivesse Alzheimer ou bipolaridade, não sou doente. – Sua voz doce era completamente destruída pelo seu tom arrogante e frio.
A garota nem se apresentou, apenas escolheu a carteira mais distante de toda a sala para se sentar e ficou por ali mesmo. Já que eu me sentava em uma das carteiras da frente, não tinha o como eu olhar para ela disfarçadamente, por isso passei o resto da aula sem saber se a Garota Sem Nome realmente existia.
Schneider é o tipo de cara que amaria ser o personagem principal de alguma série de comédia (daquelas que têm as risadas superfalsas no fundo) e por isso solta alguma piada incrivelmente ruim de vez enquanto. Acho que apenas 1/3 da população total no mundo ri e acha engraçado esse tipo de seriado, eu não faço parte desse um 1/3. Era óbvio a decepção no olhar de Schneider quando ele não conseguia fazer com que ninguém risse, mas – em minha opinião – cada um nasce para fazer parte de um tipo de filme e Schneider nasceu para fazer parte de um romance adolescente.
Honestamente, que adolescente nunca sonhou em ficar com aquele professor boa-pinta dos filmes ou dos livros? Aquele cara que se mostra ser perfeito o tempo todo, que faz de tudo para provar seu amor? As adolescentes vivem a fantasia de que seu Edward Cullen vai aparecer do nada e levá-las para o paraíso, mas... garotas, acordem.
Não, infelizmente nenhuma de vocês vai ter um Damen Auguste em suas vidas e sabem por quê? Porque os galãs que vocês tanto amam nos livros e filmes não passam disso, galãs de livros e filmes. Eles foram milimetricamente planejados para arrancar suspiros das garotas e não existe ninguém milimetricamente planejado.
Eu não fico com pena das garotas iludidas (elas se iludem porque querem), mas sim pelos caras normais e com imperfeições – como eu – que têm que batalhar contra personagens fictícios. É frustrante ser trocado por alguém que nem existe.
Meu devaneio me levou para as alturas e por isso não percebi quando a Garota Sem Nome (que andava na minha frente) parou de andar de repente, eu acabei batendo nela com tudo e a mesma caiu de cara no chão.
– ESSAS DUAS PORCARIAS QUE VOCÊ TEM EMBAIXO DAS SOBRANCELHAS NÃO SÃO ENFEITES NÃO! SERVEM PARA VOCÊ ENXERGAR A PORCARIA DAS PESSOAS E COISAS PARA NÃO DAR UM ENCONTRÃO NELAS SEU IDIOTA! – Ela gritou assim que ficou em pé novamente
– Eu sinto muito... Eu... – Mas ela já tinha virado para frente e andava com passos pesados em direção à porta da frente da CHS.
Acho que não foi o certo a fazer, mas eu persegui a Garota Sem Nome. Senti-me um paranoico, mas, sei lá, curti a atitude de FODA-SE O MUNDO que ela exalava. Claro que não demorou meio segundo para ela virar para trás e me encontrar (calçadas com quase ninguém não são bons lugares para seguir pessoas).
– Você tem algum problema? – Ela perguntou
– Eu não sei seu nome.
– E isso lá é um problema garoto?
– Gosto de saber o nome das pessoas que me tratam como lixo.
Ela ergueu uma sobrancelha e suspirou, olhou para cima por alguns momentos. O céu estava em um tom de cinza meio estranho, mas consideravelmente normal (se é que isso faz sentido). Ela jogou o cabelo para o lado e me dirigiu um olhar indefinido.
– Meu nome é Skyler. Skyler Aurea Logan. E você seria?
– Joshua Harrison. É um prazer te conhecer Skyler Aurea Logan.
– Tanto faz.
E ela se foi.
Minha mãe não era como Nanette, tinha uma aparência sempre sorridente e amável de uma forma tão exuberante que chegava a ser extremamente irritante.
– Josh, meu amor, como foi seu dia? Gostou da primeira aula do curso? As pessoas foram legais com você? Claro que foram, porque todas as pessoas são legais com meu lindinho e...
– Amber, por favor, não faça esse tipo de coisa com o Josh. – Disse meu pai, ele estava no sofá da sala de estar lendo uma revista de esportes.
– Me deixa David! Nosso filhinho merece o máximo de atenção, amor e... – Eu a calei me soltando de seu abraço e indo para meu quarto no andar de cima.
– Viu o que você faz com ele? Isso o envergonha, Amber. Josh já tem dezoito anos e merece ser tratado como tal... – Eu ouvi meu pai dizer, infelizmente as paredes não tinham uma boa barreira acústica.
– Para de criar caso com nada! Ele também é meu filho e por isso eu posso tratar ele como bem entendo!
Coloquei fones de ouvido e comecei a ouvir algumas músicas do Bon Jovi. Foi a melhor coisa que tinha para fazer.
As pessoas têm o costume absurdo de me dizer que eu pareço com o Daniel Radcliffe no último filme da saga Harry Potter. Sei que isso é um elogio, mas eu não gosto de ser comparado aos outros (principalmente quando esses outros são um milhão de dólares mais ricos do que eu) porque eu imagino que cada um é de uma forma e ponto final. Ninguém é igual, isso é um fato que a sociedade mastiga e cospe todos os dias. Se nem o tom dos seus olhos são exatamente iguais, por que você seria inteiramente igual a uma pessoa? Nem gêmeos são iguais, por que você seria?
