Cálice de Sangue
2 Capítulo 2
" — 30 de janeiro — Depois de escrever em meu diário, duvido muito que eu consiga lê-lo depois; já que a letra está hedionda por culpa de uma mão trêmula. E a mão está trêmula porque estou com medo. E estou com medo, porque...
Tudo parecia estar prefeito, como um sonho a ser realizado. Victor e eu andávamos um ao lado do outro; ele escondendo as mãos nos bolsos, e as minhas, loucas para segurar as dele. Deti-me. Não queria passar a sensação de aprisionamento para ele, já que acabara de conseguir a liberdade. Além do mais, isso passaria uma falsa visão de que estávamos comprometidos um com o outro.
Victor sorria, esbanjando alegria a todos que passavam por nós. Eu ficava feliz em vê-lo feliz. Sentamos à sombra de uma velha árvore, e tirei de dentro de uma cesta que trazia comigo o almoço, que se resumia em dois sanduíches, maçãs, uvas e duas peras suculentas. E para celebrar, vinho importado de Portugal. Victor, apesar de ter afirmado ter fome, não tocou no sanduíche ou mesmo nas frutas. Conteve-se com o vinho, saboreando-o à todo instante. Um risco vermelho escorreu do canto de sua boca, e ele o limpou com a língua.
O vinho já havia acabado quando eu quis tomá-lo. Victor ainda afirmava estar com fome. Dei-lhe uma maçã, mas em vez de comê-la, Victor passou a admirá-la; rodando a fruta nos dedos e admirando a casca vermelha, lisa e brilhante.
Depois de uns trinta minutos, tirei um frisbee que estava sob a toalha dobrada e o convidei para jogarmos. Victor recusou, afirmando estar enjoado. Confesso que me decepcionei profundamente. Um nobre inglês que passava acompanhado de seu doberman, parou quando o cachorro veio para cima de mim, melando as mangas de meu vestido com a sua baba. O cão anseava pelo brinquedo, balançando o rabo com força. Olhei para seu seu dono, que cedeu a meu pedido para poder brincar com o animal.
Deixei Victor junto ao nobre inglês, e corri pelo campo à margem do rio. O doberman agachou a parte dianteira, e manteve as patas traseiras esticadas. O rabo era como um leque abanando. Lancei o disco e o cachorro correu atrás, o abocanhou no ar, e o trouxe de volta para mim; para que eu retornasse a arremessá-lo. E assim eu fiz. Passei a tarde toda brincando, sempre aumentando a distância enquanto o cão trazia o frisbee. Corri para a ponte e novamente arremessei o disco; porém este foi aterrissar na água do lago. Não vi o cachorro, mas continuei a ouvir seus latidos. Segundos depois, eles cessaram.
De repente o céu azul deu lugar a um cinzento, anunciando chuva. E os respingos vieram logo a molhar meu vestido. Cobri a cabeça com as mãos, e não conseguia ver mais nada diante de mim. O parque fora coberto por uma densa neblina, e a chuva não cessara. Estava mais forte, parecia que a água caída do céu queria perfurar minha pele. Apertei o passo e forçando os olhos, consegui visualizar a silhueta disforme da velha árvore em que Victor estava. Fui até lá e quando cheguei, não encontrei meu primo.
Estava encharcada, a tirar o cabelo que pregava no meu rosto para conseguir ver alguma coisa. O vestido começava a pesar mais do que o normal. Desesperei-me, chamando pelo nome de Victor. Não obtive resposta.
Saí em meio a chuva e logo me encontrei nas calçadas parisianas. Me refugiei da chuva debaixo de uma tenda pertencente a uma loja de ternos masculinos. Senti frio, e inutilmente tentei aquecer-me esfregando os braços. O dono da loja, ao notar minha presença e minha roupa molhada, supôs que eu fosse uma espécie de cortesã e me expulsou dali com gestos bruscos, a dizer palavras não dotadas pelo dicionário formal da sociedade.
Caminhei e caminhei. Não conseguia mais identificar o caminho de casa. Sentia pena de minha pessoa. Ninguém merece passar por isso. O que me provocou, naquele momento, uma reflexão sobre quem vive aquele tipo de vida. Quem passou inúmeras vezes por essa miséria, estando com fome e sem moradia. É horrível estar desamparado, sem alguém que lhe estenda a mão.
Ouvi os latidos do cachorro, seguidos de um ganido do mesmo. No horizonte, entre a bruma, associei a forma esguia e escura que se movia velozmente a um homem. Este não parava no canto; sempre deslocando-se com uma velocidade sobrehumana. Então tomou algo nas mãos e o levou ao que parecia ser a sua boca. Depois tudo o que eu vi antes de escapulir, foi um risco rubro escorrer entre as abas apertadas do acalçamento da rua e se amontoar aos meus pés.
Quando consegui reconhecer a rua que dava de encontro à casa de meu tio August, fiquei aliviada e não pensei duas vezes em correr para lá.
Bati cinco vezes na porta, e esperei ansiosa. Senti um imenso alívio quando a porta abriu, e me deparei com o rosto enrugado de Ferdnand, o mordomo a quem servia meu tio fielmente. Ao me ver, reconheceu-me, mas não pôde evitar o espanto. O abracei, e Ferdnand sentiu repulsa ao ter seu fraque umedecido. Me conduziu degraus acima, e ao chegar no recinto, me acomodei no divã. Ferdnand trouxe-se uma toalha e uma jarra com água quente. Mergulhou a toalha na água e passou-a pela minha testa. Estremeci ao calor, e espirrei. Depois veio uma série de tosses a maltratar meus pulmões e abdômen.
– Agora pegou uma gripe. — disse Ferdnad, a torcer a toalha fazendo a água pingar na bacia. — Sr. August não ficará feliz.
– Onde ele está? — perguntei-lhe.
– Saiu. Foi ao alfaiate.
– E como voltará num tempo desses? Foi de carro?
– Sim. O cocheiro o acompanha. Agora vá ao quarto de M. Louise, e pegue um de seus vestidos.
E assim o fiz. Fui ao quarto de minha prima, e troquei o vestido molhado por um engomado que encontrei em seu armário. Apesar das mangas longas, as que tive de arregaçar para que não atrapalhasse no trabalho das mãos, o vestido coube perfeitamente. Modelava as dobras de meu corpo, respeitando o formato retangular da cintura e ajustando-se ao peito sem volume.
Prendi o cabelo em um coque apertado, mas os fios ruívos se rebelaram e persitiram em pular para fora do penteado. Bufei de raiva, pois não havia solução. Voltei para a sala e lá fiquei, saboreando as doces palavras de um livro. Meu tio retornou quando eu já estava no final do capítulo cinco. Estranhei, pois ele trazia consigo uma muda de roupas femininas; como se soubesse que eu estava ali. Mas ao me ver seca e vestida, jogou o vestido no sofá e estendeu os braços com um sorriso acolhedor nos lábios.
Corri em sua direção e deixei me aninar em seu colo.
– Que houve, filha? — disse com secura na voz.
– Oh, tio. Nem eu mesma sei. ''
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