Cárcere Das Almas

2 Capítulo 2 - For you I was a flame


Notas iniciais
Marie, veja só, você já não está sozinha, meu amor. Há pessoas interessadas em ler sua história. Não é fascinante?

Jean recompôs a postura e pigarreou tentando manter a goela limpa e a voz homogênia. Havia esperado tempo suficiente por aquele momento e agora todas as células do corpo gritavam: "Faça e faça o melhor".

Entregou o desenho acidentado à sua noiva e pediu que ela guardasse sobre a escrivaninha no quarto trancado. Entregou-lhe as chaves e pediu aos ouvintes que esperassem Heloísa voltar, pois aquele assunto também era de interesse dela.

E por nada nesse mundo voltaria atrás. Não suportaria interrupções, ataques de parentes dos facelidos desenhistas ou qualquer outro motivo besta.

- Acomodem-se como puderem, há almofadas e cadeiras espalhadas pelo andar. Se todos permanecerem calados poderei ser ouvido claramente.

Heloísa chegou sugando ar pela boca, nervosa, apreensiva. Jean pediu que ela respirasse devagar e que sentasse com os velhos para ouvir a história. Ela o obedeceu, segurando a barriga redonda carinhosamente.

- Marie foi um exemplo de superação. Mas antes que pensem que irão ouvir mais um conto de auto ajuda, digo que ela não fez nada que não fosse beneficiar a si mesma. Marie tinha um temperamento difícil de se entender. Mostrava-se infantil e maleável nas palavras, mas perversa e orgulhosa em seus retratos.

A matriarca da minha família teve de aprender a conviver com a desigualdade, a ignorância, a ganância, o poder e o podre dos homens ricos ainda muito jovem...

É claro que não podemos culpar os homens ricos por todas as desgraças do mundo, não é mesmo? Não foram eles que deixaram de frequentar a escola, não foram eles que tinham três, quatro filhos nos primeiros cinco anos de casamento. Não foram eles que permaneceram em casa limpando e rezando que alguma comida caísse do céu.

Foram os pobres que roubaram dinheiro público! Foram os pobres que escolheram não ceder informação à população! Foram os pobres que torraram os direitos da vida de todos os homens de uma nação com perucas, vestidos, sapatos e festas de luxo! Ah, sim, a culpa é toda dos pobres, que não evoluem porque são preguiçosos.

Senhoras e senhores, eu disse tudo isso, mas foram todas as palavras dela. — Disse apontando para os retratos da mulher nua.

- Marie está morta hoje, mas o seu espírito vive dentro de mim, seu sangue passa por minhas veias e eu emociono-me só de pensar nas noites em que ela escrevia em seu diário.

Jean puxou a seda vermelha que cobria uma urna de vidro e mostrou um pequeno caderno aberto ao meio. As páginas amareladas exibiam uma caligrafia pequenina, cheia de curvas.

- Este diário é a única coisa que resta das memórias de Marie e eu narrarei cada detalhe escrito a próprio punho por ela.

- Marie está morta hoje, mas o seu espírito vive dentro de mim, seu sangue passa por minhas veias e eu emociono-me só de pensar nas noites em que ela escrevia em seu diário.

Jean puxou a seda vermelha que cobria uma urna de vidro e mostrou um pequeno caderno aberto ao meio. As páginas amareladas exibiam uma caligrafia pequenina, cheia de curvas.

- Este diário é a única coisa que resta das memórias de Marie e eu narrarei cada detalhe escrito a próprio punho por ela.

Ele levantou a urna, tomou o caderno em mãos, respirou fundo e olhou dentro dos olhos de cada pessoa presente na sala. O pessimismo o fez esperar alguns segundos, caso alguém – ou todos – quisessem ir embora.

Admirou mais uma vez Heloísa acariciando a barriga imensa e depois começou a ler em voz alta as anotações do diário. Não demorou muito para que os ouvintes esquecessem de todo o resto e imaginassem, cada um, sua versão de Marie.

Os fatos eram narrados, mas parecia que era ela mesma quem contava a própria história...

“- Preciso fazer algumas perguntas. — Disse o dono do Antiquário tomando uma prancheta nas mãos.

- Não precisa se preocupar, já disse que topo tudo. Se vim até aqui estou disposta... — Rebateu apertando com as unhas a barra do vestido.

- Sabe que terá de mostrar o corpo, não sabe?

Balançou a cabeça positivamente, como se tentasse convencer mais a si mesma que a ele. Passeou os olhos pelos objetos da loja mais uma vez — Antiquário, todos a corrigiam.

Bonecos de porcelana, relógios de bolso, moedas, estatuetas, caixas de música, camafeus, broches, brincos, cordões, enfeites, lustres. Onde mais ela poderia ter se enfiado para procurar emprego?

Atrás do homem havia um comprido corredor iluminado. Ouvia-se passos cautelosos de lá ora ou outra e até mesmo o arrastar de alguns móveis. Uma vez, quando era ainda bem pequena — assustou-se ao ver as costas nuas de uma mulher, mas preferiu acreditar que havia sido sua imaginação, ou o efeito do pó em seus olhos.

O pai sempre a levava ali, era apaixonado por quinquilharias, como a mãe sempre se referia. Abarrotava a casa de objetos de segunda mão. Dizia que o trazia inspiração... Felicidade era uma palavra que usava muito também para se referir às antiguidades, diferente dos adjetivos e predicativos que atribuía a própria esposa.

"Em caso de emergência, visite o Pierre. Ele não a negará emprego."- Era a frase que o pai sempre dizia quando o cheiro de álcool lhe subia pelas narinas no hospital.

Era um homem muito enfermo. Vivia tendo tosses, gripes. Também, aquele frio maldito não largava a pobre Paris, tão bela! Mas tão doente.

Enrolada nos panos da injustiça, desprovida de sobriedade. Brioches! Brioches eles diziam!

- Menina? — chamou Pierre — Por favor, diga alguma coisa. Está feito múmia, aí, parada.

- Desculpe. Estava me recordando de algumas coisas... Podemos prosseguir? – Pediu educadamente.

- Sabe que está se inscrevendo para modelo?

- Sim.

- Posaria trajando roupas íntimas?

- Sim.

- Posaria vestindo apenas as ceroulas?

- Sim.

- Nua?

- Sim.

- Posaria fazendo algum tipo de cena erótica ou romântica com outra mulher?

- Sim. — Respondeu prontamente e completou – Pierre, não precisa me lembrar do que vou fazer, apenas me diga para que corredor devo seguir, onde pôr minhas roupas e me pagar no fim do mês.