Agora, meu caro, você me pergunta o porquê, diabos, estou falando sobre esse assunto. Pois bem... Sabe o que são Potterheads? Os fãs de Harry Potter! Eles têm Facebook e vivem me mandando solicitação de amizade só pelo simples fato de que eu me pareço com o Daniel Radcliffe. Isso sim é escroto.
Sei lá, acho que deveria me sentir agradecido quando as meninas chegam para mim e falam que eu sou lindo, mas... Eu não sou lindo, apenas sou parecido com o Daniel. Nada mais.
– JOSH! TEM UMA MENINA AQUI QUERENDO TE VER! – A voz berrante de minha mãe me tirou dos meus pensamentos ao som de Bon Jovi.
– Qual a necessidade de gritar tanto assim?... – Perguntei a mim mesmo enquanto descia as escadas
Admito que ao ver Skyler parada na porta eu senti meu estômago embrulhar. Minha mãe conversava umas baboseiras com ela e praticamente implorava para a garota entrar, mas ela só balançava a cabeça negativamente (não sei se ela estava balançando a cabeça para responder um “não” ou porque estava descontente com a carência de minha mãe). Ao me ver, ela me dirigiu um olhar suplicante de TIRA ESSA VELHA LOUCA DA MINHA FRENTE. Imediatamente eu convidei-a para entrar e subimos para meu quarto, mesmo com os protestos de minha mãe falando que dois adolescentes em um quarto nunca davam em coisa boa. Ela estava lendo muito a coluna do jornal onde os pais falavam de como seus filhos engravidaram as namoradas e sei lá mais o que. Adultos são estupidamente desconfiados.
– Por quê? Como? Ahñ... – Não consegui falar nada mais normal do que isso, ela sentou-se em minha cama.
– Minha mãe encheu meu saco por eu não ter sido rude com você e me deixou aqui para eu pedir desculpas e falou que eu não vou poder sair daqui até fazer isso. – Ele ergueu uma sobrancelha – Você sabe que eu não vou pedir desculpas né?
– Mas como você descobriu onde eu moro?
– Quando eu falei seu nome, minha mãe falou que sabia seu endereço. Aparentemente nossos pais são BFF’s. – Ela revirou os olhos e se deitou, como se já fosse de casa.
– Ok... Então...
Ela tirou um iPhone 4S de sua bolsa e começou a mexer em alguma coisa. Eu fiquei sentado no chão, olhando para ela e sua cara de pau que monopolizou minha cama. Demorou uns bons dez minutos até ela largar o iPhone e olhar para mim.
– Por que você está me encarando? – Ela realmente parecia ofendida com aquilo
– Porque você simplesmente invadiu meu quarto e monopolizou minha cama.
Ela parecia confusa, não entendi o porque.
– Os adolescentes não agem assim? – Ela perguntou
– Hum?
– Os adolescentes... Eu... Não tenho contato com pessoas da minha idade há alguns anos e acaba que tudo o que eu sei sobre nós mesmos é o que vejo nos filmes... – Hollywood atacara novamente
– Alguns anos? Quanto tempo você não tem amigos? – Skyler estava começando a me assustar
– Há dois anos, vai fazer três daqui há alguns meses.
Fiquei impressionado, uma adolescente linda (sim, eu admito) sem amigos? Isso é tão... tão... ANTI-HOLLYWOOD! Ela era preciosa, uma espécie rara e em extinção. Tive vontade de colocá-la dentro de um pote e levar para um laboratório pesquisar sobre sua existência. Sei que parece meio estranha essa minha felicidade, mas todas s garotas que eu conheço pensam que são protagonistas de um filme adolescente, o que faz com que elas tomem as mesmas atitudes das garotas irritantes dos filmes adolescentes. Eu realmente fiquei muito feliz ao ver alguém original, alguém bonita e sem amigos que não era agradável. Skyler merecia um filme sobre ela, isso sim.
– Que ironia... Uma pessoa que baseia a sua vida social em filmes adolescentes não é igual às garotas dos filmes. – Comentei para mim mesmo, só que ela ouviu.
– Porque todas são ridículas. – Ela sussurrou – As meninas dos filmes. São todas estúpidas, perfeitas, idiotas e babacas. Odeio isso.
Pela primeira vez achei que eu e Skyler Aurea Logan teríamos alguma coisa em comum.
– Então... Qual é seu plano? Vai ficar aqui para sua mãe nunca te encontrar? – Perguntei
– Ela falou que passaria aqui daqui a meia hora. Então, infelizmente, terei que ficar por aqui. – Ela me olhou – Não é como se eu gostasse desse lugar e para ser extremamente sincera Joshua... Eu não gosto de você. – Esbugalhei os olhos – Não gosto mesmo porque você me lembra o Daniel Radcliffe que é um gato, eu admito, mas infelizmente é de Hollywood. Odeio pessoas que me comparam e que se comparam aos famosos. Realmente tenho desgosto.
– Quem disse que eu me comparo ao Daniel Radcliffe?
– Ah, então você usa o mesmo corte de cabelo que ele por pura coincidência? – Ela completamente e apontou o dedo na minha cara – Vai me dizer que você não ama ser paparicado pelas Potterheads?
Pensei um pouco e me olhei no espelho. Eu realmente achava ridícula a comparação de pessoas com famosos, mas... Comparava todos que conhecia. Ao ver Skyler pela naquela manhã eu já comecei comparando a garota com a Taylor Momsen. Essa não. O Mundo Dos Famosos estava me tornando um idiota como os outros!
