César
1 Capítulo Único -- Armadura ambulante.
(Em frente à casa do ferreiro. Homens em fila, conversando.)
(César aproxima-se, roupa de cavaleiro templário, espada na bainha)
Homem 1: Quem vem lá?
Homem 2: Deve ser um cavaleiro...
Homem 3: Devo estar enlouquecendo...
Homem 1: Por que achas isto?
Homem 3: O capacete dele não está flutuando?
(Todos reparam na armadura flutuante. César para no final da fila.)
Homem 2: Misericórdia!... Santa mãe divina! Aquilo é um espectro? Uma assombração?
Homem 3: Buscando vingança, talvez?
Homem 1: Vingança de quê? O ferreiro faz as armas que matam, mas nunca suja as mãos.
Homem 2: Estará ele furioso pela arma com a qual foi morto?
Homem 3: Nem me fale, nem me fale...
Homem 1: Vós nem pareceis homens! Se aquela alma há de matar o ferreiro, por que em nós haveria algum medo? Não somos o motivo de sua ira.
Homem 2: É verdade, é verdade...
Homem 3: Tu não sabes que a fúria de um fantasma nunca atinge somente um sujeito? Se ele atingir o ferreiro, há de fazer dano a algum de nós...
Homem 2: Isso também é verdade...
Homem 1: Pois então serei eu que impedirei isto! Rezem por mim e guardem meu lugar, pois vou enfrentar o espectro...
(Os outros homens começam a rezar, enquanto o primeiro vai até César.)
Homem 1: Alto lá! Quem és tu?
César: Isto digo eu. Não vês que sou Cavaleiro?
Homem 1: Vieste da Ordem dos Mortos?
César: Ordem das Almas, meu senhor.
Homem 1: E o que pretendes aqui?
César: Cuidar de minha espada, que está gasta.
Homem 1: No que gastaste ela?
César: Nas bestas da floresta. É um lugar perigosíssimo, sabes bem...
Homem 1: Sim, sei bem... Espera! Não vieste matar o ferreiro?
(As outras pessoas da fila se assustam.)
César: Por que eu cometeria tal atrocidade? Ainda mais ao único ferreiro que aqui habita!
Homem 1: Ora, por que estaria vivo, então? Sem ofensa, mas por qual outro motivo um cavaleiro da Ordem das Almas viria a nosso plano terrestre?
César: Não procuro vingança, pois, se assim o fizesse, teria trabalho demais. Procuro o que um dia já foi meu, e que me foi roubado por um bruxo maldito...
Homem 1: E o que seria isto? Riquezas? Teu cavalo? Sua espada não é, isto eu já sei...
César: Meu corpo, homem! É o único objetivo que eu busco, nesta meia existência que ainda me resta...
Homem 1: E teu corpo ainda vive, mesmo separado da alma?
César: Agora ele é receptáculo da alma de uma fera, de um urso... Vou encontrá-lo, nem que seja somente a poeira dos ossos!
Homem 1: Que o Santo te conceda o que tanto desejas!...
(o Homem 1 volta aos seus companheiros)
Homem 3: Ele ainda está lá!...
Homem 1: Está aqui por outro motivo. Fiquemos tranquilos.
Homem 2: Eu disse...
Homem 3: Disseste nada!
Homem 2: É fácil você dizer isto...
Homem 3: Ora, seu...!
(Homem 3 começa a agredir o Homem 2. O primeiro homem aparta da briga)
Homem 1: Deixem dessa inútil briga, antes que o ferreiro expulse nós três!
Homem 2 e 3: Certo...
(Alguém sai da casa do ferreiro, portando um machado. O Homem 1 entra lá.)
Homem 3: Tens a certeza de que ele não nos fará nada?
Homem 2: Não... Não tenho certeza nem se o que estou vendo é ilusão minha, ou um sonho...
Homem 3: Se isto fosse um sonho, tu já terias acordado há muito tempo.
Homem 2: É verdade, é verdade... Me lembro do dia inteiro...
Homem 3: Mas é, verdadeiramente, muito estranho.
Homem 2: Muitas coisas estranhas acontecem nesta pacata vila, tu já o sabes.
Homem 3: Nunca tinha visto uma alma penada andando por aí, em plena luz do dia.
Homem 2: Está vendo agora.
Homem 3: Pretendo partir desta vila o quanto antes, a partir de hoje...
Homem 2: Eu também irei... algum dia...
(O Homem 1 sai da casa do ferreiro, com uma faquinha na mão. O Homem 2 entra.)
Homem 3: Eis me aqui, sozinho... Meus amigos se foram, e agora só resta a mim, a este outro desconhecido, a ao fantasma que dará fim ao pobre ferreiro...
Sou eu o único que enxerga os perigos desta lenda viva, diante de mim?
Serei eu o que morrerá por crer nisto?
Terá de mim compaixão, este cavaleiro que um dia, não sei, já foi um nobre homem vivo?
Ou será que tudo o que agora digo é inútil? Talvez ninguém tenha me ouvido...
Ah, como queria eu ter tido educação para ser poeta... Meus poemas são apreciados somente pelo vento... Ah, quem dera eu pudesse anotá-los...
(O Homem 2 sai da casa do ferreiro, irritado)
Homem 3: Agora sou eu que hei de ir. Adeus, pacata fila. Não me esquecerei do quanto esperei dentro de ti...
(O homem atrás do Homem 3 o empurra.)
Homem 4: Ande!
(Homem 3 entra na casa. Ficam somente o homem e a armadura.)
Homem 4: (a César) Era sobre ti que os três se referiam?
César: Sim, era.
Homem 4: Qual teu nome?
César: Meu nome é César. César de Siena.
Homem 4: Bom lugar, Siena. Foste cavaleiro lá?
César: Fui... passei alguns anos servindo a um parente. No fim, acabei servindo à Greja.
Homem 4: Cavaleiros sempre acabam servindo à Greja.
César: Só os bons.
Homem 4: Quão bom tu eras?
César: Era bom ao ponto de minh’alma sobreviver a vinte anos fora do meu corpo.
Homem 4: Eu não viveria nem cinco.
César: É que não foste treinado.
Homem 4: Faz sentido...
(Homem 3 sai da casa do ferreiro, segurando um martelo.)
Homem 4: Foi uma conversa agradável.
César: Concordo.
Homem 4: Tenha um bom dia.
(Homem 4 entra na casa do ferreiro, deixando César sozinho.)
César: Sujeito interessante. Procurava me olhar nos olhos como se eles estivessem aqui...
(Grupo de mulheres entra em cena, passa por César, e depois sai.)
César: Queria ter tido mulher que me amasse naqueles dias... pois agora é que não me amarão mesmo...
(Entra em cena uma criança. Ela se aproxima, receosa, da armadura.)
Criança: Onde tá o seu pescoço?
César: Em algum lugar por aí... Sendo coçado por um urso, agora...
Criança: Você fala?!
César: Falo...
Criança: Como você fala se não tem pescoço?
(O Homem 4 sai da casa do ferreiro.)
César: (à criança) Eu não sei. Sei somente que falo.
(César entra na casa do ferreiro, e a cena termina.)
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