Cálice de Sangue

3 Noite Inesquecível


O medo me impede de dormir, e a preocupação não me permite pensar com clareza.

Estou tendo pesadelos frequentes devido aos acontecimentos bizarros que têm ocorrido durante essa semana. Creio que estou ficando louca; pois um dia, quando voltava do teatro com minha prima Louise, podia jurar que um gato sorriu-me ao cruzar meu caminho da esquerda para a direita.

Ela disse que era coisa da minha cabeça, porque eu estava aflita demais com o desaparecimento de Victor. Há dois dias aconteceu aquilo no parque, e posso dizer que o pavor ainda me amedronta. Escrevi-lhe cinco bilhetes e duas cartas. Mandei-as entregar à sua casa, mas não obtive resposta.

Passou-se uma semana, e minha angústia só veio me dar um descanso quando bateram à porta de minha casa. Ouvi passos apressados subirem os degraus da sala e ecoarem pelo corredor. A porta de meu quarto abriu e vi minha mãe com um envelope pardo entre os dedos. Ela sorria nervosamente e seus dedos tremiam.

– É de Victor. — disse-me ela.

No momento, não acreditei em suas palavras. Então me ergui da poltrona e avancei para cima dela a arrancar-lhe o envelope de sua mão e rasgá-lo com veracidade. Retirei o papel e meus olhos percorreram aquelas linhas dotadas de uma caligrafia curvilínea elegantemente puxada para a direita. Era a letra de meu amado Victor.

'' Cara Emily,

Primeiramente peço-lhe desculpas pelo o que houve uma semana atrás. Se não fosse aquela maldita chuva, com certeza eu estaria ao seu lado neste momento e você não estaria lendo esta carta. Certamente estaria lendo para mim; me enfeitiçando com a agradável melodia rouca de sua voz.

Receio em informar de que estou com problemas e precisarei me afastar por algum tempo. Não se preocupe, apenas irei me mudar para uma outra moradia. Não direi o endereço porque quero morar só. Escreverei-lhe todas as semanas, amada prima.

Ah, e antes que eu me esqueça. O motivo de minha mudança, é que suspeito de algo. E acredito eu que essa mudança certamente irá me transmitir as respostas de que tanto preciso.

Seu primo, Victor.''

Afundei no divã. Aquela notícia acertou-me em cheio.

Eu teria meu Victor perto e ao mesmo tempo longe. Que tormento era esse de não saber mais onde posso encontrá-lo. Não existe um relacionamento entre cartas. Claro que eu poderia combinar para marcar um encontro entre nós, mas tenho a breve impressão de que ele não aceitará.

Os dias foram passando, e eu ansiava por sua presença. Minha mãe fez sopa de galinha e me obrigou a tomá-la, mesmo eu não tendo nenhuma apetite. Comi apenas para fazê-la feliz, o que não durou muito tempo. Cheguei a me prantear na janela enquanto observava a lua cheia alcançar o céu estelífero.

Certo dia, não aguentei. Peguei uma folha em branco e uma pena. Escrevi-lhe:

'' Querido primo,

Conheço perfeitamente seus motivos de querer me abandonar, pois já o conheço desde minha infância. Mas receio em dizer que já não posso mais suportar esses dias sem ver-te. Necessito de tua presença, assim como os pulmões precisam de ar; e os peixes de água.

Gostaria imensamente de vê-lo. Conceda-me a alegria de te tocar, de sentir teu cheiro. Sinto amarguradamente sua falta e quero uma noite contigo. Venha até minha casa amanhã, e me conte os teus importunos. As folhas das cartas são brancas e frias, sem nenhum sentimento. Posso até dizer que tuas palavras são cheias de amor e carinho, mas não soam tão bem quanto a tua voz e o teu olhar que, quando juntos, simetricamente unidos quando me olhas, transmitem-me as mais belas sensações prazerosas do amor e avivam a paixão que sinto por ti.

Portanto, não sejas cruel. Venha me ver. Espero ansiosamente pelo nosso reencontro.

Sua prima, Emily.''

Eu não sabia se a carta havia sido entregue. Mas uma coisa era certa. Eu definitivamente estava amando Victor mais intensamente do que nunca.

Enquanto caminhava pela calçada, no meio da noite, onde a neblina me cobria por completo, notei olhos vigiantes me perseguindo mesmo estando sozinha. Ignorei-os, apesar de ter sido extremamente difícil. Tudo o que eu ouvia, era o som de minhas botas pisando nos tijolos da rua e de vez em quando, em poças. Chegava a ser assustador de certo modo, pois a sensação era de que alguém me seguia.

Olhei para trás, e não vi nada além de uma rua deserta cuja única iluminação era a luz dos postes alinhados nas laterais. Voltei a tomar meu caminho para a casa de meu tio August.

Mamãe mandou-me lhe entregar um pedaço do bolo de alho que ela fizera. O cheiro era repugnante. Questionei-a por eu ter sido sua escolha para entregar. Mas ela afirmou de que não havia mais ninguém em casa além de mim; e que ela estava ocupada limpando os armários.

Cheguei na esquina e ao virar, quase derrubei o embrulho em minhas mãos diante de uma cena macabra que ocorria diante de meus olhos.