– Você está certa, mas... Você se veste assim e fica extremamente parecida com a Taylor Momsen. Vai me dizer que não é de propósito? – Ataquei
– A diferença é que eu me visto desse jeito dês que me entendo por gente, ou seja, antes da própria Taylor Momsen fazer algum sucesso. – Ela contratacou e ganhou a batalha.
Que garota... intrigante.
Quando Nanette chegou para buscar Skyler eu menti falando que a mesma tinha pedido desculpas (realmente era quase insuportável ficar com aquela menina e eu não queria ficar mais meia hora com ela dentro do meu quarto falando o como eu era superficial por fazer de tudo para parecer com o Daniel Radcliffe) e eu creio que nem a própria Nanette acreditou que a filha tinha pedido desculpas.
– Ao menos é bom vê-la interagindo com outras pessoas dês de... – O olhar mortal de Skyler quase atravessou Nanette e fez com que ela nem terminasse a frase – Não importa. Obrigado por ficar com minha filha por um tempo Amber.
– Não tem de quê Nanette. Sua filha é uma jovem incrivelmente adorável. Amei tê-la aqui em casa. – Minha mãe falava como se Skyler tivesse ficado na cola dela o tempo inteiro – Traga para cá outro dia! Acho que ela e o Josh serão ótimos amigos.
– Claro, será um imenso prazer. Até mais Amber. – E ela saiu do meio fio
Minha mãe acenou para o carro até que ele sumisse de vista e depois suspirou, vi que ela tinha um olhar triste no rosto, mas nem precisei perguntar o porque. Quando pisamos em casa ela já começou a falar.
– Skyler é uma menina tão complicada, tenho pena... – Eu a interrompi
– De Nanette, não é? Sinceramente mãe, eu quase atirei na minha própria cabeça quando estava lá encima com aquela criatura. De onde você tirou essa ideia de trazê-la aqui para casa novamente? Por acaso falta algum parafuso na sua cabeça?
–... da Skyler. – Ela continuou a frase, ignorou completamente meu comentário/declaração de ódio.
– Por que você teria pena daquela menina?
Minha mãe foi para a cozinha e preparou um chá de camomila bem rapidamente, ofereceu uma xícara para mim e depois se sentou em umas das banquetas da cozinha, deixando a xícara encima do balcão. Ela esperava que eu sentasse ao seu lado, então sentei em outra banqueta (mas não teria me sentado se não estivesse muito curioso para saber o porquê Skyler é digna de pena).
– Sabe, a vida de Skyler foi muito preocupante. – Ela começou a contar – Pelo o que Nanette me contou, quando a garota nasceu, era precoce e tinha má formação dos pulmões. Ela ficou na UTI por uns dois meses antes que os médicos considerassem com saúde o suficiente para viver. Acontece que ela sempre sentia falta de ar, mas nunca chegou a ter que ser colocada em aparelhos que respiravam por ela novamente, apenas tinha asma, um caso não tão sério.
– Mãe, problemas de saúde todos temos, não vejo o porquê essa história comoveria... – Ela me interrompeu
– Quando ela tinha treze anos o pai morreu. Morreu porque bebia demais e acabou sendo atropelado por um caminhão quando atravessava sem olhar para os lados. Isso fez com que a asma dela se agravasse um pouco e ela ficasse de depressão pós-perda por muito tempo. – Ela suspirou – Ela estudava em casa e foi para uma escola pública da cidade que morava e adivinha? Conheceu um garoto, eles começaram a namorar e ela acabou sendo traída por ele. Quando menos se espera o melhor amigo dela vira seu namorado e dois anos depois o garoto morre de leucemia. Ela acabou conseguindo o diploma do ensino médio mais cedo, se trancou em casa e começou a ter muita depressão. Que acabou piorando a asma e hoje ela corre o risco de morrer por causa dela. Sei que Nanette se mudou para cá apenas para deixar sua filha longe daquela cidade “amaldiçoada” e eu a conheci há poucos meses.
– E por que você nunca me apresentou a Skyler antes? – Perguntei, sabia que se dependesse de minha mãe eu teria conhecido Skyler antes mesmo que ela e a mãe tivessem se mudado.
– Porque, ao meu ver, Skyler não quer conhecer ninguém. Ela quer mais que todos morram e que ela vá junto, não gosta de gente e tampouco gente alegre. Eu já tinha sugerido a Nanette que deixasse a menina passar um tempo com você, mas ela tem medo que Skyler se machuque. Achei impressionante o fato de ela ter levado a garota para o curso de Literatura, sempre achei Skyler muito antissocial.
– Ela é, acredite. Hoje ela se sentou tão longe do resto da turma que era como se ela fosse invisível. – Falei
– Acho que nada podemos fazer com alguém que sente dor o tempo inteiro. – Minha mãe fez o último comentário sobre aquele assunto e depois foi lavar a xícara.
Não vi Skyler pelo resto do mês, ela nunca mais voltou a frequentar o curso.
A escola voltou aos poucos a ser uma rotina extremamente chata. Não conseguia imaginar o como eu poderia estar sentindo falta daquilo. Meus amigos pareciam um milhão de vezes mais insuportáveis do que já eram e por isso me isolei do resto das pessoas no gramado da frente.
Era bem legal aquele gramado, eu gostava de sentir a umidade que a grama passava.
– Ora, ora... Se não é o Sr. Daniel Radcliffe Jr. – Olhei em direção a voz. Skyler estava atrás de mim, ela usava regata branca com uma camisa de flanela vermelha e aberta por cima, shorts jeans, meia-calça arrastão e coturnos pretos. Usava a mesma maquiagem, o cabelo e as unhas estavam iguais da primeira e última vez que eu a vira.
– Ora, ora... Se não é a Srt. Taylor Momsen II. – Contrataquei – O que você está fazendo aqui?
– Minha mãe pediu para que eu conversasse com o Sr. Schneider sobre o porque eu não fui para o curso então... Se o encontrar, diga que tive problemas pessoais ok? Até!
Ela estava indo em direção ao carro, mas eu falei algo que a fez ficar petrificada, me cansei de sua atitude:
– Alguma crise de asma ou uma crise de depressão? Ou quem sabe outro namorado morto? Seu padrasto morreu porque estava bêbado e acabou sendo atropelado? Outro namorado te traiu?
Não deu tempo de reagir, antes mesmo que eu pudesse ao menos me arrepender me minhas palavras eu já tinha levado um belo chute no estômago. Aquilo fez com que eu deitasse no chão e começasse a quase chorar de tanta dor que comecei a sentir... Para uma menina uns vinte centímetros menor do que eu, Skyler sabia bater e muito bem.
– Cale sua boca seu... seu... – Ela não achava um xingamento tão horrível para me descrever
Eu me levantei com vontade de dar um murro na cara dela, mas aí eu vi que lágrimas saíam de seus olhos. Sabe o que é culpa? Bem, esse sentimento foi inventado apenas para ferrar você, e ferrar bonito. Era como se o fato que ela tivesse perdido o pai fosse culpa minha, como se tudo de ruim que havia acontecido na vida dela fosse culpa minha. Eu não queria me sentir culpado pelo o que não fiz, ninguém quer.
– Eu sinto muito Skyler... Eu... não deveria ter falado isso. – Disse com voz que espalhava arrependimento pelo mundo
– Vai se fuder Joshua Harrison. Você não passa de mais uma das pessoas ridículas dessa humanidade estúpida. – E assim ela se virou e foi embora.
– E ele fez O QUE?! – Ouvi minha mãe gritando – JOSHUA JAMES HARRISON! DESÇA AQUI AGORA!
Ela usou meu segundo nome, ninguém usa meu segundo nome... Só quando eu estou muito ferrado. Desci as escadas com medo do que aconteceria com meu próprio pescoço. Minha mãe estava segurando o telefone como se fosse uma faca e apontava para mim enquanto me olhava com o olhar de VOCÊ VAI MORRER.
– O QUE VOCÊ FEZ JOSHUA? – Ela bateu o telefone no gancho
– Mãe, nem eu sei o que eu fiz...
– POR QUE VOCÊ LEMBROU A SKYLER QUE ELA É DEPRESSIVA?! POR QUÊ?!
– PORQUE ELA É INCRIVELMENTE IRRITANTE MÃE! Porque ela me trata como lixo e os outros também. Pensa que é dona de tudo e de todos. Isso me irrita!
– Joshua... Você, sinceramente, acha que eu te contei sobre os problemas da vida de Skyler por quê? – Ela cruzou os braços
– Eu... eu não sei. – Murmurei
– Ela... não tem amigos há três anos Joshua. Nem saí de casa, tampouco vive a vida de uma adolescente normal! Agora me diz, isso é jeito de uma garota de dezoito anos viver? Como você se sentiria se não tivesse nenhum amigo, nenhum contado com a sociedade, nenhum motivo... para viver. Eu quero que ela tenha amigos e viva porque vejo o como Nanette sofre ao ver a filha exilada da humanidade. É difícil para uma mãe ver que seu filho quer morrer, muito difícil mesmo.
Abaixei a cabeça, sabia o que ela iria falar a seguir, mas eu a interrompi.
– Sua intenção era fazer com que ela se socializasse comigo, que tivesse um amigo? – Falei – Mãe, eu sinto muito. Não consegui enxergar a gravidade da situação.
Ela suspirou e disse que estava tudo bem, mas pediu que eu pedisse desculpas para Skyler. Ela tinha ficado – muito – chateada pelas coisas que eu havia dito. Peguei meu carro e fui em direção a casa dela (minha mãe passara o endereço) com intenção de pedir desculpas e talvez, conversar com ela.
Acho que não devemos tratar os outros mal só porque estamos nos sentindo mal e eu queria falar isso com ela.
– Ah, oi Joshua. Como está? – Nanette foi muito educada.
– Bem, obrigada por perguntar. Onde está Skyler? – Eu fiquei meio fascinado com aquele chalé de dois andares, ele era de madeira... Tão raro e bonito.
– Está no quarto especial dela, no porão. Vamos, eu te levo até lá. – Ela começou a seguir pelo corredorzinho até uma porta ao lado da escada que levava para o andar de cima, abriu-a para mim e eu desci as escadas que levavam ao porão.
Lá embaixo era frio, muito frio. Além de frio era escuro. A única luz que eu via era da imensa televisão, em frente a TV tinha um sofá-cama (daqueles que você puxa por baixo e uma almofada aparece e deixa o sofá como uma cama mesmo, sem alterar a altura) desdobrado e no meio dele estava Skyler, encarando a TV e quase se sufocando pelo emaranhado de cobertores e travesseiros que ela usava.
– Skyler. – Chamei
Ela me dirigiu um olhar morto e voltou sua atenção para a TV. Estava vendo Enrolados com uma animação que contagiava todo mundo (só que nunca). Fiquei em pé, esperando que ela falasse alguma coisa, mas... nada.
– Eu queria me desculpar pelo o que eu disse ontem Skyler... Não queria te deixar magoada.