Mais distante, sob a luz de uma fraca luz de poste, estavam duas pessoas. Você deve achar que não há nada de mal nisso. Mas quando e se eu dissesse que uma delas estava literalmente comendo a outra? Qual teria sido a sua reação? A minha foi bastante clara.

As pernas tremeram e de minha garganta libertou-se um grito histérico. O homem imediatamente olhou para mim; os olhos demoníacos sedentos por sangue. O outro estava estirado no chão, dilacerado. O sangue escorria do buraco enorme que havia em sua barriga e pude ver claramente o intestino pular para fora.

Quando voltei a olhar para o monstro, este havia sumido. Corri imediatamente para a direção contrária e deixei o bolo de alho cair. Pisei nele, mas isso não me impediu de continuar a correr. Desesperada, com medo e um pouco cansada pois nunca havia corrido tanto na vida, alcancei felizmente a casa de meu tio. Bati-lhe a porta com força e gritei várias vezes por seu nome.

Ouvi grunhidos e ganidos. Depois vultos passando velozmente por mim. As sombras moviam-se assustadoramente. O negrume cobriu toda a Paris e fiquei ainda mais atormentada. O cheiro do alho era bastante forte.

Tio August atendeu a porta e imediatamente me agarrei à sua cintura. Estava salva. Por enquanto.

August deu-me uma xícara de chá quente para acalmar os nervos. Mas não adiantou. A visão monstruosa e macabra não saía de minha mente, persistindo em habitar minhas memórias e consumá-las ao obscuro do sobrenatural. Contei-lhe o ocorrido entre palavras vacilantes e medrosas. Ele me olhou com curiosidade.

– Vampiros, tio. — disse eu.

Ele me olhou, incrédulo.

– Não diga tolices. Vampiros não existem.

– Sim, existem. Acabei de ver um alimentando-se de uma pessoa. — me exaltei.

– Ora, menina! — balbuciou ele — Fala asneiras como sempre! Isso é culpa de tua tia. Deus me perdoe, mas ainda bem que está morta.

– Não diga uma coisa dessas, por favor. Deve-se ter respeito por aqueles que já se foram. — aquilo ofendeu a mim.

– Mortos! Cadáveres, é o que são. Tua mãe sabes que andas sozinha por aí a inventar histórias sem nexo? — suas palavras eram frias e rancorosas.

– Ela me mandou aqui para entregar-lhe um bolo que fez.

– E onde está?

– Caiu no chão e eu pisei nele.

Ele não acreditou em mim. Quem em sua sã consciência acreditaria? Eu mesma não acreditaria. São histórias de terror, apenas. Apenas histórias.

Meu tio me deixou em casa e foi logo ter uma palavra com minha mãe. Eu não ouvi a conversa, mas supus de que se tratava de minha suposta insânia. Mamãe trancou-me no quarto e fingiu que não ouviu meus gritos nem os fortes pontapés que dei na porta.

– Seus avós viram te buscar amanhã. — disse ela.

– Para quê? — perguntei.

– Irá morar com eles. — e foi sua última palavra antes de me trancar lá dentro, deixando-me só na escuridão.

Acho que não houve momento em que eu precisasse mais de meu Victor.

Fui até a varanda e senti o frio da noite. Não conseguia tirar aquela cena da minha frente. Horrível, deprimente. Ouvi um ruído lá embaixo e ao abaixar a cabeça, me coração se alegrou ao ver Victor. Ele escalou o muro, apoiando-se nas grossas e longas raízes que cresciam sobre a superfície. Com um pouco de esforço, alcançou a varanda e eu o ajudei a subir.

O abracei e comecei a chorar.

– Que houve, prima? — perguntou ele com uma voz acolhedora. Aquela que tenho esperado tanto tempo.

– Oh, é tão difícil dizer. Tenho medo de explicar, pois posso correr o risco de você não acreditar.

– Diga.

Então contei-lhe o que aconteceu. Victor escutava tudo atentamente, os olhos se abrindo á cada momento de horror que eu narrava-lhe. Murmurei e solucei. Victor me envolveu em seus braços e ficou a acariciar meus cabelos. Ouvia os batimentos baterem aceleradamente sob a cara toráxica, e me arrepiei. Victor segurou meu rosto com ambas as mãos e me encarou. Seus olhos emitiam sentimentos lindos. Então ele aproximou o rosto do meu, seu nariz acariciando minhas bochechas.

Seus lábios encontraram os meus, encaixando-se perfeitamente como uma peça feita especialmente para outra. Ele me beijou com calma e ternura. Eu sentia seus dedos se enroscarem delicadamente em meu pescoço, e agarrarem meus fios. Á cada delicioso momento eu cedia aos seus encantos. Por um momento ele me fez esquecer o horror pelo qual presenciei.

Então carregou-me no colo e me deitou na cama. Começou a tirar meu vestido sem quebrar por nenhum momento o laço, a conexão de olhares que nos envolvia. Depois de ter me despido, Victor olhou-me com desejo. Em seguida, ele tirou a blusa exibindo o tórax um pouco definido; mas atraente aos meus olhos e aos meus caprichos. Beijou carinhosamente meus lábios e em seguida meu corpo.

Deus era testemunha de que naquela noite eu havia me entregado ao homem que amava. Nossa união estava concebida, e me entreguei inteiramente a ele; deixando-me conduzir através daqueles delírios extasiais e ao mesmo tempo, mortais.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.