Ela me ignorou novamente. Skyler se levantou – se livrando das cobertas – e foi andando para o lado oposto da televisão. Eu juro que se não tivesse saído luz, eu nunca ia perceber que tinha um frigobar naquele porão, era tudo escuro demais. Com a luz, pude ver que ela usava apenas calsinha e sutiã pretos, fiquei muito constrangido. Ela não pareceu se importar nem um pouco e jogou o cabelo para o lado enquanto escolhia o que iria pegar no frigobar.
De lá, ela tirou uma latinha de Pepsi sabor limão e me olhou.
– Vai querer?
– O que?!
– Pepsi. Só tenho esse tipo de refrigerante... Sabor limão.
– Ahñ, tá. Eu aceito. – Eu não deveria ter aceitado
Ela pegou uma latinha de Pepsi e jogou (com muita força) em mim, minha mão até ardeu quando eu agarrei a latinha para impedir que ela quebrasse meu nariz.
Skyler voltou para o sofá e seu emaranhado de cobertores.
Fiquei ali parado por um tempo, perguntando o porquê, diabos, eu estava naquele lugar sendo desrespeitado por uma menina que se achava o centro do universo. Eu estava quase deixando a latinha no chão e voltando para o andar de cima quando Skyler disse algo:
– Eu não gosto de você Joshua.
– Nossa, que coincidência... Eu também não gosto de você Skyler. – Revirei os olhos
– Mas quero que você fique. – Ela foi para o lado e deu umas batidinhas no espaço vazio do sofá-cama
– Mas... Não gostamos um do outro.
– Não gosto de você, mas gosto de sua atitude. Gosto do fato de você não ter pena de mim, odeio pena. Odeio mesmo. É um sentimento que apenas os fracos recebem e... eu não quero ser considerada fraca sabe? Apesar de emocionalmente e mentalmente eu ser, eu não quero. Você consegue me entender?
Eu entendia. Por isso tirei meus All Stars e me deitei ao lado de Skyler, o filme já estava terminando mesmo.
Quando me dei por mim, já eram dez horas da noite e tínhamos visto uns sete filmes depois de Enrolados (todos da Disney). Skyler não falava muito, mas quando falava era para perguntar se eu queria Pepsi, então não deu para construirmos uma amizade naquele dia.
– Acho que minha mãe vai me matar quando eu chegar em casa... – Comentei, mas não havia nenhuma chamada não atendida no meu celular.
– Amber não parece ser do tipo de mãe que quer matar o filho. – Skyler ergueu uma sobrancelha
– E não é, mas quando fica com raiva... Só Deus para segurar. – Suspirei – E aí? Gostou de passar à tarde com uma pessoa da sua idade?
– É... Até que foi divertido. – Ela sorriu. Seu sorriso foi pequeno, sem mostrar os dentes, quase imperceptível, mas ainda dava para notar a diferença – Realmente é bom ter alguém para conversar sobre os filmes... Minha mãe não tem tempo e nem paciência.
– Quer repetir a dose amanhã? – Perguntei – Podemos fazer isso todos os dias depois que eu terminar meus deveres da escola.
– Tanto faz. – Ela abraçou as próprias pernas e começou a cutucar os próprios pés, não sei pra quê.
Eu estava deitado ao seu lado e reparei que ela tinha algumas cicatrizes nas costelas. Esse era o tipo de coisa que eu iria perguntar para ela uma outra hora, talvez quando começássemos a gostar um do outro.
– E eu ainda não gosto de você. – Ela finalizou
– É, eu também não gosto de você.
Durante o resto do mês eu visitava Skyler todos os dias, às sete horas para vermos algum filme. Sabe aquele lance que eu falei que cada um de nós tem um gênero de filme ou livro dentro de si? Bem, o gênero de Skyler é o suspense. Nunca se sabe o que ela vai fazer, não se sabe qual será seu próximo passo, tudo sobre ela e nela é um mistério sem fim.
Estávamos vendo um filme de drama, Uma prova de amor, e Skyler chorou no fim. Era a primeira vez que ela chorava no fim de algum filme.
– Esse filme é muito lindo! – Ela repetiu pela décima vez aquela frase
– É bem bonito mesmo... – Lembrei-me de seu ex-namorado que tinha leucemia, igual à Kate do filme.
– Sabe... A morte do Andrew foi meio que a gota d’água para mim. – Ela começou a desabafar – Sabe como é difícil para uma adolescente de quinze anos perder o namorado? Quando o Claude me traiu, doeu, doeu muito... Mas nada se compara a dor da perda de alguém que você ama.
– Você se sentiu ruim assim quando seu pai foi atropelado?
– Minha depressão começou como luto, que fez com que minha asma fosse para o nível médio. Aí o Claude me traiu, minha depressão aumentou um pouco e eu saí da escola. Um tempo depois conheci o Andrew em um Parque de Diversões, acho que ele meio que preencheu o vazio dentro de mim, mas aí ele morreu. Minha asma começou a me atacar diariamente e nem piso o pé fora desse porão. Então, das três vezes, foi a pior coisa do mundo.
– Eu não sei como é isso, mas quero que você saiba que eu sinto... – Ela cobriu meus lábios com os dedos
– Pena é coisa para os fracos.
Fiquei calado até que ela colocou A Bela Adormecida no DVD. Não! Chega de filmes da Disney!
– Você está chegando mais tarde do que o combinado mocinho. – Meu pai apontou para o relógio da sala – Já são onze horas da noite e era para você estar aqui as dez.
– Desculpa pai. A Skyler quis ver outro filme e isso acabou me atrasando... – Sentei-me na poltrona ao lado do sofá onde meu pai estava
Ele ergueu uma sobrancelha para mim, aí vinha coisa...
– Filho, por acaso você e a Skyler estão tendo relações... ahñ... relações sexuais? – Eu realmente não esperava por aquilo
– De onde, diabos, você tirou essa ideia?! – Perguntei, eu realmente tinha ficado puto com aquela pergunta.
– Me responda primeiro.
– NÃO PAI! EU E A SKYLER NÃO ESTAMOS TRANSANDO! SATISFEITO?!
– Para ser honesto, não...
Não quis ouvir o que ele tinha para falar, fui direto para meu quarto e ignorei o pedido de minha mãe para eu jantar.
No dia seguinte era sábado e eu estava passando por uma série de tortura, vendo O Diário de uma Paixão. Eu não gosto de romance e Skyler também não. Acabamos dormindo no meio do filme e eu fui acordar apenas quando minha mãe me ligou perguntando se eu ia dormir lá mesmo. Eu estava com tanto sono que respondi que sim.
Voltei a dormir.
Quando estava de manhã, fui acordado por uma voz feminina gritando. Era Nanette.
– O que você está fazendo aqui ainda?! – Ela perguntou/gritou, acordou Skyler no mesmo momento.
As duas começaram uma discussão que começou sobre o que eu estava fazendo ali e terminou com o como Skyler estava se trancando dentro de casa e não vivia sua vida de adolescente. Eu saí furtivamente da casa enquanto elas começavam uma nova discussão sobre um assunto que eu não tive o interesse de descobrir.
Quando cheguei em casa minha mãe estava tirando a mesa do café da manhã e sorriu para mim.
– Como foi na casa da Skyler?
– Legal.
– E vocês fizeram...
– NÃO FIZEMOS SEXO PORRA!
Ela ficou envergonhada, como se ela fosse transparente. Eu comi uma maça e subi para meu quarto. Conheço Skyler há um mês e nunca vi ela fora de casa a não ser das vezes que a mãe dela obrigava, isso não é saudável. Pensei em ligar para ela, mas lembrei que Skyler e Nanette deveriam ainda estar discutindo (são duas cabeças-duras). Por isso liguei para meu amigo, Jake.
– Alô?
– Jake?
– Josh! Cara, achei que você morria toda tarde! Nunca mais entrou no Facebook, nem saí mais... Que isso, virou antissocial agora?
– Na verdade é sobre isso que eu queria falar Jake. Tenho uma amiga que... – E comecei a contar para ele a história de Skyler, ele ouviu atentamente e não me interrompeu nenhuma vez – E eu acho que ela merece sair de casa um pouco... Sabe, Skyler é legal. Merece um dia de adolescente normal.
– Vamos ao parque hoje à tarde. Podemos fazer um piquenique embaixo daquela árvore torta. Aí eu chamo o Simon, a Emma, a Eleanor e o Liam.
– PELO AMOR DE DEUS, NÃO CHAMA A ELEANOR! – Gritei
– Por quê?
– Ela é puta Jake, não quero mal exemplo para a Skyler. Chama a Jane no lugar dela...
– Ok... Mas se a Els ficar sabendo... Ela vai te matar.
Suspirei e marquei um horário bonitinho e o que eu iria levar. Liguei para Skyler em seguida, ela topou de sair, mas só por uma hora, em um lugar sem tanta luz e em um lugar onde não tivesse ninguém (não comentei que meus amigos iriam).
Fui tomar banho e quando eu saí do meu banheiro com a toalha enrolada na cintura, Skyler entrou no meu quarto. Naquela hora, eu quis ser uma menina para ter uma crise de berros e jogar tudo o que tinha na minha frente em Skyler, mas... Ah, é... Eu sou garoto.
Skyler estava de shorts jeans curtos, regata branca, jaqueta de moletom cinza com os braços amarrados na cintura e All Star preto de cano médio, também segurava uma bolsa lateral preta. O cabelo parecia meio despenteado, mas bonito e jogado para o lado. Ela só usava lápis preto na linha d’água e rímel com um pouco de gloss rosa nos lábios.
– Já ouviu falar em bater na porta? – Perguntei enquanto ajeitava a toalha na minha cintura
– Você não bate na porta quando entra no porão...
– Só que você nunca ficou nua dentro do porão!
– Como você sabe? – Ela ergueu uma sobrancelha – Apostaria sua vida nessa afirmação?
Como sempre, exagerada.
– Sei lá Skyler, eu só te vejo de roupa íntima e acho que você já deve ficar despida o suficiente.
– O porão é meu e eu me visto como bem entender lá. – Ela virou a cara e saiu do quarto, deixando que eu colocasse minha roupa sem ter que ouvir nada que me irritasse.
Como o dia estava fresco, coloquei uma camisa branca, calças jeans e meu All Star preto. Baguncei meu cabelo um pouco (acredite, ele ficava bonito assim) e desci as escadas para encontrar Skyler conversando com minha mãe e meu pai.
– Pela última vez... EU NÃO FIZ SEXO COM SEU FILHO! – Skyler berrou para os dois, eu quis enfiar minha cabeça embaixo da terra.
Peguei os sanduíches que pedira para minha mãe fazer para o piquenique – estavam em uma vasilha grande – e chamei Skyler. Juro que ela ficou tão feliz que só faltou sair por aí gritando, LIBERDAAAAAAAADE!
Eu ri dela.
– Está quente. Tem pessoas por aqui. Eu pressinto que não ficaremos aqui por apenas uma hora... – Skyler comentou enquanto saía do carro, mas antes que fechasse a porta, jogou sua jaqueta lá dentro.
– Não garanto nada. Não controlamos o futuro. – Falei, segurei a vasilha dos sanduíches com uma mão e segurei a mão de Skyler com a outra.
Ela revirou os olhos.
Quando viu que teríamos companhia para o piquenique, Skyler paralisou e ficou encarando meus amigos com os olhos esbugalhados. Jake e Emma foram os primeiros a se aproximar (Skyler estava rígida feito uma estátua e se recusava a dar um passo para frente, nem a largar minha mão, por isso ficamos parados esperando os outros se aproximarem) e cumprimentar Skyler. Percebi que ela estava começando a respirar com mais dificuldade.
– Oi Skyler, oi Josh. – Os dois falaram em uníssono
– Oi galera. – Falei – Skyler, esses são meus melhores amigos, Jake e Emma.
–...
– Skyler?
–...
– Oi? Skyler. – Chamei novamente
–...
– TERRA PARA SKYLER! ALGUÉM NA ESCUTA?! ALGUÉM NA ESCUTA?! – Gritei, Skyler pareceu sair de seu transe.
Ela não disse nada, apenas se sentou na roda de amigos e ficou ali – na sombra e encima da toalha de piquenique – quieta. Nada falei também, apenas cumprimentei o resto das pessoas e me sentei ao lado dela, vez ou outra eu tentava puxar assunto, mas ela estava sempre ocupada comendo ou sendo antissocial. Duas coisas que Skyler Aurea Logan sabia fazer como ninguém
.
– Skyler, foi muito feio de sua parte o que você fez com a galera. – Reprendi, eu estava levando-a de volta para casa (tinha começado a chover e o piquenique não durou nem uma hora) – Sério, eles queriam ser seus amigos e você nem deu bola...
– Não sei se você ainda não percebeu Joshua, mas eu não quero amigos. – Ela respondeu, sua voz tinha um tom frio que eu não ouvia dês do primeiro dia que nos conhecemos – Tenho você, pronto. Não quero e nem preciso de mais amigos.
Eu suspirei. Ela tinha a mente muito fechada quando o assunto era amizade, principalmente no requisito fazer amigos. Aí ela não era fechada... ERA TRANCADA COM CADEADO, CORRENTE E VIDRO ANTI-BALA!
– Só que isso não é nem um pouco saudável. Nem um pouco mesmo. – Peguei em seu ombro sem tirar os olhos da estrada – Você tem dezoito anos e deveria agir como tal, não acha?
– Você fala como se eu quisesse ser assim... Como se nada tivesse acontecido e o fato de eu ser assim fosse apenas frescura... – Ela olhou para os próprios All Stars
– Não, não foi isso que eu quis dizer! Skyler. Skyler! Volta para o carro agora! NÃO ME IMPORTA SE EU JÁ ESTOU NA FRENTE DE SUA CASA! Vamos conversar! Skyler – Mas ela já havia entrado
– Que droga! – Gritei assim que cheguei em casa – QUE PORRA! QUE MERDA! QUE PORCARIA!
Entrei no meu quarto e comecei a socar meu saco de pancadas que ficava pendurado no canto do quarto. Meu pai entrou no meu quarto, sem bater por sinal.
– Qual é o problema Josh? – Ele perguntou, logo em seguida se sentou na beirada da minha cama
– A porcaria da Skyler! Ela vive botando palavras na minha boca, VIVE! Estou de saco cheio disso! – Soquei o saco de pancadas mais uma vez
Meu pai suspirou, pediu para que eu parasse de espancar o saco e ouvisse o que ele tinha a dizer.
– As mulheres são todas assim meu filho. Nós falamos uma coisa, mas elas entendem apenas as entrelinhas inexistentes do que falamos e depois, PUF, começam um drama pelo o que elas quiseram entender. Infelizmente é assim...
– Sei lá pai, não sei o que fazer sobre essa situação. – Admiti
Ele me olhou por um tempo, sem dizer nada, suspirou novamente e começou a tremer a perna esquerda. Aí vinha uma coisa que eu não iria gostar de ouvir.
– Você já pensou na possibilidade de estar gostando da Skyler? Gostando mais do que um amigo gostaria? Um menino só se importa tanto assim com os sentimentos de outra menina quando gosta muito dela. E... Sinceramente Josh, você está a um mês indo para a casa dela direto, sem faltar nenhum dia, passa duas horas com ela, no mínimo. Você não é disso,, meu filho, e você sabe muito bem.
Fiquei sem palavras.
Fui no dia seguinte para a casa de Skyler as sete horas da noite, como sempre ia nos dias úteis. Achei que talvez ela não fosse querer me receber pelo o que aconteceu no dia anterior, mas ela pareceu feliz ao me ver quando abriu a porta.
– Joshua! Achei que você não ia vir! – Seus olhos verdes piscavam como o de uma boneca, quase mecanicamente adorável.
– Por quê? – Perguntei
– Pela minha crise ontem... Sabe, eu conversei com minha mãe e ela disse que eu fui meio dramática e ficou preocupada se minha depressão tinha algo a ver com isso... Aí ela me deu dois antidepressivos e eu estou nas nuvens!
Nunca vi Skyler ficar tão deprimida a ponto de ter que tomar antidepressivos (lê-se: Ser drogada), mas nada pude falar porque ela me puxou para o porão. Deveria ser a primeira vez que eu a via de calça de moletom e regata em casa.
Não olhei para o filme que ela escolheu, mas reconheci na hora que era Senhor e Senhora Smith. Passamos muito tempo sem falar nada e a cada cena de ação ou de beijo eu me aproximava um pouquinho de Skyler. Já no final do filme, estávamos com os ombros se tocando. Foi aí que teve a última cena de beijo entre a Angelina Jolie e o Brad Pitt, respirei fundo. Decidi seguir o conselho que meu pai me dera há anos...
Peguei no ombro de Skyler e ela olhou para mim, eu me aproximei aos poucos e sua expressão era confusa. Nossas testas já se encostavam quando meus olhos azuis encararam os seus olhos verdes, a procura de aprovação. Ela fechou os olhos e foi aí que eu destruí os poucos centímetros que separavam meus lábios dos delas.
O que eu senti ao tocar meus lábios nos lábios de Skyler Aurea Logan? Pff... Eu não sei.
Uma estranha e prazerosa sensação correu pela minha coluna, essa sensação ficou mais forte quando decidi aprofundar o beijo. Quem inventou o beijo de língua merece meus parabéns! Você inventou a coisa mais fantástica do mundo.
Enquanto o beijo rolava, ela ficou ajoelhada e passou os braços pelo meu pescoço, enquanto eu coloquei uma de minhas mãos em sua cintura e a outra em sua bochecha fria. Ficamos naquela posição por muito tempo, até que o ar nos faltou e tivemos que nos separar, deixando apenas uma linha de saliva interligando nossas bocas. A linha de saliva e o rosto corado de nós dois eram as únicas provas de que estávamos fazendo antes.
– Puta. Que. Pariu. – Ela voltou para a posição que estava antes e olhou para a TV, os créditos estavam terminando de passar.
– Que. Porra. Eu. Fiz? – Comentei
Skyler não me olhou, nem uma olhadela, seu rosto estava vermelho demais. O meu também não deveria com a cor normal. Comecei a me sentir um adolescente de quatorze anos, que babaquice! Eu gostava dela! Ela gostava de mim (ao menos é isso que fez transparecer)! Nós gostamos um do outro! Que porra! Chega de agir como um moleque!
– Você gosta de mim não é? – Perguntei
– Ahñ?!
– Pois saiba que eu gosto de você e não quero joguinhos sentimentais nessa porra. Você gosta ou não de mim? – Ergui a sobrancelha como Skyler sempre fazia
– Talvez...
– Sem joguinhos Skyler. Já temos idade para beber então temos idade para nos comunicarmos como “gente grande”, ou seja, diretamente. Sem parecermos dois adolescentes de quatorze anos e virgens. Fala logo!
Ela ficou com uma expressão confusa, mas deus os ombros. Parecia não gostar de joguinhos também.
– Eu, honestamente, gosto de você... Por isso, honestamente, vou-lhe avisar que sou virgem.
Queria estar com a boca cheia de Pepsi limão para cuspir tudo de tão espantado que eu fiquei de ouvir aquilo. Vamos admitir... EM QUE MUNDO AINDA EXISTEM GAROTAS DE DEZOITO ANOS VIRGENS?! Isso foi a coisa mais Bella Swan DO MUNDO! Nem os adolescentes de dezesseis anos são virgens hoje em dia. Como, diabos, Skyler poderia ainda ser?
Ah, é... Depressão, antissocialismo e namorados traidores/mortos... Tinha me esquecido disso.
– Puta que pariu! Vamos te esconder agora! – Eu fiquei em pé – Você é muito preciosa para esse universo de meninas impuras! – Fui para o lado dela da cama e a peguei no estilo noiva, comecei a correr pelo porão enquanto ela ria da minha palhaçada. Como era bom vê-la rir, sério, ela era muito séria para sua idade. Mal sorrir ela sorria.
De repente Nanette acendeu a luz do porão e nos olhou como se fossemos dois pirados. Quando viu a filha sorrindo acabou rindo junto, coloquei Skyler de pé no chão e ela me abraçou lateralmente pela cintura. Aquele ato fez com que a mãe dela esbugalhasse os olhos, eu também estranhei, mas passei meu braço pelas costas de Skyler e beijei sua testa.
– Vocês estão...
– NÃO ESTAMOS TRANSANDO – Eu e Skyler gritamos em uníssono
– Que bom, mas eu ia perguntar é se vocês estão... namorando?
Skyler me olhou, eu a olhei de volta. Não sabíamos o que responder, ao menos ela não sabia.
– Sim. Faz tempo que começamos a namorar até, achamos que vocês iriam perceber... – Falei, Skyler abafou o riso no meu ombro.
Nanette saiu do porão, feliz por sua filha ter arrumado alguém e triste por ela não ter descoberto. Depois que ela fechou a porta, eu e Skyler faltamos rolar no chão de tanto rir.
– Meu Deus! Ela vai encher meu saco pelo resto da vida! Mas essa mentira valeu a pena! – Skyler comentou entre sua risadas
– E quem disse que eu menti? – Segurei-a pela cintura
– Como, Joshua?
– E aí, Skyler, quer ser minha namorada? – Ela passou os braços pelo meu pescoço
– Humm. Sim, mas com uma condição...
– Qual? – Comecei a beijar sua clavícula e pescoço
– Para de me chamar de Skyler porra! De agora em diante, Sky está perfeito! – Demos alguns selinhos
– Ah, se for assim, chega de me chamar de Joshua ok? J-O-S-H já está perfeito! – Ela riu
Ainda faltava meia hora para a minha hora de voltar para casa, gastei esse tempo beijando minha linda namorada antissocial, depressiva e asmática.
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